terça-feira, 16 de junho de 2009

Ontem será um belo dia!




Faz mais ou menos uma semana e meia que tumultuei minha cabeça, ou melhor, algo químico que emana de minhas emoções e que perturbam minha cabeça. Minhas idéias ficam confusas e sinto uma grande dificuldade de ater-me ao que dizem ser racional, natural e normal.

Por isso, hoje em especial acordei com a cabeça pesada, veja bem que falei cabeça e não consciência, aliás, acho que a única coisa leve em mim é a consciência.

Resolvi dar um basta nisso e, para tanto, ao descer do ônibus dirigir-me a uma das farmácias, que são abundantes por aqui, pensando melhor não só aqui onde me encontro no momento, na verdade elas são abundantes em toda a cidade. Percebi, já há algum tempo, que existem duas coisas abundantes nessa cidade: farmácia e bares. Creio que por ser uma realidade tão previsível, as pessoas necessitam dos bares como portais de novas percepções e atuações. Consequentemente, surge daí uma comunidade adoentada. Para ela; farmácias!

Entrei em uma que sei que não tem balança e nem vende produtos de estética. É, na verdade uma drogaria, como em tempos idos. Só vende remédios, drogas curativas, mesmo que a cura seja uma obsessão doentia. Dirigir-me com a firmeza de quem sabe a dose para a sua cura. Parei quase encostado no balcão de Jacarandá, frente a uma sisuda atendente (atendente de farmácia tem de ser sisuda, esse negócio de atendente de farmácia sorridente é um acinte, um despropósito. Por isso freqüento essa drogaria).

- Bom dia! Disse à senhora que me respondeu apenas com uma leve inclinação da cabeça, o silêncio é algo cultuado neste recinto, nada de conversinhas, risinhos, nada disso o ambiente é sério, circunspeto. Afinal, ali é uma farmácia, vendem-se drogas curativas.

O bar que vende a euforia barata é do outro lado da rua, bem em frente, o ambiente é diametralmente oposto. No bar a fala é cultuada e se você falar baixinho, sem dúvida, será mal visto, afinal o que quer você? O que está tramando? Quem pensas que é? No estabelecimento bar, todos participam de tudo, das poucas verdades e principalmente das muitas mentiras. O bar é o castelo, o templo máximo da mentira! Ali a bula é a sua verve de se vender.

De volta à drogaria, a balconista continuava a me olhar e esperar a minha solicitação. Como estávamos, minha boca de seu ouvido, a não mais do que um palmo, pude suavemente relatar-lhe a minha necessidade:

- Por favor a senhora tem xarope de sorriso? Sem dizer nada ela virou-se, pegou a enorme escada que corria em um trilho no topo da enorme estante, levou-a uns três passos à minha esquerda, subiu até a penúltima prateleira do armário, apanhou uma caixa e desceu lentamente já verificando o conteúdo da mesma.

- Senhor, desculpe, mas faz tempo que ninguém pede esse medicamento que acabamos por reduzir os pedidos, mas ainda tenho aqui, porém só em drágeas. O xarope, que é mais eficiente, acabou! Sinto muito.

O sinto muito final foi fundamental, em qual outra farmácia a atendente diz que sente muito por não ter todas as opções possíveis? Aliás, em que lugar alguém diz que sente muito por não ter o que se propõe a ter? Por isso freqüento essa drogaria.

Parei um tempo, peguei as drágeas, li as instruções, as possibilidades de efeitos colaterais, a forma de uso e, como era a única opção, comprei dois envelopes com quatro comprimidos cada. A compenetrada atendente ainda me sugeriu que fosse até outra farmácia que fica a uns cinqüenta metros, no máximo, de distância que ela guardaria aquelas drágeas para mim, caso não tivesse também lá o xarope.

Pensei: como vou em outra farmácia?! Lá, tenho certeza, serei atendido por uma balconista jovenzinha, toda sorridente, cheia de alegria, em plena farmácia, perguntando-me, quase aos gritos, se já fui atendido? Perguntará o que desejo, como se estivesse a um passo de me servir um sorvete de fruta, uma barra de chocolate ou algo assim. Coitada, não é culpa dela é que está mais acostumada a vender produtos de beleza, não creio que muita gente vá lá comprar drogas curativas. E quando lhe perguntar se tens sorriso em xarope? Ah! Aí é que o ambiente todo irá participar da minha enfermidade, isso se não vazar para a calçada e tornar-se comentário de todos que estiverem a transitar!

Definitivamente, não! Falei-lhe que levaria aqueles mesmos, afinal a fórmula era a mesma, o efeito também deveria ser semelhante.

Colocou o produto em um saco pardo de papel grosso, entregou-me junto à nota para que me dirigisse ao caixa. Não me agradeceu e nem se despediu. Não havia nada para ser agradecido nem tão pouco se desejar um até logo. Nossa! Seria um horror. Imagine uma atendente de loja de drogas curativas desejar revê-lo em breve! Não seria, no mínimo, nada gentil.

Paguei o produto a alguém que estava dentro da casinha do caixa e que era um ser oculto, ninguém nunca o viu. Entregou-me o troco e a nota. Em silêncio estava, em silencio ficou. Saí da loja curativa, a rua continuava “fervilhando”, todos correndo, parecendo que o trem da vida está sempre de partida e estamos sempre atrasados.

Retomei meu caminho natural do dia-dia e, passo a passo, fui encontrando os rostos que encontrava todo dia.

– Bom dia! Como vai? Bom dia! Bom dia! Cerca de 30 bons dias depois cheguei ao meu destino. Lembrei que me esqueci de, na drogaria, comprar uma dose de paciência. Por sinal era essa a verdadeira razão de ter ido à farmácia... Fazer o quê? Tomei duas drágeas das que havia comprado, soltei um largo sorriso e decidi: na hora do almoço vou a Seu Antônio engraxar minhas botas!

Roger Ribeiro.

16 de junho 2009.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Linhas tortas!



rodei, andei, fui e voltei
após tanta tormenta
enfim decidi
não saio mais daqui!

- Este lugar é meu. Por favor, retire-se daí.


- Mas meu senhor, não havia ninguém aqui! E olha que já ocupo este lugar há pelo menos umas três horas.


- Preste atenção, não quero ficar repetindo o óbvio por muito tempo, afinal, se você não sabe meu jovem, tempo é algo muito precioso, ainda mais na minha idade. Portanto e definitivamente, preste atenção: este lugar é meu, assim sendo, levante-se, pegue suas coisas e procure outro lugar. E veja bem, por enquanto estou sendo educado, pois estou calmo.


- Meu senhor, se me deres um motivo qualquer. Pode ser qualquer bobagem, eu terei todo prazer em ceder-lhe este lugar, mas, assim incisivamente não dá. E já que estamos sendo assim, refinados e educados, te digo: ou você me dá, e rápido, uma boa razão para estar me importunando ou as coisas podem começar a ficar estranhas para o seu lado!


- Jovem, estúpido, o que você quer? Vai querer brigar? Aviso-te não se engane com a aparência, nem tudo é como você vê. Digo-te que este lugar me pertence e isso é a mais pura verdade. Quando chegaste não era este o único lugar vazio? Por acaso, notastes que quando aí neste local resolvestes ocupar, todos, sem exceção, olharam-te incrédulos? Por acaso, não percebestes que de um momento para o outro o ambiente tornou-se hostil para a sua pessoa?

Não! Não é mesmo? Não notastes nada disso, tenho certeza. Não se preocupe, meu jovem, não te culpo, também já tive a sua idade e sei o quanto estúpido somos, o quanto desatentos, irreverentes e inconsequente somos. Por isso sofremos, vamos nos tornando velhos rancorosos, ,amargos, solitários! Sim, são consequências. Veja agora mesmo você, veja o quanto estúpido estás sendo com você mesmo, não queres ver o que está a sua frente! Atuas para com a vida como se há desafiá-la continuamente. A vida não é uma batalha, meu filho, não é uma guerra. Não seja tolo, e perceba que a vida é um momento de observação.

- Pronto, agora vai baixar o velho sábio a dizer o que é a vida! Ora, porque vocês que estão à beira da morte sempre se acham portadores do conhecimento sobre a vida? Ora, conheço esse discurso, sei exatamente o que está contido nele... No fim, a culpa é sempre dos jovens! Não é isso mesmo? Não é aí que o senhor acabará por chegar?

Veja o senhor, estou em um local público, tenho um prazo mínimo para entregar esse trabalho, aliás, uma tarefa difícil que exige concentração total. Do resultado deste trabalho depende todo o meu esforço de três, três, ouvistes bem? Três anos intensos. Saí de minha casa, pois não havia lá silêncio suficiente para que pudesse me concentrar. E quando tudo parece está resolvido, chega o senhor e me diz, sem mais nem menos que este lugar lhe pertence. Ora, meu senhor com todo respeito mais vai encher outro!


- Te digo, este lugar é meu muito antes de você nascer! Há exatos cinqüenta anos, para ser mais exato, ocupo este local entre as 10 e às 13 horas. São exatas três horas, ouvistes bem? Três horas, de segunda a sábado. Aqui já resolvi questões que pareciam impossíveis de resolução. Aqui, ouvi coisas que jamais poderia dizer-te, pois colocaria a vida na Terra em perigo de extinção. Aqui, participei e acalmei a ira dos Deuses. Aqui, vi muitos jovens como você acharem que isso ou aquilo resolveria a vida para sempre. Aqui vi casais se formarem e também se desfazerem.

Saiba meu jovem, debaixo dessa longa barba que cultivo há 30 anos, enxuguei muitas lágrimas, sem perceber que elas não nasceram para ser enxugadas. Aqui conheci a todos que me ensinaram o melhor e o pior, do êxtase da felicidade a morbidade da perda! Aqui, um dia, também achei que resolveria a minha vida com apenas uma ação certeira. Aqui, um dia, achei que a concentração em um objeto único era a solução para a boa realização.

Aqui, ou melhor, aí onde ocupas neste momento, achando que não passa de uma mera mesa e cadeira de uma biblioteca pública, percebi que todas essas certezas não passavam de bobagens.

- Creio que o senhor começa a se comprometer com as próprias palavras... Estás sendo contraditório. Então quer me negar a importância da concentração?

- Te digo tudo o que fiz de melhor até hoje foi o que fiz por acaso, e tem mais, tudo o que de pior fiz até hoje foi o que fiz achando estar fazendo a coisa certa, estudada, premeditada... Sim, sempre é a melhor coisa do mundo! Quanta presunção, quanta arrogância criei dentro de mim, acreditava ter feito o que ninguém no mundo faria melhor, ou antes de mim. Enchi-me de orgulho, publiquei, debati, convenci, colecionei títulos, adquiri notoriedade, respeito público. Era tratado por todos de doutor!

- E isso não é bom? Você agora está me parecendo realmente àqueles velhos desgostosos, que acham que jogaram a vida fora e que não há retorno. Achas mesmo que desenvolver um trabalho importante, destacar-se entre seus pares, acrescer a você respeitabilidade... Achas mesmo que nada disso tem valor? Queres me dizer que a única coisa de valor é essa maldita cadeira velha e essa mesa capenga, neste local que cheira a mofo! Queres então me dizer que nada disso (sacudiu à frente do velho uma montanha de papeis escritos), tem a menor importância?

- Sim. (falou o velho, porém a irritação do jovem o bloqueou a audição).

-Então, já que é assim, tome o seu lugar, pode ficar com ele. E te peço com toda a sinceridade que possa eu ter. Nunca mais destrua o sonho de alguém assim! Você não tem esse direito.

-A cadeira e a mesa estavam vazias agora. O jovem saía visivelmente irritado e apressado da sala. No vácuo do jovem, o velho colocou o chapéu na cabeça e com o semblante contrariado deixou também o ambiente.

A estudante que estava na mesa à frente do rapaz, empalideceu e acinzentou seus, até então, sorridentes olhos azuis e soltou um suspiro, bem como a notícia que há cinquenta anos o senhor, pacientemente procurava durante três horas todos os dias no jornal. Ficou lá esquecida na página quatro do caderno um do jornal.

As forças que conspiram o universo, não foram percebidas.

Roger Ribeiro
12 de junho de 2009.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Coisas do vento.



-“Vocês não respeitam mais os poetas, são surdos! Tornaram-se insensíveis, nem se quer conseguem distinguir o dia da noite! Não percebem que o hiato entre o sol e a lua ofusca a vista porque, na verdade, abre os portais de várias dimensões! Humanos pretensiosos. Acham que sabem de tudo... Coitados! Nem conseguem conviver com a dor! Abandonaram a poesia e não conseguem viver com seus fantasmas, com seus próprios vampiros cravados em seus pescoços. Há, há, há! Pobres humanos!!!”

Eram 10 horas de um dia nublado, o vento era forte e ele, impávido, apontando para a estátua da praça que foi abandonada pelo povo, bradava a todos os pulmões.

As pessoas andando absortas em seus universos particulares, não raras vezes assustavam-se, eram pegas de surpresa – “Vocês abandonaram a poesia...!” Pronto lá se ia o caderno da jovem estudante, primeiro para cima, depois se esparramando no chão, enquanto ela, já a dez passos de distância, em um misto de pânico, vergonha e humor, ria um sorriso nervoso, quase um choro. Voltou pegou seu material, resmungou algo e saiu apressada.

- “O castigo virá a galope! Preparem-se: a Besta está solta, o Homem petrificou seu coração. Em suas entranhas, já não vagueiam fluxos de emoções, nas veias aonde outrora a química do universo havia posto a circular um líquido pleno, rubro, intenso de vida, agora freqüentam apenas líquidos espremidos das Bolsas de Valores, das Casas de Câmbio, o chorume da estupidez! Vocês não reconhecem mais o poeta. Eu vos digo: ele era o libertador”.

- “Ei, você! Sim, você mesmo”, correu o nosso bravo “Quixote”, apontando para um rapaz que o olhava e divertia-se. “Você mesmo, é... Claro que você sabe que estou falando com você, se não, não teria olhado para trás. Pensa que não conheço o subterfúgio humano?! Você se entregou.. Primeiro apontou para o próprio peito, depois olhou para trás... Por acaso estás com medo? Como pode você ter medo de mim? Todos me acham louco, se assim sou, vivo fora da realidade e, assim sendo, nada que possa lhe inquirir pode deixá-lo em situação de temor”...

- “Não, não tenho medo de você! Porque haveria de ter? Basta um peteleco nesse seu corpo de graveto para você voar longe, ir parar lá na Praça da Sé!”

- “Então me responda (fez um silêncio de quem valorizava o momento de tensão que se instaura antes da pergunta), pigarreou, usou-o como eixo e, observando-o minuciosamente, enfim, disparou:

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bênçãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço? 

O silêncio era total... Havia uma expectativa no ar, o rapaz inquirido, começou a sorrir o mesmo riso tenso, aterrorizado da estudante do caderno. Transpirava muito, quanto mais tempo passava, mais sua fisionomia ia se transformando. Não sabia o que dizer e, para piorar a sua situação, o “homem graveto”, como lhe havia nomeado, impunha sobre ele um olhar duro de rapina. Estava imóvel não desviava o olhar um segundo sequer. Parecia dizer-lhe: decifra-me ou devoro-te.

O jovem rapaz temeroso de ser devorado ali, em plena praça pública, soltou um muxoxo de descredenciamento, esbravejou: “ah, maluco!” Deu as costas e saiu abrindo caminho na pequena platéia que ali se formava.

- “Vocês viram! São prova testemunhais, falei-lhe a sua língua, dei ao jovem a oportunidade de libertar-se, desprender-se de suas amarras, libertar-se. Mas ele preferiu o estágio bruto, esquivou-se de sua humanidade e partiu sem dizer nada! Ou melhor, dizendo o que não deveria ser dito. O poeta, aqui à minhas costas, sobre esse pedestal, de mãos abertas, em claro sinal de doação, de perdão... Mas ele não viu, não quis ver, preferiu manter-se como um tolo. Acha que são os olhos que vêem”.

Andou em direção ao monumento no centro da praça, fugiu da aglomeração. Não gostava da condição de atração. Sempre dizia que os humanos transformaram a Terra em um imenso “Jardim Antropológico”, olhavam-se e não se reconheciam. Preferiam sempre a vida alheia, os erros alheios, as dores alheias. Eram condescendentes sim! Porém, só consigo mesmo com os outros... Jamais!

De um momento para o outro, pulou a grade que separa o poeta. De quê? Nunca conseguiu esta resposta. Não era possível que tivessem posto uma grade para separar o poeta da “Praça do Povo”, do povo. Subiu a escadaria do pedestal e ali retirou toda a roupa. Olhando fixamente a todos brandiu mais uma vez:
- “Vocês não respeitam mais o poeta, não ouvem a música do universo, não compreendem que sem poesia não somos nada. Vocês estão mortos!”

Agarrado, se debatia, exigia sua liberdade, gritou por entre os braços que o cerceavam: “vocês não irão me calar! Nunca.”

A porta da ambulância/prisão fechou-se, a louca sirene disparou a avisar a todos que mais um louco havia sido retirado do convívio dos loucos.

Roger Ribeiro.
04 de junho de 2009.

”Atraso Pontual” Paulo Leminski"

terça-feira, 2 de junho de 2009

Entre o céu e o Mar.




Para Seu Alexandrino e Dona Yara

Acordou cedo, muito cedo. Era necessário escovar a farta cabeleira de fios grossos e de uma tonalidade de breu profundo. Banho frio com sabonete de aroma de flor. Exalava um frescor! Era assim quase um oásis primaveril no denso e chuvoso outono.

Porém, como se adivinhasse, o céu chumbado, intermitentemente chuvoso, havia dado uma trégua e, ao sair do banho, percebeu pelas frestas da janela do quarto aonde dormia com sua cabocla avó, uma irradiante luminosidade. Era intensa demais para o horário, para a época do ano, para os dias que antecederam aquela manhã.

Não estranhou, aliás, sempre teve em si a sensação de que nada com ela acontecia à toa, não acreditava em acasos e levitava pela vida com a certeza de que seus caminhos estavam traçados. Não por acaso havia sobrevivido na infância a uma sequência de doenças que mais parecia um dicionário farmacológico. De uma simples gripe que evolui para pneumonia, passando pela meningite que levou até o pároco da vila a rezar-lhe uma missa, passando por febres oriundas de encontros com seres estranhos marítimos, até a última, há um ano atrás, quando permaneceu em coma por quinze dias e ninguém, da razão científica, pode explicar.

Sobre o corpo longilíneo, de ossos salientes e caprichosamente adornados por uma carne tenra, sustentada por feixes de músculos alongados, cobriu a pele morena com um leve vestido azul estampado de flores que variavam entre o amarelo, o vermelho e o violeta. Nos pés, que nunca haviam visto um salão, mas que acariciado pelo coral da barra-mar, onde colhia os mariscos e moluscos para as refeições, uma sandália de corda turquesa. A clara imagem de pés que sabem por onde andar.

Nos bolsos largos do vestido que lhe beiravam os joelhos, colocou o dinheiro necessário. Foi à cozinha onde sua mãe preparava o mingau de milho e tapioca que iria vender na praça, beijou-lhe a face, avisou que não iria comer nada, sorriu, abriu a porta que dava da cozinha ao quintal e, maravilhada, percebeu o azul intenso e profundo que fazia daquela fresca manhã um dia especial.

No caminho, passou na pousado Arco Iris, do amigo God e, com a intimidade de quem foi ninada naquele colo desde a nascença, abriu o portão e em um saco plástico que havia levado consigo, colheu duas mangas Carlotinhas que seriam saboreadas na barca durante a travessia. Não precisou pensar, pois sempre soube – podia haver mangas Carlotinhas em muitos lugares, porém nenhuma possuía a alegre doçura daquelas, sempre teve a certeza de que eram assim, pois se nutriam do sorriso de quem lhes cuidava.

Havia perdido a primeira barca. Sem problema, naquele dia não estava cruzando a baia a trabalho. Tinha alguns afazeres, isso é verdade: duas cartas-bilhetes para entregar a familiares de amigos, uma conta de caderneta para saldar, alguns orçamentos de peças a serem bordadas e, um pedido mais que especial de seu primo, que conquistara o primeiro trabalho, de apreçar um som que contivesse cd, rádio AM e FM e se possível também com toca-fitas, pois as possuía em abundância (herança do pai falecido).

Entrou na barca e pensando suspirou: “mais um sinal!”, embarcara na barca azul e branca, a sua preferida, a mesma que desde menina se agarrava nos pneus laterais no ancoradouro para largar-se alegremente ao passar pelo farol que ficava na barra de corais. Sentou-se na frente, no bico do barco, onde, por sinal os “barqueiros” não permitem que ninguém permaneça, a não ser alguns poucos, que tinham intimidade o suficiente para desprezarem os avisos escritos e também os chamados: “não pode viajar aí”.

Qual nada! A brisa de frente, secando os lábios, esvoaçando o cabelo, flamulando o leve tecido no corpo fresco, aquela sensação era indescritível!

Sacou de uma das Carlotinhas e ficou a fitar e questionar: “o que era mais azul o céu ou as águas da baia de Todos os Santos?” Olhava à frente com uma expectativa nervosa, lá estava a Capital, cidade grande onde tinha de se andar de ônibus, tudo era distante, cheia, barulhenta, excitante! Gostava de ficar tentando identificar os locais: “lá está o Elevador Lacerda, acima o Palácio, a igreja da Conceição” (se benzeu rápido). O rádio da barca a trouxe abruptamente de volta:

“Aconteceu / o que aconteceu
Foi melhor assim / estava por um fio
Estava por um triz / estava já no fim
Todo mundo via / que acontecia
Pois aconteceu / era o que devia
Quando o descaminho / acha o seu desvio
Tudo se alivia / foi melhor assim
Quando dei por mim / já estava aqui e agora”.*

A barca aproximou-se do Forte São Marcelo, o Forte do Mar! Soltou o primeiro náutico apito. Anunciava que o povo da Ilha estava chegando!

Ela ergueu-se lentamente, sacudiu o vestido. Sob uma pedra deixou na madeira azul do barco o pouco dinheiro, as cartas-bilhetes, devidamente endereçadas, e a lista de afazeres. Deslizou suavemente da barca para o azul da baia.
Sabia ela, com sua abundante e negra cabeleira, que seu lugar não era nem lá, nem cá.
Seu lugar era entre estes mundos. Seu reino eram as águas de onde orientaria Todos os Santos.
Roger Ribeiro.
29 de maio de 2009.

* “Aconteceu” (Marisa Monte e Arnaldo Antunes).

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vai chover nos is!





E enfim, pondo os “pingos nos is”, vou logo te falando: não compro esse seu sorrisinho malicioso por nada nesse mundo. E não adianta fazer olhinhos de neném, pois sei, e muito bem, do estrago que seus caninos são capazes na jugular alheia.

Tudo bem! Disfarce mesmo... Olhes para o lado, para cima, para o vão, diga ao vento que não sabes de nada, que não está compreendendo, que devo estar pirado, enlouquecido, quem sabe até alienado. Necessitando de tratamentos e cuidados. Pouco alimentado, demente, subnutrido de razão. Que sou uma oca frase sem nexo, nem direção. Uma estapafúrdia e patética demonstração de despreparo da humanidade.

De agora em diante, para você, nada! Nem um sorriso de dentes travados. Coisa alguma, necas. Nem sal, Nem açúcar, sem gosto de nada e, se não gostares, vais reclamar com o delegado. Vais chorar no pé do caboclo em dia de raios, trovões tempestade! Para mim, teu dia estará sempre nublado e como diz a canção que ouvi no rádio: para você meu guarda-chuva estará sempre fechado.

Por causa disso, passo, com frequência, dias e noites de olhos abertos, arregalados, já não durmo, não me sinto mais aconchegado, parece que estou no meio da Praça Vermelha, no inverno de Moscou, pelado. Peço, rogo a todos os santos da cristandade, aos orixás da mística transplantada, aos deuses do grego Olimpo, cruel e malvado. Tudo o que quero é sossego, paz, tranquilidade. Para São Longuinho, se vier o resultado tão clamado, sem cansaço, prometo mil pulinhos de olhos fechados.

É meu leitor, pareço meio indignado? Pois saiba que é pouco! Aposto que em meu lugar estarias irado, infinitamente mais que revoltado. Boto dez pra um que nem mesmo estas palavras dirigirias a este ser. Coitado? Indigno da condição de mamífero, bípede e pensante, isso sim! Nada de coitado. Um anjo caído, uma alma penada.

Mas eu ainda me coloco à sua frente, te digo e se necessário escrevo e assino que de gente não tens mais nada e o único pingo que mereces não é o do “i”, muito menos o do jota, que nada! Só mereces um pingo de uma chuva das brabas, que acabe com sua chapinha, sua escova progressiva, te deixe totalmente descabelada feito a rainha louca, a medusa do espelho quebrado.

Vamos, continuemos... Podes ficar aí com essa cara de paisagem, cara de quem não fez nada! Não caio mais, não ando mais nessa estrada. De contramão, estou farto! Minha carteira de habilitação foi seqüestrada, o pneu socorro tá furado, a direção hidráulica secou, puseram farinha e nem pirão virou! É pó e mais nada.

Necessito te dizer só mais algumas coisinhas... Tá pensando que foi fácil chegar aqui? Você vai sorrir, né? Malvada, sem coração, bruxa, piolhenta, feia e covarde. Pois te digo: só de ônibus foram três passagens, no segundo meu celular ficou na mão do menino traquino, nervoso e armado. O motorista não mais parou, rumou direto pra delegacia que fica nada menos do que do outro lado da cidade. O caos! Não sabia as horas, pois meu querido e estimado relógio não desgrudou, e acompanhou seu amigo celular em suas novas empreitadas.

Suava em bicas, temia pelo pior! E se não chegasse? O que seria? Valei-me meu Senhor do Bonfim, minha Iemanjá, meu Cacique Touro Sentado!

Necessitava da ajuda divina, tudo estava dando muito mais que errado, era um “dia de cão”, uma manhã torta, um filme de Tarantino, uma crônica do Jabor, Brown filosofando... Coisa de saci! Humor negro, terror supremo. Imagine ter o Maestro Zé Fernandes, Aracy de Almeida, Pedro de Lara, Décio Piccinini, Nelson Rubens todos nus correndo atrás de você gritando: “sua nota é zero, meu filho!”, cruzes...! E você acuado, sem nem uma Elke Maravilha para te socorrer. Vixi! Ferrou de vez.

Por fim, e já sem tempo, surge você! Vem sorrindo desde lá de longe com essa cara limpa, linda! Perguntando o que houve? Porque estava eu tão zangado? Afinal estavas apenas e somente quinze minutos atrasada!

Roger Ribeiro.
21 de maio de 2009.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Psicólogos para todos!





Sim, o resultado realmente foi muito pior do que o esperado! Quanto? Ora, você vai me dizer que não sabe? Sei que sabe, sei que queres ouvir de minha boca para ser mais saboroso... Tem problema não, faz parte da mística do esporte, é a sua vez de saborear minha derrota. Tudo bem foi “quatroazero”, falei rápido e meio embolado.

- Como?! Não entendi. Quanto foi mesmo?
Engoli a ira e, vagarosamente, repeti: quatro a zero. Respondi, agora, bem pausado e frisando bem o zero. No fundo, nutria naquele momento e ainda agora, a esperança de na quinta que vem darmos o troco. Golear! E com a cara mais alegre do mundo, sair pela rua cantando e dançando, orgulhoso com heróico resultado: a vitória. A busca da consagração.

-Pra quem? Perguntou-me com sua voz nasalada, irritantemente nasalada. - Fanho filho da p... Controlei-me! Mas confesso: foi por pouco! Meu deus, pensei, seria totalmente politicamente incorreto, poderia até ser processado por discriminação social.

Ah! Que saco esses tempos atuais e seus direitos e advogados prá tudo que é lado. Tenho cada dia mais a certeza de que a profissão do futuro é a psicologia, psiquiatria e afins. Todas as ciências e não ciências que trabalhem com traumas, neuroses, psicoses, síndromes e todas as formas de “desarranjos” cerebrais. Afinal não se pode mais esbravejar, xingar, ameaçar! Não se pode mais nada?! Como vamos soltar nossos demônios?

Pela leitura pouca e superficial que tenho do menino Freud, lembro-me de em alguma obra ter lido que as neuroses, psicoses e afins são provenientes exatamente da retração de nossos instintos naturais. E nesse “mundiculo” de magistrados, advogados, juízes, promotores, leis, emendas e o “cacete a quatro”, ainda se juntam os injustiçados... Sabe lá de que? Ou de quem? Como dizia aquele rockinho dos anos oitenta do Ultraje à Rigor, “como é que vou crescer se não tenho com o que me rebelar?” Só que agora é diferente, é como vou manter-me são com esse advogado de plantão aqui do meu lado?

Pronto! Não duvide minha amiga, logo aparecerá um rapaz, de cabelo curto, bem penteado, de paletó e gravata, sapato preto lustroso, pasta de mão cheia de papeis (teoricamente escritos), com os trinta e dois dentes (você já reparou que advogado tem sempre todos os dentes? Mesmo que sejam falsos, mas tem), falando bonito e gesticulando minuciosamente, para me explicar que serei processado por estar de forma pré-conceituosa e acintosa desfazendo da categoria dos magistrados em Direito. Ui! Lá vem conta, penso imediatamente.

Pois como não podemos mais verbalizar, expor algo absurdo só para não explodir, então engolimos, sem água, sem um pão velho sem nada! A seco, goela abaixo. Resultado: três anos depois... Gastrite meu filho, diz o doutor, é isso que tens. Cinco anos depois úlcera... 10 anos depois stress, quinze anos camisa de força e injeções de drogas tarja pretas! Céus, que horror.

Por isso, há uma semana atrás, entre uma chuva e outra, peguei minha máscara de mergulho, o respirador, botei meu maiô de banho, uma camisa de meia velha para proteger do sol e fui mergulhar nos corais que ornam o Farol da Barra. No trajeto até a praia, passava pelas pessoas e sentia que todas me olhavam com uma ponta de inveja, afinal era uma terça feira onze horas da manhã e lá ia eu, peito aberto, mergulhar nos corais do Farol.

Ria no meu íntimo. Na verdade, estava retornando de uma reunião em um dos meus trabalhos e o volume de absurdos que tiveram de ficar sem a resposta adequada, por questões hierárquicas, era tão grande que resolvi ir para baixo d’água, e, lá estando ﮩ†ßØ¿Ÿ‰*…‰¢×Ø, era tanto impropério que as bolhas de ar custavam o dobro de tempo para pocar na superfície. E quanto mais ali naquele local, sem nenhum advogado por perto, eu vociferava, gritava, urrava... Mais me sentia leve, tranqüilo, ah! Aquilo sim, é que era terapia.

Após uns dez minutos de pragas, xingamentos, e afins notei que os peixinhos estavam de longe me olhando assustados, com cara de quem não estavam entendendo nada! Se é que peixe entende alguma coisa em algum momento. Sorri e pensei: coitados, eles não tem nada haver com isso! Pelo menos não iriam se ofender e nem me processar.

Voltando a meu amigo fanho e sua pergunta, respondi: para o Vasco da Gama. Alteei a voz e repeti: quatro a zero para o Vasco da Gama do Rio de Janeiro! Está satisfeito agora? Ele sorriu e disse: - e foi pouco! Vocês deram sorte. Tombei a cabeça como quem entrega os pontos e pensei: - vou voar no pescoço dele!

Respirei fundo e falei bem baixinho: a violência é a alma dos fracos. Sorri para ele e parti para mudar o rumo da conversa, pois era ele um grande amigo, desses de emprestar dinheiro e não cobrar... Sabe como é? Estão cada vez mais raros, mais ainda se encontra um aqui, outro ali. Meu amigo fanho é um desses, por isso, não pelo dinheiro, mas pelo seu apreço e amizade pura e sincera, jamais deixaria algo atrapalhar nossa relação, ainda mais futebol, eu hem! Nunquinha.

Além do mais, como já disse, a curtição do derrotado faz parte do jogo bretão assim como os jogadores, a tática, as traves, as linhas, as poucas regras, os dribles, o talento, a manha, a cera, o arbitro, os bandeirinhas, o gandula, a torcida, o estádio, a bola, o gollllllllll do locutor radiofônico e a maldita curtição do meu amigo fanho que nem torce pelo Vasco da Gama. Aliás, como bom bacharel em Física, creio que não torce para ninguém e na verdade nem sabe o que se disputa ali naquela arena moderna.

Mas mesmo os físicos, fanhos, com cara de meninos criado pela avó, olhar de louco tipo Jack Nicholson em Estranho no Ninho (assim é meu amigo), até pessoas com esse perfil, por não poderem mandar quem merece para a P... q P...., resolvem se “bater de cara” comigo nessa esquina, debaixo desse sol escaldante e largar uma tonelada de gracinhas na cara do Zé aqui!

Despedimo-nos, prometemos visitas mútuas e partimos. Afinal, a vida continua. Ainda sorria da alegria de ver meu amigo assim de humor elevado quando ouvi uma voz familiar que saia de dentro de um carro, cor de prata, que vagarosamente ao meu lado se postava: - quer uma carona ou vai de quatro?

Virei “em chamas” e... Vá tomar no... Me controlei, ainda bem, ufa! Além de familiar era uma voz, inconfundível. Era um advogado.

Acho que necessito de uma terapia.

Roger Ribeiro.
15 de maio de 2009.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Eu sempre sonhei com você




Você já viu um sapato? Ou melhor, uma bota preta, velha, arranhada, com os cadarços assim, displicentemente folgados, andando por aí afora sem que haja um pé, uma perna, uma cintura, nada a controlar-lhe?

Pois era isso que ele dizia ter visto. Jurava! E se você fizesse a menor menção de duvidar... Ah! Ai meu camarada, como diziam os velhos soviéticos, o “bicho pegava” de vez. Virava uma fera, dedo em riste partia para cima ofendido, magoado. Irritava-se a ponto de necessitar de ajuda. Uma água com açúcar, um conhaque, um calmante qualquer. O melhor era não duvidar, afinal quem tem olho vê o que quer, não é mesmo?

Dizia que a bota, mas não de cano alto, uma bota tipo basqueteira, cano baixo, de couro preto, andava pela cidade fizesse chuva ou sol, não importava. Frequentava a todos os lugares sem preconceito algum. Odiava idéias pré- estabelecidas de que isso era bom, aquilo era ruim, não tinha essa conversa, tinha de ver em loco, senão jamais emitia juízo, parecer, nem arriscava nenhum tipo de comentário. Mantinha-se calado, atento. Dizia sempre que sapato bom fica de bico fechado.

Reportava-se a sua amiga bota como se conversar com uma bota que anda por aí sozinha fosse a coisa mais comum, abundante em qualquer parte, em qualquer local. Pedia-me que observasse como todas as pessoas, em determinado momento do dia, olham para baixo. Principalmente se estiverem sós. Todos acham que se está, naquele momento, descansando ou refletindo sobre algo muito importante como a pandemia de gripe Influenza H1N1, ou sobre a reunião que terá ao chegar ao trabalho, as dívidas acumuladas ou qualquer outra coisa digna de pessoas sérias e atarefadas. Mas, meu caro, dizia meu amigo: - não é nada disso! Na verdade se está naquele momento conversando com os próprios sapatos, ou com um quedes (tênis), sandália ou afins que estiverem por perto.

Diz que ninguém sabe mais do que esses seres, pois por estarem em contato direto com o solo, percebem nuances que o homem, com seu afã de subir, sempre subir, perdeu a percepção.

Encontrei um dia, esse meu barbudo amigo, sentado na sorveteria Cubana tomando um maltado de ameixa, resolvi sentar-me à sua mesa para olhar a baia de Todos os Santos e levar uma leve prosa de fim de tarde, afinal aquele seria um dia especial e eu queria estar alegremente concentrado.

Sabia que a única coisa que não podia fazer seria contrariá-lo, mas meu amigo com sua barba ruiva grisalha não era um maníaco radical. Não é que você não pudesse discordar do que ele dizia, não era assim. Aliás, pelo contrário, poderia passar horas em debates acalorados sobre política, futebol, mulheres, economia internacional, tudo enfim. Só não tolerava a negativa sobre a bota, curta, preta, velha que vagava sem fim pela cidade.

Pensei em puxar uma conversa histórica, aproveitaria o local em que estávamos e falaria sobre a falta que fazem os saveiros na Rampa do Mercado (local aonde se descarregavam os saveiros vindos do Recôncavo baiano, que fica ao lado do Mercado Modelo), porém não deu tempo, quando pensei em falar, ele se antecipou...

Disse-me:
- Já estou sabendo...! Veja lá o que você vai fazer heim?!
Como assim? Do que você está falando? Perguntei-lhe.
- Ela já me falou!
Ela quem? Falou o quê?
- Ora tudo! Não é por isso que você veio aqui?
Olhei para ele meio apreensivo. Será que meu amigo está em surto? Do que será que ele está falando? Após falar isso bem baixinho para mim mesmo, ou para os meus sapatos, procurei mudar o rumo da prosa e comentei: éh! Após tantos dias de chuva nada como esse solzinho de fim de tarde para esquentar, né?

Sem olhar para mim respondeu, puxando um pouco a barba:
- Ela saiu daqui agorinha mesmo, foi à farmácia se pesar. Disse-me que havia engordado por conta dos feriados e precisava saber quantos quilos precisava perder.

Meio ressabiado, sem querer encará-lo para que não pensasse ser uma provocação, perguntei: ela quem? A resposta veio rápida e seca.

- A bota, claro! Aliás, quando foi saindo me falou que você estava chegando, ouvira seus passos de longe e contou-me mais...

Mais? Perguntei angustiado. E o que ela contou?

- Disse-me que você estava tenso e que vinha em busca de espaço e ar fresco para retirar a tensão, pois à noite teria um compromisso que o deixava inseguro, tenso, como menino que passa a noite em claro imaginando como vai perguntar a ela se quer ser sua namorada!

Fiquei calado uns instantes, intrigado, confuso. Como será que ele sabia? Ou pior ainda como ela, a bota sabia do meu compromisso? E o pior, da minha tensão? Cheguei à conclusão que meu amigo estava jogando verde para colher maduro, resolvi despistar. Falei: Que compromisso que nada! E ainda por cima tenso! Eu?! Nunca, acho que desta vez a bota se enganou.

- A é?! Então tá. Agora depois que você tomar o vinho, comer a massa caseira e olhar aquele cabelo liso e preto combinando com o leve vestido sustentado pelos ombros magros, formando um conjunto harmônico e sofisticadamente simples, não vá dizer que seus sapatos te levaram ao topo do Nirvana à toa!

Olhei para a o meu amigo de barba ruiva e grisalha, sem bigodes, pois no dia que ia tomar maltado tirava o bigode, acho que por questão de higiene já que odiava canudinhos e não disse nada. Desviei o olhar para o chão e, incrédulo, percebi que usava uma bota preta, de cano curto, velha, sulcada pelo tempo e pelo andar na cidade.

À noite, após o vinho e a massa, pensei: como vou perguntar se a sandalinha dela quer passear com minha bota?

Roger Ribeiro.
7 de maio de 2009.