quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Não é assim não, meu rei!




Domingo pela manhã. Não importa se é verão, inverno, primavera ou outono. Também pouco importa se chove ou faz sol. O certo é que a segunda mesa à direita da porta em frente ao balcão está lá com duas cadeiras postas e ninguém se atreve nem se quer a encostar e, se algum desavisado, novo no espaço, se arvora a dela deleitar é imediatamente advertido de que aquela mesa está reservada.

O ambiente é claro e fartamente ventilado. Trata-se de um restaurante famoso na cidade, possui uma cozinha invejável, produz iguarias gastronômicas, muitas delas, difíceis de serem encontradas, apesar de serem tradicionais da cultura local. Porém, a modernidade e sua eterna pressa fizeram-nas sumir dos cardápios, afinal são receitas cheias de segredos, possuem tempo de cozimento e maturação longo... O comerciante não quer ter esse gasto e o cliente, coitado, com seu paladar que não distingue um abará autêntico de um feito de farinha de milho, não quer perder tempo. Perda inestimável!

Ali você encontra todas essas receitas, mas apesar de tudo isso, a grande fama do estabelecimento de ‘pé direito’ dobrado não é bem a inigualável cozinha, mas sim o seu anexo de onde saem os famosos pastéis que deveriam ser servidos nas mesas, porém dificilmente isso ocorre, já que estes são disputados, educadamente claro, aos gritos, pelos habitantes do longo balcão. Vale tudo para não perder aquele lote. São eles que fazem, apesar da fritura, a fama deste Armazém, no bairro da Saúde.

Nove horas e quinze minutos em ponto. Eles chegam e ocupam a reservada mesa mencionada. Rapidamente uma das atendentes pega sob o balcão o tabuleiro e coloca-o à mesa entre os dois. Possuem quinze minutos para dispor sobre este os peões, cavalos, torres, bispos e, claro, suas respectivas casas reais. O embate medieval irá começar.

Nove horas e algo entre quinze e trinta, adentra ao recinto, com sua tradicional camisa social branca por dentro da calça Lee, assessorados de cinto e bota pretas, o Gentil.

Apesar da impecável vestimenta, Gentil possui uma vasta cabeleira encaracolada de cor amarela alaranjada que, pelo jeitão da coisa, brigou com o pente no mínimo há uns dez anos e com a cadeira rotativa e acolchoada do “Regis, o Pente de Ouro” então... Nem dá para precisar.

Seu nome verdadeiro, ninguém faz a menor idéia. Todos o conhecem como Gentil. Uns dizem que é porque toca no violão e canta os sambas do mestre Ederaldo Gentil melhor do que o próprio. Já a outra versão, diz tratar-se de uma homenagem ao sábio andarilho das ruas do Rio de Janeiro, o Gentileza. Qual a versão verdadeira? Como se diz aqui no popular: “quem souber morre!” Pouco importa! As pessoas desta cidadela não se incomodam com isso. Por aqui não se aprecia o certo e indiscutível! Não! Isso não serve para nada. O que aqui é prezado é o gosto pela polêmica. Sendo assim, todo fim de ano tem o “baba” (jogo amador de futebol), entre os adeptos da primeira explicação versos os da segunda. É “baba prá pirão”.

Gentil se posta em pé, frente ao tabuleiro. Está pronto para cantar, como um velho bardo, o embate. De um lado, o professor Cosme, um senhor negro de pele lisa e cabelos brancos como algodão. Do outro o professor Marcone, branquíssimo de pele sulcada e cabelos negros à “Camélia do Brasil”. Conhecem-se há muitas décadas, desde que eram titulares de Matemática e Física no saudoso Ginásio da Bahia. A contenda é séria, dizem que jogam cientificamente, porém regada à famosa “da casa”, servida, com distinção, em cálice de cristal e porções especiais de pastéis miúdos. Direitos adquiridos.

- Bispo na 4 do bispo da dama, cavalo do bispo de rei.

O jogo já está a toda. Professor Cosme sorri, ao que indica, ou pelo menos ao que percebo aqui do balcão, parece que fez um grande lance. Já professor Marcone está apreensivo. É hora de Gentil entrar na contenda:

- Belo cavalo branco,
sobre ele um garbo cavaleiro
arvora-se de nobre protetor,
mas no bolso nem pataca nem tostão,
portanto, nem pinga nem pastel,
afinal, aqui tem fiado não meu senhor!

E assim a manhã dominical vai passando, a missa acaba e as senhoras rezadeiras atravessam a rua para não passar na calçada do estabelecimento. Fingem repúdio e desdém, mas sempre encontram um pretexto para, enamoradas, olharem o que ali se passa. Só enfezam mesmo quando flagram o fingido, adoentado marido, de pinga e pastel na mão.

- Torre do bispo derruba a rainha!

Gaba-se, desta vez Marcone, sem dó nem piedade.

Suspense, aliás, tudo suspenso no recinto. Será verdade? Ninguém respira, o silêncio é total. O clima fica grave a ponto da bandeja de pastéis passar por toda a área do balcão e ninguém perceber. As atendentes pararam de servir, ninguém ousou pedir nada. Por segundos, temeu-se o pior.

- Êpa, êpa! Calma lá. Mas o que é isso? Onde pensa que estamos?! Aonde já se viu tamanho descalabro? Uma torre sobre uma dama? Uma rainha! Impossível!

Sobre a torre, a bela dama, a rainha
aguarda pelo seu salvador.
Do bosque, a espreita, o reluzente cavaleiro
busca forma precisa de livrá-la
de tão cruel penar.
Como pode Senhor, tal dama, tão distinta rainha
de pedras ser prisioneira,
se de tão longe consegue meu coração aprisionar?
Pois saibam, professores Marcone e Cosme,
Escutem com atenção:
no predicado nominal ela é sujeito e eu,
humildemente, predicativo.
Sem ela, não existo,
sem mim não tens sentido.
Sendo assim, não há torre neste mundo
capaz de impedir-me de
libertá-la!

Todos respiraram aliviados! Mais uma vez, Gentil salvou o domingo. Por conta, foi servida uma rodada da primorosa “da casa” e o jogo foi dado por encerrado. Eis o veredicto:

- Finalizado por falta de compostura frente à rainha!

Decretou Gentil.

Roger Ribeiro
28 de agosto 2009.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Por um triz



O ônibus descia “voando” a Avenida Contorno. A vista era linda nesta manhã fresca, o mar abusava de seu azul e, de tão calmo, parecia um imenso território plano. Dava a nítida impressão de se poder andar sobre ele. Inebriado com a vista e o frescor marítimo que entrava pela janela, quase perdeu o ponto. O coletivo já estava saindo quando percebeu. Deu um pulo e gritou: “peraí motô!" Correu e desceu. “Ufa! Foi por um triz...”

Ao voltar para o mundo real, fora do coletivo, notou que havia uma movimentação estranha naquele local aonde descia do transporte de segunda a sábado dirigindo-se para o trabalho. Conhecia cada metro quadrado daquele espaço, cada pedrinha portuguesa, cada buraco, cada vendedor ambulante, tudo enfim estava devidamente esquadrinhado por dez anos de passagens diárias de ida e volta por aquele histórico largo.

Porém, naquela sexta-feira algo diferente estava ocorrendo. Do inconsciente brotou em sua mente a canção “De Frente Pro Crime” do João Bosco e passou a assoviá-la. Começou então a averiguar o que havia de diferente. Notou haver muito mais gente do que o normal.

Percebeu também que as pessoas (ou pelo menos a maioria delas), estavam paradas. O ambiente parecia estático. Mas logo aquele local de movimento constante?! Afinal, além de ser um entroncamento de várias vias de transporte, neste local e adjacências, um forte comércio popular se estabelecera, além, óbvio, do intenso movimento de turistas e “locais” a se dirigirem para o Mercado Modelo ou para o atracadouro de onde saem às lanchas para Mar Grande, Morro de São Paulo e Alhures.

Parou, como de costume, no tabuleiro de dona Zoé, para tomar o seu café da manhã. Solteiro que era, nunca tinha nada para comer em casa. Por isso, há anos fazia a primeira refeição do dia com a Zoé:

- Olá meu filho, pensei que não vinha hoje!

E, imediatamente, passou-lhe o pratinho de isopor com o garfo de metal, já que odiava aqueles garfinhos de plástico que, invariavelmente, quebram um dos dentes alojando-se no início da garganta arranhando-a, deixando a sensação de estar lá, atravessado o dia inteiro. Com ele não, o garfo tinha de ser de metal. Apenas uma vez se perguntou aonde seria que Zoé lavava-o? Chegou à conclusão que era melhor não saber, afinal até o Rei disse que tudo o que gostava era ilegal, imoral ou engordava. Assim sendo, comia com gosto sua carne de sol com aipim cozido passado na manteiga acompanhado por um refresco açucarado de maracujá. Isso há pelo menos nove anos às sete e trinta da manhã.

- Zoé, o que está acontecendo hoje aqui? Tem alguma coisa estranha! Veja, até Seu Carlos que nunca não sai da caixa registradora de sua padaria, está aqui! Tem algo estranho.

- Ora meu “fiu”, viste não? Oxi, tá ficando bobo?

- Hum... o aipim hoje está derretendo na boca! Mas viu o quê? O que há para ser visto?

- Você com essa sua mania de não crer, acaba por nunca olhar para cima. Pois é, lá que está o que queres saber.

- Lá vem você com sua conversa de beata rezadeira. Fica aí falando de céu, mas todo mundo sabe que sua fé está mesmo é nas encruzilhadas. (largou uma farta gargalhada).

- Sabe nada você. Fica aí com a boca e os olhos enfiado nesse prato e nem se apercebe o que está acontecendo ao seu redor.

- Sim e você vai ou não vai desembuchar logo o que está acontecendo?

- Eu não. Se todo mundo está vendo menos você! Olha prá cima, para de comer um minuto, aliás, já te falei várias vezes que se come é com a boca e não com os olhos, e olha prá cima homem.

- Como assim, para cima? (olhou para o céu sobre o Mercado Modelo).

- Não “fiu”, pro outro lado...


Voltou-se e olhou desta vez para cima do Elevador Lacerda. Arregalou os olhos, engasgou com a carne do sol. Pela primeira vez na vida ficou tão atônito que deixou o pratinho cair e derramou o refresco na barra de sua calça.


- Mas o que é isso, Zoé?! Ele quer se matar?


Lá em cima do Elevador Lacerda, via-se um rapaz, era longe demais para se perceber exatamente qual idade poderia ter, estava na ponta da laje. Como havia conseguido chegar ali? Não sei, mas chegou. Cá em baixo, uma multidão perplexa não tirava os olhos dele. Os vendedores ambulantes não mercavam, e até uma senhora que queria comprar uma água teve de puxar o vendedor pela camisa para que este abaixasse a cabeça para saber do que se tratava.


- Está ali desde as seis da manhã, “chegou antes do galo”, eu estava arrumando o tabuleiro quando Carlinhos do charuto me sinalizou. Desde então está lá. Faz tanto tempo que já correu até lista de como acaba.

- Mas que coisa Zoé! As pessoas ainda apostam? Coitado, deve estar desesperado.

Percebeu que as redes de televisão estavam no local, por isso pagou a “semana” para Zoé e dirigiu-se para a lanchonete dos coreanos, pois sabia que lá sempre tinha uma televisão ligada nestes programas de “mundo cão”.

Chegou e já havia uma pequena multidão se acotovelando para ver pela TV o que se passava. Empurrou um aqui, outro ali e conseguiu, enfim, ter a visão da telinha aonde o cinegrafista, muito habilidoso, havia conseguido fechar a cena, não apenas no jovem à beira do Elevador Lacerda, mas, principalmente, no cartaz que abria à altura do peito aonde se lia:

“Bia, neste dia tão importante, eu tinha de dizer que TE AMO”.

Roger Ribeiro.

21 de agosto de 2009.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Hoje tem baile!




A banda estava nos últimos preparativos para entrar em ação.O local abarrotado e a expectativa era enorme, ninguém conhecia a banda. Era praticamente a estréia, logo naquele evento, normalmente cheio, um evento com uma já legião de fãs que aguardavam ansiosamente a próxima edição.

Os instrumentos brilhavam sobre o palco, vez por outra alguém passava e ajeitava alguma coisa: um microfone, a localização ideal para o contra-baixo, a guitarra, o violão. Tudo localizado milimetricamente para ajustar com a iluminação. O palco é pequeno e a banda é numerosa.

Um jovem passou pela porta do camarim e gritou: - “cinco minutos!” Todos se entreolharam. Para quem estava de fora, como eu, o que se percebia é que quase todos queriam sair correndo dali. Não é uma banda de meninos, todos já possuem farta experiência em música, palco e afins. Mas, era praticamente uma estréia e de um trabalho diferente! Não era um show. Num show é diferente, as pessoas ouvem, aplaudem, gostam ou não. É, portanto, um livre arbítrio de ambos os lados, já que a banda toca seu trabalho e o público aprecia. Ali, naquela noite, não.

Era uma baile. A proposta é reviver uma banda de baile com tudo o que se tem de direito: roupas brilhantes para os croners, banda afiada, pouco papo e muita música com um repertório todo pensado. Quase que um filme, afinal como se monta um baile?

Bem, em primeiro lugar monta-se um roteiro: O rapaz passou o dia se exercitando na praia, surfou, jogou frescobol, conversou com a turma até quase o fim de tarde. Depois foi para casa, banhou-se, almoçou e foi dar aquela deitadinha para aguardar o horário de ir para o baile.

Já a menina, deu um mergulho rápido na praia, pois havia se comprometido de ajudar, junto com outras amigas, a mudança de apartamento de uma delas. Não foi um dia fácil, sobe e desce escadas, carrega caixas, descarrega as caixas, arruma, cada uma tem uma opinião diferente de onde por o quê... Coisas naturais quando todos querem o melhor e, por mais trabalho que dê, o prazer de ajudar, de ver o novo, transforma tudo em uma grande farra. Chegou em casa no início da noite, tomou um banho e pediu a mãe que lhe chamasse às 22:00 horas.

Ambos acordaram, ela fez um leve lanche, ele ainda cheio foi direto para o banheiro, tomou outro banho, pôs a roupa de festa e saiu para encontrar a turma e rumar para o baile. Ela, após o lanche trancou-se no banheiro e de lá só saiu uma hora depois. Estava linda, aquele vestido vermelho bordado de pequenas flores coloridas lhe dava uma áurea de princesa. Era assim que se sentia. Colocou um suave perfume e ligou para o disk taxi.

Nunca se viram, moravam em locais diametralmente opostos na cidade, freqüentavam praias diferentes, estudaram em colégios distintos e por ironia do destino, apesar do gosto pela dança, pelos bailes, a falta destes na cidade não permitiu que se conhecessem.

Chegaram em momentos diferentes na casa de espetáculo aonde se realizaria o tão aguardado baile. Ele, despreocupadamente, conversava e brincava com os amigos. Ela, junto com algumas amigas que havia combinado, dava os últimos retoques, umas nas outras, aquelas coisas de menina! O baton, um fio puxado na blusa, mas acima de tudo era o estômago gelado de expectativa para os acordes iniciais! - “Será que alguém vai me tirar para dançar?” Não gostava da idéia de ficar na “rodinha de amigas” e todas serem chamadas para dançar, menos ela. Sempre teve este medo, talvez por causa da sua timidez nunca tratada.

As luzes se apagaram, o naipe de sopro atacou e a banda correspondeu. A música que inicia o baile é fundamental para o bom andamento das coisas, tem de ser um tema de tirar o fôlego, arrastar as pessoas dos cantos para o meio do salão.

A nossa menina ficou sem fôlego, seus olhinhos brilhavam e ela foi bem para o meio do salão e começou a rodopiar, dançar, sorrir sem parar. Era outro universo. Ali era o baile, tudo era mágico! Sentia-se como em um conto de fadas e a cada funk que a banda tocava, mais ela transcendia. Já não era ela, não tinha problemas, não tinha timidez, nunca foi triste, nada! E não adianta querer dizer o contrário, havia muita gente ali, mas a banda tocava somente para ela.

Foram cinqüenta minutos de êxtase e a banda deu a primeira parada. As luzes se acenderam, as pessoas se dirigiram umas para o balcão do bar e outras para o toalete. Era hora de ver quem estava e quem não estava, encontrar pessoas, trocar amigos e assim por diante. Quinze minutos, esse é o tempo, depois tudo se apaga, as luzes entram em frenesi, a banda recomeça e o real some, desaparece entre o assoalho, bem encerado, e o salto alto dela.

Foram quatro temas de ferver o salão, uma loucura! No quinto tema, o trompete irrompeu forte e vigoroso, o tom mudou, a cantora, no seu vestido longo de lantejoula dourado, assumiu o centro do palco e afinadíssima disparou uma linda e triste canção de amor:

“Olhe aqui, preste atenção, esta é a nossa canção. Vou cantá-la seja aonde for...”.*

Ela abaixou a cabeça, olhou para os seus sapatos azuis e antes que pudesse pensar qualquer coisa, sentiu uma mão firme e quente pegá-la pelo antebraço e perguntar: - “você quer dançar comigo?” Ela gelou, sorriu, passou o fino braço por sobre o ombro do seu gentil par e, o que se sabe, ou o que se diz, é que a banda nunca mais parou de tocar para eles. Ele com sua bota preta engraxada e ela com seu salto alto azul, nunca pararam de dançar...

Outro rapaz passou e gritou: - “tá na hora”! As luzes se apagaram, a banda estreou. De cá do meu canto, vi uma linda menina de vestido vermelho bordado de florzinhas coloridas e sapato de salto azul, deixar a garrafa de água mineral no balcão e se dirigir, sorrindo, para o centro do salão.

Roger Ribeiro.
17 de agosto de 2009.

* “Nossa Canção” – Luiz Ayrão

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Neve e Sertão!



Para minha amiga Yêdissima!


Dizia, sim! Dizia e não era só para mim não, dizia para quem quisesse ouvir! Não tinha mais idade para ficar temerosa de nada nem de ninguém. Havia rodado o mundo por três vezes, visto de tudo, acumulado sabedoria o suficiente para saber que não há nada pior do que a dúvida do não feito.

Naquele fim de tarde chovia. Nossa, como chovia! Caia água de todo o céu, não havia nem um pedacinho de onde, lá do alto, não emanasse água.

Calmamente andando, segurando no meu braço, ela falou:

- Ele sabe que a humanidade precisa se lavar.

Achei divertido aquele comentário e permiti-me um breve sorriso sobre o qual rapidamente ela comentou:

- Não tenha medo de sorrir da condição humana, ela é assim mesmo. Cultiva a felicidade, mas não consegue conviver com ela. Apossa-se de tudo e de todos sem saber que a única coisa que realmente possui é a si mesmo e, normalmente é a quem menos cuida, pois está sempre se agarrando ao exterior, às suas posses. Coitados iludidos, não percebem que estas não lhe pertencem.

Comentei que achava que estava muito cética naquele fim diluviano de tarde.

- A chuva é um deus que sempre nos traz melancolia, é o signo do recolhimento. É hora de sentar na poltrona do canto, junto à janela salpicada de água, tomar uma taça de vinho tinto bem encorpado e pensar nas perdas. Nunca conheci ninguém que tramasse uma ação vibrante em um dia de forte chuva, a não ser que já tivesse agendada uma reunião ou uma atividade antes da chuva mostrar-se por inteira.

- Você está com uma conversa típica do Jorge Mautner. Esta coisa de deus da chuva e do vento... Vocês são devotos dos mesmos signos do universo.

- Ora, mais é claro que sim, veja como ele não é um tolo qualquer! Você já viu ou ouviu por aí as pessoas comentando a poesia e a música dele? E seus discursos? Estes então... Pois, é o que te digo: são pessoas especiais. É na chuva meu filho, que você conhece verdadeiramente as pessoas.

Fiquei refletindo um bom tempo sobre essa frase: “é na chuva que se conhece verdadeiramente as pessoas”. Andando vagarosamente de braços dados com aquela senhora octogenária, percebi uma série de interpretações para essa frase. Lembrei também de uma série de pessoas que não escuto as pessoas nos transportes coletivos, nas filas de banco nos corredores das feiras livres comentarem sobre elas.

Em compensação lembrei-me de uma série de pessoas que são comentadas em todos os lugares e, de repente, essas pessoas me pareceram com cara de amendoim cozido, cerveja na praia, pastéis de feira. Dei risada dessa analogia e me senti meio preconceituoso, meio esnobe. Para fugir dessa sensação perguntei a minha velha amiga:

- você nunca se sentiu comum?

- Eu, nunca! Casei quatro vezes todas com homens lindos, cobiçados e ricos. Por isso, tive a oportunidade de viajar o mundo inteiro por três vezes e de todos os anos ir à Rússia(URSS, na época) e a Paris! Ah! Todos falam de Paris, mais são uns bobos, falam porque têm medo de serem julgados como ignorantes. Mas te digo: não há lugar no mundo que se compare a Rússia.
Ali sim, os seres humanos são enigmáticos, ninguém é inocente. Todos são culpados. Lembro que meu segundo marido era um bom homem, diplomata, um intelectual prestigiadíssimo, recebido em todos os palácios e todas as academias, mas não se sentia culpado. Não tinha a necessidade de sair na noite escondendo-se nas sombras, não temia os dedos em riste a lhe apontar. Por isso, por anos, coloquei sonífero em seu chá noturno e quando ele desabava, eu saia a desbravar aquele universo de neve, de olhares fugidios de cumplicidades terríveis. Ah! Vida, vida... Nunca me arrependi de nada, sempre dei o melhor de mim a todos ao meu redor, mas sempre vivi como os vestidos das ciganas, voando ao sabor do vento.

- Mas Paris não é o encanto que todos falam? Há pouco, li que o Chico Buarque quando quer se concentrar em um trabalho vai a Paris.

- Sim, é verdade, mas veja bem; o Chico é lindo, mas sua reflexão artística é floreal demais, até quando busca refletir sobre algo mais denso, não consegue passar do Arpoador. Ele é lindo, possui frescor, diverte, mas está longe, muito longe, da tensão humana que se encontra na Rússia, na Bulgária, na Sérvia, no Sertão brasileiro, nas pequenas vilas andinas. Sim meu jovem amigo, veja, por exemplo, o alemão Nietzsche foi para a Basiléia na Suíça, Freud na Áustria e Luiz Gonzaga no sertão. São exemplos de homens que mergulham na condição humana.

- Nietzsche, Freud e Gonzagão!? Assim já é demais minha querida amiga, é hora de pararmos e tomarmos um café. Já estou ficando louco.

- Então estamos no caminho certo!

- Por favor, dois cafés.

- O meu com conhaque!

Não resisti, olhei-a fixamente e desabamos em uma sonora gargalhada. Ela me deu um beijo estalado na boca e nada mais dissemos naquele chuvoso fim de tarde.

Roger Ribeiro.
31 de julho de 2009.


quinta-feira, 30 de julho de 2009

Você viu, não ?!


De longe já percebi que nada de novo havia. O ambiente continuava o mesmo. A mesma lâmpada horizontal fluorescente continuava, insistentemente, a oscilar apesar dos clamores de nós, assíduos freqüentadores daquele “clube de debates avançados e profundos da condição humana” (como nos referíamos carinhosamente ao nosso boteco de quatro portas em uma das esquinas mais movimentadas da cidade). Um local para bons e poucos.

Como sempre a turma da fumaça se põe nas portas, é uma regra consuetudinária de convivência civilizada. No balcão, um banco giratório de um pé fixo serve apenas para demarcar os círculos humanos e a temáticas que ali se estabelecem. Do lado interno do balcão, o querido Chico. Ele sempre esteve lá, existe uma aposta de quem primeiro esteve naquele recinto, se o velho Chicão ou a garrafa de aguardente Jacaré, que já não se fabrica há décadas e que aquele, talvez único exemplar na face da Terra, de tão idosa possui uma crosta de mais ou menos uns dois centímetros de poeira agregada.

Fui chegando e logo saudado longamente por todos. As piadas são geralmente as mesmas: “veio só hoje?”, “já íamos por falta!”, “vai tomar seu yogurt de ameixa?” E assim vai... Toda semana é a mesma coisa, cada um que chega, as piadas se refazem. Antes de definir em que circuito temático me estabelecerei, vou ao “confessionário”, ou seja, o último banco do balcão, no interior máximo do nosso phanteon, é reservado para a chegada. Explico melhor: o cabra chega, tira o paletó, se for o caso, pede para o Chicão guardar (paletó, pasta, livros, etc), e ali pede o primeiro líquido a ser sorvido.

Esse é o chamado “confessionário”, é o momento de se desligar do universo externo, abandonar os problemas do trabalho. Lá só é permitido problemas de natureza política ou passional, de trabalho jamais!

Sentado no “confessionário”, produz-se a geopolítica de seu estar. Hoje, por exemplo, definir que iria começar pela roda do futebol, afinal ontem teve jogo e as resenhas estão fresquinhas. Depois irei para o setor da política local, debates acalorados sobre a administração municipal e estadual, por fim, encerrarei no círculo da política nacional e internacional. Hoje, excepcionalmente, pularei a área de enfermidades e policial. Meu dia já havia sido complicado o suficiente.

Ainda no “confessionário” algo saiu do estado natural, percebi que alguém se aproximou e, rompendo o isolamento tradicional do local, colocou pesadamente a mão no meu ombro e sem gritar, porém com um tom de voz possante afirmou: -“se ainda não passou, vai passar!”.

Olhei assustado para o interlocutor e exclamei:

- Como?

- Não sou papagaio para ficar repetindo as coisas, sendo assim, preste atenção.

Entre espantado e incrédulo, busquei ao meu redor uma explicação, um olhar de solidariedade, alguma coisa que me dissesse que aquilo era real.

- Mas, meu amigo, o que deveria ou deverá, sabe-se lá, passar?

- Você não percebe? Estou sendo o mais didático possível. Se você prestar atenção irá entender e não necessitará ficar com essa cara de pata chocando o ovo da avestruz.

Nossa!!! Uma pata chocando um ovo de avestruz?! Que cena mais pitoresca. Procurei ver meu rosto no espelho oxidado das prateleiras ao fundo do balcão, queria ver o que significava aquela cara. Ele continuou:

- Venho sempre aqui e vejo você sempre com esse jornal debaixo do braço, esse olhar absorto como se a vida lhe permitisse esse isolamento exotérico. É bom ficar atento, pois pelo que estou percebendo ainda não passou, mas não se iluda, não tardará. Vai passar.

Levantei, me desloquei do confessionário, pois Chicão havia me sinalizado que estava demorando demais no local e novos clientes chegavam e precisavam se desintoxicar do mundo exterior.

Fiquei de pé, entre o círculo dos debates acadêmicos e as resenhas esportivas. Olhei para o homem da voz possante e tentei lembrar se já o tinha visto ali, ou em qualquer outro local. Passei a observá-lo mais atentamente. Ele era muito magro, alto, devia ter quase dois metros, e postava-se curvado para frente naquela postura que, não sei bem porque, sempre atribui aos tuberculosos. Sua face era de um branco cera, os olhos enormes e amarelados, o nariz era a mais perfeita descrição do que chamamos de “nariz de turco”, e das enormes orelhas saiam tufos de pelos pretos e brancos.

Vestia-se muito bem, trajava um terno completo cinza escuro e era um único habitante daquele “clube recreativo e cultural” que não havia deixado o paletó ao encargo do Chicão. Também não folgou a gravata, usava um sapato preto bico fino tão lustrado que dava para utilizar como espelho. Após a minuciosa checagem disparei:

- Amigo! Eu sinto te dizer, porém a metade do seu pensamento ficou só na sua cabeça, você falou parte do que pensou e como conseqüência ficou incompreensível!

Olhou-me com estranheza, segurou no braço do primeiro que passou e perguntou:

- Rapaz, me diga uma coisa, já passou?

- Não, desde que cheguei e isso já tem umas duas horas, ainda não passou.

- É... não estou entendendo esse atraso?

- É verdade, isso nunca ocorreu! Mas uma coisa é certa (esticou o pescoço e olhou para fora como se a constatar alguma coisa), vai passar.

- Sim, disso não tenho a menor dúvida, se não isso tudo já não existiria. Não estaríamos aqui.

Resolvi que era mais do que hora de esclarecer o que se passava. Pedi outro drink ao Chicão, me virei para ficar bem de frente ao meu eloqüente companheiro de bravatas de tavernas e procurei ser o mais claro possível:

- Afinal amigo, que diabos é que vai passar? Ou passou? Ou sei lá? Se não passar, tudo vai se acabar...

- Pelo amor de Deus, não diga isso! Beba rápido! Beba um gole, lave a boca e nunca mais diga isso. Você está ficando louco? Quer por em perigo a todos nós?!

Virei-me para o garoto que ele havia interceptado, mas ele já não estava, se locou no círculo da temática de gênero (pornografia sexual, na verdade). Perguntei à todos e a ninguém ao mesmo tempo, ampliei a voz para que todos me ouvissem, inclusive a área dos fumantes:

- Alguém aí, pode me explicar o que está acontecendo?

- Pssssiu, fale baixo. (Falou-me o enigmático homem de cinza)

Enfim curvei-me aos fatos e bradei ao vento:

- Tudo bem! Vamos sentar e esperar, não deve demorar a passar.

Sussurou-me:

- Disso tenho certeza.

Um vento muito forte passou por toda a extensão do boteco e uma velha negra acompanhada de uma criança entrou pedindo colaboração para a festa de Santa Bárbara.

De uma coisa eu tenho absoluta certeza agora. Que vai passar vai.

Roger Ribeiro.

24 de julho de 2009.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Rabugento, eu?!

Ela vivia aflita, acordava uma “pilha”, os nervos à flor da pele. Falava sem parar, pouco ouvia o que as pessoas a sua volta tentavam em vão alertar. Da janela de minha sala a via agitada, falava tão alto que, com o tempo, passei a participar de todas as questões que envolviam aquela família.

Como se já não bastasse, pegávamos de segunda a sábado o mesmo ônibus, ela descia um ponto antes de mim e sua aflição era tão grande que também no transporte ela não parava de falar. Falava tanto que encontrou uma “parceira”, que também pegava o mesmo transporte todos os dias, formavam uma dupla pictoricamente fascinante: ela, a minha vizinha de janela, era magérrima, os cabelos pretos escorridos e um corpo longilíneo, a impressão era que seus braços, finíssimos, eram compridos demais para o restante do corpo. Já sua amiga de percurso era o oposto, negra, baixa de corpo todo arredondado. Ou seja, era o encontro entre Caribé e Toulouse Lautrec.

As duas eram um capitulo a parte do dia, seja o meu, seja dos cerca oitenta por cento dos ocupantes daquele ônibus. Digo oitenta por cento, pois esses eram os assíduos daquele barulhento transporte coletivo. Os outros vinte por cento eram transeuntes sem vínculos emocionais com aquela, a essa altura, comunidade matutina.

As duas não disputavam a atenção, elas simplesmente não se ouviam. Enquanto uma falava, alto, a outra também falava e, igualmente alto. Vez por outra alguém se arvorava a entrar na conversa, sugerir um medicamento caseiro, uma simpatia, um tratamento alternativo, pois, claro, o assunto predileto das duas eram doenças. E olha que o cardápio era variado. Quando nada as atingia pessoalmente, partiam para os entes próximos, o irmão, a mãe, o cunhado... Cheguei à conclusão de que eram solteiras e sem filhos, pois nunca falavam das mazelas nem de maridos nem de filhos.

Da minha janela via que moravam crianças no apartamento dela, porém, nenhum homem, pelo que consegui perceber eram três mulheres, sendo uma mais velha que acabei por confirmar ser a matriarca, ela e mais uma moça, não sei se eram irmãs. Como não brigavam nunca cheguei à conclusão, aleatória, de que eram amigas e não irmãs. Residiam também quatro crianças, de idades que, suponho, variavam dos quatorze aos oito anos, chamavam-na de tia.

De dona Domingas, descobri seu nome, pois esta era amiga do cobrador do coletivo que invariavelmente a cumprimentava: -“Bom dia dona Domingas”, não mais que isso, pois se perguntasse, por exemplo: como vai? Vixi! Seria bombardeado por dores das mais variadas, rim, cabeça, varizes, e mais um cem número de dores e incômodos. Só o vi fazer-lhe esta pergunta uma única vez. Parece que aprendeu.

Já a minha vizinha, de janela (já que morávamos em prédios diferentes), nunca soube o nome. Em sua casa chamavam-lhe de Jó. O nosso querido cobrador dirigia-lhe um respeitoso “bom dia senhora!” e assim ficávamos.

Tenho de admitir que por mais difícil que estivesse a vida por esses tempos, não havia mau humor que resistisse às agruras de dona Domingas e dona Jó. Às vezes eu mesmo, acordava preocupado, afinal as contas só cresciam e o salário, por variados motivos, só encolhia, mas quando chegava no transporte e via aquelas duas a duelar quem sofria mais, quem conhecia mais a dor da vida, o sofrimento na pele, aí meu amigo minhas preocupações se tornavam insignificantes, como se diz por aí, coisa de menino mimado.

Um dia, cansado da rotina de descer sempre no mesmo ponto, fazer sempre o mesmo caminho, na mesma calçada esburacada, parar na mesma banca para comprar a pastilha para a garganta, resolvi descer no mesmo ponto de Jó, afinal era apenas um ponto antes do meu, seria até um bom exercício, principalmente para a mente. Dizem que é ótimo para fortalecer a mente, trocar sempre os caminhos, assim sendo desci logo atrás de Jó e fui lentamente caminhando a uma distância que não permitisse a ela achar que estava sendo seguida.

Passamos por dois quarteirões em linha reta até chegarmos a uma pequena praça onde se avolumavam muitos velhos mendigos e crianças de rua. Ao avistarem a Jó, dois pequenos vieram rápido pegar a bolsa e a sacola que fazia parte do traje diário. Parei e de repente ouvi um menino maior gritar: - “olha lá vem tia Dó”! Virei rápido e lá vinha toda “rebolante”, com um enorme sorriso no rosto a Domingas, trazia um carrinho de mão cheio de livros.

Parei, em uma banca próxima e fiquei por horas ouvindo Jó e Dó, se revezando em contar história, fábulas cálidas que não ouvia há quase cinqüenta anos. As duas riam, colocavam os menores no colo, ralhavam com os mais velhos que haviam feito algo errado. O tempo ali era eterno e feliz.

Caminhei para meu trabalho, assoviando a canção Sandra, e com uma sensação estranha. E dizem que quem ri à toa é que é feliz!

"Maria de Lourdes, porque me pediu uma canção prá ela?...."

Roger Ribeiro

20 de julho de 2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Se fossemos apenas vozes




Pegou o telefone. Acabara de chegar da corrida diária e enquanto não estancasse o suor não adiantava tomar banho, leu o número anotado em um pequeno pedaço de papel e ligou. Não havia sido uma ação premeditada, nem mesmo sabia em que momento decidiu por ligar, mas ligou. Nem chamou, caiu direto na caixa com aquela voz inconfundível ameaçando que o número chamado estava indisponível e que após o toque iria para a caixa de mensagem sujeita a cobrança. Desligou rápido, antes que a ameaça se concretizasse, afinal não era uma ligação para um comunicado, era apenas uma ligação.

Para variar estava meio atrasado, os afazeres eram muitos, porém o bolso e a conta bancária não correspondiam àquela eterna correria a que estava exposto. Por isso, ao pegar o telefone sentiu uma alegria irresponsável, pois estava realizando algo completamente fora do espartano rol de afazeres do dia! Ora, fazer o quê? Este hiato de tempo se impôs, portanto não era culpado. Podia ficar parado matutando, olhando para o teto, para o chão, andando nervosamente pelo pequeno apartamento... Então dentre as opções, fazer a ligação era a melhor, já que tem de ser... Que seja, não é mesmo?!

Com a frustrada tentativa de comunicação, rapidamente mudou de rota e foi encher uma vasilha para molhar as plantas que habitavam com ele o apartamento trazendo um ar alegre, quebrando a solidez fria das paredes que separam pessoas, vizinhos. Lembrou que não conhecia sua vizinha, passou por ela umas três vezes, olharam-se e trocaram um “olá”, ao qual obteve como resposta um “tudo bom?” de passagem e que não carecia de resposta, era algo automático. Na página 62 do livro dos diálogos automáticos está lá: vizinhos. Ali, você encontra este profícuo diálogo narrado acima. Sabia que ela era muito bonita e sempre pensava: um dia que não estiver com tanta pressa direi isso a ela.

O telefone interrompeu sua ação e seus pensamentos. Deu um passo e já estava à frente do pequeno aparelho fixado na parede. Atendeu:

- Alô... Alouu...

- Alô... Tio Raul?

- Quem? Nãã...

- Olha estou retornando uma ligação que estava gravada aqui no meu aparelho de uns minutos atrás.

Mas a voz não correspondia ao número! No fundo ouviu alguém falando:

- avisa que o número é meu.

Achou engraçado, acabara de estabelecer por apenas dois aparelho um triângulo de conversação. Reconheceu a voz dona do número. Não havia portanto ligado errado, apenas a pessoa que retornou não era a dona do número e sim uma voz alocando um número que não lhe pertencia, porém com autorização da voz que mora naquele número. Lembrei da parede, da vizinha, do livro de diálogos automáticos e imaginei que aqueles sólidos e frios aparelhos possuíam o mesmo signo das paredes dos apartamentos.

No tal do livro dos diálogos deve ter assim: telefone. Quando tocar, deixe-o tilintar por três vezes, assim não demonstrará ansiedade pela ligação, então diga: alô. Aguarde a resposta. Se perguntarem quem está falando, não responda. Afinal, quem ligou é que tem de se identificar. Então pergunte com quem quer falar... E assim vai.

- Ah! Sim, fui eu que liguei mesmo.

Fiquei esperando que a voz não pertencente ao número falasse novamente. Necessitava me certificar de uma coisa.

- Sim, espera um pouco que vou passar o aparelho...

Confirmei! Não estava enganado, era uma voz encorpada, grave e afinada, não variava de tom em meio às palavras, apenas nos momentos certos variava a entonação. Uma mulher de voz forte, grave, firme.

- Espera! Se eu fizer uma canção você canta?

- Heim!? Não entendi?

- Se eu fizer uma canção, você canta?

- Mas eu não sou cantora! Sou apenas prima da dona do número, que por sinal está aqui do lado pra falar com você.

- Mas você nunca pensou em cantar? Ou melhor, cantar não é pensar, cantar é cantar e pronto. Você nunca cantou?

- Bem, cantar aqui e ali nas rodas de amigos a gente canta, não é? Mas daí a cantar mesmo... Nunca!

- Pois saiba que não consigo ver você fazendo outra coisa a não ser cantar!

- Mas você nunca me viu!

- Sim! Mas olhe só, estou em um número e você em outro, ligados por cabos e mais cabos. Eu nunca te vi, mas já falei mais com você do que com minha bela vizinha que já vi por três vezes e que estamos a apenas uns doze centímetros de distância um do outro. E mais, não tive vontade de fazer uma canção e nem tão pouco de convidá-la para cantar.

Ouvi risos e a voz arrendatária do número do aparelho que falava comigo comentou, provavelmente com a dona do número: - ele é louco é? Confesso que apurei a concentração para saber o que falavam. Ao fazer isso percebi que mais ao fundo tocava uma música, era uma canção antiga e muito dificilmente poderia ser de um rádio, afinal conhecia bem o perfil das rádios dessa cidade e seus programadores, achei difícil que algum deles me surpreendesse programando aquela faixa, daquele disco para ser executada naquela hora, um pouco adiante da “hora da Ave Maria”.

Elas riam do outro lado e não conseguia perceber o que era tão engraçado, mas se alguém ri com você é um bom sinal, né? Já imaginou se as pessoas olhassem para você e desabassem em pranto!? É melhor produzir o riso, não é mesmo?

A voz mudou, a dona do número havia resgatado-o.

- Olá, como vai? Já correu hoje?

- Acabei de chegar dela e, pra variar, já estou quase de saída para o trabalho, o terceiro turno!

- Nossa! Não acredito... Você ainda vai trabalhar hoje?!

- Pois é, é um hobby que desenvolvi para não ficar entediado!!! E você, passeando muito? Matando a saudade da terrinha?

- Pois é, morro de saudades daqui. Devagar vou revendo a tudo e a todos. Aliás, quando vamos nos ver?

- Olha vai ser um pouco complicado, afinal você já sabe não é mesmo?

- Sabe o quê?

- Ora, desde uns trinta dias atrás, estamos em planos diferentes. É tudo igual sabe, mais os planos são diferentes e um não perpassa para o outro enquanto estiverem nessa condição.

- Mas como assim? Você está bem?

- Sim, apenas em outro plano. Olha, tenho de ir, divirta-se muito aí, heim! E lembre-se do que diz a música que tava tocando. “A íris do olho de Deus tem muitos arcos!”.

Um beijo, até um dia.

Clic.

Roger Ribeiro.

10 de julho de 2009.