segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Porque arrancaram dali?



Era apenas início da noite, mas ela estava pronta. Vestia um vestido longo vermelho combinando com o batom e o leve avermelhado dos olhos de quem passou o dia a chorar.

Aos muito alvos pés, uma sandália cinza escura de fino e altíssimo salto, seu passo era de uma elegância impar, caminhava como se o tempo jamais fosse chegar ao seu derradeiro minuto. Tudo a sua volta assumia um ritmo especial, algo entre John Coltrane e Hermeto Pascoal, nada ia além do alcance entre a sua longa perna direita à frente e sua alva perna esquerda atrás, o mundo inteiro cabia no vão desse passo.

Foi assim que saiu naquela noite, parecia ser uma noite como outra qualquer, mas havia um detalhe diferente, algo que nunca ousara e seria ali, naquela noite de lua minguante, bem rente à água da Baia de Todos os Santos, quando esta, a lasquinha de lua, já quase tocava a ponta do templo de Mar Grande, que se daria o novo.

Para tanto, cobriu-se de detalhes nunca usados; nos longos cabelos postou uma flor lilás natural, ao redor do pescoço descansava um colar de pedras verdes que produziam um efeito de vida junto ao vermelho esvoaçante do vestido, no rosto nenhuma pintura a não ser o inseparável batom vermelho. Na cintura um pano de renda branco transpassado de finos fios prateados que refletiam a fraca luz do luar.

Não pegou o carro, que ficou estacionado na calçada em frente a sua casa, saiu andando, nenhum transporte ela quis, era noite de passos largos, passos que há muito já deveriam ter sido dados.

Passou por um grupo de rapazes jovens que a olharam, tiveram vontade de lhe cortejar, porém sua presença era tão intensa, tão enormemente presente, que nada conseguiram dizer, calaram-se e apenas acompanharam aqueles longos passos portadores de universos.

Parou no bar de uma esquina escura onde um grupo de milenares e diários freqüentadores comiam queijo velho, ou lingüiça banhada na gordura e tomando suas bebidas, discutiam futebol.

Ali comprou um cigarro a retalho; pediu fogo, não fumava há anos, mas não havia perdido o charme de segurar o cigarro quase na ponta dos dedos e tragá-lo deixando passeando a centímetros do seu rosto a fumaça, que caprichosamente navegava demarcando-lhe a silhueta e azulando sua negra cabeleira.

Pediu também um copo de conhaque. Ao erguê-lo expandiu o vermelho paixão de suas unhas compridas e bem torneadas, tomou de uma só vez, pagou e retirou-se, deixando naquele bar, sujo e fedido, uma ar nobre. Todos ali se entreolharam, o tempo havia parado, tudo se passara entre o inspirar e o expirar, não mais que isso.

Os carros passavam zunindo, paravam, retornavam, buzinavam, mas, na hora em que os seus ocupantes fixavam o olhar nela, nada conseguiam dizer, nem ao menos uma carona conseguiam oferecer-lhe. Algo os impedia, havia um campo magnético, um campo de força que impedia todas as emoções e vibrações dela aproximar-se. Estava efetivamente em outra sintonia, em outra dimensão.

Andava impassível, carregava na mão uma pequena bolsa de cetim azul que apesar de forte presença, só fui notar quando se deparou com um grupo meninos e meninas de rua e abrindo a pequena azul bolsa distribuiu as cédulas que ali portava. Não sorria, aliás, em todo este trajeto não a vi sorrir em momento algum, porém, não possuía um semblante carrancudo, enfezado, longe disso, muito pelo contrário, possuía uma fisionomia de paz, de tranqüilidade. Só não sorria, não arreganhava os dentes, nada ali era fácil, muito menos um sorriso.

Parou abaixo de uma frondosa árvore. Impassível olhava para o infinito, não demonstrava ansiedade, aflição, pressa... Nada a atingia, era como se estivesse em uma dimensão paralela, era, ao olhar dos que trafegavam, uma imensa flor vermelha moldurada pelo verde escuro da árvore a enfeitar o universo.

Do nada ele veio, seu passo era seguro, daqueles que parece estremecer o chão. Sua tez amêndoa, um perfeito caboclo baiano, de cabelos brancos que lhe conferia a inconfundível aparência de Dorival Caymmi, o “Buda Nagô”, como muito apropriadamente observou o poeta Gilberto Gil, também não sorria. Sua elegância se impunha; todo de linho branco com cinto e sapato negros de lustro forte, ponta de lenço ressaltado no bolso esquerdo do blazer e anéis que lhe brilhavam em todos os dedos.

Chegou sem pedir licença, recebeu um leve sorriso, o primeiro, daqueles olhos avermelhados, trançaram-se os braços e saíram a andar como rei e rainha por sobre a cidade.

Dirigiram-se ao bairro da Ondina onde em uma área circular começaram a bailar. Não se deram conta de que estavam em uma ruína circular, um escombro do que um dia deveria ser uma praça, uma área de lazer, mas que repleta de lixo, de um mau cheiro entranhado de anos de descaso, não passava de um depositário do escárnio da sociedade soteropolitana.

Nada os atingia, rodopiavam, reinavam leves, flutuando, revivendo aos meus olhos quando há tempos neste mesmo local brilhavam, girando, girando ao centro do picadeiro do Circo Troca de Segredos, ao som da Grande Orquestra do Maestro Vivaldo Conceição.

Roger Ribeiro
26 de agosto de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quem falará?


Eram quase onze horas da manhã quando ouvi aquele barulhinho inconfundível de papel passando por baixo da porta, lembrei imediatamente do comentário do meu amigo Pedro Santana: - “e os códigos de barra continuam passando por baixo de minha porta!”.
Aproximei-me da porta para apanhar a nova conta, sim! O que mais seria?

Olhei, olhei novamente e percebi que aquela correspondência era nova. Parei, pensei: ora, não fiz nenhuma compra, não adquiri nada de novo a não ser os problemas de sempre, o que seria aquela correspondência com ar sério, parecia uma intimação! Minha nossa será que me descobriram? Brinquei comigo mesmo.
Deve ser alguma propaganda, afinal correspondência em papel, por debaixo da porta hoje só existe duas: ou é conta a pagar ou propaganda para que você venha, em futuro breve, adquirir nova conta a pagar.
Lentamente e, confesso, até com um certo temor, abaixei e peguei o dito envelope. Abri com cuidado e... Lá estava:
- pt. Encontre-me 20 horas pantera pt assunto urgente pt não falte pt barba.
Caramba! Falei alto, é um telegrama!? Isso ainda existe? Senti-me no túnel do tempo, havia voltado ao século XX! Incrível ainda existir tal comunicador e, mais incrível ainda, alguém ainda passa (como se falava) um telegrama para outrem! É admirável, aliás, sendo do Barba, claro que seria algo admirável.
Você, que acompanha à revelia estas escritas, o conhece, é aquele mesmo que fala com a bota, que fala de sorrisos, poesias e etc. Quem ainda não o conhece, irá conhecer.
Mas, o que afligia o meu amigo assim para marcar algo tão imediato? E mais, pela seriedade do clube sócio-intelectual escolhido para a comunicação, realmente deveria ser algo grave.
Pronto, passaria eu agora o resto do dia até as 20 horas, tenso, avexado, agoniado para saber o que de tão importante havia se passado assim no mundo para tamanha extraordinariedade de comunicado. Lembro que a última vez que Barba marcou comigo assim algo tão sério e urgente foi para que convocássemos um conclave entre os seres de todos os universos para que se posicionassem a respeito da falta de critérios globais a respeito de uma doença tão retrógada quanto a AIDS.
Então veja você que meu querido amigo não é de ficar fazendo tempestade em pingos d’água, algo realmente estapafúrdio deve ter ocorrido.
Liguei para algumas pessoas mais próximas para saber se sabiam de algo, afinal, nesta manhã estava atolado com alguns textos para analisar e por isso não havia saído de casa, nem ligado o rádio, nem passado a vista no jornal que jazia sobre o pequeno e sujo sofá.
Não, ninguém sabia de nada extraordinário a este ponto. Eram as notícias de sempre... desabamento aqui, intransigências ali, gols de alguns, casamentos de poucos, o velho deixa disso e vamos àquilo, ou a kilo, como tem sido mais comum às notícias.
Terminei os textos, tomei banho, saí para o trabalho, fiz tudo o que tinha de fazer, mas confesso, tudo automaticamente. Não via nada na minha mente apenas o tom grave do telegrama de Barba. Será o Benedito? Pensei que os quatro meninos de Liverpool devem ter ficado no mesmo dilema que eu para poder anunciar ao mundo que “o sonho havia acabado”.
Cantarolei uma música deles, lembrei que não sei inglês e achei que os meninos de Liverpool poderiam ser os quatro meninos de Santo Amaro, qualquer santamarense de plantão certamente concordaria comigo, assim eles comporiam e cantariam em Português, o que seria, para mim, muito bom. Ou não!
E assim o dia se arrastava, problemas surgiam, se resolviam e eram reenviados a quem de direito. Documentos produzidos, resoluções tomadas, dúvidas brotavam aos borbotões. Ainda no início da tarde fui convocado a uma reunião, daquelas que se dizem importantíssimas, até começar, claro, depois desvelam-se inúteis, inglórias. Mas, apesar de tudo isso, o tempo, contrariando Cazuza, se arrastava, não passava de forma alguma.
De cinco em cinco minutos retirava do bolso, o já surrado, telegrama, examinava-o minuciosamente em busca de pistas, será que Barba não havia cifrado nada? Conheço bem a peça, sei que era capaz de deixar algo entesourado, escondido, algum enigma para só ser desvendado daqui há anos. Mas, não, desta vez não. Passei da curiosidade à preocupação.
Mesmo o relógio correndo oposto ao tempo, as conspirações da natureza foram maiores e enfim, o relógio bateu 19 horas, saí apressado, tão tenso que só notei já sentado no ônibus, que nem havia me despedido de ninguém, todos devem ter notado, afinal não era de meu feitio. Mas, paciência, depois pediria as devidas desculpas.

Cheguei ao largo do Chame-Chame, às 19 dezenove horas e 40 minutos, após descer do coletivo, caminhei lentamente até o “Clube Recreativo Cultural para Marmanjos Calejados A Pantera”, de longe avistei o Barba. Não era difícil, pois seu corporal avantajado com sua longa barba vermelha e sua indefectível bota preta era perceptível a longas distâncias.

Percebi de longe que estava agitado, olhava para a bota com tensão, quase indignação. Gotas de suor estavam fixas em sua fronte. Temi, juro que temi e tremi, realmente a situação era mais grave do que imaginava.

Cheguei e antes de poder dizer qualquer coisa ele falou:
- Você foi pontual, mas esperava mais de você. Deveria ter chegado a pelo menos uns 30 minutos antes.
- Perdoe-me, não consegui sair mais cedo e...
- Não importa, você não sabe, mas estas pequenas coisas humanas não mais terão importância.
- Mas o que é tão grave assim?

Ele puxou-me pelo braço para um canto mais reservado, aproximou a boca de meu ouvido e com os olhos mareados disse.

- Toda a esperança que nutri durante toda minha existência frente a este nosso país se acabou. (pausa).
- O que houve Barba, diga logo.
- O JB, o Jornal do Brasil, irá fechar as portas. Agonizava, eu sei, mas sempre tive a esperança de que seríamos salvo no último minuto. Perdemos definitivamente o apreço pela evolução humana. É o fim (decretou).
Tremi, senti um frio correr na minha coluna. Nada consegui dizer, olhei para os seus mareados olhos e apenas pensei no amigo Felix de Athayde.
Colocamos nossas botas pretas em movimento, lado a lado, caminhamos sem nada dizer.
Não havia mais nada a ser dito.

Roger Ribeiro.
26 de julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sabe o que é que é?



Prééééééééééééeééeíiiiiinnnnnnnnnnnnmmmmmmmmm!

Levantei de um pulo só, o livro que lia chegou a cair da mão! O toque do apocalipse, só podia ser isso.

Prééééééiiiiiinnnnnnnnnnmmmmmm!

Nossa. Enfim voltei para o mundo dos mortais, era a minha campainha que estava tocando, aliás, tocando não: berrando. Meu coração estava disparado. Estava tão absorto na minha leitura, jamais esperava aquele som estridente e alto daquela forma. Tudo bem que é minha campainha, mas como nunca estou em casa e quem vem aqui normalmente chega comigo, poucas vezes eu a presenciei e, sempre que isso aconteceu me assustei, sempre pensei: - tenho que mudar essa campainha, preciso pôr uma daquelas que fazem Blllimmmm/Bllllommmm assim grave abafada, com cara de tia do interior. Nunca me lembro, só quando, trrrriiinnnnnnmmmm, aí; já foi...

Dirigi-me à porta e, como não tenho olho-mágico, que é outra coisa que só me lembro quando preciso usar, abri-a vagarosamente. Lá bem em frente, com um sorriso impassível no rosto, estava ela. Não devia ter mais do que um metro e cinqüenta e pouco, magrinha, bonitinha a danada, uns olhos brilhantes e o pezinho esquerdo, em uma sandalinha de couro, impacientemente batia no chão. Olhei para ela e ela olhando para mim sorria, por fim falou:

- Não está me reconhecendo?

Era uma voz linda, assim meio angelical, nem aguda nem grave, não era voz de menina, o que ao prestar mais atentamente atenção, percebi pelos finos sulcos ao lado dos olhos que não se tratava de uma menina, era uma mulher jovem.

Parei de delirar e pensei na pergunta que me foi feita, afinal o pezinho havia dobrado o andamento, o que significava que a impaciência também devia ter dobrado. Refleti, refleti mais um pouco e cheguei à conclusão óbvia; euzinho jamais havia visto aquela criatura em minha vida, e, juro, não precisava de tanto tempo para chegar àquela conclusão, afinal uma mulher linda como aquela, jamais se esquece. Respondi:

- Não. Deveria?
- Claro que sim, ou melhor, claro que não. É sempre assim, sempre chego, todos sabem que existo que estou por perto, mas quando chego... Nunca me reconhecem, tá vendo?
- O quê? (apontou para baixo)
- O meu pé, tenho sempre de pôr ele na porta se não as pessoas fecham. E se tiver olho-mágico e for mulher que vier abrir então!? Ah! Aí é que tô ferrada de vez!
- E se as pessoas fecharem a porta com medo, não irá machucar você?
- Claro, e isso acontece muito, vivo no departamento médico. O diagnóstico é sempre o mesmo: luxação no pé. Pronto, lá vou eu ficar pelo menos três semanas no “estaleiro”.
- Estaleiro é para navio, você é um avião (fiquei feliz de ter sido rápido no gracejo)
- Menos né meu filho! Avião de um metro e cinqüenta só se for em Liliput! (sorriu)

Sorri também, ela também era rápida, ou será que passava por isso o tempo todo?

- Sim, mas você não vai me deixar entrar, preciso sentar um pouco e de um copo de água bem fresquinho.
- Oh! Desculpe-me é que ainda estava respondendo a sua pergunta...
- Tudo bem, mas podemos continuar com esta conversa aí dentro, veja: não porto bolsa, meu vestido é largo, branco e de certa transparência... Tira o olho daí. Logo se estivesse portando uma submetralhadora, uma bazuca, um foguete bélico transatlântico, você já teria visto, não é mesmo? Portanto feche a boca, tá parecendo, bobo, levanta essa vista e me convida pra entrar.
- Tudo bem (fiz um enorme esforço para não gaguejar), entre, por favor.
- Muito obrigada.
- Sente onde achar melhor. Você deseja água ou quer um suco?
- Humm! Um suco é bom, não é mesmo? De que é?
- Olha tem de laranja e posso fazer um de lima rapidinho.
- Lima! Nossa eu quero, sem açúcar e com bastante gelo.
- Tudo bem, enquanto faço o suco poderíamos ir nos apresentando não é mesmo? Afinal acho, ou melhor, tenho quase certeza de que você bateu na porta errada. Por acaso você não é vendedora? Representante comercial? Ou o que seria mais louco ainda, uma obreira de uma destas religiões que vão à casa das pessoas com procuração divina, não é mesmo?

Olhei de canto de olho e vi que ela sorria de minhas colocações e que havia se levantado e passeava pela sala.

- Você tem um belo apartamento! Tem bom gosto, e sabe aproveitar bem os espaços, você é arquiteto?
- Não...
- Artista?
- Quem me dera...
- É... Deveria ser, pois é tudo muito poético aqui.
- Olha seu suco. E finalmente quem é você?
- Você e suas perguntas, não é possível que ainda não saibas quem eu sou!
- Posso ser sincero?
- Deve.
- Não faço a menor ideia, só sei que se pudesse pedir para papai do céu uma companhia para mim, seria igualzinha a você!
- Engraçadinho... Mas, não se preocupe viveremos juntos...
- Como? (tomei um susto que meu rosto bateu no chão e voltou), Mas como assim?
- Por um tempo.
- Ãh!? Você tá piorando bem as coisas...
- Onde tem um espelho?
- Só lá no banheiro.
- Vamos lá.
- Mas como assim, vamos lá? Nós acabamos de nos conhecer, você acabou de dizer que vai viver comigo, não temos a menor intimidade e você quer ir ao banheiro comigo?!
- Deixa de ser leso, vem logo.

No banheiro me colocou de frente ao espelho e perguntou:

- O que estás vendo?
- Eu. Porque deveria tá vendo algo mais?
- Veja aqui. (apontou para o espaço entre o nariz e o lábio superior)

Havia feito a barba naquele dia, ali não havia nada... Olhei para ela e percebi que estava com as mãos na cintura se balançando e batendo pezinho; acho que a paciência dela havia se esgotado. No meio da minha confusão mental...

Prrrrééééééééééééééééééeéééeiiiiiiiinnnnnnnnnnnnnnmmmmmmm

Não! (pensei), de novo não.

Saí do banheiro aliviado (enfim aquela maldita campainha havia servido para algo), atravessei a sala e abri a porta de vez... Não acreditei no que vi. Ali, bem na minha frente mais três lindas jovens mulheres tocavam, cantavam e dançavam, era uma festa. Olharam-me, pararam de tocar e uma delas perguntou:

- Minha irmã está?
- Quem?

De lá de dentro ouvi a voz:

- Amanhã! Há quanto tempo heim!? Entre... Fique à-vontade.

As três ainda do lado de fora falaram quase em coro:

- Felicidade! Puxa como foi difícil te encontrar.

Olhei para o meio da sala e lá estava ela, linda! Bem debaixo do meu próprio nariz!

Roger Ribeiro.
11 de junho 2010.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Ironia da História.



“Querido amigo Afonsinho” que bom encontrá-lo por aqui, afinal o Itamar Assumpção já partiu, foi lá encontrar com o Leminsk, que, te confesso, também poderia me ajudar, assim sobraram poucos, dos bons, e os que por aqui ficaram são raros, difíceis, quase impossíveis encontrar. Assim, creio que você possa me explicar: afinal o que está acontecendo?

Veja você meu amigo cabeludo, estou a cinco (anos-luz) dias da final da primeira Copa do Mundo da África, e a coisa mais sensacional que dela brotou foi a bola, ela, a redondinha, linda, escorregadia, a pelota, a tal da Jabulani... Tanta gente dela reclamou, mas o que seria desta Copa sem ela?

Veja só os três últimos maiores jogadores do mundo, todos três ainda novos e garbosos, chegaram ao Continente africano e partiram sem dizer para que vieram. Só ela, garba, driblando a todos, entortando os marcadores, os atacantes, os melhores goleiros do mundo dela tornaram-se vassalos. Desfilava bela, linda e solta pelas quatro linhas sem ser incomodada por ninguém.

O grande astro, o grande encanto foi a Jabulani, ninguém conseguiu dominá-la!!

Sabe Afonsinho, conheci o futebol através de uma bola marrom, que tinha a cara do Pelé estampada, meus pais traziam-na semanalmente do supermercado, sua validade era de uma semana, já vinha toda empenada, oval, parecia a cabeça do Edson Arantes mesmo, toda torta, por isso tínhamos de rapidamente desenvolver um talento enorme para dominá-la minimamente, mostrar quem mandava ali! E enfim, conseguir dar aquele passe perfeito. A bola nos obrigava a aprimorarmo-nos, termos talento. A bola estava sempre em desequilíbrio então tínhamos também de nos desequilibrar! Nós, a bola, ou melhor; a “ovoala”, as traves de chinela Japonesa e o goleiro.

Para piorar jogávamos em uma rua calçada de paralelepípedos o que fazia com que nossa Jabulani jamais descrevesse uma linha reta, portanto era necessário ser um Cezar Lattes, um Mário Shemberg, Einstein, ou algo do gênero para descrever trajetórias que levassem a um passe, um lançamento perfeito. Por isso quando revejo os lançamentos de Gerson, Clodoaldo em 1970, Mário Sérgio, Osni e Gibira em 1972, Zico, Sócrates, Junior e Falcão em 1982, tantos outros..., tenho a certeza de que eles devem ter começado pela bola Pelé.

Mais tarde, lançaram a bola Chuveirinho e por fim a Dente de Leite, aí tenho também certeza, o futebol começou a acabar, iniciou-se a Era dos batedores de falta, os torpedos humanos que só sabiam chutar forte, mas e o “elástico do Rivelino! Cadê?

Pois é Afonsinho, agora inventaram que estádios para as Copas do Mundo, tem de ser HI-TEC, cheio de balangandãs, novinhos, ultramodernos, grama quase de ouro, arenas não sei das quantas, salas Vips, centrais de irradiações alfa, beta e gama, um monte de periferia, um monte de dinheiro jogado fora e, eu te pergunto, prá quê? Tudo está lá, menos o futebol, mas pra que futebol se já tem tudo isso?

Você viu onde as seleções ficam?! Meu querido, marajá perde, são palácios, hotéis e clubes quinhentas estrelas, é um luxo absurdo em terra de famintos! É uma afronta, o povo de vuvuzelas chinesas na mão, literalmente soprando a felicidade na saliva e os “astros” banhando-se em “águas de prata”, sem dó nem piedade de exigir vasos sanitários mais custosos do que a renda mensal de um terço da população local somada... Vixi! Lembrei do que o velho Mané fazia nos campos enlameados Brasil afora.
É meu querido, transformou-se o mundo! A Olimpíada que nasceu para ser praticada na nudez e o futebol que se jogava nas várzeas do Brasil, Argentina, Itália e até mesmo na Alemanha, hoje só pode acontecer se milhões de dinheiros forem pegos emprestados, se milhões não forem parar na educação, na saúde... Só assim Afonsinho, “eles” terão certeza de que ninguém vai perceber que dia 30 de abril de 2010, a mais alta magistratura jurídica do nosso país disse ao mundo: NÃO EXISTE CRIME DE LESA HUMANIDADE!

Que vergonha que sinto amigo... Pior ainda será a crueldade da história se fizer da Holanda, uma das criadoras do regime do Apartheid a nova Campeã do Mundo, em plenos milionários estádios da África do Sul, sitiada de miséria por todos os lados.
Roger Ribeiro
07 de julho de 2010.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A GAROA TURVA




Para que minha amiga fique bem


- Venha para dentro, saia deste sereno, menina!

Ela apenas balançava a cabeça adornada com seus cabelos cor de ouro barroco. Tremia muito e os olhos estavam brasis. Suponho que estivesse febril. Na verdade, debruçado de minha janela, observava a voz e a menina. O que será que ela tinha? Era tudo muito rápido, as mudanças eram bruscas, por vezes parecia uma criança frágil, quase um bebê indefeso, suplicando que algum colo lhe aquecesse, logo em seguida era um rompante vulcânico, tornava-se enorme, engolia a própria sombra que se projetava a partir da luz do poste.

- Não se maltrate, seja uma boa menina venha para dentro, olha pegue esta toalha e tome um banho morno, você se sentirá bem melhor.

Novamente apenas os cabelos sacudiam em uma extensa negativa à voz cansada que quase escorria pela sarjeta junto a água da fina e fria garoa que se impunha entre o solo e a nuvem. Não a via cair, ela flutuava, estava estática no ar abraçando a tudo que fosse sólido e estivesse no espaço delineado por aquelas minúsculas gotas d’água.

Coloquei a mão para fora da janela para sentir aquele véu abraçá-la, abri um buraco na garoa que logo se ajeitou anatomicamente ao meu braço, resfriou-lhe e por segundos senti que havia dois sentidos em um só corpo, a úmida e fria pele, carne e líquidos do meu braço e o seco e morno resto do meu corpo.

- NÃO, não faça isso!

O grito da voz me fez voltar ao mundo real. Assustei-me e também gritei: PARE! Não faça isso.

Seguiram-se alguns instantes e a perna dela ficou no ar, não tocou o asfalto, um pé firme na ponta do meio-fio, o outro suspenso. O carro passou muito rápido, creio que ele nem viu a perna suspensa sobre o início do asfalto. Os pneus ergueram água o suficiente para encharcar-lhe o vestido. Fiquei surpreso, pois a garoa não molhava o vestido, as gotas se sobrepunham intactas sobre ele, não se partiam, não viravam água, permaneciam gotas.

Porém, a levantada pelo pneu não, esta formou uma parede sólida de água que se projetou violentamente sobre o vestido, este por sua vez que rendia a ela uma levitação, passou a sugá-la, colou no seu corpo e passou a pingar pela barra intensamente, e quanto mais pingava mais ela se esvaía, não era a água da poça sobre ela que pingava, era ela.

Vi-me aterrorizado, presenciava de minha janela algo fora, completamente fora de minha capacidade de entendimento. Ela perdia massa, peso, volume, cor! O chão a sua volta parecia ter enferrujado, ela se ia descendo a calçada, desfeita, e nada fazia.

- Não, Não, por favor não se permita isso...

“Não se permita isso”, esta frase dita a ela entrou por meus ouvidos como se fosse para mim. Abri os olhos com tamanha energia que lentamente, ela lá em baixo, perto ao poste que esticava a um sem fim sua sombra, que seguia o mesmo sentido do seu corpo que se ia, esvaziando o vestido branco, foi virando a cabeça em minha direção, lentamente ergueu a cabeça, retirou os longos fios de cabelo da fronte e mirou com seus olhos brasis o brilho alvo dos meus olhos.

De repente percebeu que não estava só, de repente percebi que também não estava só. Éramos eu, sobre a janela, ela sobre a bruma d’água e a voz deslocando o que havia de mais sólido naquele momento; o ar.

- O que você vê? Perguntou-me ela com uma fio de voz, mas que chegou a mim perfeitamente como se ela estivesse a apenas centímetros de mim.

- Porque me observas? O que queres descobrir? Não sabes que não se deve ater-se aos eclipses?

Percebi um contra movimento na calçada, as formas começavam a se reagrupar, subia-lhe pelos pés finos e alvos e re-preenchiam o vestido, os cabelos antes lânguidos agora esvoaçavam, eram como tocha, iluminavam aquele corpo antes frágil, agora magro, porém firme como se fossem de pau-ferro, seu olhar já não era brasil, mas sim de um branco cristal, impossível de fitar.

Por um instante tudo parou, estacionou o tempo e o espaço, a voz ficou suspensa no ar, meu gesto não se completou, estancou no meio do caminho, a garoa estática não caía, nada... Por longos segundos não houve nada, apenas ela transformava-se em um oceano de átomos girando sobre si mesma como um grande rodamoinho, era um clarão inimaginável, a luz da irrealidade, o clarão da loucura, a beleza da insensatez!

Quando o brilho cessou e o mundo voltou ao seu movimento normal, estava eu e ela dançando no asfalto molhado como um mestre-sala e sua porta bandeira, rodopiando, loucos de tanta alegria, enquanto a voz cantava a pleno pulmão:

- Quem é você?
- Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- ...que eu quero saber o seu jogo
- ...que eu quero morrer no seu bloco...
- ...que eu quero me arder no seu fogo
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão...Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
- Eu sou tão menina
- Meu tempo passou
- Eu sou colombina
- Eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Seja você quem for, seja o que Deus quiser.*

No meio da algazarra total percebi que no vestido branco dela, existiam minúsculas margaridinhas amarelas bordadas.

Roger Ribeiro
27 de maio de 2010.

*Noite dos Mascarados - Chico Buarque

terça-feira, 18 de maio de 2010

De onde raios viestes?


Apreciava leituras soturnas, vivia de sebo em sebo em busca das letras grafadas com asco, dizia que estes livros eram sempre encontrados em excelente estado de conservação, mesmo que fossem edições antigas, de vinte, trinta anos ou mais


Eram conservados por que ninguém conseguia lê-los, teorizava. – “Repare! Mostrava a quem lhe desse ouvido, veja como até a página 45 há marcas de dedos, de manuseio, porém a partir daí... Nada! Veja páginas virgens, nunca dantes vistas, lidas, acarinhadas”.


Sentava-se por volta das 16 horas em um dos bancos que ficam em frente ao farol da Barra, dizia que ali era o melhor lugar da cidade do Salvador, mas só a partir das 16 horas quando a sombra começava a se projetar sobre o gramado e o vento nordeste fresco, vindo do mar, sopra baixo deixando sua alma presa a você em ângulo reto, como um lençol preso ao varal em dia de vendaval.

Neste espaço, portanto, entre senhores que sentam para olhar as meninas passarem com seus trajes de corrida, colegiais que escapuliram dos muros das escolas para namorar ao por do sol, vendedores de bugigangas fedidos, desgrenhados, loucos para vender um colarzinho, uma fitinha para comprar algo que os entorpeçam, enfim em meio a uma “fauna” urbana doentia e instigante, ele sentava-se com no mínimo dois ou três amigos, como chamava seus livros, e retirava a âncora de sua caravela!

Deixou-se invadir pelas características do olhar sobre a obra. Sobre o lábio superior, um grosso bigode em total contraste com a tez clara cera, adornada por uma cabeleira rala e lisa, cor de cenoura, completamente irregular que combinava com a imperfeição linear do fino aro do óculos dourado de vidros grossos. Era realmente uma figura um tanto quanto exótica para uma cidade litorânea e tropical.

Um dia, o vi entretido com “A Hora da Estrela” da Clarice Lispector, percebi ao longe que algo o incomodava na leitura, parava repetidas vezes, balançava a cabeça, olhava para cima, levantou reclamou com a baiana de que o cheiro da fritura do acarajé o desconcentrava, ouviu um olhar de desprezo dela e nada mais. Sentou-se novamente e novamente entregou-se a Clarice de tal forma que passou a lê-la como se fosse um locutor de rádio-relógio.

Ficava meio agoniado, pois sabia que seu tempo era curto, afinal o local é mal iluminado, sendo assim quando escurece... Já não há mais possibilidade de leitura, os seres voltam às suas capas duras.


Escreveu várias vezes para os jornais, telefonou para as rádios e televisões pedindo solução para a questão da precariedade da iluminação, mas nunca obteve solução dos poderes constituídos. Também nunca teve esta esperança, afinal seu niilismo era afiado o suficiente para entender a mente e as ações do Ser Humano, principalmente aqueles que se julgam poderosos. A eles, a lâmina fria das letras de Schopenhauer.


Mas não julguem que sou um desocupado, que fico olhando a vida dos outros, não é isso, é que tenho uma bússola nata nos olhos que se atraem a seres diferenciados. Gosto de ver como se estabelecem e encontram espaço para serem assim em um mundinho tão limitado, tão previsível. Acho que busco através destes seres, alimentar em mim, a idéia de que é possível construir um universo paralelo sem que as pessoas fiquem o tempo todo dizendo que você é isso ou aquilo por não conseguir divertir-se com as carências alheias.

Meu amigo “nietzscheriano” me instiga de que algo pode e deve acontecer. Não se contentava em ser uma Macabéia, também não possuía a intenção de ser um astro, pelo contrário, divertia-se em ser apenas um corpo para dar vida a seres incríveis como “O Homem que Sabia Javanês”, ou Dr. Simão Bacamarte, ou Josef K, Brás Cubas, enfim milhares de Policarpos, centenas de Quaresmas espalhados entre o branco do papel e o negro da tinta, mesmo que seja nos confins das prisões siberianas, ou no quarto fétido ao fundo da loja de antiguidades.

Hoje, vou anotar a data para nunca esquecer, ele estava diferente, formal, sustentava em seu corpo esquelético um elegantíssimo terno escuro completo, usava um chapéu de feltro, cinza escuro, o sapato brilhava, o cabelo cuidadosamente penteado, só o óculos permanecia torto formando um ângulo de 45 graus com a linha dos olhos. Era outra pessoa, o que será que aconteceu? Ou o que será que iria acontecer?

Eram 16 horas em ponto, ele ergueu-se, pegou o pacote que estava sobre o banco, desenrolou cuidadosamente, ergueu o livro de capa negra à altura dos olhos e brandiu:

- No princípio criou Deus o céu e a Terra,
E a Terra estava vasta e vazia e havia trevas sobre a face das águas,
E disse Deus: haja luz; e houve luz.
E viu Deus que a luz era boa;
E fez Deus a separação entre a Luz e as trevas...

Sorri, ele enfim havia superado seus mestres. Hoje a noite se fez às 16 horas!


Roger Ribeiro

18 de maio 2010.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Brilho na Linha Amarela




Dizia ele:

- Quando não houver o que dizer, fique calado. Apenas observe. Se ela passar por você, fique nublado, deixe chover, escorrer pelo cabelo, descer pela coluna até o calcanhar mal disfarçado.

- Não deixe jamais trovejar, relampejar então, nem pensar, não que haja necessidade de ser um ator de teatro, não! Mas a faca entre os dentes é sempre um prenúncio de pecado, de desafio mal tocado, de seresta desafinada, de cordel mal ritmado. Escute o que te digo não há nada pior do que um choro mal chorado.

Ele andava de um lado para o outro em frente ao Rei do Pernil, no Comércio, onde não por acaso eu estava encostado no balcão tomando um refresco de tamarindo, bem geladinho, para aliviar o corpo interior naquela tarde abafada.

Fiquei olhando fixamente para ele e apesar do seu aspecto físico de louco, não via loucura em suas palavras, simpatizava com elas, achava-as até mesmo sábias. Será que ele havia passado por essas coisas de que se referia? Notei que olhou para mim com uma certa afeição, acho que percebeu que eu o dava atenção, aliás acho que eu era o único ali naquele balcão que notava-lhe a presença. Com um gesto, me pediu um pouco do meu refresco, pedi ao balconista que lhe servisse um inteiro. Paguei o meu e o dele e saí, meio constrangido, me sentindo meio mal ao perceber que o dele havia sido servido em copo descartável.

Saí cabisbaixo refletindo sobre a condição humana, lembrei que li algo de um intelectual local que traduzia as obras de Freud do alemão diretamente para o português brasileiro e que, em determinado momento ele dizia que era lento na ação e que traduzia uma página por dia (seria em busca da exatidão? Pensei), ri com ele ao dar conta de que ele havia encontrado uma função para toda a vida. O que seria que ele me diria sobre copos de vidro e de plástico na psique de um ser humano?

Lamentei que minha louca amiga tradutora também não mais estivesse com um mínimo de contato comigo, pois ela certamente saberia me dizer algo sobre tradutores e pessoas que passam o dia na rua traduzindo frases vagas, olhares, andares, sons emitidos, soluços fingidos, alegrias tristes, sorrisos sem dentes de ilustres desconhecidos que passam pela rua, sem notar-lhe a presença, mas dele não escapando. Sua tradução é afiada, é como dizia aquela antiga canção do Belchior: é como “um canto torto que como faca, corta a carne de vocês”.

Mas a diferença entre o meu copo de vidro e o copo de plástico dele, continuava a me incomodar apesar de eu entender a posição do dono da casa do pernil, que temia perder sua clientela se vissem aquele homem em estado natural, sem sabonete, perfume, xampu, cremes, dentifrício, aparelho de barba, nada, bebendo o seu refresco no copo de vidro que depois seria usado pela secretária executiva com seu talleur acompanhado de seu sapato de salto alto e fino, ornando com o cabelo preso na parte superior da nuca.

Não tinha jeito, mesmo entendendo a posição de coisificação humana do dono do pernil e também dono do refresco, não achava que ele fosse dono da verdade, muito pelo contrário, continuava achando que não haveria nada de mais em servir o nosso psicólogo social com o copo de vidro, situação de incômodo, diga-se de passagem, minha, pois ele não demonstrou nada, muito pelo contrário, pegou o refresco que lhe dei e saiu feliz e fagueiro, mas, julgava eu, era só lavar o copo, como, aliás, era feito após qualquer um ter tomado o refresco.

Eu ainda achava mais, afinal, e disso tinha certeza, da minha boca saíam muito mais besteiras, bobagens, comentários chulos, rasteiros, palavras feias, descabidas do que da boca dele. Portanto meu copo era muito mais sujo do que o dele, essa certeza me confortou e me envergonhou ao mesmo tempo.

Segui meu caminho, subi o Plano Inclinado Gonçalves, ultrapassei a Praça da Sé, o Elevador Lacerda, olhei com dor o abandono do Palace Hotel na rua Chile e resolvi entrar no novo Cine Glauber Rocha, para olhar uns livros, mas, principalmente, para me refestelar no ar refrigerado, fugindo do calor intenso.

Fiquei no ar frio de dentro observando as pessoas que passavam no ar quente do lado de fora. De repente revi o meu psicólogo social novamente. Vinha caminhando lentamente e largando suas observações para que o vento as carregasse, do nada parou, virou de frente para mim abriu um imenso sorriso de poucos dentes o que acabou por me seduzir a sair do meu aquário de ar frio. Chegou mais perto de mim, pegou no meu ombro e disse:

- Um sorriso é tudo o que o homem necessita, lhe foi dado uma caixa cheia e renovável deles, mas ele com seus medos o guardam, como fazem com seus bens, trancam no cofre do peito. Têm vergonha de dizer que são felizes onde tantos sofrem. Uns bobos.

Sorri para ele e como mágica brotou na minha memória o sorriso mais lindo que já vi em minha vida, ele vinha iluminando a cidade sobre a linha amarela da pista de automóveis entre a Barra e a Ondina, no meio da multidão.

Concordei com ele, sim uma linda raça de bobos! A sorte é que os melhores fabricam música!

Roger Ribeiro
06 de maio de 2010.


Roger Ribeiro
06 de maio de 2010.