terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sem tensão heim!


O despertador avisou, berrou, triliííííntou até ficar rouco, era hora de acordar. Bambo olhou em direção aos ponteiros, eram 6:00 horas de uma manhã já quente, uma nuvem ao longe indicava que em alguma hora poderia cair uma chuvinha rápida daquelas que só servem para evaporar e piorar em muito a situação. Não havia jeito, o mundo estava de cabeça para baixo e nem mais a primavera era respeitada, afinal cadê as borboletas? Sim! Onde estavam elas que tão fartas eram nas frescas primaveras e agora, creio, mal nasciam e o calor já derretia suas asinhas, borboletas sem asas, que coisa ridícula.

Sem outra opção levantou-se e calculou todo o tempo de que dispunha até sair de casa, era um ser de cálculos, gostava de calcular tudo milimetricamente, a sorte era que o que possuía de calculista possuía também de anárquico senso de humor, aliás, todos acreditavam que só calculava tudo para poder rir muito dos erros dos cálculos. Vivia se atrasando aos compromissos, sentia uma brisa úmida e calculava que dali a, no máximo, duas horas iria chover... Que chovia, chovia! Mas, dali a umas vinte e quatro horas!

De tudo isso ria muito e não cansava de contar a todos os seus erros de cálculos mais recentes, errava tanto que só de filho já estava no sexto, mas dizia que não erraria mais. Encontrei um dia com Maria, a sua gentil esposa, e perguntei-lhe (meio na galhofa): “e aí Ma, quando vem o sétimo?” Ela respondeu: “não, agora ele não erra nunca mais nos cálculos, operei, fechei a “fábrica””. Rimos muito, e ela me contou que agora a diversão dele era calcular os astros para acertar o destino profissional dos seis rebentos! Fiquei na dúvida se ela acreditava ou zombava do que dizia.

Dirigiu-se à cozinha e metodicamente lavou as louças da noite passada e produziu um café da manhã para os sete - a mulher e os seis filhos - cozinhou banana da terra, aipim, fritou ovos mexidos, esquentou leite, chocolate, pão, queijo, atum... Tudo sobre a mesa junto aos pratos e talheres. Para ele mesmo, só um café quente ingerido em pé e já com a toalha no ombro.

Banho, roupa leve, beijo na testa de Maria e... Rua, lá se foi ele para um dia importante, aliás, um dia esperado, aguardado com apreensão, com uma ansiedade daquelas que parece que não irá chegar nunca, mas chegou. Era o dia, após alguns meses das provas do concurso no qual a primeira colocação lhe valeria um pouco de tranqüilidade à mente e ao coração de alguém que viveu até então no universo draconiano do setor privado.

Entrou no velho e companheiro carrinho e dirigiu-se à Junta Médica do Estado para apresentar os resultados dos exames, que com certa dose de felicidade de dever cumprido, foi pelo caminho lembrando da “odisséia” que foi as duas semanas anteriores para fazer aquela lista interminável de exames:
a)sangue, esqueceram de dizer-lhe que deveria ter ido em jejum de doso horas (teve de ir duas vezes);
b)PSA, esqueceram de dizer-lhe que deveria ter, no mínimo, uma abstinência de 74 horas (mais duas vezes);
c)Sumários, esqueceram de dizer-lhe que deveria ser a primeira urina do dia, pois multiplique também por dois, começou a achar que os múltiplos de dois dominavam a vida na Terra.

Bem, mas havia vencido! O que poderia ter sido feito em, no máximo três dias, levou quinze para ser realizado, porém para quem esperou tanto... O que eram quinze dias não é mesmo?

Chegou ao local, parou o “Demolidor”, simpático nome de seu automóvel, aliás, carro, automóvel é outra coisa, no estacionamento do supermercado que fica próximo e dirigiu-se à aguardada Junta Medica do Estado. Chegou a um centro cheio de prédios medianos e perguntou ao simpático porteiro geral que estava em acirrada disputa filosófica a respeito do Campeonato Nacional de Futebol, após uns cinco minutos se fez notar e adquiriu a informação necessária. Entrou no prédio certo e foi à atendente, perguntou se era ali a Junta Médica, recebendo uma resposta com um mero balanço de cabeça e um papel velho imundo com um número e a frase: - “sente e aguarde, chamarei pelo número”.

Escolheu uma cadeira que estivesse na mira do ventilador, sentou e olhou as horas, eram 08h30min, pensou: “beleza, sairei cedo, levo ainda hoje o apto e tomo posse!” Seria a glória... Seria!
- Número 12.
Opa! Chegou, levantou-se e voltou ao já visitado balcão.
- Os documentos.
Retirou os documentos de dentro da pasta e apresentou. Ela começou a examinar, ele aguardava e ao mesmo tempo pensava: “ela não me olhou nem uma vez... Deixa disso, se ela olhar a todos que aqui chegam irá perder pelo menos uns 10 segundos em cada atendimento o que no fim será um atraso significativo – (eis um homem de cálculos).
Eram já 09h20min, e veio a sentença:
- Falta o carimbo deste exame.
- Como? (falou tremulo).
- Falta o carimbo deste exame.
- Mas minha amiga, todos os outros tem o carimbo, olha este aqui foi feito no mesmo laboratório e tem o carimbo.
- Mas este não tem.
- Olha minha linda, (um gracejo nervoso), este laboratório fica do outro lado da cidade...
- Só o que posso fazer por você é garantir que quando retornar não precisará pegar esta fila novamente.
- Tá bom, fazer o que né? (descobriu neste instante que não haveria argumentação possível para demovê-la).

Entrou no carro - calor absurdo, engarrafamento, atravessou a cidade e foi ao laboratório. Entrou esbaforido falando:
- Por favor, preciso de um carimbo neste exame!
A atendente pegou e respondeu:- “sinto muito, aqui é apenas recolhimento do material, as bioquímicas ficam na outra sede”.
Ele nem sabia que havia outra sede:
- e onde ficam as bioquímicas?
- Na sede da Pituba!
Ele gelou, andou uns quinze quilômetros só de ida e a tal da sede estava a apenas uns dois quilômetros no máximo da Junta Médica. Saiu “voando, atravessou tudo novamente, chegou à sede certa, pegou o carimbo e correu para a Junta.
Era meio-dia e vinte quando chegou, dirigiu-se a atendente (a mesma), e disse-lhe:
- É hora do almoço né?
- Não senhor, aqui não paramos.
Maravilha! (pensou) A sorte havia mudado, devem ser os cálculos astrológicos entre a manhã e a tarde. Entregou novamente os exames que foram vistoriados, aprovados com um leve balançar de cabeça e, ainda sem olhar para ele, entregou-lhe outra ficha numerada e disse: - “dirija-se ao quarto andar à esquerda e apresente a ficha”.
Realmente não havia interrupção para o almoço, mas das seis médicas que periciavam até as 14h30min só ficava uma que creio, havia perdido o sorteio.

Às 16 horas foi chamado, estava faminto, não havia almoçado. Muito suado, calculava o que havia passado entre o acordar e aquele momento histórico.
- Boa tarde, tudo bem?
Perguntou-lhe a médica, que como não viu entrar, presumiu ter sido ela que havia perdido no sorteio. Sabia que tinha de conter a fúria contra a burocracia que lhe massacrava o ser. Respondeu-lhe tentando ser gentil e alegre:
- Tudo bem!... Tirando a fome!
Ela sorriu, perguntou que horas havia chegado e mais um monte de coisas bobas, enquanto vistoriava e analisava os exames. Chegou à conclusão que tudo estava ótimo... Só faltava o último passo, medir a tensão.

Puf, puf, puf, apertou o braço dele e...
- Nossa sua tensão está muito alta!
- Minha senhora, com todo respeito, mas depois de tudo que passei neste calor infernal, sem almoçar, sem nem mesmo beber um copo d’água se minha tensão não estivesse alta eu estaria morto!
Ela não gostou. Levantou, olhou-o de cima para baixo e decretou:
- preciso de um parecer exato de um cardiologista, procure o de sua confiança faça os exames e depois volte.
- Mas...
- Boa tarde senhor.
Pensou em voar no pescoço dela, em desistir, em pular pela janela...
Pegou o veredito, botou debaixo do braço e saiu, esquivando-se, apressado, temeroso de que o sol, enfim, caísse-lhe sobre a cabeça! Já na rua... Recebeu a do cutelo:
- Aê tio, sem tensão... Dá um trocado prá completar meu almoço?

Roger Ribeiro.
16 de novembro de 2010.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pode acreditar



Nosso amor que não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar e sem violão#

Foi de repente, assim... entre um segundo e outro fez PAC! E saiu, foi, vazou, tirou, deu no pé, retirou-se, disse adeus, tchau, té’mais, ou seja lá como queira. Só sei que quando ele notou já era tarde, ela já estava do outro lado da rua olhando para a cara dele e sorrindo, um sorriso largo. Virou-se e saiu andando.

Ele incrédulo se olhava sem acreditar, com um olhar de quem se pergunta: mas o que está acontecendo? Porque logo comigo? O que eu fiz de errado? Passaram-se longos segundos, tempo suficiente para ela distanciar-se. Enfim ele parou de querer entender e percebeu que tinha de ir buscá-la de volta, saiu meio atabalhoado, atravessou a rua sem olhar, por muito pouco não foi atropelado, chegou do outro lado da rua, subiu em um pequeno batente e conseguiu enxergá-la já ao longe. Acelerou o passo e rumou atrás dela.

Quando ela percebeu que estava sendo seguida, também apertou o passo, era uma perseguição voraz, quanto mais ele adiantava o passo mais ela punha velocidade no andar, de repente não mais andavam, corriam,foram para a beira do asfalto, pois na calçada havia muita gente, era estreita e, de espaço em espaço havia um coqueiro, um ambulante, buracos à granel, de todos os tamanhos e profundidade, e, quando não havia isso tudo, (é vergonhoso mas tenho de dizer), em pleno século vinte e um, havia carros parados sobre a calçada.

A mil, próximo à sarjeta corriam, ela na frente ele atrás, de repente ela entrou em um beco, ele teve dificuldades, pois passava muita gente e ele perdeu tempo, ela saiu do outro lado, ele chegou... Não sabia para que lado ela havia ido, perguntou a uma e a outro até que um senhor muito velho lhe disse:

- Elas sempre vão para a esquerda, não tem erro.

Saiu correndo pela esquerda e algum tempo depois conseguiu avistá-la novamente. Ela achando que havia se desvencilhado havia parado de correr, andava rápido, mas não corria. Ele aproveitou e foi correndo, se esgueirando para não ser visto e quando estava a poucos passos de pegá-la, tropeçou no buraco, saiu metros “catando ficha”, com o corpo todo dobrado para frente, caiu de cara no chão a centímetros do tacho de dendê da Baiana de Acarajé. Suspirou assustado, foi por pouco!

Ela percebeu a presença e novamente saiu a correr, entrava em loja, saía de loja, entrava em ruas, saía de ruas e ele atrás, não desgrudava, não conseguia alcançá-la, mas não a perdia. Ela entrou em uma roda de pessoas onde um pastor pregava o apocalipse, todos erguiam as mãos para o céu e gritavam freneticamente:

- aleluia, aleluia.

Ele passou direto, ela deu meia volta e saiu correndo na direção contrária, ele viu, retornou, se bateu no pastor, este caiu, os fiéis não gostaram saíram correndo atrás dele, um deu-lhe uma rasteira, caiu, pela segunda vez, foi chutado, não reagiu,tudo o que queria era levantar rápido para não perdê-la de vista.

Novamente em pé, ficou perdido, onde estaria ela? Suava muito, resolveu entrar no bar e pediu um refresco de maracujá. Estava quase desistindo da perseguição quando viu pelo espelho do fundo do bar, ela, do outro lado da rua encostada num poste olhando para ele e dando uma sonora gargalhada!

Não é possível, ele disse, ela só pode esta querendo provocar, saiu do bar correndo e esqueceu-se de pagar o refresco, o atendente gritou em vão, ele não ouvia nada, estava louco, cego, precisava retomá-la, isso não poderia ficar assim, estavam correndo já há horas e nada! Decidiu que seria agora; colocou todo o fôlego que ainda lhe restava e saiu a toda. Empurrava quem estivesse na frente, pulava coisas, derrubou o carrinho de caldo de cana, estava realmente decidido.

Era agora, enfim estava conseguindo, levantou o braço para pegá-la e... sentiu uma forte mão segurando-lhe o ombro e um cassetete apertando-lhe a garganta, era a polícia, atrás dela vinha, o pastor, o atendente do bar, o dono do caldo de cana, e uma porção de “peru-de-fora”, a dar palpite e opinião. Ele a viu se afastar.

Na delegacia, uma espera interminável, ele tentava explicar, ninguém lhe dava ouvidos, parecia que falava para a parede, enfim acompanhado por um guarda foi a um caixa eletrônico, retirou dinheiro, pagou o refresco, o prejuízo do caldo de cana, tomou dois cascudos por ter machucado o pastor, pediu desculpas a quem devia e a quem não devia e por fim, já noite alta, foi liberado.

Saiu desolado, não tinha mais esperança de recuperá-la, quando do nada, do outro lado da rua, lá estava ela, olhando para ele e sorrindo, virou-se e correu, ele atrás, chegaram então ao Porto da Barra, o céu já arroxeava para amanhecer e uma Lua Cheia enorme, se escondia por detrás da Ilha de Itaparica, ele a viu, pela última vez, a Lua a levou.

Desolado, sentou-se no meio-fio, deitou a cabeça sobre os braços e nada mais disse.

Ali estava um homem que daquele momento em diante teria de aprender a viver sem alma.

Roger Ribeiro
13 de outubro 2010.

#Nosso Amor – Noel Rosa

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Que papelão!


Era cedo o sol ainda estava frio e as sombras longas, mas para muitos o dia já estava a mil. Rapazes fortes se apossavam de pedaços de rua como se fossem realmente proprietários, só faltavam mostrar o carnê do IPTU para definitivamente comprovar que aquele minifúndio urbano lhes pertencia e para estacionar ali terias de desembolsar uma quantia, que a depender de sua cara, sua idade e, principalmente seu sexo, podia ter uma variação de mais de 1000%.

Outros já não tão fortes se esgueiravam ao largo para dar o bote em senhores e senhoras mais idosas que, em respeito ao ato cívico, não se permitiam ir à vontade e, exatamente seus requintes, eram o que estas “almas sebosas” visavam, não se refutando a derrubar, machucar pessoas de generosas idades para obter algo que brilhasse. O verdadeiro ouro dos tolos.

Também chegavam mulheres, principalmente elas, com camisas estampando rostos, siglas, números e o escambau... Traziam “malocados” em seus pertences pequenos papéis com os mesmos números fotos e mimos, que seriam distribuídos, jogados ao solo, levados pelo vento em uma perfeita demonstração de como podemos emporcalhar uma cidade em fração de minutos.

Incrível é que o mundo mudou, todos perceberam menos estes que fazem a “Grande Festa da Democracia”, como “berram” as manchetes dos jornais. Estes não perceberam, e do canto daquela calçada uma pergunta ecoa e não quer se calar:

- Será que estes malditos não percebem que ao fazer as funestas carreatas, que incomodam a todos, não estão irritando e afastando qualquer possibilidade de simpatia popular ao projeto, já que este parte do equívoco de que incomodar causando engarrafamentos, usando os jurássicos carros de som (me diga alguém consegue ouvir o que aqueles pagodes terríveis conseguem dizer?), faz alguém prestar atenção no número daquele infeliz que fica berrando naquele som de péssima qualidade, que passam por você ininterruptamente, enquanto tudo o que você quer é um pouco de paz e silêncio?!

Não! Mas eles não percebem... Não percebem nada e, ao não perceberem nada, se igualam em um espectro do que há de mais retrógado, mais atrasado.

Chamou-me atenção um louco urbano que gritava em pleno pulmão:

- Não! Não acreditem neles, só São Sebastião, sangrando pelas flechadas pode nos trazer a salvação, o seu sangue não é este papel que é derramado pelo chão!

Do outro lado da rua uma moça de uns vinte e poucos anos tocava um violão surrado ao lado de uma criança que deveria ter uns quatro anos no máximo, tocava e cantava para conseguir um dinheiro para tomar café da manhã. Estava feliz e quando uma senhora abaixou-se e deu-lhe uma nota, não vi de quanto, agradeceu com um grande sorriso e disse:

- eles não valem, nenhum deles vale, nenhuma canção.

Percebi que ela estava plenamente livre, sabia que aqueles motoqueiros das carreatas eram pagos, que aquelas “militantes panfletetes” eram remuneradas, que nada daquilo era real, para ela o real era seu violão, a canção e o pão com café que tomaria em breve com sua filha, estava feliz, já não fingia acreditar na “Farsa da Democracia”, preferia o sonho da vida real.

Chegamos a tal da zona, sim digo chegamos, pois era eu, meus sapatos e mais uma ruma de gente, era gente prá tudo que é lado, todos procuravam pela sua Zona, lembrei de tempos idos e de pessoas como Iolanda da Ondina, Martinha da Barra, lembrei do que se chamava de zona e por um estranho sentido, tive vergonha de perguntar onde era minha zona, parei e perguntei a uma pessoa de crachá: - por favor, onde fica esta urna? Sabia onde era minha zona e, sabia mais, sabia que ali é que não era.

Devidamente indicado engendrei por um estreito corredor com portas azuis de um lado e do outro e que não possuía ventilação alguma; era um calor daqueles que aos poucos vai minando qualquer possibilidade de bom humor.

Mas olhei para frente e havia apenas umas dez pessoas, ora com a votação eletrônica e, com todo mundo trazendo sua “cola” de representantes seria rápido. Mais um engano. Cada vez que parecia que iria entrar alguém de minha frente... pumba!

Chegava um sexagenário membro da “melhor idade”, lá vai ele entrar e nós... bem nós no calor, na fila, uma fila que começou a me lembrar o metrô de Salvador, ou seja ela estava lá, existia, mas ninguém nunca andou.

Tudo bem... vamos manter a calma, alguém gritou:

- Viva os verdes?

A resposta foi imediata:

- Marciano não cobra dízimo!

- Colé?! (Alguém gritou) vocês querem derrubar o que resta de mata, por isso estão afiando a Serra!

-Para com isso gente!

- Vamos fazer uma festa cívica civilizada!

- A luta continua Companheiros...

Ái..., esta doeu já esperei o grito de guerra dos anos setenta que, claro veio na tampa... três garotos no fim da fila em coro entoaram:

- Alho, alho, alho companheiro é o caralh...!

Xi... o clima pesou, veio a segurança, gente de tudo que é cor de crachá, queriam prender os meninos, “desacato ao ato cívico!”, meia fila não resistiu... a gargalhada foi geral... desacato a quê? Perguntou uma senhora que dizia ter oitenta anos... acho que foi namorada do Cavalheiro da Esperança, pois de sombrinha em riste dizia que só levariam os meninos dali por cima do seu cadáver! Êta terrinha de povo que cultua sua história! Gritou uma criatura sabe lá de onde...

– Viva Maria Quitéria!

Respondeu o outro a quatro pessoas de mim...

- Maria Quitéria coisa nenhuma sua ignorante; Viva Joana Angélica...

Resposta na lata:

- Vá se fod...

Vaias tempitóricas ...

E o calor? Se antes estava uns quarenta graus no maldito corredor agora estava oitenta! O velinho votou. Saiu... todos respiraram aliviadas e... Chegou uma grávida, e depois outra velhinha e chegou um sujeito chamado Raimundo vendendo picolé Capelinha, o segurança queria botar ele prá fora, ali não podia mercar nada, mas e os votos? Ora, ora tudo levava a crer que o pau que dava em Chico não dava em Francisco! Picolé não, mas voto, vaga na fila, santinhos, passe de Umbanda, fitinhas do Bomfim, tudo se vendia...

Aos trancos e barrancos chegou minha vez. Entrei olhei bem para aquela cabaninha de papelão e a única coisa que me veio à cabeça foram aquelas pessoas que eu passava todos os dias dormindo pela calçada na Avenida Sete de Setembro, a única coisa que eles possuíam era um papelão para se cobrir.

E ali estava eu, em frente ao meu país e a única coisa que ele tinha era um pedaço de papelão a cobrir os mesmos Brasis.

Roger Ribeiro
05 de outubro 2010.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Só faltava essa!


Não, não precisa explicar nada, é assim mesmo...

Vamos, quando passarmos por lá, te pago uma esfirra, é boa, o local é assim meio estranho, possui uma aparência meio suja e, te digo, não é só aparência não, é sujo mesmo, mas como lá desde pequeno, nunca tive maiores problemas, pelo contrário, já comi em lugares cheio de fru-frus, e me dei muito mal.

Sim! Não estou dizendo que estás com fome, afinal não é necessário estar com fome para comer. Digo-te até mais, prefiro comer exatamente quando não estou com fome, pois assim come-se pouco, come-se pelo prazer, sentindo mesmo o sabor do que se está comendo. Quando estamos com fome a tendência é comermos mais apressadamente, acabamos por comer por demais e não apreciamos realmente o que estamos sorvendo. Estou te levando em um local clássico, para saborear uma iguaria que tem em muitos lugares, mas o de lá, não sei por que, é diferente.

Sabe. Ontem quando a gente se encontrou, tive a nítida impressão de que já te conhecia de muitas datas, de outros tempos, não sei te explicar, mas quando você me falou o seu nome, tive a certeza de que eu já sabia, talvez tenha te visto tocando em algum bar? No ônibus? Pensei até que poderíamos ter sido colegas no grupo escolar, você sabe como é né? A gente muda tanto... Ficam uns traços aqui outros ali, reconhecemo-nos sim, mas de resto só nós mesmos é que achamos que não mudamos, afinal o nosso interior é o mesmo, ou pelo menos, achamos que seja, afinal só nós acompanhamos a evolução de nossas próprias loucuras!

Não... Não se preocupe, hoje esta impressão já passou, tenho absoluta certeza de que nunca a vi em minha vida, seu nome?! Nunca pronunciei, aliás, esqueci, incrível! Apaguei, não sei como te chamar! É estranho estar andando lado a lado com uma pessoa que nunca vi, falando com alguém que não sei de onde veio, para onde vai? Do que gosta? O que escuta? O que lê? O que vê? Ou seja, uma ilustre desconhecida que desce sabe lá de onde e ao meu lado se dirige, a apressados passos, em direção ao centro da Avenida Carlos Gomes, para comer algo que como desde a minha infância! Sabe o que isso significa?...

Claro que não sabe! E tenho certeza, nem quer saber. Mas te direi mesmo assim, de agora em diante você saberá infinitamente mais de mim do que eu de você!

Não! Nem venha com essa conversa de que eu quero saber de você para poder te manipular, não há a menor chance de isso ocorrer. nada de domínios, de posses, de só para mim! De forma alguma, olha, veja bem uma coisa, não somos donos de nada. Nem mesmo da nossa própria vida! É nem dela, apenas a temos por empréstimo, vai chegar o momento em que alguém vai chegar e dizer: “muito bem, está na hora de me devolver a sua vida” e aí... pluf, leva-a de volta. Sendo assim, se nem mesmo de minha vida eu sou dono, como posso querer ser dono de alguém? Pode ficar tranqüila, isso não ocorrerá jamais.

Chegamos... Sim é aqui, olha não faz essa cara de nojo, o atendente vai ficar cismado e de repente nem vai querer nos vender.
Moço por favor, duas esfirras de carne e dois sucos de laranja sem açúcar e pouco gelo, por favor.

Sim sempre peço, por favor, sei que muitas pessoas acham que ele tá ali para isso mesmo e que na verdade não está te fazendo favor algum, mas mesmo assim, peço, por favor, e quando chega ainda agradeço, acho que isso é civilizado.

Tá... Tudo bem... Concordo em parte. Sim, civilizado é infinitamente mais que isso, manter estas praxes sociais de bom dia, boa tarde, obrigado, licença e etc, é muito pouco, o que necessitamos é realmente muito mais civilidade do que esta cortesia, mas uma coisa não elimina a outra. Podemos iniciar por estas pequenas coisas até chegarmos aos respeitos máximos e necessários, até podermos abandonar estas coisas bestas de buscar identidades disso ou daquilo, de necessitarmos impor uma individualidade ou coletividade, de clamar por isso ou aquilo de ficarmos nos “acoitadando”, ficarmos dissimulando nossas carências buscando nos discursos étnico-ideológicos nos afastar do que somos em busca do que fomos.

Sei que chegar a civilidade de assumirmos que somos todos, todos sem exceção, seres individuais e intransferíveis e sabermos que isso não tem nada de mais, que nem é melhor nem pior e que isso também não interessa a absolutamente ninguém a não ser a quem está interessado em nós, é algo bem maior.

O que? Não gostou? Você colocou pimenta? Como alguém pode não gostar? Tudo bem deixa aí que eu como. Bebe pelo menos o suco. O copo tá sujo! Ai, ai, ai assim não dá, ontem você bebeu aquele refrigerante por aquele canudinho que estava exposto ali a meses, cheio de poeira e outras coisas derivadas de visitas que por ventura por ali passaram, e nada disse, agora o copinho, só porque tá assim com este jeitão meio tosco você tá tirando esta onda. Sei não viu.

Tá bom, tá bom. Vamos embora, mas olha depois não vai ficar na minha orelha dizendo que está com fome heim!

Pronto, aqui estamos... A orquestra já começou a tocar. Vamos deixar nossas coisas naquela mesa e vamos dançar.

Sim, é o velho Clube Comercial mesmo, o que tem de mais? Como assim? Você não é pessoa para vir ao Clube Comercial? Mas o que tem demais?

Não! O assoalho não está arranhado, ele é antigo. Nada disso, você está procurando coisa, não tem cheiro de mofo nenhum, a cortina não está empoeirada, o banheiro não esta fedendo coisa nenhuma... O quê!? O piano não está desafinado, o pianista é ótimo! O crooner tem voz de taquara rachada? De forma alguma, taquara rachada é seu nariz. Não inventa; aquela senhora de vermelho não está te olhando feio, o senhor da direita não está babando coisa nenhuma, não tem nada de cafona.

O balcão não está rachado, a gravata do garçom não está torta, a bebida não é falsificada, o trompete não está alto demais de forma alguma, meu sapato está lustrando sim, a música é boa...

Garçom! Por favor, me traga um copo de aguardente urgente, urgentíssimo...

Pronto! agora você vai ficar aí dentro deste copo, não te trago mais, nunca mais levo este cérebro pra passear... Agora licença, vou dançar!

Roger Ribeiro.
17 de setembro de 2010.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Porque arrancaram dali?



Era apenas início da noite, mas ela estava pronta. Vestia um vestido longo vermelho combinando com o batom e o leve avermelhado dos olhos de quem passou o dia a chorar.

Aos muito alvos pés, uma sandália cinza escura de fino e altíssimo salto, seu passo era de uma elegância impar, caminhava como se o tempo jamais fosse chegar ao seu derradeiro minuto. Tudo a sua volta assumia um ritmo especial, algo entre John Coltrane e Hermeto Pascoal, nada ia além do alcance entre a sua longa perna direita à frente e sua alva perna esquerda atrás, o mundo inteiro cabia no vão desse passo.

Foi assim que saiu naquela noite, parecia ser uma noite como outra qualquer, mas havia um detalhe diferente, algo que nunca ousara e seria ali, naquela noite de lua minguante, bem rente à água da Baia de Todos os Santos, quando esta, a lasquinha de lua, já quase tocava a ponta do templo de Mar Grande, que se daria o novo.

Para tanto, cobriu-se de detalhes nunca usados; nos longos cabelos postou uma flor lilás natural, ao redor do pescoço descansava um colar de pedras verdes que produziam um efeito de vida junto ao vermelho esvoaçante do vestido, no rosto nenhuma pintura a não ser o inseparável batom vermelho. Na cintura um pano de renda branco transpassado de finos fios prateados que refletiam a fraca luz do luar.

Não pegou o carro, que ficou estacionado na calçada em frente a sua casa, saiu andando, nenhum transporte ela quis, era noite de passos largos, passos que há muito já deveriam ter sido dados.

Passou por um grupo de rapazes jovens que a olharam, tiveram vontade de lhe cortejar, porém sua presença era tão intensa, tão enormemente presente, que nada conseguiram dizer, calaram-se e apenas acompanharam aqueles longos passos portadores de universos.

Parou no bar de uma esquina escura onde um grupo de milenares e diários freqüentadores comiam queijo velho, ou lingüiça banhada na gordura e tomando suas bebidas, discutiam futebol.

Ali comprou um cigarro a retalho; pediu fogo, não fumava há anos, mas não havia perdido o charme de segurar o cigarro quase na ponta dos dedos e tragá-lo deixando passeando a centímetros do seu rosto a fumaça, que caprichosamente navegava demarcando-lhe a silhueta e azulando sua negra cabeleira.

Pediu também um copo de conhaque. Ao erguê-lo expandiu o vermelho paixão de suas unhas compridas e bem torneadas, tomou de uma só vez, pagou e retirou-se, deixando naquele bar, sujo e fedido, uma ar nobre. Todos ali se entreolharam, o tempo havia parado, tudo se passara entre o inspirar e o expirar, não mais que isso.

Os carros passavam zunindo, paravam, retornavam, buzinavam, mas, na hora em que os seus ocupantes fixavam o olhar nela, nada conseguiam dizer, nem ao menos uma carona conseguiam oferecer-lhe. Algo os impedia, havia um campo magnético, um campo de força que impedia todas as emoções e vibrações dela aproximar-se. Estava efetivamente em outra sintonia, em outra dimensão.

Andava impassível, carregava na mão uma pequena bolsa de cetim azul que apesar de forte presença, só fui notar quando se deparou com um grupo meninos e meninas de rua e abrindo a pequena azul bolsa distribuiu as cédulas que ali portava. Não sorria, aliás, em todo este trajeto não a vi sorrir em momento algum, porém, não possuía um semblante carrancudo, enfezado, longe disso, muito pelo contrário, possuía uma fisionomia de paz, de tranqüilidade. Só não sorria, não arreganhava os dentes, nada ali era fácil, muito menos um sorriso.

Parou abaixo de uma frondosa árvore. Impassível olhava para o infinito, não demonstrava ansiedade, aflição, pressa... Nada a atingia, era como se estivesse em uma dimensão paralela, era, ao olhar dos que trafegavam, uma imensa flor vermelha moldurada pelo verde escuro da árvore a enfeitar o universo.

Do nada ele veio, seu passo era seguro, daqueles que parece estremecer o chão. Sua tez amêndoa, um perfeito caboclo baiano, de cabelos brancos que lhe conferia a inconfundível aparência de Dorival Caymmi, o “Buda Nagô”, como muito apropriadamente observou o poeta Gilberto Gil, também não sorria. Sua elegância se impunha; todo de linho branco com cinto e sapato negros de lustro forte, ponta de lenço ressaltado no bolso esquerdo do blazer e anéis que lhe brilhavam em todos os dedos.

Chegou sem pedir licença, recebeu um leve sorriso, o primeiro, daqueles olhos avermelhados, trançaram-se os braços e saíram a andar como rei e rainha por sobre a cidade.

Dirigiram-se ao bairro da Ondina onde em uma área circular começaram a bailar. Não se deram conta de que estavam em uma ruína circular, um escombro do que um dia deveria ser uma praça, uma área de lazer, mas que repleta de lixo, de um mau cheiro entranhado de anos de descaso, não passava de um depositário do escárnio da sociedade soteropolitana.

Nada os atingia, rodopiavam, reinavam leves, flutuando, revivendo aos meus olhos quando há tempos neste mesmo local brilhavam, girando, girando ao centro do picadeiro do Circo Troca de Segredos, ao som da Grande Orquestra do Maestro Vivaldo Conceição.

Roger Ribeiro
26 de agosto de 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quem falará?


Eram quase onze horas da manhã quando ouvi aquele barulhinho inconfundível de papel passando por baixo da porta, lembrei imediatamente do comentário do meu amigo Pedro Santana: - “e os códigos de barra continuam passando por baixo de minha porta!”.
Aproximei-me da porta para apanhar a nova conta, sim! O que mais seria?

Olhei, olhei novamente e percebi que aquela correspondência era nova. Parei, pensei: ora, não fiz nenhuma compra, não adquiri nada de novo a não ser os problemas de sempre, o que seria aquela correspondência com ar sério, parecia uma intimação! Minha nossa será que me descobriram? Brinquei comigo mesmo.
Deve ser alguma propaganda, afinal correspondência em papel, por debaixo da porta hoje só existe duas: ou é conta a pagar ou propaganda para que você venha, em futuro breve, adquirir nova conta a pagar.
Lentamente e, confesso, até com um certo temor, abaixei e peguei o dito envelope. Abri com cuidado e... Lá estava:
- pt. Encontre-me 20 horas pantera pt assunto urgente pt não falte pt barba.
Caramba! Falei alto, é um telegrama!? Isso ainda existe? Senti-me no túnel do tempo, havia voltado ao século XX! Incrível ainda existir tal comunicador e, mais incrível ainda, alguém ainda passa (como se falava) um telegrama para outrem! É admirável, aliás, sendo do Barba, claro que seria algo admirável.
Você, que acompanha à revelia estas escritas, o conhece, é aquele mesmo que fala com a bota, que fala de sorrisos, poesias e etc. Quem ainda não o conhece, irá conhecer.
Mas, o que afligia o meu amigo assim para marcar algo tão imediato? E mais, pela seriedade do clube sócio-intelectual escolhido para a comunicação, realmente deveria ser algo grave.
Pronto, passaria eu agora o resto do dia até as 20 horas, tenso, avexado, agoniado para saber o que de tão importante havia se passado assim no mundo para tamanha extraordinariedade de comunicado. Lembro que a última vez que Barba marcou comigo assim algo tão sério e urgente foi para que convocássemos um conclave entre os seres de todos os universos para que se posicionassem a respeito da falta de critérios globais a respeito de uma doença tão retrógada quanto a AIDS.
Então veja você que meu querido amigo não é de ficar fazendo tempestade em pingos d’água, algo realmente estapafúrdio deve ter ocorrido.
Liguei para algumas pessoas mais próximas para saber se sabiam de algo, afinal, nesta manhã estava atolado com alguns textos para analisar e por isso não havia saído de casa, nem ligado o rádio, nem passado a vista no jornal que jazia sobre o pequeno e sujo sofá.
Não, ninguém sabia de nada extraordinário a este ponto. Eram as notícias de sempre... desabamento aqui, intransigências ali, gols de alguns, casamentos de poucos, o velho deixa disso e vamos àquilo, ou a kilo, como tem sido mais comum às notícias.
Terminei os textos, tomei banho, saí para o trabalho, fiz tudo o que tinha de fazer, mas confesso, tudo automaticamente. Não via nada na minha mente apenas o tom grave do telegrama de Barba. Será o Benedito? Pensei que os quatro meninos de Liverpool devem ter ficado no mesmo dilema que eu para poder anunciar ao mundo que “o sonho havia acabado”.
Cantarolei uma música deles, lembrei que não sei inglês e achei que os meninos de Liverpool poderiam ser os quatro meninos de Santo Amaro, qualquer santamarense de plantão certamente concordaria comigo, assim eles comporiam e cantariam em Português, o que seria, para mim, muito bom. Ou não!
E assim o dia se arrastava, problemas surgiam, se resolviam e eram reenviados a quem de direito. Documentos produzidos, resoluções tomadas, dúvidas brotavam aos borbotões. Ainda no início da tarde fui convocado a uma reunião, daquelas que se dizem importantíssimas, até começar, claro, depois desvelam-se inúteis, inglórias. Mas, apesar de tudo isso, o tempo, contrariando Cazuza, se arrastava, não passava de forma alguma.
De cinco em cinco minutos retirava do bolso, o já surrado, telegrama, examinava-o minuciosamente em busca de pistas, será que Barba não havia cifrado nada? Conheço bem a peça, sei que era capaz de deixar algo entesourado, escondido, algum enigma para só ser desvendado daqui há anos. Mas, não, desta vez não. Passei da curiosidade à preocupação.
Mesmo o relógio correndo oposto ao tempo, as conspirações da natureza foram maiores e enfim, o relógio bateu 19 horas, saí apressado, tão tenso que só notei já sentado no ônibus, que nem havia me despedido de ninguém, todos devem ter notado, afinal não era de meu feitio. Mas, paciência, depois pediria as devidas desculpas.

Cheguei ao largo do Chame-Chame, às 19 dezenove horas e 40 minutos, após descer do coletivo, caminhei lentamente até o “Clube Recreativo Cultural para Marmanjos Calejados A Pantera”, de longe avistei o Barba. Não era difícil, pois seu corporal avantajado com sua longa barba vermelha e sua indefectível bota preta era perceptível a longas distâncias.

Percebi de longe que estava agitado, olhava para a bota com tensão, quase indignação. Gotas de suor estavam fixas em sua fronte. Temi, juro que temi e tremi, realmente a situação era mais grave do que imaginava.

Cheguei e antes de poder dizer qualquer coisa ele falou:
- Você foi pontual, mas esperava mais de você. Deveria ter chegado a pelo menos uns 30 minutos antes.
- Perdoe-me, não consegui sair mais cedo e...
- Não importa, você não sabe, mas estas pequenas coisas humanas não mais terão importância.
- Mas o que é tão grave assim?

Ele puxou-me pelo braço para um canto mais reservado, aproximou a boca de meu ouvido e com os olhos mareados disse.

- Toda a esperança que nutri durante toda minha existência frente a este nosso país se acabou. (pausa).
- O que houve Barba, diga logo.
- O JB, o Jornal do Brasil, irá fechar as portas. Agonizava, eu sei, mas sempre tive a esperança de que seríamos salvo no último minuto. Perdemos definitivamente o apreço pela evolução humana. É o fim (decretou).
Tremi, senti um frio correr na minha coluna. Nada consegui dizer, olhei para os seus mareados olhos e apenas pensei no amigo Felix de Athayde.
Colocamos nossas botas pretas em movimento, lado a lado, caminhamos sem nada dizer.
Não havia mais nada a ser dito.

Roger Ribeiro.
26 de julho de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sabe o que é que é?



Prééééééééééééeééeíiiiiinnnnnnnnnnnnmmmmmmmmm!

Levantei de um pulo só, o livro que lia chegou a cair da mão! O toque do apocalipse, só podia ser isso.

Prééééééiiiiiinnnnnnnnnnmmmmmm!

Nossa. Enfim voltei para o mundo dos mortais, era a minha campainha que estava tocando, aliás, tocando não: berrando. Meu coração estava disparado. Estava tão absorto na minha leitura, jamais esperava aquele som estridente e alto daquela forma. Tudo bem que é minha campainha, mas como nunca estou em casa e quem vem aqui normalmente chega comigo, poucas vezes eu a presenciei e, sempre que isso aconteceu me assustei, sempre pensei: - tenho que mudar essa campainha, preciso pôr uma daquelas que fazem Blllimmmm/Bllllommmm assim grave abafada, com cara de tia do interior. Nunca me lembro, só quando, trrrriiinnnnnnmmmm, aí; já foi...

Dirigi-me à porta e, como não tenho olho-mágico, que é outra coisa que só me lembro quando preciso usar, abri-a vagarosamente. Lá bem em frente, com um sorriso impassível no rosto, estava ela. Não devia ter mais do que um metro e cinqüenta e pouco, magrinha, bonitinha a danada, uns olhos brilhantes e o pezinho esquerdo, em uma sandalinha de couro, impacientemente batia no chão. Olhei para ela e ela olhando para mim sorria, por fim falou:

- Não está me reconhecendo?

Era uma voz linda, assim meio angelical, nem aguda nem grave, não era voz de menina, o que ao prestar mais atentamente atenção, percebi pelos finos sulcos ao lado dos olhos que não se tratava de uma menina, era uma mulher jovem.

Parei de delirar e pensei na pergunta que me foi feita, afinal o pezinho havia dobrado o andamento, o que significava que a impaciência também devia ter dobrado. Refleti, refleti mais um pouco e cheguei à conclusão óbvia; euzinho jamais havia visto aquela criatura em minha vida, e, juro, não precisava de tanto tempo para chegar àquela conclusão, afinal uma mulher linda como aquela, jamais se esquece. Respondi:

- Não. Deveria?
- Claro que sim, ou melhor, claro que não. É sempre assim, sempre chego, todos sabem que existo que estou por perto, mas quando chego... Nunca me reconhecem, tá vendo?
- O quê? (apontou para baixo)
- O meu pé, tenho sempre de pôr ele na porta se não as pessoas fecham. E se tiver olho-mágico e for mulher que vier abrir então!? Ah! Aí é que tô ferrada de vez!
- E se as pessoas fecharem a porta com medo, não irá machucar você?
- Claro, e isso acontece muito, vivo no departamento médico. O diagnóstico é sempre o mesmo: luxação no pé. Pronto, lá vou eu ficar pelo menos três semanas no “estaleiro”.
- Estaleiro é para navio, você é um avião (fiquei feliz de ter sido rápido no gracejo)
- Menos né meu filho! Avião de um metro e cinqüenta só se for em Liliput! (sorriu)

Sorri também, ela também era rápida, ou será que passava por isso o tempo todo?

- Sim, mas você não vai me deixar entrar, preciso sentar um pouco e de um copo de água bem fresquinho.
- Oh! Desculpe-me é que ainda estava respondendo a sua pergunta...
- Tudo bem, mas podemos continuar com esta conversa aí dentro, veja: não porto bolsa, meu vestido é largo, branco e de certa transparência... Tira o olho daí. Logo se estivesse portando uma submetralhadora, uma bazuca, um foguete bélico transatlântico, você já teria visto, não é mesmo? Portanto feche a boca, tá parecendo, bobo, levanta essa vista e me convida pra entrar.
- Tudo bem (fiz um enorme esforço para não gaguejar), entre, por favor.
- Muito obrigada.
- Sente onde achar melhor. Você deseja água ou quer um suco?
- Humm! Um suco é bom, não é mesmo? De que é?
- Olha tem de laranja e posso fazer um de lima rapidinho.
- Lima! Nossa eu quero, sem açúcar e com bastante gelo.
- Tudo bem, enquanto faço o suco poderíamos ir nos apresentando não é mesmo? Afinal acho, ou melhor, tenho quase certeza de que você bateu na porta errada. Por acaso você não é vendedora? Representante comercial? Ou o que seria mais louco ainda, uma obreira de uma destas religiões que vão à casa das pessoas com procuração divina, não é mesmo?

Olhei de canto de olho e vi que ela sorria de minhas colocações e que havia se levantado e passeava pela sala.

- Você tem um belo apartamento! Tem bom gosto, e sabe aproveitar bem os espaços, você é arquiteto?
- Não...
- Artista?
- Quem me dera...
- É... Deveria ser, pois é tudo muito poético aqui.
- Olha seu suco. E finalmente quem é você?
- Você e suas perguntas, não é possível que ainda não saibas quem eu sou!
- Posso ser sincero?
- Deve.
- Não faço a menor ideia, só sei que se pudesse pedir para papai do céu uma companhia para mim, seria igualzinha a você!
- Engraçadinho... Mas, não se preocupe viveremos juntos...
- Como? (tomei um susto que meu rosto bateu no chão e voltou), Mas como assim?
- Por um tempo.
- Ãh!? Você tá piorando bem as coisas...
- Onde tem um espelho?
- Só lá no banheiro.
- Vamos lá.
- Mas como assim, vamos lá? Nós acabamos de nos conhecer, você acabou de dizer que vai viver comigo, não temos a menor intimidade e você quer ir ao banheiro comigo?!
- Deixa de ser leso, vem logo.

No banheiro me colocou de frente ao espelho e perguntou:

- O que estás vendo?
- Eu. Porque deveria tá vendo algo mais?
- Veja aqui. (apontou para o espaço entre o nariz e o lábio superior)

Havia feito a barba naquele dia, ali não havia nada... Olhei para ela e percebi que estava com as mãos na cintura se balançando e batendo pezinho; acho que a paciência dela havia se esgotado. No meio da minha confusão mental...

Prrrrééééééééééééééééééeéééeiiiiiiiinnnnnnnnnnnnnnmmmmmmm

Não! (pensei), de novo não.

Saí do banheiro aliviado (enfim aquela maldita campainha havia servido para algo), atravessei a sala e abri a porta de vez... Não acreditei no que vi. Ali, bem na minha frente mais três lindas jovens mulheres tocavam, cantavam e dançavam, era uma festa. Olharam-me, pararam de tocar e uma delas perguntou:

- Minha irmã está?
- Quem?

De lá de dentro ouvi a voz:

- Amanhã! Há quanto tempo heim!? Entre... Fique à-vontade.

As três ainda do lado de fora falaram quase em coro:

- Felicidade! Puxa como foi difícil te encontrar.

Olhei para o meio da sala e lá estava ela, linda! Bem debaixo do meu próprio nariz!

Roger Ribeiro.
11 de junho 2010.