terça-feira, 22 de novembro de 2011

Quase uma canção

“Desde o começo do mundo
Que o homem sonha com a paz
Ela está dentro dele mesmo
Ele tem a paz e não sabe (...)”*

O domingo nascia junto ao sol e lá estava ela sentada na escada frontal da Igreja de Santana com sua roupa branca toda amarrotada e suja, a maquiagem borrava-lhe todo o pálido rosto, dando-lhe um ar surrealista, poderia passar facilmente por um ensaio fotográfico moderno, mas não era.

Os “vampiros” saindo dos bueiros do Rio Vermelho atolados de tudo passavam e dirigiam-se à ela de forma jocosa, desrespeitosa, indelicada, estavam acelerados demais em suas realidades provinciano-universais, para perceber que existe algo além das fronteiras demarcadas do prazer.

A ela nada afetava, desde as tentativas mais engraçadinhas até as mais bebadamente grosseiras, não lhe atingiam, ela simplesmente não absolvia, não ouvia, não é que estivesse ignorando, não! Simplesmente não existiam aquelas pessoas, aquelas palavras.

Olhava fixamente com os olhos encharcados para o amanhecer que refletia um alaranjado quase ouro à enseada de onde saem as flores para o mar no dia dois de fevereiro. Parecia que, em algum plano, conseguia dialogar com algo que estava ali, mas só ela percebia, só ela via, tudo estava entre a Casa do Peso e a Pedra dos Pássaros. O ar soprava fresco espalhando, ao transpassá-la, um aroma de Acássia que deveria acalmar o ambiente, se os humanos ao redor se permitissem.

Homens, ainda quase bêbados da noite anterior, desciam as escadas com suas cordas, linhas de pesca, varas, tarrafas, panos... Peito nus iniciavam um dia de sal, de salitre de balançar pelas águas em busca do peixe que, sabe como, apesar de toda barbaridade cometida, ainda se mostravam, se não abundantes, pelo menos o suficiente para manter aquela comunidade em sua atividade artesanal.

Acostumados a ver o invisível sobre seus saveiros, e inebriados pelo alto volume de álcool, que se perpetuava em suas veias, passavam por aquele olhar borrado e ornado pelo despenteado e farto cabelo, mas ali não viam nada demais, era apenas mais uma visão de um calhau se espatifando na proa do saveiro. Alguns a olhavam com uma visão apaixonada, certamente lembrando-se de velhos sonhos passados e carcomidos pela força cortante do sal.

Poucos carros ainda trafegavam e alguns começavam a trazer as pessoas para o Templo de Santana, aonde outrora sinos chamavam os seus seguidores fieis. Hoje o badalar mecânico, soa distorcido, mas não abala à fé de quem as possui. Era efetivamente um típico amanhecer de um domingo, aonde uns lamentam o fim da noite de sábado, outros botam sua fé em atividade, seja na oração de agradecimentos, seja na força do saveiro cortando as águas escuras do mar.

A esta altura a moça de branco que sofria, havia descido a ascadaria que levava à praia, tirara a sandália prateada e molhava os finos e alvos pés nas águas geladas, onde Manteiga arremessava sua incansável tarrafa em busca das Pititingas, que iriam alimentar iscas para pesca e óleos quentes no decorrer do domingo.

Sem dizer uma palavra uma mão escura e enrugada a pegou pelo antebraço, e a conduziu de volta para a escadaria do Templo, pacientemente retirou-lhe a areia dos pés, calçou-lhe novamente as sandálias, ajeitou-lhe, dentro do possível, os cabelos, limpou-lhe o rosto dos excessos, sorriu-lhe como se lhe dissesse: pronto. Ergueu-a e entraram braços dados pela porta central do Templo, aonde todos em silêncio levantaram e as olharam.

Elas, firmes e benevolentes, olhavam fixamente para um ponto acima do altar, a jovem reverenciando o filho a velha, o neto.

Poucos perceberam, “eles estão surdos”*.

Roger Ribeiro
22 de novembro de 2011


* Todos Estão Surdos
Roberto Carlos

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Cada um crê no que convém




Passou na banca, comprou o jornal uma pastilha de hortelã e retirou-se meio que olhando os buracos do chão meio que as manchetes do jornal. De quando em quando olhava as pontas dos dedos e balançava negativamente a cabeça, afinal como podia um diário daquele que possuía um belo parque gráfico, que por muito tempo gabou-se de ser o jornal de maior tiragem do Norte e Nordeste, pintar-lhe, despudoradamente, os dedos de carvão daquela forma? Paciência (rosnou mentalmente).

Aportou no velho botequim escolhido cuidadosamente para ser a sua base de leitura aos domingos no meio-dia. Sim! Esta ressalva é necessária, teria de ser um local aonde não servisse almoço, pois assim poderia calmamente sorver sua “tubaína” de malte e cevada, com a despretensiosa e preguiçosa leitura do jornal dominical que, segundo o próprio, é o diário de quem não gosta de ler jornal.

Sem nem mesmo precisar levantar o olhar ou pedir qualquer coisa, já sobre a sua mesa foi postada a “ampola” de líquido amarelado e estupidamente gelado, acompanhado de uma pequena louça contendo azeitonas pretas e queijo branco. Fez um leve aceno com a mão como quem dissesse: muito obrigado meu querido Barriga (como era conhecido carinhosamente o garçom que ali estava há anos, atendendo quase sempre as mesmas personalidades).

Estava um belo meio-dia azulado e quente, o suficiente para tornar aquela mesa e cadeira postada à calçada o melhor lugar do mundo para se estar naquele momento. Por vezes elevava a cabeça refletindo alguma informação acabada de ler, pelo seu olhar podia-se deduzir se concordava ou discordava desta. Muito raramente emitia algum parecer, se barriga estivesse por trás “pescando piabas” de seu jornal, falava para este, se não valava para o colarinho de sua própria camisa, algo inaudível e intraduzível, um verdadeiro rosnar.

Mas, óbvio, aquele certamente não seria um domingo qualquer! Disso eu tinha plena certeza desde o início, afinal o que estaria eu fazendo naquele local àquela hora sob a sombra de uma amendoeira, observando aquela cotidiana e, por vezes, enfadonha cena?

Dito e feito. O carro surgiu do nada, veio acelerado, a mil! E ao chegar exatamente em frente às mesas e cadeiras sobre a calçada, freou abruptamente, freada daquelas que faz soar o pneu travado no chão. Ali mesmo, no meio da rua, impedindo qualquer trânsito ela desceu, largou a porta aberta o som do carro gritando ao mundo:

– (...) nem parece o mesmo / tá ficando pirado / onde você encosta dá curto / você passa, o mundo desaba(...)”.*

Ela vinha nitidamente enfurecida, passos duros e olhar reto, mirava o seu alvo sem piscar, pensei: é... Esse não escapa, mas quem seria? Olhei para Barriga em busca de uma pista, percebi que também ele estava incrédulo com a cena. A chegada ao alvo foi triunfal, a mão subiu e desceu - zastrasss-brucstrimmmm! Voaram azeitonas, queijo e porcelanas por todos os lados.

Por sorte tratava-se de um boteco de marmanjos já escolados pela vida se não... Certamente seria um corre-corre dos infernos, acompanhado de gritarias e tudo que estas coisas agregam em si. Mas não, o máximo que aconteceu foram, aqueles que liam observaram sobre os jornais para se certificar do que ocorria, os que de cabeça baixa pensavam na vida ou nas dívidas, apenas levantaram os olhos com cara de quem pede: “por favor, sem barulho”, nada além disso, Barriga se recostou junto ao caixa e ficou confabulando sobre um assunto qualquer com o Galícia, o “Homi-do-Dinheiro”, como era conhecido. Tudo isso aguçou minha curiosidade, afinal, além da moça do automóvel, da louça estilhaçada e dos acepipes pelo chão... Nada mais ocorria.

“(...) Vivendo em tempo fechado / correndo atrás de abrigo / exposto a tanto ataque / você ta perdido (...)”, continuava a berrar o automóvel no meio da pista e todo arreganhado. Nosso amigo foi o único que não abaixou o jornal, aliás acho que nem notou que o vazo de tira-gosto que havia se transformado em um 14-Bis desastroso tivesse sido o dele. Este desdém foi o suficiente... a mão levantou-se novamente, todos arregalaram os olhos, pararam de respirar, aliás o mundo parou por um instante e... ZAAAZZZZZZZZZZZZZZ, a mão desceu zunindo e apanhou o jornal pelo meio...

- Cachorro, canalha, porque você esta inventando isso de mim? O que te fiz? Você não pode ficar por aí, impunemente, inventando estas sandices, eu nunca fui isso, nunca fiz nada disso...

Os olhos dela faiscavam, o ódio era latente, percebia-se, mesmo de longe que era uma ira incontrolável... Enquanto isso o nosso amigo com ar de quem nada está entendendo procurava sobre a mesa por seus óculos que havia retirado enquanto lia o, agora já inexistente, jornal.

“(...) E pra se ajudar / você faz promessas / e pra piorar até o papa te esquece / e pra te arrasar nem o inferno te aceita (...)”*, o som do carro agora assessorado por um turbilhão de buzinas inconformadas, aumentavam o suspense e a expectativa, enquanto isso nosso amigo, agora já com uma fisionomia preocupada, apalpava freneticamente a mesa em busca de seus óculos, foi quando o golpe final foi dado...

Ela olhou e, o pior viu! La estava sobre a mesa ele: o copo de cerveja gelada e cheio até a boca... A mão novamente levantou, sacou do copo e chuááá!!! Vôo o líquido sobre o rosto sem óculos que incrédulo o máximo que fez foi balbuciar: - mas, mas...

- O quê é? (ela virou-se para o ambiente) Tão com pena deste miserável? Vejam a cara de sínico dele!

Neste momento, acho que se sentindo plenamente vingada apontou para o nosso amigo e...

- Nãããão! Não é possível! (disse ela)
- Sim é possível. (disse o nosso amigo)
- Mas de olhos fechados, dentro do carro e você atrás do jornal não havia a menor dúvida de que era...
- Sim, de olhos fechados pode ser, mas, não sou.
- Meu Deus, como pode ser? Eu tinha total certeza...
- Pois é, era o que tentava te dizer... Estavas mirando o inimigo errado, veja se ele não está dentro de você?! Barriga, por favor, uma gelada e uma porção de azeitonas pretas e queijo branco.

Ela, mãos sobre o rosto, dirigiu-se ao escancarado carro que junto às buzinas berrava:

(...) E pra te danar
Nada mais dá certo
E pra piorar
Os falsos amigos chegam
E pra te arrasar
Quem te governa não presta”.*

Roger Ribeiro
08 de novembro de 2011.

* Declare Guerra - Barão Vermelho

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O vento em seus cabelos


Para Dona Yara.




Olho os seus cabelos de longe e imediatamente me vem a imagem do Everest, longos... esvoaçam levemente das pontas castanhas claras subindo por suas cerdas ao cume da cabeça, desnudando um branco alvo e brilhante que orna de forma quase mítica os sulcos do rosto que traduz a sabedoria do sobreviver.

Encantei-me ao perceber que não mais porás tintas nos cabelos, na verdade a idéia que esta nova realidade me passou é que não podemos passar tinta nos caminhos, nem os percorridos muito menos os por percorrer. Senti-me perfeitamente bem, feliz ao constatar que tantos anos se passaram e tanto ainda tens a me ensinar.

Como sempre, um ensinamento de quem sabe por onde navega a possibilidade do conhecimento, sabe que nem sempre as palavras são as transmissoras da sabedoria, às vezes é difícil para quem não o conheceu entender como um andarilho urbano podia dizer algo tão simples que, para muitos hoje, pode parecer banal, piegas até: “gentileza gera gentileza”, mas, para quem conheceu o olhar e o desprendimento daquele ser, sabe o quanto esta frase se insere feito punhal nas ruas por onde andou.

Mais uma vez não foi a palavra, desta vez foi a simples visão de como tão miúda, tão pequena tornastes a mais imponente muralha do nosso planeta, o saber que se levanta da terra rumo ao céu.

A sabedoria acumulada e tão gentilmente partilhada transformou-te em um impávido e absoluto habitante da Terra. Dos pequeninos pés, da cor do recôncavo, até a neve dos cabelos que tornam o ar rarefeito, as idéias leves, tão leves e fluidas que podem penetrar nos castelos mais sombrios, nos corações mais petrificados arejando as mentes mais conturbadas.

O vento apenas coopera na expansão desta visão, a neve do topo de sua cabeça não gera frieza, muito pelo contrário, produz à possibilidade de contração, de condensação, o vento há de, ao passar pelos fios dos seus cabelos, espalhar sobre a forma de chuva a possibilidade de diluir as verdades, os dogmas, a ilusão de que alguém, além de você mesmo, acredita nos seus moinhos, seja você quem for.

Aquele mínimo corpo, gigantesco Everest, sabe que do seu topo as civilizações tornam-se apenas e somente imensos formigueiros, indistintos em seus detalhes, máximos em suas possibilidades de arregimentadas cruzarem florestas e desertos.

Sentado com minhas velhas botas pretas, mal engraxadas, na bela (e espero eterna) balaustrada do Porto da Barra que aponta para a Ilha de Itaparica, neste fim de tarde roxo-azulado, todas estas imagens e aprendizados me invadiram ao ver um objeto, que não quis identificar, plainando sobre o mar da Baia de Todos os Santos, entre o meu olhar postado sobre a branca balaustrada e a ponta da Pirâmide da Eubiose de Mar Grande, soou pleno nos meus ouvidos:

“Minha senhora
Onde é que você mora
Em que parte desse mundo
Em que cidade escondida
Dizei-me que sem demora
Lá também quero morar (...)”*


Assim, assisti à noite cair em paz, enegrecendo a linda Baia. Saí distraidamente sorrindo, lembrando de quanta, ao certo, felicidade te traria, minha muralha do Everest, saber que seus cabelos brancos apontam para um horizonte aonde não há tinta que encubra as cores da vida.

Nem que para isso se leve uma vida para saber.

Roger Ribeiro
18 de outubro 2011

*Minha Senhora – Gilberto Gil

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uno? Não mais


Andava com a mente um tanto quanto turva. Os fatos não o ajudavam e não conseguia entender como havia entrado naquela espiral de turbulências que afetaram seu estado de espírito de forma abrupta e covarde.

Em todos os locais que freqüentava era sempre tido como alguém de muito equilíbrio e de um senso de justiça que o fazia de referência, jamais imaginou poder ser vítima de uma trama cósmica, ou seria cármica? Mas de uma coisa tinha absoluta certeza, tratava-se de algo de outro planeta, outra galáxia, outro mundo!

Agora aquele ser lúcido vagava como uma alma penada, a mente sempre em desalinho, para concentrar-se nos afazeres do cotidiano era um exercício hercúleo, ao fim do dia estava exausto. Sua aparência antes sempre muito bem cuidada cedeu lugar a um flagelo humano, estava praticamente irreconhecível, todo o seu ciclo estava apreensivo com seu estado e a pergunta rondava a cabeça de todos: o que houve? Que raios aconteceu com ele? Porém, resposta não havia.

Às vezes passava o dia vagando, andava a beira mar do Farol da Barra ao Farol de Itapoã, outras vezes sentava-se em um banco da Praça da Avenida Centenário e passava o dia olhando fixamente para um ponto qualquer. Nada percebia, nada o afetava, havia perdido qualquer contato com o seu ser sólido, vivia em um mundo paralelo, onde apenas as sensações existiam.

Disso tudo fiquei sabendo apenas depois, pois até aquele fim de tarde de domingo, nunca o havia visto. Mas o acaso ou os predeterminantes (depende de sua leitura sobre os fenômenos da vida humana), fez a diferença e colocou-nos um no caminho do outro.

Andava eu um tanto quanto distraído e apressado, estava meio atrasado para o meu encontro musical semanal com os amigos, assoviava o chorinho “André de Sapato Novo”, que iria sugerir para colocarmos no repertório, quando um bela moça sentada na grama tocando violão tomou toda a minha atenção, concentrei e tornei-me só ouvidos para captar o que ela tocava. A concentração era tal que nada mais percebia, apenas ouvia aquela voz miúda, porém bem afinadinha, alguns passos mais e consegui a audição total:

“Casa verde, portão aberto
Vejo à frente o deserto
Até o circo chegar
Pai, mãe, eu vou partir
Tem um circo em frente a casa
Pai, mãe, lá fora o sol é radiante
e meu vestido esvoaçante
tem um corte
Um grande beijo
Um abraço forte
Eu vejo o sol pela janela”*

Era uma bela moça, cantando uma bela canção, e com uma emoção, um sentimento tão límpido, que reduzi a velocidade do passo para poder aproveitar o máximo daquela situação. Foi exatamente aí que ocorreu:

Pruft ...cabrummm, lona, lá estava eu, violão e tudo mais esborrachado no chão, e pior entrelaçado com uma ser que nunca havia visto em minha vida. Após tomar ciência de que havia pisado e tropeçado naquele ser que até aquele momento julgava estar ali em paz e em segurança, até que minha distração o fez, a ele e a mim, retornar abrupta e sem escala para o chão úmido da pista de caminhada da Praça.

- Ôh! Não olhas para onde anda? Ou não andas por onde olhas? Veja (mostrou-me a perna que sangrava, não muito, mas sangrava).

Sem graça olhei-o e... O que mais podia fazer? Levantei-me e pus-me a ajudá-lo a levantar.

- Vamos (falei), logo ali tem uma farmácia, vamos lá fazer um curativo.

- Não há curativo que estanque, que cure... Veja (apontou para as árvores), elas estão aqui faz tempo, já assistiram de tudo, me contaram coisas que jamais poderia imaginar, dores e alegrias, risos e choros. Não tem jeito amigo, não tem cura!

- Mas o que é isso?!Porque tanto niilismo? Veja, olhe ao redor! Veja aquela menina mesmo ali, tocando e cantando, apontei...Olhei...Olhei novamente e... Ué! Cadê ela?

- Ela quem? Ali não havia ninguém...

- Como não? Eu vi e ouvi. Aliás, por causa dela que esbarrei em você.

- Vamos pegue seus apetrechos, a noite vem chegando e o destino ainda está muito longe.

- Como assim? Que destino? Não estávamos indo juntos a lugar algum! Aliás, se não me falha a memória, eu não o conheço. Assim como podemos estar indo...

- Você realmente, continua o mesmo... Por isso me desprendi de sua pessoa...

-Hã? Mas, espera aí... Do que você está falando? Das duas uma, ou você é louco ou eu estou ficando louco.

Do nada vi o vulto da menina que cantava passando ao meu lado, olhei-a e ela me mandou um sorriso largo, lindo! Seu rosto inteiro sorria para mim...

- Veja! (virei rapidamente pra o meu novo amigo) Não falei que ela estava lá? Olhe... Ôxi, cadê você?

Olhei trezentos e sessentas graus e... Nada. Como podia? De repente senti um desconforto na perna e vi que ela sangrava (pouco, mas sangrava), olhei novamente o vulto da menina e ela também já não mais estava.

A noite havia caído definitivamente. Peguei minhas coisas e voltei a caminhar, agora sem pressa, a sensação no meu peito era que nunca mais seria uno. Neste momento percebi o meu novo amigo apoiado no meu ombro direito, e a menina cantora abraçou-se à minha cintura esquerda.

Voltei a crer na cura.

Roger Ribeiro
13 de outubro 2011.
*Circo - Ronei Jorge

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Apenas uma manhã



Acordei com a frase de uma canção na cabeça e esta passou a conduzir os caminhos dos meus pensamentos como se em um lapso de tempo, um universo paralelo se apoderasse do meu ser. Já não possuía autonomia alguma sobre mim, aliás nem mesmo uma breve referência de quem era possuía, minha mente estava a serviço isso era fato.

“Devia ser proibido uma saudade tão má, de uma pessoa tão boa”*.

Esta frase começava a construir um universo particular em minha mente, sempre concordei com ela, mas era algo que reinava apenas no campo lúdico poético, porém hoje pela manhã tudo se transformou. Toda a realidade existente passava por este dizer. Sim “uma saudade tão má de uma pessoa tão boa”.

De posse de minha mente, construções de idéias se consolidavam, inversões pertinentes que jamais havia imaginado tornavam-se óbvias de um momento para o outro, desta forma também se tornou real que saudades boas de pessoas más também são reais, porém deveriam estar no rol das proibidas, afinal para que perder tempo com estágios sólidos belos de elemento sutis ruins?

Esta falta de posse sobre mim mesmo começava a me agoniar, não poderia responder mais por mim? Esta situação poderia acabar por gerar condições conflitantes, principalmente com pessoas próximas que de uma hora para outra não mais entenderiam minhas supostas ações... Supostas sim, pois eles não sabiam apenas eu possuía a consciência de não se tratar de mim.

- Mas quem você pensa que é?

Esta voz veio de algum local indefinido. Na verdade não sabia se a pergunta se dirigia a mim, ou ao dono de meu ser? Ou sei lá o quê? Só sei que respondemos juntos, eu e minha cabeça dominada por uma frase:

- Como assim? sou o que não deveria! Êpa, espera aí oh voz, quem respondeu isso não
fui eu, foi a outra voz. Mas com quem finalmente você quer falar?

Virei para um lado, depois para o outro e finalmente vi a voz, ela era realmente poderosa e elegante. Postava-se como se pela eternidade estivesse ali, mas tenho certeza de que ontem, pelo menos ontem, ali ela não estava, disso, pelo menos, tenho certeza.

- Olha meu caro é melhor você ficar calado, faz o seguinte fica aí na sua, olha só (falou minha cabeça e, dirigindo-se àquela outra voz continuou) ele acha que tem alguma certeza...

Os dois: a voz e a minha cabeça caíram na gargalhada e apontavam para mim, ela, a voz, de fora pra dentro e minha cabeça de dentro pra fora.

- Como assim fica calado? Olha me deixa colocar as coisas aqui em pratos limpos: primeiro o ouvido é meu, sua voz petulante e eu escuto o que eu quero e, quanto a você, esta cabeça é minha e não me recordo de tê-la sublocado para ninguém, portanto vá pegando seus paninhos e dando o fora daí, pois tenho de me adiantar para o trabalho.

Mais uma retumbante gargalhada! Desta vez percebi que novas vozes apareciam e uma briga se instalou, pois, meu olho esquerdo insistia em ver o que se passava de um lado e o direito, no lado oposto, discutiam de forma que a cabeça teve de intervir pra que não viessem a vias de fato. Meu Deus! Meus olhos foram ocupados, o movimento dos sem olhar haviam encampado os meus queridos olhos. Isso já estava passando dos limites.

- “Uma pessoa tão boa”, cabeça! Você não acha que poderíamos trocar esta condição?

- Claro voz!
Os olhos dirigiram-se para a janela, lá, perto das sete horas da manhã, uma multidão de transeuntes para lá e para cá, formavam um rio humano que cheirava a pasta de dente de hortelã...

- Vamos fazer o seguinte voz, a boa fica e trocamos por um punhado de mais ou menos ou um caminhão de más!

- não seja tão cruel... Olhos por favor, não sejam preconceituosos no olhar, vejam todos com os mesmos olhos.

Mas era impossível, afinal enquanto o esquerdo mirava os executivos o direito só tinha olhos para os estudantes, todos começamos a ficar meio tontos, e para piorar o nariz, e só aqui percebi que também já não me pertencia, anunciou que não suportava mais aquele cheiro de hortelã.

Corri para o chuveiro e mergulhei em uma ducha forte e gelada, quem sabe assim a realidade em real se transformava?

“Devia ser proibido uma saudade tão má, de uma pessoa tão boa”... Olhei para cima de onde vinha a água e... Não era possível! Em vez de gotas de água o que caia sobre o meu (meu! Será?) corpo eram letras que ao virar a cabeça os olhos liam claramente d e v i a s e r p r o i b... e assim por diante. Já era demais, havia passado dos limites.

Sai do chuveiro, coloquei rapidamente uma roupa, peguei meus livros, abri a porta olhei para todos eles que debatiam efusivamente sobre o que deveria e o que não deveria ser ou não ser proibido, fechei todos os meus sentidos e bradei:

- Quando voltar não quero ver nenhum de vocês por aqui. Tá entendido? Bati a porta e sai para a rua.

Da rua olhei para cima, mirei a minha janela e avistei todos pendurados na janela gritando em uníssono:

- (...) Dizer adeus, ir embora
Você partir e ficar
Pra outra vida, outra hora
Devia ser proibido...*

Roger Ribeiro
23 de setembro de 2011
*Devia Ser Proibido – Itamar Assumpção.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amanhã



Não soube o que aconteceu. Avistei pela última vez entrando no coletivo que se dirigia ao centro da cidade, daí em diante, aonde desceu? Para onde se dirigiu? O que
fez da própria vida...? Não sei dizer, o fato é que sumiu, desapareceu de vez, virou fumaça.

Enquanto todas estas dúvidas pairavam em minha cabeça, continuava, sentado na biblioteca com aquele livro do “Nuvem Cigana” em minha frente, porém não conseguia absorver nada, lia as letras e estas não formavam palavras, as palavras não formavam frases, as frases não formavam períodos, enfim o abstrato não se materializava em nada e isso me deixava efetivamente desnorteado, desde pequeno desenvolvi uma verdadeira aversão ao nada. Afinal nada é muito pouco.

Mas, foi assim mesmo, do nada ela entrou na sala de leitura, aliás, antes dela efetivamente entrar o que entrou foi o seu cheiro... Um cheiro forte de mata ao amanhecer. Imediatamente ergui os olhos, não foi nenhum sacrifício, afinal do “Nuvem Cigana”, nada absorvia mesmo - que me perdoem os velhos vanguardistas cariocas - mas a nuvem não chovia no meu cérebro.

Em pé à porta estava ela, percorri a sua geografia e fui me divertindo ao vê-la. Seu cabelo estilo “joãozinho”, que junto a um óculos daqueles de armação grossa e grande que normalmente as mulheres só aceitam sobre o nariz quando escuros na arreia da praia, mas os dela não, eram branquinhos, translúcidos e seu aro inferior praticamente moldava um leve sorriso de quem ainda observa se estava no local certo, na hora certa e, isto bem mais subjetivo, fazendo a coisa certa.

O ponteiro de segundos mal se moveu, porém as horas voavam, será que todos viam o que eu via? Bem, uma coisa é certa ela não via nada, pois seu olhar por de trás das grandes lentes brancas não fitavam nada... Olhava absorta para a parede de livros sem procurar efetivamente nada. Seus passos relapsos dirigiram-se ao recepcionista da sala e com a voz empostada e em tom alto perguntou:

- Ele já chegou?

- Desculpe senhora (falou o recepcionista), de quem a senhora está falando?

- Por favor, não se faça de desentendido. O senhor escutou muito bem...

- Sim, não estou negando, realmente escutei, porém não sei há quem a senhora se refere.

- Ele...Ela...

- A senhora por acaso já observou nas outras salas se ele, ela, não é assim? Por lá não está?

- Creio que o senhor está querendo esconder algo de mim. Marquei aqui, veja o relógio! Marcam exatamente 9:35 desta quita feira, 25 de agosto de 2011. Não existe equívoco algum tudo foi milimetricamente acertado.

- Minha senhora! Aqui se escondem nestas páginas destas centenas de livros, muitas histórias, muitos encontros e desencontros, porém como a senhora pode perceber, só a senhora sabe com quem marcou, sendo assim como eu posso saber se já chegou ou não? É homem ou mulher?

- Não importa o que espero não tem sexo. Vou caminhar pela sala, talvez não tenha observado o suficiente.

Andou pela sala tentando disfarçar, olhava atentamente a todos, e quando a pessoa se sentia observada, desviava o olhar, fingia ajeitar o cabelo, tossia, ou seja, disfarçava, aliás... muito mal.

Retirou um tipo de echarpe muito fino de motivo indiano da bolsa e cobriu os cabelos curtos e arredondados, olhou-me atentamente, levantei a vista e, pela primeira vez não tentou disfarçar, permaneceu esquadrinhando cada centímetro de meu rosto, minha expressão. Aproximou-se e respirou fundo, queria inalar o meu aroma. Na mesma comprida mesa em que eu estava havia uma jovem estudante atribulada com suas pesquisas escolares.

Ela sentou-se ao lado da minha vizinha estudante, olhou-a fixamente, puxou-lhe o livro que lia e quando esta levantou a vista para saber do que se tratava...

- Você está aqui há muito tempo? (disparou ela à jovem).

- Desde as 8:00, quando abriu, porque? (respondeu-lhe de forma ríspida característico dos jovens estudantes)

- Você então deve ter testemunhado a chegada?!

- Que é isso minha senhora? É algum tipo de brincadeira?

- Não brinco com coisas sérias. Foi visto entrando em um coletivo em direção ao centro da cidade, portanto, claro que já deve está aqui.

- A senhora é louca?

A jovem levantou assustada dirigiu-se ao recepcionista e falou algo inaudível para nós. Antes, ao ouvi-la falar de alguém que havia se transportado em direção ao Centro e não havia vestígio, levantei a vista e fitei-a. Ela olhou-me novamente e disparou:

- Você também aguarda, não é mesmo? Eu sei que sim, seu cheiro é de quem aguarda.

- Não sei se falamos da mesma coisa, mas faz tempo que soube que transitou em direção ao Centro, mas aqui não chegou.

Ela sorriu de forma leve e serena, ergueu-se, caminhou lentamente, como se flutuasse, até a mim, fitou-me mais uma vez atentamente, pegou em minha testa pressionando-a para trás, passou o dedo entre meu nariz e meu lábio superior, balançou negativamente a cabeça, virou-se e saiu lenta e levemente andando e dizendo-me:

- Se Amanhã chegar, por favor, diga-lhe que Hoje esteve aqui.

Dirigiu-se à estante e, se não fiquei louco, achei que havia entrado em um determinado livro. Balancei a cabeça, apertei os olhos para certificar-me de estar acordado e são. Para que ninguém notasse e pensasse tratar-se de um louco, deixei o tempo passar... Levantei-me e discretamente dirigir-me até a estante. Puxei o volume que, para mim, ela havia entrado, sorri ao ler: CRONICA DE UNA MUERTE ANUNCIADA - GARCIA MARQUEZ, GABRIEL. Estava tudo explicando.

Roger Ribeiro.
25 de agosto de 2011.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Arquitetura do Ser

Para uma jovem avó, que me ensinou que o verdadeiro arquiteto é o poeta - a verdade.




"Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento".*




Andava distraído, não havia um destino exato, era um caminhar misto de desocupação, contemplação e exercício. O dia era chuvoso, uma chuva fina, aquilo que os paulistanos chamam de garoa, umedecia a cidade e, naquela praça gramada e repleta de árvores, uma das poucas remanescentes da cidade, esta friagem era ainda mais sentida.

No ouvido o fiel fone ligado ao rádio, que de tanto ser o companheiro do solitário caminhador já havia sido batizado, ironicamente, de Orlando Silva – “O Cantor das Multidões”. Pois, foi exatamente dos poderosos pulmões, ou melhor, dos poderosos transistores de “Orlando” que lhe veio à surpresa. Havia, ele não sabia quem, transformado uma lenta e sensibilíssima canção de amor em uma levada funk pop, sem o menor sentido.

O nosso caminhador tomou tal susto que chegou a parar, ele não acreditava naquilo, como podia alguém transformar uma canção como “A Linha e o Linho” naquilo, não era possível, é algo impensável, para você ter uma idéia seria como retirar “Moon Over Bourbon Street” da obra “Bring On The Nigth” - o álbum duplo pós Police - e colocá-la em um arranjo típico do “Chiclete com Banana” (a banda baiana). Nossa! Como seria possível tamanha falta de sensibilidade?

Ele balançava a cabeça em negativa, estava realmente incrédulo com o que lhe invadia os ouvidos. Pensava: será que eles não percebem que esta poesia possui música própria?

Não agüentou, retirou os fones de “Orlando” do ouvido e passou a olhar aquela paisagem fria e úmida, algo quase londrino em plena Salvador. Pessoas passavam por ele com vestimentas de “malhação” sempre muito coloridas e ar de ausência, afinal quem pode estar em atividade física em plena quinta-feira às 9:00 horas desta manhã chuvosa de alguma forma se sente ausente, para o bem ou para a dor, do mundo robótico dos “normais”.

Continuou sua caminhada e agora mais do que nunca estava alheio a tudo que lhe cercava. Apenas a imensa interrogação lhe ocupava a mente: como podem ter feito aquilo?

Caminhando mais que distraído acabou por esbarrar em uma árvore; bateu caiu... Quando recobrou o mínimo de consciência estava deitado em um chão molhado, rodeado de olhares que lhe interrogavam de cima para baixo:

- Você, você, cê, c... Está, está, tá, t... bem, bem, bem be...b...?

Eram muitas vozes que lhe arrebatavam o espaço que até então era exclusivo de “Orlando”, balbuciou meio que embriagadamente:

- T... tudo bem... mas, algum de vocês pode me dizer como pode ser?

- Moço,olha o seu rádio...Caiu mas já testei, pra sua sorte ele tá funcionando.

- “Orlando”! Nossa não sei como te agradecer...

Olhou aquela mão fina e morena jambo, como as melodias de Jards Macalé, que lhe estendia o seu grande e único companheiro e foi lentamente reparando aquela menina encoberta por um vestido vermelho que lhe realçava a pele morena e o sorriso que lhe reduzia os pequenos olhos, que, menores ainda ficavam por detrás daquele óculos de lentes grossas.

- Ôcê poderia ter se machucado...

- Pior, muito pior, menina cor de jambo, eu poderia ter decretado a morte de “Orlando”, Deus do céu!

- Quem?!!

- “Orlando”, que você salvou para mim!

- Ah! Seu rádio chama-se “Orlando”?

- Sim, “O Cantor das Multidões”! E você, mineirinha né? Tem nome?

- Não sou mineira, morei muito tempo lá, mas sou daqui, de qualquer forma você pode me chamar de mineira, fica-me bem... e eu mato um pouco a saudade.

Passaram a andar juntos, ela, como boa mineirinha, matutando disparou:

- Mas o quê houve com você?

Ele olhou-a com uma ternura de séculos sorriu e disse:

- Os tolos pensam que podem ludibriar os poetas!

Roger Ribeiro
04 de agosto de 2011

*SONETO ANTIGO – Cecília Meireles