terça-feira, 8 de maio de 2012

Tu separarás a terra do fogo e o sutil do espesso**



Para meu amigo que sofre do coração.


De domingo a domingo esteja chovendo ou ensolarado, não importava, lá estava ela impávida sobre a Pedra do Peixe ao noroeste-próximo do Farol da Barra, poucos a viam. Todos os dias centenas de centenas de pessoas passavam passeando, correndo, de automóvel, bicicleta, skate, de mãos dadas, abraçados, absortos, loucos, enfim de tudo um pouco, mas poucos ou quase nenhum a enxergava, parecia coisa resguardada aos poetas, aos estetas ou aos aluados.



Apesar de tudo isso, estava ela, sempre de uma elegância impar com seus vestidos de levíssimos tecidos de florido bordados à mão de tamanha beleza e delicadeza que só poderiam ter sido incrustados naquele tecido por mãos de fadas, não qualquer fada, mas do tipo das que criaram o vestido da Gata Borralheira. Os pés descalços confundiam-se com o brilho do sal nas pequenas poças d’água que formavam oásis para pequeninos peixes na escura e inabalável rocha negro-chumbo.



Por solfejar intermitentemente uma linda melodia, aqueles que não a viam, mas que a ouviam, costumavam chamar aquele local de “morada das sereias”. Os que viviam do mar temiam; nem as ondas violentas das ressacas de março ousavam tocar-lhe, apenas a fresca brisa nordeste lhe acariciava e fazia flutuar seus imensos fios de cabelo azuis que, os contadores de histórias desta terra, desde tempos de Monan e Maire, portanto anterior à chegada de Cristo ou Oxossi por estas terras, narravam que as pontas destes cabelos apagavam as pegadas das virgens nativas nas areias de uma das Ilhas mágicas, que se petrificou, saindo do hiato entre a Terra sutil e a Terra sólida com a chegada de Martin Afonso de Souza que a denominou de Ilha de Tinharé.



Não se tratava de uma jovem, os sulcos em sua face demonstravam que ampulheta havia virado por várias vezes, seus olhos negros confundiam-se com as Marias-Pretas, rápidas e abundantes nas poças que rodeavam aquela pedra, conseguiram permanecer abundante por terem pouca carne e muitas espinhas, o destino lhes foi benevolente. Enquanto o sol brilhava atinha-se a terra, lia com muita atenção a fisionomia de todos que passavam. Nada dizia. À noite voltava-se para o horizonte marítimo e postava-se como em oração. Nada dizia.



Apenas quando os poucos que a enxergava chegavam e mansamente sentavam ao seu lado parava de solfejar e atinha-se de corpo e alma ao que lhe era narrado. Jamais se apressava em emitir parecer, o tempo lhe era grande aliado, sabia ouvir os sinais da natureza, não bastavam as palavras, era necessário ouvir a brisa reverberar no som das palavras, o sol estalar na pele do narrador, havia muitos sinais que iam além dos limites impostos pelo que seus bloqueios mais sutis permitiam falar, e era exatamente ali que podiam estar os caminhos possíveis.



Por vezes sentia que o vento perdia a rota, sentia pelos fios dos cabelos que saiam da reta e rodopiavam perdendo a cor azul-água corando-se de verde-esmeralda que a emoção daquele corpo estava confusa. Os pássaros marinhos não ousavam se aproximar muito menos piar nestes momentos, de longe observavam as mudanças melódicas, aliás, do Morro Ypiranga ouvia-se:  


“Quando o riso se perde da face
E a tristeza invade
Entre o céu e o mar (...) / as gaivotas (...)”*

Em um destes momentos, quando o seu acompanhante iria começar a narrativa, levantou a mão pedindo-lhe que nada dissesse, colocou levemente os dedos sobre seus lábios e fechou os olhos para poder ouvir o vento e o sol naquele corpo, os odores que surgiam naquele momento, a reação dos peixes e das aves, foi neste momento que me viu voando entre o sol e seus olhos, sombreando-os, sorriu largo para meu voar! Voltou-se para o seu acompanhante e baixinho lhe falou:

- Amedrontamo-nos com o só por temermos ter de nos aceitar.

Seus cabelos retornaram à rota, agora em um azul-marinho vivo. Seus longos cabelos nas pegadas nativas – o tempo.

Roger Ribeiro
08 de maio de 2012.
*Vôo Rasante – Lui Muritiba
** Hermes

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Se vou passar?


“come on baby
transformar esse limão em limonada
(...)
seguir o coração, em disparada
numa estrada que só tem a contramão”*

- Sim (disse o gerente do RH, ou seria o psicólogo? Bem vamos adiante), liste-me porquê o senhor acha-se apto para a vaga?

- Em primeiro lugar porque sou formado pela Universidade Federal da Bahia em Regência com especialização em Violão Clássico, sabe do que se trata não é mesmo? Erudito, não tem negócio de serenata na praia em Lua Cheia não, é Orquestra mesmo.
Também toco piano e sanfona, esta última em homenagem a meu maior ídolo - o Rei Luiz Gonzaga, conhece? “Quando olhei a terra arder...”, ele é que canta e toca o resto é com o Humberto, mas não vá confundir, não é o Humberto que assina a carta de referência aí na frente não, este é meu ex-cunhado, se é que isso existe, estou falando do Mestre Humberto Teixeira, êta “cabra bão”.

- Sim, mas parece que o senhor não está...

- Olha querida Banca, conheço um pouco dos meus direitos referentes à entrevista e sei que não posso ser interrompido em meio ao detalhamento do que me foi perguntado. Sendo assim, prosseguirei.
Tenho também vasta experiência em trilhas para o cinema e teatro, os senhores certamente assistiram ao curtíssimo curta “Fechei meus olhos”, sem falar na Menção Honrosa ganha no festival Teatro de Rua, isso faz... Acho que uns nove anos, a trilha era demais! Cinqüenta minutos de sustentação de um Si Bemol pelo violoncelo, emocionante, não tem outra descrição: emocionante, ganhei até um largo sorriso do mestre Ataualba.

Enquanto isso, na sala anexa, uma dezena de concorrentes aguardavam segurando suas pastas, livros, documentos e afins. No ambiente aquele cheiro de adrenalina que explode pelos poros. O tempo parecia congelado, cada candidato possuía dez minutos, não mais que isso, para a última fase rumo à sonhada vaga: a paralisante entrevista. Antes dali passaram por três outras fases e, de um total de mil e quinhentos candidatos, agora só restavam aqueles quinze, era uma disputa acirrada, apenas um sairia dali “coroado”. Mas, retornando à sala da entrevista...

- Caro candidato gostaríamos que o senhor se ativesse ao universo condizente com a situação (expressou com desagrado aquele que deveria ser o presidente da Banca).

- Claro! Como não? Sendo assim não poderia jamais deixar de lembrar que também fiz parte do primeiro grupo de pichadores desta cidade, sim não havia esse negócio moderno de grafiteiro, éramos todos chamados de pichadores, e euzinho fazia parte dos primeiros, vocês devem lembrar... Tinha o “Faustino” do Miguel, o “transforme” do Marcus, isso só pra citar alguns que vocês devem reconhecer. Eu fazia parte dos que faziam divulgação dos shows nos muros da cidade, arte e publicidade, não sei como não fui contratado, a peso de ouro, pelas grandes da propaganda. Aliás, sei sim: panelinha... Pode crer amizade, panelinha...

- Sim meu caro candidato, mas...

- Pinauna, é assim que o mundo me conhece, meu nome de batismo ficou no passado.

- Mas nós não podemos nos referir ao indivíduo, somente à sua condição de candidato, assim: estamos vendo aqui que suas avaliações, nas três etapas anteriores, foram excelentes, mas gostaríamos de saber do senhor sua experiência especificamente em relação ao cargo pleiteando.

- Claro! Veja bem, andava eu acabrunhado, desbeiçado de todo, já não sabia a que ou a quem recorrer, diria até aos senhores que minha condição humana havia se desfigurado, foi dentro desta plena certeza de estar desumanizando-me que me ocorreu poder viabilizar um projeto que estabelecesse o elo entre o estado das coisas, lembrando aos senhores que a coisa, no caso, trata-se da minha pessoa. Assim decidi...

- Meu amigo, o seu tempo está se esgotando e até o momento ainda não conseguimos identificar o que há de ligação entre você e este local!

- Amigo? Você? Vocês precisam se definir, afinal segundos atrás os senhores me disseram que eu era apenas um candidato e que os senhores, sem fisionomia e nome, seriam uma Banca! Vocês estão querendo me confundir? Tenho todas as condições necessárias para estar aqui, afinal, pergunto a vocês, senhores, ou como queiram que os trate: existe alguém mais apto do que eu?

- Senhor candidato, apesar de suas excelentes avaliações como já dito, realmente não enxergamos nexo entre as suas habilidades e o cargo disponível. Enfim, e, por favor, seja claro, qual o seu interesse no cargo?


- Não tenho o menor interesse. Estou aqui apenas para poder comunicar ao Senhor Digníssimo Presidente desta conceituada e internacional empresa que, de hoje a sete dias, estarei casando com sua filha, afinal:
“a vida não tá certa, nem errada
aguarda apenas nossa decisão”*.

Roger Ribeiro
25 de abril de 2012.
*Tudo ou Nada – Alice Ruiz e Itamar Assumpção.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O brilho das pedras




Eu tinha absoluta certeza que não teria como preencher a expectativa. Não, não estávamos em uma estrada comum, aliás, como diziam os Novos Baianos: “(...) não é uma estrada, é uma viagem (...)”. O tempo era de poucas certezas, os ventos eram fortes e traziam de longe o cheiro do sargaço na areia escura. Nunca fui de ter muitas certezas na vida, pois nunca entendi claramente o que fazia eu nela e muito menos o que ela, a vida, desejava de mim, por isso não seria agora, assim do nada, que encontraria a lança da bússola.

Havia aportado. Não sabia se aquele era realmente o local e muito menos a hora em que deveria estar, mas assim como sempre dei crédito ao acaso, fiquei. Mantive-me como uma sombra aguardando os caprichos da luz. Nada esperava, porém sabia que em instantes, talvez, tudo poderia acontecer. Em minha mente contorcia-se o som do segundo em que nasci e a nítida reverberação de que seria também em meio à fração do ponteiro que separa um segundo do outro que se romperia o elo entre o ser e o não mais ser.

O sol era quente o suficiente para permitir observar a evaporação das pessoas que pelo campo da visão transitavam. Pensava: será que daria tempo destas pessoas chegarem aos seus destinos? Conseguiriam realizar a tarefa na qual estavam imbuídas? Ou evaporariam plenamente a ponto de tornarem-se disformes poucos quilos, alguns até gramas, em algum canto da cidade?

Enfim uma árvore frondosa para acolher-me, permitir sair do estado de sombra para solidificar-me novamente, deitei sobre a grama fina e permitir arejar-me. Agora era apenas aguardar, estar pleno para não permitir que o instante escape.

Olhava o verde da copa da árvore como quem admirasse um milagre, ouvia as seivas transitando por aquele imenso tronco que exigia das folhagens absorção absoluta, era um fluxo de uma força absurda, na verdade o universo deitava sobre os olhos, restava admirar. Tudo aquilo acontecia independente do meu ver. Lembrei-me do poeta, sorri e sussurrei: realmente a cor verde é a mais verde que existe.

Não a viu passar propriamente, percebeu a abertura de um vácuo que se iniciava nela em movimento, fui tragado por este vácuo, não havia como resistir, era infinitamente mais forte do que eu, tentava identificar o que me arrastava com tamanha energia, o máximo que enxerguei foi uma fina e alva mão que bailava ao lado do volume que se deslocava, o vácuo, ao contrário do que muitos pensam, não é translúcido e sim leitoso, permite ver um vulto, porém não se consegue foco suficiente para uma identificação.

Na mão que estava fora do rastro leitoso percebi as pontas, ali estava o que talvez fosse o que tanto aguardava, ali estaria o código. Seria a ponta dos dedos daquela mão bailarina o código? Apertei o cérebro para decifrar, ali deveria estar a resposta.

Carregado pelo vácuo o tempo perde sua linearidade, e por isso vi, ouvi e toquei em várias situações que transitavam pelo passado, presente e futuro. Erros e acertos tomaram-me a alma com a fúria de um rio que desce cordilheiras. Mas, antes de qualquer coisa estavam as pontas daqueles dedos que pareciam digitar algo na tábua do tempo.

Eram quatro pontas cinza-musgo e uma laranja, quatro que apontavam e cravavam na terra e uma que refletia o sol que soberano evaporava corpos. Eram quatro quase verdes, uma laranja de vivo e cintilante amarelo, eram quatro jogadores que das pontas dos dedos se entranhavam pelas mãos, braços, avançando pelo alvo corpo que aos poucos perdia sua água vital, submetendo-se ao calor do alaranjado que lhe atraia ao fogo solar. Não havia tensão, não havia dor, só havia cor e fluxo. A velocidade tornava-se impensável para qualquer corpo sólido. Ela neste momento era apenas o vácuo da fornalha alaranjada sobre o cinza-musgo, e eu preso ao vácuo do próprio vácuo.

As partículas do que antes fora nossos corpos aceleravam-se a ponto de nos aproximar da explosão do gênese. Sorriamos enquanto voávamos e desmaterializávamos. Nada mais havia a não ser o brilho do vácuo leitoso e o ensurdecedor som dos nossos sorrisos, éramos estrelas, sem ontem, sem hoje e muito menos sem amanhã.

As janelas estremeceram com a explosão do trovão, tudo clareou em flash, e um forte aguaceiro desceu do espaço molhando meu pé e a ponta do meu colchão. Atordoado levantei para fechar a janela. Um novo raio cortou a cortina de água e, espantado, te vi passar entre o flesh do raio, o som do trovão e a força das águas que caíam, com as tiras dos cabelos molhados esvoaçando em direção ao horizonte. Virou-se, encontrou com seu olhar de partículas incandescentes meus olhos e por eles escreveu em minha alma:

“(...)Sonhei que viajava com você em um balão
Que flutuava muito acima de um vulcão em erupção
Para o oriente vento quente, pés longe do chão

Voava sem ter asas como a imaginação
Nós dois bem alto sãos e salvos rumo ao japão
Numa sacola mel, laranja e manjericão (...)”*

- Senhor, senhor (segurando no meu braço), não é permitido mergulhar a cabeça no aquário.

Alertou-me a sempre muito gentil garçonete do restaurante chinês.

Roger Ribeiro
10 de abril de 2012

* Sonhei Que Viajava Com Você - Itamar Assumpção

sexta-feira, 16 de março de 2012

Estrondou o silêncio!



- Estava ali. Sim, estou te falando, estava ali sim, mas você demorou de virar o rosto, voou.
- E prá onde foi?
- Ora tirando avião, helicóptero e estes brinquedinhos humanos, sabe-se lá aonde vão os seres alados? Voou e pronto. Da próxima vez seja mais atenta, mais rápida, afinal a qualquer momento pode-se chegar ao ponto final.

Afastaram-se.

Saiu meio andando meio parada com a cabeça no peito e o coração sobre o pescoço, continuava sem crer, afinal foram tantos os fenômenos naturais, tantas Luas giraram em suas evoluções e involuções, sóis que nasceram à cabeceira de sua cama e se puseram aos pés de suas botas desbotadas. Lembrou-se do que Iara escreveu: “Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida” *.

- Sei que não há desculpa, mas naquele exato instante o vento soprava os longos fios de cabelos pela minha face e minha nuca desfigurando-me enquanto matéria humana. O Eu era apenas partículas como as que se despreendem da água que explode na pedra abaixo da cachoeira.

Sentou-se em um banco de praça já quase inexistênte: pés retorcidos de ferro marrom, assento e encosto de ripas torneadas e vazadas caprichosamente pintadas de verde folha. Não havia pressa para nada, o mundo passava ao seu largo não se fazendo presente no âmbito de sua visão, o som continuo da sinaleira ficando verde-amarelo-vermelho-verde- amarelo... não lhe atingia os tímpanos, no olfato um aroma de respiração a inundava. Era ela! E do nada se apercebeu de quantas eram ela e a imensidão dela, nela mesma.

Lentamente foi reagrupando as suas partículas, recolheu as asas, debruçou e apoiou o olhar por sobre o jardim da praça, sentiu-se acalentada. Começou a perceber que o mundo a seu redor andava acelerado, se sentiu um tanto quanto deslocada, pensou no tempo em que observava o “mundo”, o verde, passar pela janela do Interestadual São Geraldo. Eram horas e horas para ver o tempo se materializar em mata, poeira, amanhecer, anoitecer, paradas imundas à beira da estrada aonde na maioria das vezes lá estava ele: de pé, botas de couro cru surradas, calças de tergal azul marinho, camisas de botão poídas, chapeu negro e a viola de aço pendurada no ombro: O cantador que de tanto viver o ir e vir, cantava a sua situação estática:

“Não sei o que faço, a minha vida é uma luta sem fim,
Sinto-me no espaço, o tempo todo a procura de mim,
Há dias na vida, que a gente pensa que não vai conseguir,
Que é bem melhor deixar de tudo e fugir
Que outro mundo tudo vai resolver”.**

- Ei... psiu! Queria ser amarela como aquela ali.

Virou-se para ver quem falava. Olhou, olhou novamente e mais atentamente e não viu ninguém, isto lhe fez franzir o pensamento. Estaria ficando louca?

- Ela se queixou de ser vermelha, não foi? Queria ser amarela! Hum... Todo dia é a mesma coisa, não se cansa, e o pior é que se você for falar com aquela amarelinha ali, que lhe é o seu grande desafeto neste jardim, ela vai dizer que está é vermelha de vergonha, afinal havia lhe tirado o Cravo branco. Jamais a perdoaria!

Virou-se, desta vez com agilidade, retirando rapidamente o cabelo preso aos lábios cor de jambo, arregalou os olhos para aquela voz grossa secular e em um sobressalto questionou:

- O quê? Quem é você? De onde você surgiu?

O dono da voz, um franzino senhor de cabelos brancos e botas pretas, olhou ternamente para aquele olhar aflito e disse:

- Calma menina, sou apenas o jardineiro. Trato de seres como você e elas! (apontou para a queixosa Rosa vermelha e a brava Margarida amarela.
- Desculpe-me senhor, mas hoje sou a flecha que não curva, a palavra que se propaga ao infinito e a oportunidade que não vi.
- Desculpe-me menina, mas não foi o que me disse aquele pássaro ali...
- aonde?

Virou-se apressada, com os cabelos abraçando sua face e sua nuca. O avistou distanciando-se em um voou sereno.

O jardineiro virou-se para a menina novamente, mas junto ao banco havia apenas um par de botas, um pé amarelo, o outro vermelho, deixadas aleatoriamente sobre a grama. O homem franzino de cabelos brancos e botas pretas olhou para o infinito e sorriu ao ouvir a imensidão do som das asas cortando a linha do tempo.

Roger Ribeiro
16 de março de 2012.

* Provérbio Tibetano.
** Não Creio Em Mais Nada - Paulo Sérgio

terça-feira, 6 de março de 2012

Bem que Rita Lee avisou



Tumulto generalizado. Do outro lado da rua as pessoas se espremiam na calçada para acompanhar. Ninguém sabia ao certo o que ocorria, mas os gritos eram altos. Pela vitrine, entre os itens expostos, viam-se cabelos de várias tonalidades rodopiarem como se fosse um show de heavy metal. Era o caos e, assim como no famoso samba de Aldir Blanc, rapidamente chegaram pipoqueiros, mercadores de queijinho coalho, picolé, cerveja, refrigerante e água mineral... Enfim: de um tudo.

No interior do ambiente a situação pegava fogo, para cada uma que saia, toda desgrenhada, entravam pelo menos três, parecia estas coisas combinadas pelas redes sociais da internet. De repente saíram três mocinhas de vestidinho colorido e florido e com sandálias rasteirinhas vermelhas e, isto parece incrível em se tratando do gênero feminino, iguais... Sim! Pode acreditar no que digo, eram idênticas e se vacilar, ainda eram do mesmo número.

As três, de braços dados formando uma corrente, sorriam muito, pareciam que estavam saindo de um grande baile e não daquele furdúncio que simplesmente parou o comércio, fechou lojas, tencionou a situação a ponto de a polícia ser chamada. Logo que as três saíram ouviu-se a sirene da viatura policial chegando a mil e parando na porta daquela que era uma das boutiques mais finas do comércio local. De dentro da tal boutique, ao avistarem a chegada da viatura começaram a sair mocinhas apavoradas, exigiam providências imediatas:

- Vocês precisam fazer algo urgente!
- Umas loucas, nunca fui tão humilhada, detenha-as.
- Elas foram por ali...
- Tomem cuidado são perigosas...

Por fim o responsável pela viatura, usando de sua autoridade, conseguiu falar alguma coisa:

- Pelo amor de Deus, calem a boca! Uma de cada vez, por favor. Quem é a responsável por isso aqui?

De dentro da loja, cambaleando, saiu uma jovem de seus, no máximo trinta anos, toda desgrenhada, vestido todo amarrotado, maquiagem borrada e com apenas um dos pés ainda sustentando uma sandália de salto alto. Chegou e conseguiu balbuciar:

- Sou eu meu senhor, mas estou em estado de choque não tenho como declarar absolutamente nada. Lourdes! Lourdes minha amiga, pelo amor de Deus pega uma água para mim.

A viatura da polícia estava mais cercada de beldades do que a cabine do DJ Roger’n’Roll, era uma verdadeira loucura, elas falavam todas no mesmo momento, perguntavam e respondiam simultaneamente. De uma hora para outra percebi que os olhos dos quatros agentes da lei, estavam atordoados, um se apoiava no outro nitidamente para não ir ao solo. Não sabiam mais o que fazer, foi quando o comandante, tentando manter aquela voz de autoridade, perguntou:

- Sim, mas o que foi furtado? Houve saque? Danos? Ou seja, minhas amigas, o que está acontecendo aqui?

- O senhor não viu?
- Não senhorita, não vi nada.
- Mas elas saíram daqui neste instante!
- Infelizmente creio que chegamos um pouco depois. Mas vocês podem nos definir o que realmente está acontecendo? É necessário pedir reforços? Elas estão armadas?

O silêncio foi geral. De repente todas pararam ao mesmo tempo e se entreolharam, olharam também a multidão ao redor e, foram saindo, saindo... Até que apenas a Lourdes e a responsável que não parava de beber água, estavam junto ao responsável pela lei e pela ordem. Enfim este olhando fixamente para as duas ordenou:

- As senhoritas podem finalmente me explicar o que houve aqui, ou terei de levá-las à DP?

A nossa desgrenhada responsável pela boutique começou enfim a balbuciar:

- sabe o que foi seu guarda...? Estávamos todas na loja felizes quando as três entraram. Neste instante o tempo parou. Queriam sandálias vermelhas e rasteiras. As freguesas da loja olharam para elas, era algo como os Beatles chegando aos Estados Unidos, tudo ali era leve, belo, musical. Seus vestidos eram uma valsa de Strauss, seus cabelos eram o “Satisfaction” dos Stones, seus sorrisos as canções de Marisa Monte, mas até aí tudo estava razoavelmente sobre controle, porém, foi exatamente no momento em trocaram os sapatos que calçavam pelas sandalinhas vermelhas, que ...

- Comandante (interrompeu um dos ocupantes da viatura), encontramos as três. Estão ali naquela Taberna. Escuta só.

E o que se ouvia por toda a rua era como um bloco na rua em pleno carnaval cantando feliz:

“Três meninas do Brasil, três corações democratas
Tem moderna arquitetura ou simpatia mulata
Como um cinco fosse um trio, como um traço um fino fio
No espaço seresteiro da elétrica cultura (...)”*

É simplesmente impossível descrever o efeito alucinógeno daquelas sandálias vermelhas sobre o asfalto negro.

Roger Ribeiro
06 de março de 2012.

*Meninas do Brasil – Moraes Moreira

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ah... Esqueci!



O tempo não era dos mais afortunados, sentia-se como nunca havia se sentido antes. Era um enorme descompasso entre o interno e os limites definidos pela fina pele, a impressão que tinha era que a luz estava apagada em plena noite de Lua Nova, ao meio-dia.

Sentia os lobos rondando e surdamente rosnando aguardando o momento exato para traiçoeiramente atacar. Não se expunham frente a frente, nas sombras, nas curvas e quinas aguardavam no subterfúgio no jogo, mas sempre à espreita com suas babas viscosas, aguardavam a primeira oportunidade. Vivem do que tramam.

Poucos dias atrás conseguiu reaver um contato que há muito não fazia. Alguém muito especial, ainda mais em um momento como este nunca d’antes imaginado, reapareceu. Em conversa rápida pôde expressar um pouco do seu desafinar dentro do momento vivido. Como sempre lhe foi dada a generosa atenção e um pouco de acalanto, lembrou-lhe de uma certeza que sempre carregou consigo: o movimento deriva do desequilíbrio.

Saiu um pouco daquele ambiente insalubre e foi buscar alguma coisa que normalmente quando não sabemos bem do que se trata, dizemos que estamos em busca de um pouco de ar puro. Claro que isso não condiz com a realidade, afinal ar só se procura quando se está em baixo d’água e, viver em uma grande cidade hoje e encontrar algo como ar puro, é querer viver em um planeta entre Salvador Dali e Zé do Bar e os Filósofos que Tomaram Ácido!

Era necessário encontrar uma saída, aquele micro-universo já não lhe seduzia, estava algo parecendo o carnaval de Salvador: faltava brilho, luminosidade, alegria, enfim faltava fantasia!

Com estes devaneios na cabeça caminhava absorto, lenço não possuía, mas os documentos, estes eram abundantes, porém não prestou atenção à suas próprias observações e sem mais nem menos, em uma minúscula pedrinha, tropeçou... Neste tropeço viu o mundo girar, tentou se segurar no ar, tateou, nadou em terra firme, mas nada o ajudou e ao solo foi com a sede dos Beduínos. De longe ouviu o comentário:

- Pô o cara tomou um “estabaque retado”! (seguido de grande e jubilosa gargalhada)

Na sua cabeça (ao solo) ficava dividido entre a vontade de responder àquelas gargalhadas e entender o que havia acontecido? Afinal como uma minúscula pedrinha daquela poderia levá-lo ao solo daquela forma?

- Levanta daí. Não está vendo que estás impedindo a passagem? Toma vergonha, uma hora dessas em vez de está trabalhando ta aí bêbado feito um gambá!

Neste momento veio em seu pensamento: gambá? E gambá bebe desde quando? Ou será que esta criatura no alto de sua arrogância quer dizer que estou fedendo? Vagarosamente foi revirando a cabeça para responder aquela interlocução. O bico do seu sapato estava a menos de três dedos da ponta do seu nariz e a sua visão, no sentido Sul – Norte, demonstrava uma perna longilínea, torneada, ornada por uma meia feminina prata que parecia não ter fim. Tomou fôlego e:

- A senhora está insinuando que estou bêbado?
- Olha se não está é bom procurar um médico, pois o vi cambaleando por uns cinco metros procurando no ar uma garrafa imaginária até não resistir mais e desabar como uma jaca mole e aí permanecer parecendo uma lagarta aguardando as asas.
- Minha senhora...
- Senhorita, por favor?
- Acaso está sentido cheiro de álcool?
- Estou muito gripada, estas viroses pós carnaval...
- Saiba que a senhorita está muito enganada, sou um trabalhador de respeito, só estou aqui arejando um pouco o juízo para retornar ao trabalho...
- Arejar o juízo...? Olha meu querido, lá em casa eu tenho sabão e escovão e estou necessitando de alguém para arejá-la. Ali sim o lar de uma trabalhadora. Arejar o juízo? Isto deve estar escrito em tudo que é parede de banheiro de boteco.
- Hã! Assim a senhora está me ofendendo...
- Senhorita já disse! És surdo ou abestalhado?

Se levantou vagarosamente sentindo ponto por ponto aonde doía mais e aonde doía menos.

- Senhora, senhora e senhora... E mais: uma senhora broaca, e se não gostou vá dar queixa no módulo policial! (acho que desta vez me vinguei)
- Você é um mal educado descompreendido que não sabe enxergar uma pessoa decente quando vê, e sabe por quê? Porque no mundo de lixo em que vive não há nem sequer um exemplar!
- Você é que não se enxerga! Não vê que estás sendo mesquinha e egoísta? Tropecei no girar da terra e tomei uma queda que, se fosses uma pessoa realmente humana, me perguntaria se me machuquei e me ajudaria a levantar, mas em vez disso ficas aí me ofendendo...
- Agora quer que eu o chame de coitadinho? Não me faça rir de você. Termina logo de levantar que estou com fome!
- E eu com sua fome?
- Xiii, acho que bateu a cabeça e avariou de vez. Vamos logo afinal você vai me levar para almoçar e eu vou te contar maravilhas do planeta em que venho!

Assim, sem mais forças para reagir, lembrou que esqueceu. Deu-lhe o braço e saíram em direção ao almoço, não sabia mais de onde vinha nem aonde deveria estar. Sua única dúvida era aonde levar a senhorita? Ao natural ou a churrascaria? Com as portas e as janelas da cabeça aberta, começou a cantar... E no meio da rua ela o puxou para dançar!

“"Astronarta" libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia”*

E eu vendo tudo daqui da Lua Nova.

Roger Ribeiro
28 de fevereiro de 2012.
*2001 – Tom Zé

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Qual o seu plano?



Para Maurício, um sábio amigo.

Por aqui é assim mesmo, os dias não nascem apenas por nascer. Existe sim, claro, o dia que nasce preguiçoso e deixa a cargo dos seres terráqueos a função de fazê-lo acontecer, mas tem dias que as conjunturas já se pronunciam, é nesta hora que o dia já nasce atento, ou como dizia Dona Beré em sua sabedoria sino-recôncava: “o dia nasce de olho aberto!”.

Há algum tempo atrás, em uma tarde marrenta, calorenta e úmida dirigi-me ao Largo Dois de Julho, para espantar o calor sorvendo um “pão líquido”, como definitivamente e sabiamente define a velha cervejinha a nossa Rita Bacana. Não havia marcado nada com ninguém, porém as sintonias transitam pelo imponderável e quase simultaneamente chegamos para ficarmos sob a jurisprudência gentil de Manoel, que rapidamente nos levou, eu, o Barba e o Gordo para uma mesa de alumínio fresca, já empunhando uma “ampola” do nosso pão “líquido”, assim do nada já estávamos no velho e bom Líder. A tarde iria render.

A prosa começou com o eterno sorriso largo do Gordo, que nunca escutei falar na primeira pessoa do singular, de sua boca a pronúncia era sempre o nós. Esta era a pessoa que ocupava o seu universo, o nós. Pois assim disse:

- Os meninos estão dispersos demais.

Uma pausa foi feita para se ter a clareza do dito. Nesta pausa quase que um livro inteiro passou na minha cabeça (O Solara da Fossa). Realmente era uma verdade, os meninos estavam dispersos. É algo que se passa de geração em geração, acontece principalmente com nós meninos, olhei para Barba que neste momento fitava seriamente suas velhas botas pretas, e verbalizando parte do meu pensamento disse:

- Mas Gordo, esse é o caminho natural, principalmente para os garotos, esta necessidade de ruptura de laços para transpor a fase infantil para a fase adulta.

Mais um tempo de pausa, e finalmente o Barba resolveu entrar na questão:

- Sim é verdade, parece que este movimento pendular não irá se romper nunca. Nascemos com a essência sutil aberta, até determinado momento somos como que um seminário de aprendizado, agregamos a nós talentos que vão se somando aos nossos e de pedacinho em pedacinho, de pessoa a pessoa que agregamos a nós, formamos um grande mosaico, um todo que adentra no mundo como a Escola de Samba no Sambódromo. Simplesmente invade sem pedir licença e, encanta.

Sim, pensei, é assim mesmo. Lembrei da frase inicial do Gordo, as idéias foram se conectando: café, estúdio, jornalismo, composições, etc. Tudo isso que um dia formou um único corpo agora formava partes que mantinha-se educadas, “aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação”*

- Estupidez eterna! (retomou a palavra o Barba) Abandona-se a essência sutil para inflar o ego, a camada mais densa, perde-se a noção do mosaico, da somatória, no lugar de fortalecer a generosidade e a ingenuidade desprovida de ambições desmedidas, isola-se acreditando que um homem deve tornar-se arrimo de sua vida, só. Desapega-se do coletivo rico e composto, para o minimalismo individual e frágil.

Ouvindo o Barba lembrei-me das olheiras de Tom Zé, tomando café da manhã na Padaria Santa Marcelina em Perdizes, que, em uma leitura minha muito minha, parecia perguntar atônita aonde andava a turma? Era época de um suposto ostracismo, mas que como hoje fica claro, nunca deixou de ser gestor.

“Todos os dias eu faço força pra lembrar,
Coisas pequenas que eu nunca pude reparar direito,
Onde será que andava o mato do jardim,
E os bichos da noite,
Que eu nunca ouvi tão alto assim?”**

- Precisamos quebrar este ciclo vicioso, (retomou o raciocínio o Gordo), é preciso fazer alguma coisa.

O tempo entre aquele encontro passou, a idéia central jamais se perdeu, mas como disse, nesta terra existem caminhos que não se explicam apenas se aplicam e se aprende com eles.

Um dia o Gordo, do nós, fez questão de ficar sozinho e assim só partiu para uma nova viagem, mas por que ele do nós neste dia quis ser o eu?

Os dias seguem seu curso, mas o aprendizado fica. Pelo menos para os que ainda se permitem ter tempo para ler os signos da vida.

Roger Ribeiro
07 de fevereiro 2012


*Volte para o seu lar – Marisa Monte
**O brilho das pedras – Sá, Rodrix e Guarabyra