quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Por um instante


 
Sim, passou por aqui. Passou e não faz mais do que 20 minutos. Passou, parou, mirou bem no meio dos meus olhos e disparou! Foi o sorriso mais oceânico que jamais imaginei poder existir.

Os lábios cheios e poderosos como a onda da praia da Torrefação guarda no interior uma muralha de um brilho alvo que ofuscou o real! Virou-se, e com o vestido florido esvoaçando na brisa, partiu. Ficou um aroma de orquídea no ar e os dentes cravados nos meus olhos.

Ela dobrou a esquina do saveiro e sumiu, mas não mais saiu daqui, olhando a areia verde da praia não consigo definir se o seu imaterial ficou ou se o eu partiu com ela. Quem está aprisionado nestas grades dos arcos da Iris? 

Estava a menos um metro das águas e o sal que vinha com o vento se aninhava em minha pele, entranhava entre as células, não conseguia mover-me, o brilho dos teus dentes cravados em meus olhos, penetrava como um extraterrestre ocupa os corpos humanos. Lentamente avançava pela minha nuca, pescoço, ombros, paralisava meus braços que ganhavam movimentos autônomos, erguiam e direcionavam-se em direções opostas como se quisessem se desligar do meu tronco. Era uma sensação de desintegração efetiva, mas nada sentia, apenas ficava cada vez mais leve, cada vez mais fluido, cada vez mais dividido rumo à partícula mais indivisível que possa haver. 

Apenas um sentido ainda me atava ao que dizem ser real, ouvia perfeitamente tudo ao meu redor, mas o mais impressionante é que quanto mais ela se afastava, mais o som do seu vestido florido e seus cabelos lançados ao espaço pela brisa se tornava forte, próximo. O vento passava pelos fios dos seus cabelos como um arco acarinhando as cordas do violino criando uma linda e delicada melodia que, acomodado ao som do ar transpondo o linho do seu vestido e se chocando na solidez do seu corpo, orquestrava o que poderia ser a música do sol deitando-se no mar no instante da Ave Maria.

Por um instante lamentei o seu passar, a sua teimosia em permanecer, não havia te convidado para dançar, nunca havia visto passar, nem sonhava com a possibilidade de existir alguém capaz de fazer o tempo parar, os sentidos estancarem. Porque você sorriu aquele sorriso que nunca existiu? Quem mandou você atravessar a minha existência e dela nada mais deixar do que quarks, bósons e léptons?

- “Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
e não voltar nunca mais
desculpe a paz que lhe roubei
e o futuro esperado que nunca lhe dei
é impossível levar um barco sem temporais
e suportar a vida como um momento além do cais
que passa ao largo do nosso corpo
não quero ficar dando adeus
as coisas passando
eu quero é passar com elas
e não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro
e a marca de um abraço no seu corpo
Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando
lamentando o eterno movimento dos barcos”.*

O som do poema sutilmente cantado era forte o suficiente para sobrepor o estrondo do sol se espatifando no oceano, a estrela cadente rasgando a sólida massa de gazes da atmosfera acendendo uma tocha como se quisesse criar uma estrada entre os mundos: sólido e sutil, mas todos estes sons simplesmente sumiram enquanto a pequenina voz preenchia todos espaços entre a onda dos teus lábios e o brilho dos teus dentes, a torre do castelo onde me aprisionei.

Lenta e temerosamente fechei os meus olhos com seu sorriso dentro, lenta e vagarosamente busquei inverter a situação, de aprisionado a libertador. Não queria seu sorriso preso em mim, nem a minha existência presa às sobreposições atonais dos sons dos seus cabelos cor de cristal. O universo não podia se privar dela, mesmo que o que reste seja apenas o seu espectro, o presente.

Olhei para a voz cantando o movimento dos barcos na calçada, empunhando o seu violão azul, e sorri aliviado, não há muralhas que possam conter o som!


- Ôh, ôh... Pô joga a bola meu irmão, já ta escurecendo... Ta doido?

É verdade, dei um belo chute na bola, levantei um punhado de areia, a correria recomeçou, o movimento era total, a meta: o gol.

E eles suados, correndo como loucos, quase dando a vida pela bola, sem saber que o futuro quase se aprisionou, por pouco, muito pouco tudo terminaria apenas no segundo do presente, mas o importante é que a bola não pode parar...

Gollllllllll.

 

Roger Ribeiro

11 de outubro de 2012

*Movimento Dos Barcos – Jards Macalé

 

 

 

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Vida!


 
Passou a mão pela barba branca e olhou longe, muito longe, com seus olhos sombreados. O mundo estava contido naquela fatia triangular e anuviado do seu campo óptico. Jamais permitiu que alguém se arvorasse a secar sua catarata, sempre dizia que se o universo queria lhe tirar a nitidez era por que ele deveria perder suas certezas. O mundo perdia gradativamente a solidez, o palpável, a realidade se esfumaçava, a bruma se estabelecia. Estava em um novo planeta habitado por seres fluidos, esquivos, disformes.

Passava por cada canto da velha cidade, e com sua longevidade, possuía íntima e particular relação com cada esquina, cada largo, praça, mas suas áreas preferidas eram as rochas à beira-mar.

Vibrava com a força que ali residia, para ele, o eterno duelo do mar explodindo sobre as imponentes e escuras figuras que brotavam da terra e projetavam-se rumo ao infinito, as ondas, eram o seu tênue equilíbrio. Era como se com seus sons graves e reverberantes dissessem: “Não se precipitem ao horizonte, o caminho não são das pedras!”. Um instante de ação e reação; para quem sabe ler – Uma oração.

Normalmente estava rodeado de crianças e cachorros magros, lembrava uma “Canudos”, itinerante formando uma micro comunidade dentro de uma gigantesca cidade que assim como os Caldeus, projetava-se em vão em busca do céu. Dizia aos seus esquálidos seguidores: “quanto mais perto das estrelas, mais se afastam dos seus”.

Não se sabe exatamente o que ocorreu, mas do nada, sumiu. Ninguém o via mais, pelas ruas que andava não mais se fazia presente, sobre as rochas do litoral onde fazia suas orações, não mais havia reza, as brumas sumiram de vez, nem mesmo os magros meninos e cachorros eram avistados. Ninguém mais sabia daquele homem de tez sulcada de jabuticaba, seu corpo esguio e sólido como dos seres do Sertão, seu olhar etéreo e suas palavras ditas em baixa freqüência e de pouca inteligibilidade, evaporaram de um dia para o outro, ou melhor, foi visto com os seus ao cair da tarde nas costas das águas da Ondina, onde fica a Gruta de São Lázaro e ao amanhecer nada mais havia.

Neste dia o duelo entre as negras rochas e as ondas se potencializou, parecia que o mar não queria aceitar o irreversível. Nitidamente percebia-se que a lógica havia se invertido: não eram mais as rochas que queriam atingir o horizonte, mas sim o horizonte, montado nos grandes calhaus, que buscava a terra. O som do choque das águas na sólida barreira era ensurdecedor, e aos transeuntes desta cidadela a certeza era de que a península iria se estreitar. O mar salgou – sufocou - o ar.

As ditas autoridades decretaram feriado. Nas rádios e televisões o pedido era para que todos evitassem sair de suas casas. Nada funcionou: bancos, mercados, lanchonetes, bares, lojas, nada! Era como se enfim o tempo estivesse suspenso no ar, no pentagrama da vida colocou-se “uma pausa de mil compassos”, porém desta feita, não para ver as meninas, como fez Paulinho, mas simplesmente para esperar o dessolidificar do ar, o desgaseificar do mar, e o re-solidificar das rochas. O som permanecia ensurdecedor, em pausa.

Apenas alguns vultos tentavam se locomover em meio a este hiato de sentidos, em vão. Não havia atrito, o movimento era estático. Tudo que até pouco era existente e palpável a partir daquele momento era apenas púrpura de energia em um movimento desconexo em todas as direções.

Vendo minha existência por meio do caleidoscópio de cores que antes era meu corpo físico, identifiquei o que seria o meu coração, ao identificá-lo, senti uma lágrima de energia vermelha púrpura deslizar lentamente no espaço em direção ao solo, ao atingi-lo, uma espada prata se fez cingir no espaço chocando-se na rocha escura do mar. O som e a luz alva atravessaram todas as coisas com imensa intensidade e maternal leveza.

Abri os olhos e você estava linda! Encostada na porta, descalça, sorrindo para meu sorriso.

Roger Ribeiro

20 de setembro de 2012

 

 

 

 

 

      

 

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nem vou falar de cinema



- Difícil! Muito difícil e, tenho quase certeza, serei mal interpretado por este distinto público que enche este auditório, porém não posso me esquivar da verdade, fui aqui convidado para falar com franqueza: o trabalho vem me destruindo a forma humana!

O clamor foi geral, bocas se abriram, olhos se entreolharam, testas franziram, o som das palavras lançadas nocauteou os tímpanos, após segundos de estupefação, cerca de um milhar de olhos miraram aquela figura esguia, branca como cera, de longo nariz educo e olhos cor de malária.


- Espero que os senhores e senhoras tenham paciência, tentarei explicar.

No inconsciente coletivo daquele auditório, o descrédito era total, como explicar o inexplicável? Era muita ousadia! Ou seria uma gigantesca irresponsabilidade?


- Vejam vocês, acordo de segunda a sábado às cinco e meia da manhã e tenho exatamente quarenta minutos para está fechando a porta da rua à minhas costas. Tensão automotiva, trânsito lento, seres irritados por todos os lados, pavimentação derretida das vias nos obrigando a viver um verdadeiro rali urbano, motos enfurecidas na busca de comprovar que dois corpos podem sim, ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, transeuntes sem calçada para andar vagam pelo meio das ruas e avenidas e tudo isso para quê? Seria, por acaso, para salvar a mulher amada?


Na pausa dada não havia espaço para resposta, era uma indagação metafórica. A resposta estava bem à frente de todos, porém aqueles olhares cada vez mais incrédulos apenas multiplicavam as interrogações que reverberavam nas paredes da sala com a mesma intensidade da explosão sonora existente pela rotação do planeta em seu sistema solar.


- Não amigos (continuou), infelizmente todo este desespero não terminará em um beijo gelado na Sorveteria da Ribeira, muito menos em um olhar apaixonado após a leitura de um soneto no estande da Mídia Louca, muito menos em um mergulho quase medicinal nas mornas águas do Porto da Barra, vigilantemente acompanhadas pelas lentes velozes do menino Ricardo Fernandes. Nada disso, todo o desvario levará apenas e somente a sua energia a algo imprescindível, fundamental. Para quem?


Pelo “andar da carruagem” a coisa ia longe (pensei sentado em uma das últimas fileiras com o meu amigo Barba), comentei ao pé-de-ouvido:


- Está parecendo a música do índio do Gil!


O Barba não agüentou, desabou uma sonora gargalhada e baixinho cantarolou:

“Estava certo

De que tudo o que eu dizia

Representava a verdade

Pra todo mundo que ouvia

Foi quando um velho

Levantou-se da cadeira

E saiu assoviando

Uma triste melodia (...)”.*

Foi o suficiente para todos virarem abruptamente e nos fuzilarem com seus olhares de inquiridora rubéola. O elegante palestrante levantou os olhos, sorriu, respirou fundo e continuou:

- Mas, pergunto a todos vocês: o que há de tão fundamental assim para te tirar de casa ao amanhecer e só lhe permitir o tornar quando a noite já navega? deixar sobre a mesa da sala, do sofá, da estante do banheiro, espalhados no corredor grandes amigos aflitos pela sua ausência? O que dizer aos vinis de Hermeto Pascoal, Pepeu e a Geração do Som, Bob Dylan? Isso para não dizer a vergonha ao negar um passeio por Paris do século XIX em companhia de Umberto Eco, deixar o Mino Carta sozinho tomando um café em sua cozinha te aguardando para ir à Mooca? Meu Deus, que vergonha! Rilk, Leminski, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Cruz e Sousa, dos Anjos todos aqui embaixo na padaria esperando. Vocês que estão aqui participando deste congresso sobre A Saúde Pelo Trabalho, não fazem idéia do que encontrei “punhado”, como diria Adoniran, na porta do meu apartamento...

- “(...) é um cachorro louco/ que deve ser morto/ a pau e pedra/ a fogo e a pique/ senão é bem capaz/ o filhodaputa/ de fazer chover/ em nosso piquenique”**.

Gritou a todo pulmão meu amigo Barba.

- Tinha de ser você! (disse o nosso palestrante olhando-nos no fim do auditório com seus olhos mais etéreos do que nunca). Nem adianta esperar, o tempo...

Levantamos cabisbaixo e saímos eu e o Barba:

“assoviando

Uma triste melodia

Que parecia

Um prelúdio bachiano

Um frevo pernambucano

Um choro do Pixinguinha (...)”*.


Roger Ribeiro

16 de agosto 2012
 

*Um Sonho – Gilberto Gil

** Paulo Leminski – por ele mesmo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Tem placa e número



Alô...

- Imobiliaria João de Barro, Pois não.

- Por favor, gostaria de informações a respeito do produto oferecido. É com o senhor mesmo?

- Pode ser, mas é melhor o senhor falar com a responsável direta.

- E ela se encontra no momento?

- Claro! Só um instante que irei chamar.

- Maria Cláudia, pois não.

- Olá Maria Cláudia, é a respeito de um anúncio que li aqui no bairro do Jardim Apipema...

- Sim...! Sabe, o senhor já é a quinta pessoa que nos liga e olha que colocamos o aviso hoje pela manhã!

- É, acredito, pois, deve ser um sonho de consumo de muita gente, não é mesmo?

- Creio que sim. Mas, o senhor já o visitou?

- Claro! Aliás, estou exatamente ao lado dele. Olha vou te dizer uma coisa que não sei se os outros te disseram e espero que a senhora não aumente o valor por causa disso, mas ele tem estilo... Muito estilo, não sei... Tem algo diferente.

- Ah! Enfim alguém notou... Claro, olha sei que existem muitos pela cidade, aliás, até muito mais novos, em locais mais arejados, até mesmo em frente à praia, mas igual a este não tem. Por sinal, o senhor correu ele todo?

- Como assim?

- Sim... A varanda, os quartos, viu a suíte? Olha aquele toalete da suíte é simplesmente um luxo! E a sala então, nossa! Não precisa nem falar, aquele tabuado...

- Quarto, suíte, varanda, luxo?! Acho que está havendo um engano.

- Como assim? O senhor não está se referindo ao apartamento anunciado no Jardim Apipema?

- Apartamento? Não senhora... Estou falando do poste onde está a placa de vende-se com este número de telefone, e...

Crasshhh, pi, pi, pi, pi, pi...

- Alô, alô... Eu heim, que criatura louca! Moço, moço... Por favor...

- Pois não, (olhando ao redor) sou eu?

- Sim, por favor, me ajude aqui, é rápido.

- Só se for rápido realmente, pois estou muito atrasado.

- É rápido sim. Diga-me uma coisa: o que você vê preso neste poste?

- Uma placa de vende-se e o telefone.

- E quanto custa?

- O quê?

- Ora meu amigo, o poste! Este belo mobiliário urbano... Um obelisco contemporâneo, a sustentação da luz... Ei, ei!  Aonde vais? Não corras, cuidado!

Sacou novamente o celular e, com ferocidade, discou o número apregoado no poste.

- Alô.

- ALôôu! Escuta, estou aqui embaixo de uma placa de vende-se com este número...

- De onde o senhor está falando?

- Estou aqui no Jardim Apipema e preciso saber o valor?

- Olha em relação ao valor podemos conversar...

- Não! O senhor não está entendendo, eu quero saber do valor!

- Espera, vou chamar a responsável.

- Pois não.

- Alô.

- Sim. Aqui é sobre o anúncio no Jardim Apipema...

- Não acredito, é você novamente? Olha, não estamos vendendo poste nenhum e se o senhor insistir tomarei providências.

Clic. PI,PI,PI,PI...

Ficou cabisbaixo sem saber o que ocorria, olhava para a placa, para o poste, para a lâmpada no ápice deste e, desiludido, buscava qualquer coisa pelo chão para chutar, na verdade chutava a sua própria sombra, prisioneira daquele poste, isto o desesperava! Estaria sua sombra presa àquela luz, àquele poste pela eternidade?

- Não (gritou), isto não vai ficar assim!

Agarrou-se ao poste, sua sombra diminuía, ficava quase que apenas um ponto escuro, mas como abandoná-lo, ponto ou não ali era a sua sombra, o homem não vive sem sombra (pensava). Dava um passo rápido para ver se conseguia que sua sombra se desvencilhasse. Nada, lá estava ela, esticava-se longamente, quase ao infinito, depois encolhia-se novamente à condição de ponto, mais sempre presa ao pé do poste. Falou para si mesmo:

- Preciso levar este poste comigo. (sacou novamente o celular, olhou o número na placa e discou).

- Imobiliária João de Barro, pois não!

- pois não, não! Pelo amor de Deus, eu pago o que vocês quiserem, mas libertem minha sombra! Eu ...

Crash – pin, pin, pin...

- Seres sem alma! (berrou).

Contorcia-se sobre a sombra, não conseguiria viver assim, sempre fora um homem livre, jamais conseguiria viver aprisionado.

- Nãããããõooooo.

Sentou-se no meio-fio e suspirou ouvindo sua sombra cantar:

“Um homem com uma dor

É muito mais elegante

Caminha assim de lado

Como se chegando atrasado

Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor

Como se portasse medalhas

Uma coroa, um milhão de dólares

Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos

Não me toquem nessa dor

Ela é tudo o que me sobra

Sofrer vai ser a minha última obra”*

- Oi...! Ôh, acorda homem...

- Ãh... Pô, que susto, não tens o que fazer não? Não tens piedade, não enxergas que minha dor já é por demais homérica!

- Deixa de drama, homem. Sei o que te atormenta, assisti a tudo, salvar-te-ei da tua prisão, irás sarar a dor.

Sob a luz era quase translúcida, seu brilho tão intenso que  lhe feria os olhos, apenas conseguia fitar a barra do vestido com um zig-zag de linhas coloridas que lhe traziam à mente o furta-cor do alvorecer da Diamantina mineira.

- Acaso és um anjo? Uma fada? Um querubim?

- Acaso viste alguma estrela? Não sabes que estes seres só andam em pontas de estrelas?

- Podes me tirar da torre deste castelo?

- Claro! Vamos combinar: ficarei à frente da luz, serei a represa, não suportarei por muito tempo a pressão. Assim corra, vire à esquina e estarás liberto.

- Mas e você? (olhou-a e percebeu o sangue prata correndo em seu corpo por sob o vestido), tudo bem.

Assim foi feito, a liberdade se fez, mas onde estava ela agora? Olhou por entre as folhagens e a viu dançando entre os fachos de luz, era o próprio brilho.

Virou-se, não podia aprisionar-se por quem lhe libertou. Olhou para frente e...

Sacou o celular:

- Alô!

- Imobiliária Oca, boa noite!

- Boa noite, por favor, qual o preço do muro?

Roger Ribeiro

27 de julho 2012

* Dor Elegante - Leminski / Itamar

quinta-feira, 12 de julho de 2012

On/Off




Na internet a vida era frenética, tudo partia e retornava em uma velocidade estonteante, não havia problema que a solução não corresse o mundo e retornasse em questão de segundos, o mundo estava realmente em um estágio mágico e era exatamente neste universo que sentia-se o máximo! Um rei.



Conhecia milhares de pessoas ao redor do mundo, criaram uma língua de códigos e sinais que os faziam prosear horas e horas por entre seres de línguas as mais diversas, coisas jamais imagináveis, aliás coisas que fariam Vitor Hugo estremecer, seriam léguas e léguas pelo espaço.



O seu mundo era simples, um on ou off, ou um curtir ou não curtir, um ou dois clics, a comunicação em verbo único, rápido, rasteiro, dinâmico! Era disso que o cérebro humano sempre ansiava, pelo menos assim pensava em sua pouca vivência etária, mas sua universal relação. De uma coisa se orgulhava, seu avô, que havia sido Adido Cultural em vários países, não colecionava uma rede de amigos, que chegasse a um terço da que ele, em tão pouco tempo, construíra.



Seu mundo era perfeito e seguro, de tudo participava e nada o atingia, isso para os dias atuais de tanta violência e insegurança era tudo de bom. Sair só para ir à faculdade, com muita tensão, e retornar o mais rápido possível, não agüentava os limites da rua, se sentia em um aquário, limitado, tolhido, era pouco demais, precisava voltar ao seu quarto ao on-line e... Lá estava o mundo aos seus pés, ou melhor aos seus dedos.



- Aí... oooi... tem uma senhora ali, você não acha que deveria dar este lugar para ela sentar?

- ÃH... como? Desculpe. Você ta falando comigo?

- Claro, se toquei no seu ombro e falei diretamente olhando para você... Com quem mais estaria falando?



Nitidamente nauseado, abriu a janela e deixou o vento bater em seu rosto...



- Desculpe, você poderia repetir?

- Ôh... fecha esta janela aí, ta querendo me molhar todo?



Virou-se assustado, para ver a quem pertencia aquela voz, razoavelmente enfurecida, que “bafava” ao seu cangote. Amedrontou-se, sentiu-se ameaçado, começou a suar frio, era um contato áspero, temia por tudo, não sabia o que fazer, o que aquelas pessoas queriam e o que poderia fazer para sair daquela situação.



- Sim... E aí?! Você não está vendo que aquela senhora tem três vezes a sua idade? Não acha que deveria dar o lugar para ela descansar?

- Claro, claro, desculpe...

- Nossa! Não agüento mais ouvir você pedir desculpas...

- e aí, vai fechar essa janela ou não vai? (retornou a voz ao fundo, a esta altura já em pé sobre a sua cabeça).

- Só um estante (tentou fechar a janela), emperrou...

- Olha se você não vai levantar diga logo...



Criiii...crash...pah! Estrondou a janela ao lado do seu ouvido direito, olhou aquela mão enorme que ainda segurava a lingüeta da janela.



- Menino mole... Ta dormindo neném? Não tomou seu leitinho hoje não?



A gargalhada foi geral, de repente o ônibus inteiro parecia está sobre os seus ombros, em sua cabeça surgiam flashes que remetiam a trechos do filme do Pink Floyd...



Did you see the frightened ones?

Did you hear the falling bombs?

Did you ever wonder?

Why we had to run for shelter?*



O mundo girou. De repente a náusea, o insuportável. Aos seus olhos afiadas garras de harpias rondavam seu pescoço, olhos vermelhos o miravam, dentes tornavam-se pontiagudos; de sorrisos passavam a condição de ameaças, pensou em levantar, as pernas não obedeciam... A luz turvou, sobre a imensa montanha da sanidade os braços fecharam-se envoltos ao sol, o eclipse glaceou a Terra.



Acordou apavorado sem saber onde estava. Tudo era branco, havia sobre seu corpo um fino lençol branco que unia-se ás paredes brancas, o teto, a cortina, o piso, a porta, tudo era branco... Levantou o tronco assustado, a cabeça agitada, os cabelos em total desalinho:



- Onde estou? Que lugar é este? O que estou fazendo aqui? (tentou levantar), preciso ir embora...

- Calma, não tenha medo, está tudo bem...

- Mas como? O que estou fazendo aqui? Quem é você? Qual o seu link? Sua conexão? Não gosto de usar o Skype, prefiro digitar? A voz... esta voz... eu te conheço, conheço? Há quanto tempo somos amigos? Você disponibilizou foto?



Alguns passos e ela estava ao lado esquerdo de seu leito, era praticamente a única coisa não branca daquele ambiente, seu rosto fino e alvo, brilhava emoldurado pelos negros e longos cabelos que lhe caiam quase até a cintura, braços finos e muitos anéis prata compunham seus braços que saiam das finas alças do vestido estampado de milhares de desenhos de pequenas crianças empinando pipas, jogando peões, chutando bolas, brincando de roda... O vestido que se estendia até os joelhos, formavam um universo colorido e de uma alegria viva, tão viva que lhe despertou um largo sorriso quase unindo as pontas dos lábios à ponta dos olhos.



- Sim! Agora reconheci. Você é a voz que me falava algo no transporte... O que era mesmo?

- pedia-lhe para dar o acento para uma senhora, você sentiu-se mal, desmaiou e eu o trouxe ao hospital - (Tocou-lhe o braço), você está bem agora?



Ao sentir o toque, leve, suave e frio daqueles dedos finos, enfeitados de anéis e sentir o calor daquela voz, tão perto, em uma língua tão próxima e ao mesmo tempo tão esquecida, gelou! Sentiu-se despencando em um abismo sem fim... Quanto mais descia mais frio ficava, sentia como se seu sangue estivesse a ponto de congelar, não conseguia unir as palavras para formar uma frase, seu cérebro formava Estalactites que pingavam por seus olhos, correu o olhar sobre aquela menina de sapatilhas azul-turquesa e negros cabelos e finalmente conseguiu dizer uma pequena frase:



- Como você se chama?

- Amor.



Roger Ribeiro

12 de julho 2012.  



*Goodbye Blue Sky

Você já viu os apavorados?

Você já ouviu as bombas caindo?

Você já se perguntou

Por que tivemos que correr em busca de abrigo?










quinta-feira, 24 de maio de 2012

Cocorocô! Feitiço dobrado






- Não tem pechincha não, o preço é este. Nem mais nem menos!

- Mas meu amigo...

- Que amigo? Como assim? Diga aí, qual o meu nome? Onde eu moro? O nome dos meus filhos? Vá diga! Você não disse que é meu amigo?

- É modo de falar! Só queria dizer que está caro.

- Então não compre. Simples não é mesmo? Vá comprar em outra freguesia. O preço é este. Só falta agora você querer que eu retire as penas e corte as unhas do bicho pra ficar mais barato. É cada um que aparece aqui.

- Meu caro...

- já te falei que não é caro, é o preço. Veja você, aonde mais acharias um galo vermelho com estes detalhes em dourado nas pontas, peito forte, postura altiva e este olhar de que já anunciou centenas de alvorecer por um precinho deste? Diga aí, vá! Onde?

- Olha àquela senhora ali adiante me falou que iria buscar um pra mim por quase a metade do preço. O problema é que só chegaria à tarde.

- Então o senhor vai naquela barraca ali, tá vendo?

- Qual?

- Aquela com a placa Cantinho do Cosme... Está vendo agora? Pois, ele é como se fosse meu irmão, você senta lá toma umas quentes, rebate com umas geladas, come a tripa frita, que por sinal é melhor da feira, joga uma prosa fora com uma ruma de desocupado que freqüenta, todo dia, o local e quando der a hora você vai lá buscar seu galo. Mas tô te avisando, quando botar na ponta do lápis as doses de “meladinha”, as geladas, as voltas de tripas e o galo moribundo que vais comprar, verás que gastou o dobro.

- É... Desta vez tenho que te dar razão. Mas você bem que poderia fazer um precinho melhor né?

- Olha no galo num dá não, mas se quiser levar aquela galinha branca cotó ali... Dá pra fazer um precinho pra você.



Parou olhou a tal da galinha e não gostou do que viu. A bichinha tava toda estropiada, a situação era tão grave que se pusesse um ovo certamente teria a gema roxa!



- Olha aquela galinha deveria está na UTI do galinheiro, num serve nem pra fazer um ensopadinho com chuchu. De mais a mais meu querido...

- Como é que é?! Querido? Ôôôh Jangada, o cara aqui disse que eu sou o querido dele! Pode?

- Hummmmm Cráudio, ta querendo treta! Quero ser padrinho viu!

- Olha aqui meu cliente, sim cliente, freguês, não venha com intimidade não. (olhando pra cima como se fizesse uma oração), é mole? Chego aqui as quatro da matina, alimento os galos, galinhas, pintos, pombos, porcos, bodes e até os habitantes agregados (gatos, cachorros, bem-te-vis e tudo mais) e no meio da manhã me chega este sujeito, sei lá de onde, me chamando de amigo, de querido e, acho que, se ficar mais um pouquinho vai querer até beijinho... Eu mereço. Ôh Jangada, eu dei bicuda no ebó de Yemanjá?



A gargalhada foi geral, a feira praticamente havia parado para apreciar o duelo entre Cráudio, o freguês e no meio de tudo isso, o impávido e cobiçado galo (mas... Sabe que olhando ele assim de perfil é realmente mais garboso do que o da embalagem de azeite de oliva), seria ele então, vamos dizer, o Chantecler  da Feira de Água de Meninos!



Já sem graça, mão no bolso e sem argumentação possível, resolveu pagar o preço e levar o nosso Chantecler, que devidamente amarrado pelos tornozelos (galo tem tornozelo?), asas e com o afiado bico embalado em papelão foi entregue ao freguês com votos de felicidades e boa sorte.



- Aí freguês! Pra você voltar, passa lá na banca do Cosme e toma uma “cangibrina” por minha conta, diz que foi o Cráudio que mandou.



Saiu assim meio contrariado, mas não deixou de passar no Cosme, afinal seria uma chance de melhorar o dia. Tomou a “cangibrina”, inclusive ficou sabendo que era o “carro chefe” da banca, conversou sobre amenidades tipo: se era época de caranguejo gordo? Se o quiabo estava duro? Se podia confiar no fígado de boi que se vendia na feira? E outras coisinhas mais. Despediu-se e foi saindo quando meio atordoado, e já fora da banca, olhou ao seu torno e:



- Cadê meu galo? (gritou).



Entrou rápido na banca do Cosme. Olhou em todos os cantos, até no teto improvisado de plástico procurou e, nada. Aonde raios havia se enfiado o Chantecler?



- Seu Cosme, o senhor não viu meu galo? Entrei aqui com ele debaixo do braço?

- Seu menino, vou te dizer uma coisa: “ômi” que perde o galo ta perdido pra sempre. Pergunta ali prá Thiana Doida o que aconteceu com o saudoso Tainha quando perdeu o galo? Aliás, pergunta não, é melhor nem saber. Dizem que a ignorância Deus perdoa né?

- Mas seu Cosme, eu tava com ele aqui agora mesmo?!

- Agora mesmo meu fiu! Mas tem um minuto que você me perguntou pelo galo?

- Sim... Ah meu Deus! Agora mesmo é maneira de falar... Mas na hora que entrei a mando do Cráudio pra tomar a cangibrina, o galo tava debaixo do meu braço.

- Reparei não... Ôh Alice você viu se entrou algum galo aí na cozinha?

- Aqui não Cosminho, imagina se galo vem ciscar em meu terreiro? É ruim heim!

- Meu querido eu tenho de fazer um trab...

- Êpa, pêra lá! Que história é esta de meu querido? Eu nem te conheço? Cráudio, êh Cráudio! Que “ômi” foi esse que tu mandaste prá cá?

- Meu amigo... Pelo amor de Deus, querido é maneira de dizer...

- Amigo? Hum, já entendi tudo, vai querer tomar mais cangibrina e fiar né? É sempre assim... Quando vem com essa conversinha de meu amigo... Que amigo o quê? Eu nunca te vi mais gordo “ômi”.



- (Ai! Tudo de novo não, pensou) Escuta seu Cosme, preciso levar este galo o mais rápido possível se não minha mulher me mata.

- Xiii... Perdeu o galo na feira, a “mulé” vai ficar sem o feitiço e o “ômi” vai ficar no ora veja! Quer um conselho “ômi”, esquece. Senta aí, toma uma “cangibrina”, umas geladas, come uma tripinha frita de primeira qualidade e deixa o vento passar se não o feitiço pode se voltar contra você.

- Será?

- ôxi! Tô nisso desde menino, pode acreditar.

- Então... Manda uma dose dupla e uma cervinha bem gelada... Ah! Manda a tripinha também.



Daí em diante o sol rodou, dezenas de pescadores, vendedores, compradores, turistas e outras figuras inclassificáveis passaram pela banca do Cosme, rolou prosa de tudo: mulher, futebol, preços, produtos, mar, vento, raios e trovões... Rolou de tudo. A tarde já ia longe quando adentrou o Cráudio.



- Cosme tudo bom? E aí Alice tô com fome!



Da parte interna da banca que ficava separada por uma divisória de tecido colorido e sujo, falou Alice:



- Vai demorar um pouco seu Cráudio, o galinho era atleta, duro que só.



Vocês não vão acreditar, mas eu que tava vendendo meu caranguejo entre as bancas do Cráudio e do Cosme, juro que vi: algo explodiu no ar e voou pedaço de feitiço pra tudo que é lado.

Agarrei as cordas dos bichinhos e dei o pinote... Eu heim! Num volto lá nem que galo crie dente!



Roger Ribeiro

24 de maio de 2012.

         

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tu separarás a terra do fogo e o sutil do espesso**



Para meu amigo que sofre do coração.


De domingo a domingo esteja chovendo ou ensolarado, não importava, lá estava ela impávida sobre a Pedra do Peixe ao noroeste-próximo do Farol da Barra, poucos a viam. Todos os dias centenas de centenas de pessoas passavam passeando, correndo, de automóvel, bicicleta, skate, de mãos dadas, abraçados, absortos, loucos, enfim de tudo um pouco, mas poucos ou quase nenhum a enxergava, parecia coisa resguardada aos poetas, aos estetas ou aos aluados.



Apesar de tudo isso, estava ela, sempre de uma elegância impar com seus vestidos de levíssimos tecidos de florido bordados à mão de tamanha beleza e delicadeza que só poderiam ter sido incrustados naquele tecido por mãos de fadas, não qualquer fada, mas do tipo das que criaram o vestido da Gata Borralheira. Os pés descalços confundiam-se com o brilho do sal nas pequenas poças d’água que formavam oásis para pequeninos peixes na escura e inabalável rocha negro-chumbo.



Por solfejar intermitentemente uma linda melodia, aqueles que não a viam, mas que a ouviam, costumavam chamar aquele local de “morada das sereias”. Os que viviam do mar temiam; nem as ondas violentas das ressacas de março ousavam tocar-lhe, apenas a fresca brisa nordeste lhe acariciava e fazia flutuar seus imensos fios de cabelo azuis que, os contadores de histórias desta terra, desde tempos de Monan e Maire, portanto anterior à chegada de Cristo ou Oxossi por estas terras, narravam que as pontas destes cabelos apagavam as pegadas das virgens nativas nas areias de uma das Ilhas mágicas, que se petrificou, saindo do hiato entre a Terra sutil e a Terra sólida com a chegada de Martin Afonso de Souza que a denominou de Ilha de Tinharé.



Não se tratava de uma jovem, os sulcos em sua face demonstravam que ampulheta havia virado por várias vezes, seus olhos negros confundiam-se com as Marias-Pretas, rápidas e abundantes nas poças que rodeavam aquela pedra, conseguiram permanecer abundante por terem pouca carne e muitas espinhas, o destino lhes foi benevolente. Enquanto o sol brilhava atinha-se a terra, lia com muita atenção a fisionomia de todos que passavam. Nada dizia. À noite voltava-se para o horizonte marítimo e postava-se como em oração. Nada dizia.



Apenas quando os poucos que a enxergava chegavam e mansamente sentavam ao seu lado parava de solfejar e atinha-se de corpo e alma ao que lhe era narrado. Jamais se apressava em emitir parecer, o tempo lhe era grande aliado, sabia ouvir os sinais da natureza, não bastavam as palavras, era necessário ouvir a brisa reverberar no som das palavras, o sol estalar na pele do narrador, havia muitos sinais que iam além dos limites impostos pelo que seus bloqueios mais sutis permitiam falar, e era exatamente ali que podiam estar os caminhos possíveis.



Por vezes sentia que o vento perdia a rota, sentia pelos fios dos cabelos que saiam da reta e rodopiavam perdendo a cor azul-água corando-se de verde-esmeralda que a emoção daquele corpo estava confusa. Os pássaros marinhos não ousavam se aproximar muito menos piar nestes momentos, de longe observavam as mudanças melódicas, aliás, do Morro Ypiranga ouvia-se:  


“Quando o riso se perde da face
E a tristeza invade
Entre o céu e o mar (...) / as gaivotas (...)”*

Em um destes momentos, quando o seu acompanhante iria começar a narrativa, levantou a mão pedindo-lhe que nada dissesse, colocou levemente os dedos sobre seus lábios e fechou os olhos para poder ouvir o vento e o sol naquele corpo, os odores que surgiam naquele momento, a reação dos peixes e das aves, foi neste momento que me viu voando entre o sol e seus olhos, sombreando-os, sorriu largo para meu voar! Voltou-se para o seu acompanhante e baixinho lhe falou:

- Amedrontamo-nos com o só por temermos ter de nos aceitar.

Seus cabelos retornaram à rota, agora em um azul-marinho vivo. Seus longos cabelos nas pegadas nativas – o tempo.

Roger Ribeiro
08 de maio de 2012.
*Vôo Rasante – Lui Muritiba
** Hermes