terça-feira, 25 de março de 2014

O Portal Verde


 

Treinava para atingir a velocidade do som, já havia conseguido equiparar-se às ondas produzidas por João Bosco e estava a um passo de alcançar o Jorge Bem, mas seu alvo era o Ramones, precisava chegar à velocidade destes magrelos novayorquinos, enquanto isso não ocorresse iria suar a camisa e ralar a chinela pra cima e pra baixo.

Da última vez que o encontrei lá no Restaurante Caxixi, no Largo do Dois de Julho, entre uma geladinha e um tira-gosto, iam chegando amigos e a conversa ia ganhando fôlego, dizia, sem bravata, mas com a certeza dos repentistas de feira popular, que após a barreira do som, chegaria à da luz... Eis o seu sonho desde menino, correr pela orla de Salvador na velocidade das estrelas!

 
- Conheço desde menino, sempre pertenceu ao grupo dos aluados, em determinado período por muito pouco não se transferiu para o dos desatinados, mas aí sabe lá como achou em alguma viela dessas um tino perdido...

- Ôh... Kleber, não fala assim, além disso, a Majuí nem está aqui pra se defender... Ficar agora conhecida como o tino perdido? Ela não merece isso.
 

Nossa! Essa conversa vai longe, aliás, isso é todo sábado fim da manhã, é melhor mudar o rumo da prosa, apesar de que, tenho de ser justo: o Kleber tem certa razão.

Domingo cinco e quinze da manhã, o dia amanhece vagarosamente azul, ainda se avista as criaturas da noite dobrando apressadamente o horizonte, do outro lado um vento leve e muito fresco sopra como se tivesse viajado meio globo para trazer partículas da aurora boreal para esta cidade, afinal tudo e todos, forçados ou por apetite de dragões, nos mais variados tempos, por estas areias aportaram. Continuam aportando.

Desta maneira avistei-o de longe, se preparava para o treino, vestia cada peça da roupa sobre o corpo que não existia com um ritual quase messiânico. Majuí ao seu lado abria com o olhar verde escuro uma rota entrecortando o ar, o tempo, o calor, toda e qualquer partícula de energia, emoção, intenção ou ansiedade. Nada poderia pairar na raia a ser percorrida, qualquer choque com qualquer partícula poderia provocar uma explosão sem precedente. O caminho era reto, o verde olhar já o traçara, mas o retorno era o que mais havia de incerto.

Agachou, colocou a palma da mão esquerda no cimento da calcada, esticou a perna direita, olhou com extrema ternura a sua menina, deixou seu enorme cabelo translúcido cair-lhe pelos ombros e esperou o sinal. Majuí deu-lhe:

A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

Partiu em disparada... Abria-se um vácuo e uma total ausência de sentidos se fazia. Ultrapassou todos os limites, passou pelos Ramones, pelo Steve Vai, Jimmy Page e até mesmo pela Baby Consuelo cantando chorinho. Uma explosão... A barreira da luz foi ultrapassada. Neste momento o universo tornou-se lento, tudo estava como em câmera lenta!

Majuí, com seu sorriso prata, flutuava encantada por entre os portais desta cidadela para onde tudo converge, de frente para o mar percebeu-se entre dois morros verdes que avançavam como brigues para o horizonte, sobre o primeiro a luz da racionalidade humana, ali repousava o incansável Farol guiando a nau da civilização, no outro pairava um dos signos do intocável, do imponderável, a força que tudo é, mas que não se explica, guiando a nau da civilidade. Entre estes Majuí etérea, continuava abrindo os caminhos para seu aluado lumiar seu sonho de menino.      


A paz
Fez o mar da revolução
Invadir meu destino; a paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz
Eu vim (...)*
 

Roger Ribeiro

25 de Março de 2014

* A Paz - Gilberto Gil & João Donato



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O trilho


 

 

 

“Eu vi um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redor
do caminho daquele menino”*

 

 

Sim o sol pesava-lhe sobre os ombros, olhava felinamente em busca de um refúgio, nada. Ergueu o braço em busca do tempo, o pulso não lhe deu a hora, no lugar dos ponteiros, da circunferência e da pulseira, havia um vão, sua mão esquerda pairava no ar, por entre o antebraço e a mão corria livremente o ar quente do verão, mas a mão continuava a obedecer-lhe com perfeição e isso lhe ficou bem claro no momento em que se percebeu um náufrago salvo pelo vento que não move moinho que, como a lâmina fria, chegava-lhe aos lábios como o cálido sussurro da madrugada.


Alguns em movimento se aproximavam:

 
- Desculpe-me, mas poderia me informar as horas?

- Claro! São doze horas de intensa claridade e ar quente, para em seguida vir doze horas de escuridão e ar tênue.

- Mas, em que momento deste tempo estamos?

- Estamos dentro do tempo presente, mas se apresse, pois logo podes ser aprisionado pelo bloco de tempo passado.
 

Partiram todos. Olhando ao redor a única coisa que avistou foi o Forte do Farol da Barra e este continuava imponente apesar da força para manter-se impávido, visto que o ar quente que soprava ao seu encontro deixava-lhe um tanto quanto maleável, por isso necessitava agarrar-se ao solo de maneira firme. Segurava-se na força de séculos que se escondiam por debaixo de suas rochosas paredes.
 

Percebeu que ao Farol também faltava um dos anéis de sua torre de luz, ali também havia um vão onde o vento quente passava silvando em direção as pedras do Porto da Barra. Aquele vão roubava-lhe a idéia de solidez, seria possível o girar as luzes de indicação sem parte de sua formação? Ficaria então as embarcações a deriva?
 

Uma embarcação a deriva é uma nave sem tempo. Ela pode pertencer a qualquer tempo, posto que não se dirige a local algum. Pode ter saído de Palos no século XV, mas quando chegou à futura América? Aliás, como pode ter chegado à América se esta não existia enquanto América? E o que existia? Em que hiato de tempo vivia? Teriam pulsos?
 

Olhou novamente os não pulsos apenas na esperança de constatar que perdera o tempo, aliás, perdera de tal forma que o vão aberto antes do tempo da mão permanecia intacto em meio à intensa temperatura que a esta altura beirava a algum grau que no momento não lhe vinha à mente, perdera o termômetro, a bússola, o mapa, a régua, perdera em algum lugar próximo ao vento, creio que ficou na caixa que esquecera ao sair, mas quando mesmo saíra? Será que saíra mesmo ou o externo é lhe foi ao encontro?
 

- Perdido meu jovem?
 

Olhou assustado e sentiu aquela não mão que lhe pousava sobre o ombro, onde antes lhe pesava a temperatura, e um rosto desconhecido que queria uma informação que não sabia dizer.


- Perdido, eu! Não. Só se perde quem vai a algum local. Não é o meu caso, aliás faço parte de um cenário onde um local me queria, sendo assim, não posso perder-me. E a senhora, sabes para onde se dirige?
 

- Sempre pra frente meu filho, sempre para frente, mesmo que saibas que darás a volta na circunferência. Mas o importante é a meta que se impões no espaço existente entre as duas paralelas da visão, vês?


- Não, há muito misturei o senso de visão, perdi as paralelas, desde então tudo se tornou um tanto quanto nebuloso, meio nublado, chuvoso, turvado como quando tentamos sentir o sorriso que não chega dos seus para os meus lábios, quando só reflito a sobra do trem que sempre parte dos meus pés ao infinito.
 

Levantou por mais uma vez o não pulso, e mais uma vez constatou que as horas o havia abandonado, já não há tempo.


Despediu-se de sua mais nova amiga entrou no trem, a mesma locomotiva que sempre estava partido, olhou a torre da estação e lá não havia o ponteiro, não havia o tempo. Tudo o mais ficou no exato momento em que os pingos se lançaram da nuvem e a eternidade até que molhem a terra.


Roger Ribeiro

24 de fevereiro de 2014


* Força estranha – C. Veloso

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Você tem uma banda de rock?


 

O Boeing passou e desalinhou-lhe o penteado, isso realmente a tirou do sério, afinal isso é um absurdo, abuso total, em que mundo estamos? Despentear uma Dama?! Isso é demais. Olhou para cima, visualizou bem aquele imenso avião sobre a sua cabeça e desancou um gesto obsceno, daqueles que uma verdadeira cortesã jamais faria, mas fez e, digo aqui muito intimamente, fez muito mais, praguejou de tal maneira que aquela gigantesca aeronave foi transformando-se, reduzindo-se, a cada sílaba tornava-se diminuta, diminuta até que ao final, não passava de um aeromodelo na mão de uma criança. Gargalhou.


O andar era firme, usava uma sapatilha chinesa vermelha com minúsculas flores amarelas de miolo verde água bordadas que saltavam da sapatilha e lhe tatuavam a perna, ramificavam torneando a perna alva que lhe servia de amparo e iam brotando de maneira compulsiva como que a dizer-se feliz por estar em local tão fértil. E assim era. Não precisava ser grande observador para perceber que aquelas alvas pernas não tinham fim. A Terra era pequena para aqueles passos.


Estava um pouco atrasada, sabia disso, mas tranqüilizava-se admitindo para se mesma que nada começa no horário marcado por estas bandas, e, além disso, uma jovem menina nunca pode chegar antes da expectativa de sua chegada. Sendo assim, os primeiros acordes soam para que percebas o aroma de flor que vem do mar filtrado por seu vestido, seu cabelo e suas florzinhas amarelas de miolo verde água bordado em sua pele e tatuado em sua sapatilha chinesa vermelha que lhe da uma leveza confundindo-a com os balões de gás coloridos que aquele senhor de longos bigodes verdes está mercando.
 

Parou ao longo do meio fio e aguardou a cavalaria passar para poder transpassar do universo das brisas marinhas para o centro nervoso da vila: fumaça, ambiente de penumbra, garrafas, copos que se espatifam nas pedras do chão, bocas que se abrem e fecham sem cessar, bocas que se abocanham e tecem poemas, poemas que são catapultados pela força dos corpos em atrito e chegam ao tablado sendo captados pelos captadores dos instrumentos elétricos, retornando em solos, riffs e melodias.


Enquanto batia a ponta da sapatilha vermelha impacientemente no chão, observou a passagem da cavalaria cansada, os navios a vapor com suas imensas pás laterais em busca da cidadela de Cachoeira, as velas brancas dos saveiros da Rampa do Mercado, e, por fim, o medo dos que se apegam à realidade como uma religião, como uma verdade. Enfim atravessou a linha do tempo e chegou aonde à expectativa de sua chegada já lhe aguardava.


Sentou-se ao lado do tempo passado e, sem precisar falar, apenas com os olhos desculpou-se pelo tempo futuro roubado.


O som estrondou no local, o espaço ficou totalmente tomado de música: ritmos sobre ritmos, harmonias, melodias, solos, vozes, risos, som, som como a grande explosão originária do universo, o som do parto, um pacto hermético entre a vida e a vinda.


Olhou para aqueles quatro cavalheiros munidos de suas guitarras, baixo, bateria, aparelhos, microfones, fios, caixas, ou seja, um universo de elementos que faz som e lembrou vagamente de uma letra de uma canção inédita que sabe que existe, pois enumera ações que se impõem quando se faz mais que necessária a vida, ela vai tocar no rádio. (cantarolou mentalmente a canção Rebento de Gil, mas na versão de Elis).
 

Estava entre amigos, as pequeninas flores amarelas se enramavam por todos, as garrafas gigantes não permitiam a desertificação, a mesa abaixo da placa que indicava preço e hora para se jogar bilhar permanecia frenética com as bolas coloridas que corriam para todos os lados fugindo da possibilidade de serem devoradas pelo universo paralelo dos portais abertos.
 

Neste momento, no meio daquele solo, entre o tempo e o contratempo a sapatilha vermelha de minúsculas flores amarelas de miolo verde água subiu na bota preta de cadarço, apoiou a fina mão de dedos longos no ombro a sua frente e o convidou para dançar. As velas dos castiçais se ascenderam, o quarteto de Paulinho continuou a tocar o rock, as bolas do bilhar ficaram incontroláveis, o mundo ficou de ponta-cabeça, o bumbo bateu as doze horas e do nada, apenas havia encostada à bota preta uma linda sapatinha chinesa, bordada de minúsculas flores amarelas de núcleo verde água.


(Onde será que anda meu amigo Barba?)

Roger Ribeiro


18 de novembro de 2013

 

 

 

 

 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Quantos ventos tens no bolso?



 


O elevador estava cheio, um corpo colado no outro, uma expiração sendo inspirada por outro pulmão. Desce; para; entra mais gente, tecidos; cabelos; couros dos sapatos, cobrindo peles, pelos, dores e odores humanos. Uma multidão em uma caixa fechada descendo, andar por andar, de uma grande caixa abarrotada de gente por todas as portas e janelas.


- Licença...

- Meu andar, por favor.

- aí!

- Opa! Desculpe-me foi sem querer.

- Sim... Não agora não dá pra falar, estou no elevador, ãh... olha não ta dando pra escutar nada, depois te ligo.


Ah! Enfim térreo, pés no chão novamente. Mas, são muitos pés, o chão treme, muita gente, cada uma com seu peso para carregar passo à passo, são dois pés para cada indivíduo, todos saindo ao mesmo tempo da inércia na caixa do elevador para o desequilíbrio do passo após passo, todos estão com pressa, ou parecem estar, creio que na verdade o que todos desejam avidamente é sair daquele emaranhado de corpos, todos querem ar entre os seus corpos e os outros corpos da multidão.


Mas a expectativa trai, por vezes, o sentido. Após o vão do saguão, pós-elevador, chega-se à porta que abre a perspectiva da libertação! Do outro lado é estar à rua; um vão sem teto, sem a compressão entre os espaços esmagados pelos corpos.


- Sim, agora sim, te escuto perfeitamente... Não preste atenção... e´ que...

- Minha filha, pare com isso... Sim vamos chegar, mas...

- Ave Maria... não agüentava mais...

- Sim minha querida, é para hoje sim...

- Bom dia seu Carlos, olha vai chegar minha...

 
Pés pisando forte no tabuado, som, som sobre som, as paredes reverberando, ecos por todos os lados, tudo multiplicando a multidão... Preciso sair daqui rápido, meu coração está acelerado, preciso alcançar a rua. Ah! Enfim, o vento no meu rosto, espaço, não tanto quanto gostaria, mas para quem há poucos minutos se encontrava em uma prensa humana, aquilo era tudo que se podia querer.


Ônibus. O dia parece interminável, são centenas de pessoas passando para todos os lados, bocas que abrem e fecham sem cessar, após o advento do celular, reduziu-se a sensação do quantitativo de aluados, poucos agora falam sozinhos, a maioria fala ao celular, ou será que fingem falar? Será que existe alguém do lado de lá? Mas, o fato é que na atualidade todos falam o tempo todo e, parece-me, pelo menos, que o universo não está tendo capacidade de absorver tanto som.


O ônibus vai parando de tantos em tantos metros e muito mais gente vai entrando, diria que para cada cinco pessoas que entra no coletivo desce apenas um. Existe um desequilíbrio, estamos ficando cada vez mais uma massa de células grudadas tendo apenas os olhos libertos pela transparência das janelas abertas e o espanto das pessoas nas calçadas ao nos ver passar, é uma multidão se locomovendo, em linha horizontal, levando um carregamento humano, e neste carregamento estou eu.

 
- Licença...

- Olha o caramelo...

- o Senhor é o caminho... já fui drogado...

- Poderia estar roubando, matando, mas estou...

- Espera aí motorista... Ôôôh, cobrador e meu troco?

- Um passo à frente aí...  o coletivo está vazio!


Vazio?! Será que estou sonhando? Existe uma multidão aqui dentro, todos falando, respirando, pensando... Este coletivo deve está pesando infinitamente mais do que apenas o peso da matéria. Há o peso da intenção. Preciso atravessar esta multidão e descer, o meu ponto é o próximo, será que irei conseguir? Se conseguisse parar de pensar creio que ficaria muito mais fácil conseguir ultrapassar esta barreira... Vamos lá, sem desespero, primeiro puxar a cordinha, fazer saber que preciso descer... Já carrego tantas partículas de tantas pessoas que já não sou mais eu. Será?


Ponto, rua, praça, mercadores, transeuntes, músicas, expirações, inspirações, pensamentos, o vento nos corpos, na estátua, o tempo nos milhares de relógios com seus sons característicos, o virar dos olhos daquela menina, a bengala no solo, a tosse do senhor da bengala, a criança que tenta explicar o inexplicável para que não quer ouvir, os sonhos de cada um, os automóveis derretendo os sonhos de Ícaro... Enfim enxergo você ao lado de sua bicicleta, sentada na mureta da praia do Farol da Barra, absorta, quase uma serpentina humana ao vento, olhando o mar.


Existe uma multidão entre mim e você ao vento. Vendo você assim, permitindo o vento carregar as suas partículas, vejo que não percebes a multidão. De longe tento te mandar um sinal, um aviso:


“Meu coração tem catedrais imensas,

(...) Como os velhos Templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

(...) E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!*


Mas é impossível: existe uma multidão em mim, milhares dentro da minha existência, um quebra-cabeça de milhões de sons, cheiros, sensações, braçadas no ar.
 

Roger Ribeiro

17 de setembro de 2013


* Vandalismo (edição livre) – Augusto dos Anjos

 

 

 

  

 

 

 

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Eternidade

 
 
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal*

 

Pensei em te escrever uma carta, mas fui informado que todos os correios próximos foram fechados. Achei essa notícia um tanto quanto absurda, porém frente aos absurdos que transformam o hoje em um mundo de surdos, tudo entra no bocapio da feira moderna, ou como diriam os concretos na “geléia geral”. Sem correios, eu heim...!


Bem, ficar lamentando não nos leva a nada. Isso em mente é partir para atuar, preciso te falar e por isso resolvi recorrer aos meios que disponho. Em primeiro lugar preciso condensar a informação de maneira a que fique concisa e não gere margens de interpretações ambíguas. Depois preciso pensar na hipótese da mensagem cair em mãos erradas, isso seria realmente uma tragédia, não consigo nem mesmo dimensionar os desdobramentos que um fato como este poderia gerar! Preciso recorrer a um código secreto. Criar uma língua, símbolos que só possam ser decifrados pela receptora certa, mas como você irá decifrar um código que não conheces?


Efetivamente a coisa está ficando complicada demais dentro deste sonho, acho melhor acordar, creio que acordado a solução se apresentará de maneira mais consistente. Então vamos, levantar, lavar-se, escovar, abrir bem os olhos, brilhar, banho bem frio, realizar uma pequena, porém, densa leitura para despertar a mente, realizar uma oração sem religião, sem retenções, acordar os músculos, o esqueleto, acordar a idéia de você, tirá-la do universo da idealização e lembrar sua materialidade, sua quase materialidade tão humana quanto qualquer ser humano, com apenas uma diferença: não preciso falar com qualquer humano, preciso falar com você.


Lembro que ainda no sonho, quando nos encontramos pela última vez, marcamos um encontro lá no Farol de Itapuã, recordo-me perfeitamente disso, até revejo a cena: você estava meio de perfil com sua transparência expondo as gaivotas mergulhando no mar verde da antiga enseada da Mariquita, que foi engolida e aterrada, estavas com um finíssimo lenço sobre a cabeça evitando que o salitre enferruje os teus cabelos, a imagem se fechava nos teus lábios vermelhos como amoras de Minas que suavemente demarcava o próximo encontro.

Será que poderei ir?


- Se não fores não poderás me ensinar o novo código, a nova língua e desta forma não conseguiremos mais comunicarmo-nos. Será uma perda que, talvez, não tenhas condição de arcar e suportar as conseqüências.


- Sempre assim, você, ou melhor, a sua voz chega, diz. Por vezes dita, mas onde está você? Não precisa usar este truque de passos sendo marcados na areia fina, conheço perfeitamente a leveza do seu andar, a longitude das suas pernas alvas, que por muito pouco risca a terra.


- Ah! Já vi que hoje não estás para brincar. Não tem problema. Sobre sua preocupação: as tuas palavras? Sabes como fazer chegar a mim, não existe possibilidade de não te escutar. Sei o que queres dizer e sabes muito bem a resposta. Não se exija demais, já sabemos muito bem disso! São muitos os tempos, vazios os templos, ardentes os ventos entre os dentes.


- Seu sorriso continua se insinuando por entre as brechas dos seus cabelos. Sei exatamente o que este brilho nos teus olhos indica, também sinto o mesmo. Criarei um novo código que possa atravessar as linhas do tempo. Tens que ir? Até quando? Espera, deixa só eu ver você mais uma vez...


- Até! Estou desde já aguardando sua mensagem. Estamos no último instante, a última curva do teu ser irá mergulhar no horizonte, seja rápido, deixe a mensagem antes que te apagues, tens que mergulhar.
 

Ao amanhecer havia uma garrafa de cristal prata sobre o mar, dentro um código esculpido pela ponta de um diamante em uma tábua de esmeralda.


Roger Ribeiro

12 de agosto de 2013
 

*Milágrimas - Alice Ruiz

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Topo do Mundo


 


O teto do mundo era muito alto. Soprava um vento frio e seco que rachava os seus lábios como se fossem um bombom de chocolate, ao mesmo tempo o sol lhe avermelhava a pele com uma fúria que poderia facilmente torná-lo brasa. Sim, não era nada fácil chegar ao teto do mundo, mas estavas no topo e como uma Amazona ou uma Walquíria com seus elmos e lanças, uma visão quase invisível, o que mais poderia ser tão elegante?

Sentou-se a uma pedra e absorta no tempo e praticamente solta no espaço, admirava as enormes montanhas que se iniciavam verde, enegreciam para por fim tornarem-se alvas como as areias finas da Lagoa do Abaeté.

O que faria aquele espectro de luz naquele topo? O que buscava?

Até aquele momento, nunca havia pensado no topo de mundo, mas, ali, naquele momento percebi que por toda a vida a visão do topo não poderia ser outra: uma silhueta sustentando um véu de cabelos e tecidos que buscavam abraçar toda a Terra. Dos seus pés rolavam pedras que a princípio pareciam pequenos seixos, porém, ao se aproximarem, dava-nos a dimensão real de sua magnitude, deitavam sobre a terra formando imensas cadeias de montanhas que forjavam vales infinitos, por onde voavam imensos Condores.

O som que se ouvia era sempre de longe, nunca havia som perto, era sempre o som gelado do vento vindo das geleiras que se esgueirava pelos costados das rochas fazendo-as, vez por outra, estrondar em fissuras; o frio rachava a pedra. Plantas só rasteiras, havia pouca terra, muita rocha que formavam trilhas serpenteadas de dutos por onde as águas fluíam até despencar de uma altura tal que esfumaçavam e jamais atingiam o solo.

Por isso os povos do lugar possuíam um brilho úmido nos cabelos negros, como a selva longínqua que podia ser avistada do topo do mundo. Um povo ao redor dos seus teares, seus pigmentos extraídos de pedras, sementes, folhas, terras, sua forma milenar de fiar, os desenhos sempre representando o equilíbrio das forças que emanavam do topo do mundo. Uma terra que das entranhas das suas montanhas forjava salinas a três mil metros do mar. Um ar rarefeito que jamais cansava de lembrar-me que a pressa será a minha impossibilidade de alcançar.

Por isso fiquei sentado a  três mil metros de altura, entre o Vale com seu rio a correr por entre as bases das montanhas que lhe fazia parecer, de onde estava, uma serpente sem fim, serpente que em algum momento levará o som frio das Cordilheiras ao mar, acima de mim o topo do mundo (os gigantes adormecidos), impávido com seu véu branco que ao sol, turvava a vista, aguando os olhos, demarcando assim o desejo indisfarçável de chorar. Deixar uma lágrima de retribuição ao topo do mundo.

Horas se passaram. Minha boca também rachou e o vento explodia com fúria sobre o meu corpo obrigando-me a curvar, olhei ao meu redor e as pessoas que também admiravam a Amazona no topo do mundo, também estavam curvadas, passou pela minha mente a idéia de que aquele vento furioso que esbarrava em nossos corpos não estava soprando ali por acaso, sua função era exatamente essa: curvarmo-nos. Fazer o ser mais pretensioso da Terra, entender, rever e reverenciar.

O sol girou o seu ciclo, passou por seus inúmeros portais, e a noite queimada pelo vento frio e o sol forte, descia avermelhada e lentamente, logo os gigantes do topo do mundo estarão envoltos por uma densa neblina. Os povos do lugar se apressam com seus passos miúdos e rápidos, pelas ruas as cores vibrantes dos seus trajes, as mulheres quase sempre velhas, de baixa estatura e forma cilíndrica, tranças amarradas nas pontas, davam a impressão de festa, uma imensa vontade de estar entre estes povos, aprender o quão é importante um pequeno sorriso. Só há fartura de vida.

A noite, já de retorno à vila, sentado esperando a refeição do dia, em roda de amigos que não conseguiam descrever o indescritível, ouvido a música do povo do lugar, tive a sensação, quando você passou conduzindo o vento frio, que já havia visto estes cabelos trançados aos tecidos coloridos esvoaçando conduzido pelo perfil do seu corpo. Virei rápido na direção que o vácuo apontava, não havia ninguém. Sorri, sentei-me novamente e perguntei a Mark, Yara, Cássia e João: Qual a mais bela: a Lhama, a Alpaca, o Guanaco ou a Vicunha?    

 
Roger Ribeiro

22 de julho 2013
 

 

 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sobre a Baia


 

Havia lido algo a respeito de uma tragédia ocorrida ainda na década de sessenta no Rio de Janeiro e o fato lhe marcara fundo, parecia que o som do desastre ressoava em sua cabeça. Saiu andando meio que a ermo, o pensamento lhe era vago, na verdade não fixava uma idéia, tudo eram apenas fragmentos, frases soltas, tudo desconexo, mas nada disso a ela preocupava. Estava apenas entregue à sensação que a leitura produziu em suas entranhas.

 

Sem saber era observada, sua figura esvoaçante em alguns causava arrepios como se estivessem vendo um fantasma, outros a olhavam com profunda admiração, impossível seria nada sentir ao passar daquela menina com seus cabelos negros esvoaçantes que espalhavam no ar um aroma de vento do deserto. A cidade parava para observar, talvez pela primeira vez, o passar de uma Tuareg.

 

Por onde passava os sentidos se desviavam, as retas se curvavam, o tempo parava ou até mesmo se revertia, à sua esquerda corria o ar a menos de zero grau, enquanto à sua direita a quentura se fazia como jamais se fizera. Subiu a pequena, porém íngreme, Colina onde se encontra edificada a igreja de Santo Antônio da Barra, sentou-se no degrau da mesma e fitou à sua esquerda o azul sobre a Ladeira da Barra e esta como limite entre a Península e o mar, seus olhos brilharam, não é todo dia que uma menina do deserto se defronta com o mar.

 

Aos poucos alguns seres foram chegando, nada diziam, sentavam-se ao lado da menina e permaneciam, alguns translúcidos deixavam aparente a circulação de líquidos fluorescentes que lhe percorriam e dava-lhes forma, alguns alados, outros desfocados, inanimados, em comum apenas o silêncio, todos chegavam calados. Ao passante, absorto observador, apenas uma impressão: algo iria acontecer.

 

Eram dezenas de seres os mais díspares possíveis sobre a Colina de Santo Antônio, para muitos, com os olhares mais amedrontados e banhados por certezas dogmáticas, ali estava o perigo: encontravam-se ali os “abandonados por Deus”, os que vagavam sem peso.

 

De um momento para o outro o vento parou de correr, o tempo esqueceu-se de passar, o sino da igreja tocou mais forte do que de costume e, como o diapasão do maestro, deu início ao som. Comunicavam-se por músicas, sons que se entrecruzavam em modos atemporais, por vezes tons que se harmonizavam, por vezes se chocavam, afastavam-se, debatiam-se como forças densas, gladiadores em meio a um Coliseu de arquibancadas de ar. O som vazava para a cidade, a cidade se entregava ao som.

 

O Mar da Baia até então calmo, tornou-se fúria pura, aquela Colina ao centro da Ladeira da Barra, tornou-se um campo de força, era energia pura. A chuva despencou torrencial de um céu límpido, azul.

 

A menina Tuareg, agora com seus negros cabelos protegidos por uma espécie de turbante cor de terra, levantou-se lentamente e saiu andando com seu olhar de diamante. Na escadaria de Santo Antônio da Barra ficou apenas Paulinho da Viola tocando seu violão:

 

“Ergo em silêncio, como um pirata perdido,
Minha negra bandeira e me sento.
Mexo e remexo e me perco e adormeço,
Nas ruínas da cidade submersa”*

E da varanda da casa de Maria, debruçada sobre a Baia de Todos os Santos, observamos tudo em profundo silêncio, e assim permanecemos.

 

*Cidade Submersa – Paulinho da Viola