quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Ponto, de partida




Fervendo, sim fervilhando! Assim começou o dia. Calor, muito calor, apesar da calçada vazia. O sol lentamente se levanta do horizonte, tem um brilho amarelado, meio assim... De quem ainda não lavou o rosto, os dentes, a alma. Porém mesmo assim tudo estava muito quente.

 

A luz enfim reverberava na vidraça da janela e isso gerava o eco. Sim, sem o eco nada há. Não existe movimento em mim sem que seja dentro do eco, é meu guia, meu vigia, aquele que em tudo está. Em tudo penetra. Necessito levantar, uso as reverberações solares que batem no vidro e criam um campo de atrito para poder me esgueirar.

 

Na pia ao tocar da água na louça o som se propaga pela concha aparadora, se expande, bate no espelho, dele na retina dos meus olhos, penetram na minha alma. Ameaçam minha calma, desviam meus sentidos. De minha caixa de ressonância forma-se um eco a repercutir pelos prédios. Desce avenidas, cria vias, caminhos, becos, encruzilhadas, ruelas... Desvios. Não existem placas, estas teriam de ser sólidas, mas no universo dos ecos entrecruzados nada é sólido, tudo é fluido, tudo flui à velocidade do som.

 

Apresso os encaminhamentos, não posso perder o tempo das ondas no espaço, se perder... Me atraso, ou talvez nem chegue, pode ser que me encaminhem para outras paragens, cenários diversos, afinal o universo é muito extenso e as vias por onde possam fluir as ondas são infinitas. Isso me conforta me apresenta a possibilidade de eterno.

 

Na rua a menina de pelos verdes sinaliza algo em minha direção, mas seu som é direto, necessito aguardar o delay, a reverberação, isso pode ser perigoso. Agachei-me rápido, desta vez deu tempo, o avião passou a dois dedos de minha cabeça. Um ser estúpido este avião, insiste em voar à frente do eco, voa no oco, no vácuo... O seu destino é previsível, o nada.

 

Vão com muita pressa em direção a algo que pertence ao futuro, portanto... Não existe. Porque ir de encontro ao que não existe, se tanta vida há nas entranhas do som? Por vezes passo a duvidar de meus próprios semelhantes, afinal aonde vão?

 

Necessito distinguir entre este universo de sons reverberando a tua voz, necessito de total concentração. No momento tudo o que me chega é a aproximação mais que veloz do meu transporte. Faz tempo que o sol bateu na minha janela, e ainda estou em meio a este turbilhão de caminhos sonoros sem conseguir ultrapassar a linha do tempo.

 

Diz um grande e magro poeta, com muita propriedade, que “a luz chega antes do som, e o som chega antes de mim”*, claro, afinal sem o entrecruzar das forças reais a imagem não se concretiza, não se materializa. O sólido só existe para ser transpassado pelo som, pela luz. São estas as vertentes reais que podem transformar o que existe em mim em algo inteligível: o amor, a dor, o triste, a raiva, a alegria. O que seria de todas estas coisas sem o eco do som, das cores?

 

Sim. Simplesmente eu não existiria, nem você, meu amor.

 

Roger Ribeiro

26 de agosto de 2015

* poesia de Ronei Jorge Martins.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

750cc Four


 

 

“Eu faço samba e amor

até mais tarde,

E tenho muito mais

o que fazer*”

 

- Vamos ter, cada um de nós, uma dessas e viajar! Primeiro o Brasil, depois a América Latina.

- Certo, mas eu fico com a preta e você com a dourada.

 
E a partir daí, olhando aquelas duas motos 750cc Four, que ficavam sempre estacionadas na calçada da mureta próximo ao Farol da Barra, onde até pouco tempo esse grupo de motoqueiros – como se dizia antes da era dos chatos de plantão, hoje são motoclistas (que nome medonho) – se reuniam. Passavam o resto da tarde viajando nos detalhes da viagem, corria os anos finais da década de 1970.
 

Eram dois jovens de seus dezessete anos, um deles com seu cabelo escovinha, alto e cara de bom moço, o outro de cabelos compridos e desgrenhados, mas nada diferentes para uma época em que não se ficava por aí dizendo que o rock morreu, pelo contrário.


O tempo foi girando, a vida acontecendo, mas a idéia das 750cc Four, nunca era superada, novas motos foram lançadas, novas marcas chegaram ao país, algumas até lhes pertenceram, mas não as setecentos e cinqüenta do sonho. No rolar do tempo o objeto de desejo foi ficando cada vez mais raro, até tornar-se peça de colecionador, mas a quimera não embolorava, e cada vez que se encontravam, e muito se encontravam, a velha viagem vinha à tona. O Brasil, a América Latina, o vento, as mulheres (claro), a aventura.
 

Os anos oitenta chegaram com um turbilhão de loucuras, turma, meninas, Porto da Barra, Jazz e rock. Viagens, muitas viagens, Minas Gerais e suas cachoeiras no meio do ano...


- Mas o que vamos levar para comer lá na Cachoeira das Andorinhas?

- Ora, não se preocupe com isso, comeremos amoras silvestres, lindas bem vermelhinhas...


E lá íamos nós, como dizia a frase de efeito importada da década anterior – “vamos com fé e filosofia”, para os que não viveram o lema, esta fé não diz respeito à religião, mas sim a certeza, segurança e vontade. No verão praias do Nordeste, ou simplesmente aguardar a horda de malucos que desciam pela BR-116, Rio-Salvador, para as famosas temporadas de verão da cidade. Férias, praias, shows, festas!


- “"Ascende" um, Paulo Daniel!”


Lema que virou hino entre nós vinda diretamente do Recife! Era tudo festa e loucura, mas havia sempre a vontade de ir mais, sempre mais, e mais naquele momento significava assumir o sofrimento de 36 horas a bordo da Viação São Geraldo com destino a cidade onde tudo acontecia, a Babilônia. Pouco dinheiro no bolso e o mundo, ou pelo menos o mapa-múndi, na cabeça. Bom, daí em diante a dupla virou trio, depois quarteto, mas mesmo dentro de toda a multidão que poderia está envolvida, lá continuava estacionado no primeiro plano do universo dos sonhos duas 750cc Four, uma preta a outra dourada.


Na terra dos Mutantes, o que antes eram somatórias de informações, foram lapidando-se e transformando-se em conhecimento, desenvolveu-se nestes tempos a arte da dialética, da reflexão, da impossibilidade de aceitar o é pelo simples fato de ser. Por quê? Prá quê? E Prá quem? Eram, portanto questionamentos contínuos, e entre um reggae e um rock aqueles dois baianos foram se entranhando no universo do Lira Paulistano, de Itamar Assumpção, do B’rock 80s, que dava seus passinhos, dos Wailers, e de tantas coisas que preenchiam aquela imensa Bahia, onde água só de cima pra baixo, e que encontrava porto seguro, ou porta destrancada, só na Itapicurú 333, apartamento 122, Perdizes- São Paulo.


- Cara aqui você precisa cortar os cabelos ou não vai arranjar emprego.


O cabelo então foi cortado, revoltou-se de tal maneira, os cabelos, que se vingou caindo praticamente todo, mas não teria importância, assim não atrapalharia a vista quando estivesse “comendo asfalto” sobre a 750cc Four preta.
 

São Paulo-Rio-Trancoso-Salvador, este rito era mágico e esperado minuto a minuto enquanto o semestre de estudos e trabalho se impunha. Neste tempo o cabelo do antes “bom menino” de corte escovinha foi crescendo, junto com uma imensa sabedoria, e uma meta em relação ao mundo. Meta muitas vezes não compreendida por todos, diga-se de passagem, mas realizada com destreza.

Do antes cabeludo que atraia malucos, vieram filhos, mudanças, transformações e transformações. Do antes “escovinha”, agora cabeludo, veio o mais profundo amor pelas coisas mais simples da vida – o mar e a alegria; a festa.


- Poxa não tem nada prá fazer.


- Então vamos fazer uma festa! Chama a banda dos meninos, e vamos nessa... Colé Roginho. Vamos nessa.


Esta frase ecoa...
 

Mas nesta noite chuvosa de julho de 2014, na cidade do Salvador onde tudo teve início, olhei no fundo do sonho e só há uma moto 750cc Four estacionada. A preta.


- Seco filho da puta, não foi isso que havíamos combinado.


Roger Ribeiro

08 de julho 2014.
*Samba e Amor - Chico Buarque

 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A luz turva


O meu processo criativo é violento, agressivo, aguerrido. Fragmentos de ações que não me pertencem, sei lá de onde vêem? São geradas em mim, se esbarram nos limites sólidos, em mim, dentro de mim mesmo. O eu e um monte de gentes, atos e ações que possuem urgência em sair, de se fazer existir.


Batem-se nas paredes das minhas idéias, no oco onde repousa pulsante meu cérebro, descem para o peito, braços, pernas, pés e sobem em velocidade hiper máxima espatifando-se ao norte da minha cabeça. Precisam se desvencilhar de mim, forçam, comprimem, é o sobre natural; doi.
 

Afasto-me nesses momentos de todos; é perigoso. Até onde a radiação desta dor atinge o externo? Não sei, só sei ser necessário proteger o ao redor, não posso expor quem nada sabe sobre a natureza da dor, a cor de um parto, que só a natureza em seu estado de urgência exige, conhece, reconhece, compreende e perdoa. Mesmo que, assim como a explosão da ação, a cor da dor se impõe.


Por vezes, a depender da extensão e das cores do pensamento, me permito reajustar meu feixe celular à forma da criação, um re-moldurar uma moldura sem molde, disforme, etérea como uma canção:

“Eu uso óculos escuros

para as minhas lágrimas esconder

quando você vem para o meu lado

as lágrimas começam a correr (...)”*

 
Mas, nem sempre é possível. Por vezes, e muitas vezes, ela vem retilínea, altiva, com seus longos braços e suas enormes mãos e devassa, invade pelos poros, pelos olhos, boca, nariz, orelha, usa os fios dos cabelos como condutores ao núcleo, e de lá extrai, sorrindo, sempre sorrindo, a mais sólida e precisa idéia.

 
De agora em diante, ainda úmida do parto, a narrativa me acompanha, anda ao meu lado, senta na minha mesa, na cadeira à minha frente. Da mesma forma que estou naquele enorme salão iluminado, no térreo de um enorme casarão no Santo Antônio Além do Carmo de onde avisto o forte, onde tantos foram aprisionados, ao meu lado, a mais nova história, idéia gestada, conto sem fada, sólido e liberta de todas as suas amarras, travas, grilhões; se faz fato.

 
- Pelo que pode ser visto, frente às últimas, notícias, uma nova idéia veio ao mundo em parto não anunciado, não acompanhado, dizem – expunha esganiçado o rádio no alto da estante, ao lado da moringa de água-ardente – que quando a assistência chegou já o encontrara sentado ao lado da cabeça genitora ao meio fio, explicava que, apesar daquele crânio o ter gestado, não lhe pertencia.

 
Aliás, a nada sólido podia pertencer a cor da idéia que materializa uma narrativa que se inicia, porém sem corpo, sem longilíneos braços, posto que ainda não possuir meio, sem fim. Apenas início, indício; quem sabe?


Enfim, à porta, bati com delicadeza, você com seu vestido curto e vermelho, com os lindos pés na cerâmica fria, abriu-a para mim. Estendi a flor amarela que tinha em mãos. Você brilhou e sorriu, em segundos, tudo sabias.


Roger Ribeiro

05 de maio de 2014

* Vampiro – Jorge Mautner

terça-feira, 25 de março de 2014

O Portal Verde


 

Treinava para atingir a velocidade do som, já havia conseguido equiparar-se às ondas produzidas por João Bosco e estava a um passo de alcançar o Jorge Bem, mas seu alvo era o Ramones, precisava chegar à velocidade destes magrelos novayorquinos, enquanto isso não ocorresse iria suar a camisa e ralar a chinela pra cima e pra baixo.

Da última vez que o encontrei lá no Restaurante Caxixi, no Largo do Dois de Julho, entre uma geladinha e um tira-gosto, iam chegando amigos e a conversa ia ganhando fôlego, dizia, sem bravata, mas com a certeza dos repentistas de feira popular, que após a barreira do som, chegaria à da luz... Eis o seu sonho desde menino, correr pela orla de Salvador na velocidade das estrelas!

 
- Conheço desde menino, sempre pertenceu ao grupo dos aluados, em determinado período por muito pouco não se transferiu para o dos desatinados, mas aí sabe lá como achou em alguma viela dessas um tino perdido...

- Ôh... Kleber, não fala assim, além disso, a Majuí nem está aqui pra se defender... Ficar agora conhecida como o tino perdido? Ela não merece isso.
 

Nossa! Essa conversa vai longe, aliás, isso é todo sábado fim da manhã, é melhor mudar o rumo da prosa, apesar de que, tenho de ser justo: o Kleber tem certa razão.

Domingo cinco e quinze da manhã, o dia amanhece vagarosamente azul, ainda se avista as criaturas da noite dobrando apressadamente o horizonte, do outro lado um vento leve e muito fresco sopra como se tivesse viajado meio globo para trazer partículas da aurora boreal para esta cidade, afinal tudo e todos, forçados ou por apetite de dragões, nos mais variados tempos, por estas areias aportaram. Continuam aportando.

Desta maneira avistei-o de longe, se preparava para o treino, vestia cada peça da roupa sobre o corpo que não existia com um ritual quase messiânico. Majuí ao seu lado abria com o olhar verde escuro uma rota entrecortando o ar, o tempo, o calor, toda e qualquer partícula de energia, emoção, intenção ou ansiedade. Nada poderia pairar na raia a ser percorrida, qualquer choque com qualquer partícula poderia provocar uma explosão sem precedente. O caminho era reto, o verde olhar já o traçara, mas o retorno era o que mais havia de incerto.

Agachou, colocou a palma da mão esquerda no cimento da calcada, esticou a perna direita, olhou com extrema ternura a sua menina, deixou seu enorme cabelo translúcido cair-lhe pelos ombros e esperou o sinal. Majuí deu-lhe:

A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

Partiu em disparada... Abria-se um vácuo e uma total ausência de sentidos se fazia. Ultrapassou todos os limites, passou pelos Ramones, pelo Steve Vai, Jimmy Page e até mesmo pela Baby Consuelo cantando chorinho. Uma explosão... A barreira da luz foi ultrapassada. Neste momento o universo tornou-se lento, tudo estava como em câmera lenta!

Majuí, com seu sorriso prata, flutuava encantada por entre os portais desta cidadela para onde tudo converge, de frente para o mar percebeu-se entre dois morros verdes que avançavam como brigues para o horizonte, sobre o primeiro a luz da racionalidade humana, ali repousava o incansável Farol guiando a nau da civilização, no outro pairava um dos signos do intocável, do imponderável, a força que tudo é, mas que não se explica, guiando a nau da civilidade. Entre estes Majuí etérea, continuava abrindo os caminhos para seu aluado lumiar seu sonho de menino.      


A paz
Fez o mar da revolução
Invadir meu destino; a paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz
Eu vim (...)*
 

Roger Ribeiro

25 de Março de 2014

* A Paz - Gilberto Gil & João Donato



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O trilho


 

 

 

“Eu vi um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redor
do caminho daquele menino”*

 

 

Sim o sol pesava-lhe sobre os ombros, olhava felinamente em busca de um refúgio, nada. Ergueu o braço em busca do tempo, o pulso não lhe deu a hora, no lugar dos ponteiros, da circunferência e da pulseira, havia um vão, sua mão esquerda pairava no ar, por entre o antebraço e a mão corria livremente o ar quente do verão, mas a mão continuava a obedecer-lhe com perfeição e isso lhe ficou bem claro no momento em que se percebeu um náufrago salvo pelo vento que não move moinho que, como a lâmina fria, chegava-lhe aos lábios como o cálido sussurro da madrugada.


Alguns em movimento se aproximavam:

 
- Desculpe-me, mas poderia me informar as horas?

- Claro! São doze horas de intensa claridade e ar quente, para em seguida vir doze horas de escuridão e ar tênue.

- Mas, em que momento deste tempo estamos?

- Estamos dentro do tempo presente, mas se apresse, pois logo podes ser aprisionado pelo bloco de tempo passado.
 

Partiram todos. Olhando ao redor a única coisa que avistou foi o Forte do Farol da Barra e este continuava imponente apesar da força para manter-se impávido, visto que o ar quente que soprava ao seu encontro deixava-lhe um tanto quanto maleável, por isso necessitava agarrar-se ao solo de maneira firme. Segurava-se na força de séculos que se escondiam por debaixo de suas rochosas paredes.
 

Percebeu que ao Farol também faltava um dos anéis de sua torre de luz, ali também havia um vão onde o vento quente passava silvando em direção as pedras do Porto da Barra. Aquele vão roubava-lhe a idéia de solidez, seria possível o girar as luzes de indicação sem parte de sua formação? Ficaria então as embarcações a deriva?
 

Uma embarcação a deriva é uma nave sem tempo. Ela pode pertencer a qualquer tempo, posto que não se dirige a local algum. Pode ter saído de Palos no século XV, mas quando chegou à futura América? Aliás, como pode ter chegado à América se esta não existia enquanto América? E o que existia? Em que hiato de tempo vivia? Teriam pulsos?
 

Olhou novamente os não pulsos apenas na esperança de constatar que perdera o tempo, aliás, perdera de tal forma que o vão aberto antes do tempo da mão permanecia intacto em meio à intensa temperatura que a esta altura beirava a algum grau que no momento não lhe vinha à mente, perdera o termômetro, a bússola, o mapa, a régua, perdera em algum lugar próximo ao vento, creio que ficou na caixa que esquecera ao sair, mas quando mesmo saíra? Será que saíra mesmo ou o externo é lhe foi ao encontro?
 

- Perdido meu jovem?
 

Olhou assustado e sentiu aquela não mão que lhe pousava sobre o ombro, onde antes lhe pesava a temperatura, e um rosto desconhecido que queria uma informação que não sabia dizer.


- Perdido, eu! Não. Só se perde quem vai a algum local. Não é o meu caso, aliás faço parte de um cenário onde um local me queria, sendo assim, não posso perder-me. E a senhora, sabes para onde se dirige?
 

- Sempre pra frente meu filho, sempre para frente, mesmo que saibas que darás a volta na circunferência. Mas o importante é a meta que se impões no espaço existente entre as duas paralelas da visão, vês?


- Não, há muito misturei o senso de visão, perdi as paralelas, desde então tudo se tornou um tanto quanto nebuloso, meio nublado, chuvoso, turvado como quando tentamos sentir o sorriso que não chega dos seus para os meus lábios, quando só reflito a sobra do trem que sempre parte dos meus pés ao infinito.
 

Levantou por mais uma vez o não pulso, e mais uma vez constatou que as horas o havia abandonado, já não há tempo.


Despediu-se de sua mais nova amiga entrou no trem, a mesma locomotiva que sempre estava partido, olhou a torre da estação e lá não havia o ponteiro, não havia o tempo. Tudo o mais ficou no exato momento em que os pingos se lançaram da nuvem e a eternidade até que molhem a terra.


Roger Ribeiro

24 de fevereiro de 2014


* Força estranha – C. Veloso

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Você tem uma banda de rock?


 

O Boeing passou e desalinhou-lhe o penteado, isso realmente a tirou do sério, afinal isso é um absurdo, abuso total, em que mundo estamos? Despentear uma Dama?! Isso é demais. Olhou para cima, visualizou bem aquele imenso avião sobre a sua cabeça e desancou um gesto obsceno, daqueles que uma verdadeira cortesã jamais faria, mas fez e, digo aqui muito intimamente, fez muito mais, praguejou de tal maneira que aquela gigantesca aeronave foi transformando-se, reduzindo-se, a cada sílaba tornava-se diminuta, diminuta até que ao final, não passava de um aeromodelo na mão de uma criança. Gargalhou.


O andar era firme, usava uma sapatilha chinesa vermelha com minúsculas flores amarelas de miolo verde água bordadas que saltavam da sapatilha e lhe tatuavam a perna, ramificavam torneando a perna alva que lhe servia de amparo e iam brotando de maneira compulsiva como que a dizer-se feliz por estar em local tão fértil. E assim era. Não precisava ser grande observador para perceber que aquelas alvas pernas não tinham fim. A Terra era pequena para aqueles passos.


Estava um pouco atrasada, sabia disso, mas tranqüilizava-se admitindo para se mesma que nada começa no horário marcado por estas bandas, e, além disso, uma jovem menina nunca pode chegar antes da expectativa de sua chegada. Sendo assim, os primeiros acordes soam para que percebas o aroma de flor que vem do mar filtrado por seu vestido, seu cabelo e suas florzinhas amarelas de miolo verde água bordado em sua pele e tatuado em sua sapatilha chinesa vermelha que lhe da uma leveza confundindo-a com os balões de gás coloridos que aquele senhor de longos bigodes verdes está mercando.
 

Parou ao longo do meio fio e aguardou a cavalaria passar para poder transpassar do universo das brisas marinhas para o centro nervoso da vila: fumaça, ambiente de penumbra, garrafas, copos que se espatifam nas pedras do chão, bocas que se abrem e fecham sem cessar, bocas que se abocanham e tecem poemas, poemas que são catapultados pela força dos corpos em atrito e chegam ao tablado sendo captados pelos captadores dos instrumentos elétricos, retornando em solos, riffs e melodias.


Enquanto batia a ponta da sapatilha vermelha impacientemente no chão, observou a passagem da cavalaria cansada, os navios a vapor com suas imensas pás laterais em busca da cidadela de Cachoeira, as velas brancas dos saveiros da Rampa do Mercado, e, por fim, o medo dos que se apegam à realidade como uma religião, como uma verdade. Enfim atravessou a linha do tempo e chegou aonde à expectativa de sua chegada já lhe aguardava.


Sentou-se ao lado do tempo passado e, sem precisar falar, apenas com os olhos desculpou-se pelo tempo futuro roubado.


O som estrondou no local, o espaço ficou totalmente tomado de música: ritmos sobre ritmos, harmonias, melodias, solos, vozes, risos, som, som como a grande explosão originária do universo, o som do parto, um pacto hermético entre a vida e a vinda.


Olhou para aqueles quatro cavalheiros munidos de suas guitarras, baixo, bateria, aparelhos, microfones, fios, caixas, ou seja, um universo de elementos que faz som e lembrou vagamente de uma letra de uma canção inédita que sabe que existe, pois enumera ações que se impõem quando se faz mais que necessária a vida, ela vai tocar no rádio. (cantarolou mentalmente a canção Rebento de Gil, mas na versão de Elis).
 

Estava entre amigos, as pequeninas flores amarelas se enramavam por todos, as garrafas gigantes não permitiam a desertificação, a mesa abaixo da placa que indicava preço e hora para se jogar bilhar permanecia frenética com as bolas coloridas que corriam para todos os lados fugindo da possibilidade de serem devoradas pelo universo paralelo dos portais abertos.
 

Neste momento, no meio daquele solo, entre o tempo e o contratempo a sapatilha vermelha de minúsculas flores amarelas de miolo verde água subiu na bota preta de cadarço, apoiou a fina mão de dedos longos no ombro a sua frente e o convidou para dançar. As velas dos castiçais se ascenderam, o quarteto de Paulinho continuou a tocar o rock, as bolas do bilhar ficaram incontroláveis, o mundo ficou de ponta-cabeça, o bumbo bateu as doze horas e do nada, apenas havia encostada à bota preta uma linda sapatinha chinesa, bordada de minúsculas flores amarelas de núcleo verde água.


(Onde será que anda meu amigo Barba?)

Roger Ribeiro


18 de novembro de 2013

 

 

 

 

 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Quantos ventos tens no bolso?



 


O elevador estava cheio, um corpo colado no outro, uma expiração sendo inspirada por outro pulmão. Desce; para; entra mais gente, tecidos; cabelos; couros dos sapatos, cobrindo peles, pelos, dores e odores humanos. Uma multidão em uma caixa fechada descendo, andar por andar, de uma grande caixa abarrotada de gente por todas as portas e janelas.


- Licença...

- Meu andar, por favor.

- aí!

- Opa! Desculpe-me foi sem querer.

- Sim... Não agora não dá pra falar, estou no elevador, ãh... olha não ta dando pra escutar nada, depois te ligo.


Ah! Enfim térreo, pés no chão novamente. Mas, são muitos pés, o chão treme, muita gente, cada uma com seu peso para carregar passo à passo, são dois pés para cada indivíduo, todos saindo ao mesmo tempo da inércia na caixa do elevador para o desequilíbrio do passo após passo, todos estão com pressa, ou parecem estar, creio que na verdade o que todos desejam avidamente é sair daquele emaranhado de corpos, todos querem ar entre os seus corpos e os outros corpos da multidão.


Mas a expectativa trai, por vezes, o sentido. Após o vão do saguão, pós-elevador, chega-se à porta que abre a perspectiva da libertação! Do outro lado é estar à rua; um vão sem teto, sem a compressão entre os espaços esmagados pelos corpos.


- Sim, agora sim, te escuto perfeitamente... Não preste atenção... e´ que...

- Minha filha, pare com isso... Sim vamos chegar, mas...

- Ave Maria... não agüentava mais...

- Sim minha querida, é para hoje sim...

- Bom dia seu Carlos, olha vai chegar minha...

 
Pés pisando forte no tabuado, som, som sobre som, as paredes reverberando, ecos por todos os lados, tudo multiplicando a multidão... Preciso sair daqui rápido, meu coração está acelerado, preciso alcançar a rua. Ah! Enfim, o vento no meu rosto, espaço, não tanto quanto gostaria, mas para quem há poucos minutos se encontrava em uma prensa humana, aquilo era tudo que se podia querer.


Ônibus. O dia parece interminável, são centenas de pessoas passando para todos os lados, bocas que abrem e fecham sem cessar, após o advento do celular, reduziu-se a sensação do quantitativo de aluados, poucos agora falam sozinhos, a maioria fala ao celular, ou será que fingem falar? Será que existe alguém do lado de lá? Mas, o fato é que na atualidade todos falam o tempo todo e, parece-me, pelo menos, que o universo não está tendo capacidade de absorver tanto som.


O ônibus vai parando de tantos em tantos metros e muito mais gente vai entrando, diria que para cada cinco pessoas que entra no coletivo desce apenas um. Existe um desequilíbrio, estamos ficando cada vez mais uma massa de células grudadas tendo apenas os olhos libertos pela transparência das janelas abertas e o espanto das pessoas nas calçadas ao nos ver passar, é uma multidão se locomovendo, em linha horizontal, levando um carregamento humano, e neste carregamento estou eu.

 
- Licença...

- Olha o caramelo...

- o Senhor é o caminho... já fui drogado...

- Poderia estar roubando, matando, mas estou...

- Espera aí motorista... Ôôôh, cobrador e meu troco?

- Um passo à frente aí...  o coletivo está vazio!


Vazio?! Será que estou sonhando? Existe uma multidão aqui dentro, todos falando, respirando, pensando... Este coletivo deve está pesando infinitamente mais do que apenas o peso da matéria. Há o peso da intenção. Preciso atravessar esta multidão e descer, o meu ponto é o próximo, será que irei conseguir? Se conseguisse parar de pensar creio que ficaria muito mais fácil conseguir ultrapassar esta barreira... Vamos lá, sem desespero, primeiro puxar a cordinha, fazer saber que preciso descer... Já carrego tantas partículas de tantas pessoas que já não sou mais eu. Será?


Ponto, rua, praça, mercadores, transeuntes, músicas, expirações, inspirações, pensamentos, o vento nos corpos, na estátua, o tempo nos milhares de relógios com seus sons característicos, o virar dos olhos daquela menina, a bengala no solo, a tosse do senhor da bengala, a criança que tenta explicar o inexplicável para que não quer ouvir, os sonhos de cada um, os automóveis derretendo os sonhos de Ícaro... Enfim enxergo você ao lado de sua bicicleta, sentada na mureta da praia do Farol da Barra, absorta, quase uma serpentina humana ao vento, olhando o mar.


Existe uma multidão entre mim e você ao vento. Vendo você assim, permitindo o vento carregar as suas partículas, vejo que não percebes a multidão. De longe tento te mandar um sinal, um aviso:


“Meu coração tem catedrais imensas,

(...) Como os velhos Templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

(...) E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!*


Mas é impossível: existe uma multidão em mim, milhares dentro da minha existência, um quebra-cabeça de milhões de sons, cheiros, sensações, braçadas no ar.
 

Roger Ribeiro

17 de setembro de 2013


* Vandalismo (edição livre) – Augusto dos Anjos