sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vai chover nos is!





E enfim, pondo os “pingos nos is”, vou logo te falando: não compro esse seu sorrisinho malicioso por nada nesse mundo. E não adianta fazer olhinhos de neném, pois sei, e muito bem, do estrago que seus caninos são capazes na jugular alheia.

Tudo bem! Disfarce mesmo... Olhes para o lado, para cima, para o vão, diga ao vento que não sabes de nada, que não está compreendendo, que devo estar pirado, enlouquecido, quem sabe até alienado. Necessitando de tratamentos e cuidados. Pouco alimentado, demente, subnutrido de razão. Que sou uma oca frase sem nexo, nem direção. Uma estapafúrdia e patética demonstração de despreparo da humanidade.

De agora em diante, para você, nada! Nem um sorriso de dentes travados. Coisa alguma, necas. Nem sal, Nem açúcar, sem gosto de nada e, se não gostares, vais reclamar com o delegado. Vais chorar no pé do caboclo em dia de raios, trovões tempestade! Para mim, teu dia estará sempre nublado e como diz a canção que ouvi no rádio: para você meu guarda-chuva estará sempre fechado.

Por causa disso, passo, com frequência, dias e noites de olhos abertos, arregalados, já não durmo, não me sinto mais aconchegado, parece que estou no meio da Praça Vermelha, no inverno de Moscou, pelado. Peço, rogo a todos os santos da cristandade, aos orixás da mística transplantada, aos deuses do grego Olimpo, cruel e malvado. Tudo o que quero é sossego, paz, tranquilidade. Para São Longuinho, se vier o resultado tão clamado, sem cansaço, prometo mil pulinhos de olhos fechados.

É meu leitor, pareço meio indignado? Pois saiba que é pouco! Aposto que em meu lugar estarias irado, infinitamente mais que revoltado. Boto dez pra um que nem mesmo estas palavras dirigirias a este ser. Coitado? Indigno da condição de mamífero, bípede e pensante, isso sim! Nada de coitado. Um anjo caído, uma alma penada.

Mas eu ainda me coloco à sua frente, te digo e se necessário escrevo e assino que de gente não tens mais nada e o único pingo que mereces não é o do “i”, muito menos o do jota, que nada! Só mereces um pingo de uma chuva das brabas, que acabe com sua chapinha, sua escova progressiva, te deixe totalmente descabelada feito a rainha louca, a medusa do espelho quebrado.

Vamos, continuemos... Podes ficar aí com essa cara de paisagem, cara de quem não fez nada! Não caio mais, não ando mais nessa estrada. De contramão, estou farto! Minha carteira de habilitação foi seqüestrada, o pneu socorro tá furado, a direção hidráulica secou, puseram farinha e nem pirão virou! É pó e mais nada.

Necessito te dizer só mais algumas coisinhas... Tá pensando que foi fácil chegar aqui? Você vai sorrir, né? Malvada, sem coração, bruxa, piolhenta, feia e covarde. Pois te digo: só de ônibus foram três passagens, no segundo meu celular ficou na mão do menino traquino, nervoso e armado. O motorista não mais parou, rumou direto pra delegacia que fica nada menos do que do outro lado da cidade. O caos! Não sabia as horas, pois meu querido e estimado relógio não desgrudou, e acompanhou seu amigo celular em suas novas empreitadas.

Suava em bicas, temia pelo pior! E se não chegasse? O que seria? Valei-me meu Senhor do Bonfim, minha Iemanjá, meu Cacique Touro Sentado!

Necessitava da ajuda divina, tudo estava dando muito mais que errado, era um “dia de cão”, uma manhã torta, um filme de Tarantino, uma crônica do Jabor, Brown filosofando... Coisa de saci! Humor negro, terror supremo. Imagine ter o Maestro Zé Fernandes, Aracy de Almeida, Pedro de Lara, Décio Piccinini, Nelson Rubens todos nus correndo atrás de você gritando: “sua nota é zero, meu filho!”, cruzes...! E você acuado, sem nem uma Elke Maravilha para te socorrer. Vixi! Ferrou de vez.

Por fim, e já sem tempo, surge você! Vem sorrindo desde lá de longe com essa cara limpa, linda! Perguntando o que houve? Porque estava eu tão zangado? Afinal estavas apenas e somente quinze minutos atrasada!

Roger Ribeiro.
21 de maio de 2009.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Psicólogos para todos!





Sim, o resultado realmente foi muito pior do que o esperado! Quanto? Ora, você vai me dizer que não sabe? Sei que sabe, sei que queres ouvir de minha boca para ser mais saboroso... Tem problema não, faz parte da mística do esporte, é a sua vez de saborear minha derrota. Tudo bem foi “quatroazero”, falei rápido e meio embolado.

- Como?! Não entendi. Quanto foi mesmo?
Engoli a ira e, vagarosamente, repeti: quatro a zero. Respondi, agora, bem pausado e frisando bem o zero. No fundo, nutria naquele momento e ainda agora, a esperança de na quinta que vem darmos o troco. Golear! E com a cara mais alegre do mundo, sair pela rua cantando e dançando, orgulhoso com heróico resultado: a vitória. A busca da consagração.

-Pra quem? Perguntou-me com sua voz nasalada, irritantemente nasalada. - Fanho filho da p... Controlei-me! Mas confesso: foi por pouco! Meu deus, pensei, seria totalmente politicamente incorreto, poderia até ser processado por discriminação social.

Ah! Que saco esses tempos atuais e seus direitos e advogados prá tudo que é lado. Tenho cada dia mais a certeza de que a profissão do futuro é a psicologia, psiquiatria e afins. Todas as ciências e não ciências que trabalhem com traumas, neuroses, psicoses, síndromes e todas as formas de “desarranjos” cerebrais. Afinal não se pode mais esbravejar, xingar, ameaçar! Não se pode mais nada?! Como vamos soltar nossos demônios?

Pela leitura pouca e superficial que tenho do menino Freud, lembro-me de em alguma obra ter lido que as neuroses, psicoses e afins são provenientes exatamente da retração de nossos instintos naturais. E nesse “mundiculo” de magistrados, advogados, juízes, promotores, leis, emendas e o “cacete a quatro”, ainda se juntam os injustiçados... Sabe lá de que? Ou de quem? Como dizia aquele rockinho dos anos oitenta do Ultraje à Rigor, “como é que vou crescer se não tenho com o que me rebelar?” Só que agora é diferente, é como vou manter-me são com esse advogado de plantão aqui do meu lado?

Pronto! Não duvide minha amiga, logo aparecerá um rapaz, de cabelo curto, bem penteado, de paletó e gravata, sapato preto lustroso, pasta de mão cheia de papeis (teoricamente escritos), com os trinta e dois dentes (você já reparou que advogado tem sempre todos os dentes? Mesmo que sejam falsos, mas tem), falando bonito e gesticulando minuciosamente, para me explicar que serei processado por estar de forma pré-conceituosa e acintosa desfazendo da categoria dos magistrados em Direito. Ui! Lá vem conta, penso imediatamente.

Pois como não podemos mais verbalizar, expor algo absurdo só para não explodir, então engolimos, sem água, sem um pão velho sem nada! A seco, goela abaixo. Resultado: três anos depois... Gastrite meu filho, diz o doutor, é isso que tens. Cinco anos depois úlcera... 10 anos depois stress, quinze anos camisa de força e injeções de drogas tarja pretas! Céus, que horror.

Por isso, há uma semana atrás, entre uma chuva e outra, peguei minha máscara de mergulho, o respirador, botei meu maiô de banho, uma camisa de meia velha para proteger do sol e fui mergulhar nos corais que ornam o Farol da Barra. No trajeto até a praia, passava pelas pessoas e sentia que todas me olhavam com uma ponta de inveja, afinal era uma terça feira onze horas da manhã e lá ia eu, peito aberto, mergulhar nos corais do Farol.

Ria no meu íntimo. Na verdade, estava retornando de uma reunião em um dos meus trabalhos e o volume de absurdos que tiveram de ficar sem a resposta adequada, por questões hierárquicas, era tão grande que resolvi ir para baixo d’água, e, lá estando ﮩ†ßØ¿Ÿ‰*…‰¢×Ø, era tanto impropério que as bolhas de ar custavam o dobro de tempo para pocar na superfície. E quanto mais ali naquele local, sem nenhum advogado por perto, eu vociferava, gritava, urrava... Mais me sentia leve, tranqüilo, ah! Aquilo sim, é que era terapia.

Após uns dez minutos de pragas, xingamentos, e afins notei que os peixinhos estavam de longe me olhando assustados, com cara de quem não estavam entendendo nada! Se é que peixe entende alguma coisa em algum momento. Sorri e pensei: coitados, eles não tem nada haver com isso! Pelo menos não iriam se ofender e nem me processar.

Voltando a meu amigo fanho e sua pergunta, respondi: para o Vasco da Gama. Alteei a voz e repeti: quatro a zero para o Vasco da Gama do Rio de Janeiro! Está satisfeito agora? Ele sorriu e disse: - e foi pouco! Vocês deram sorte. Tombei a cabeça como quem entrega os pontos e pensei: - vou voar no pescoço dele!

Respirei fundo e falei bem baixinho: a violência é a alma dos fracos. Sorri para ele e parti para mudar o rumo da conversa, pois era ele um grande amigo, desses de emprestar dinheiro e não cobrar... Sabe como é? Estão cada vez mais raros, mais ainda se encontra um aqui, outro ali. Meu amigo fanho é um desses, por isso, não pelo dinheiro, mas pelo seu apreço e amizade pura e sincera, jamais deixaria algo atrapalhar nossa relação, ainda mais futebol, eu hem! Nunquinha.

Além do mais, como já disse, a curtição do derrotado faz parte do jogo bretão assim como os jogadores, a tática, as traves, as linhas, as poucas regras, os dribles, o talento, a manha, a cera, o arbitro, os bandeirinhas, o gandula, a torcida, o estádio, a bola, o gollllllllll do locutor radiofônico e a maldita curtição do meu amigo fanho que nem torce pelo Vasco da Gama. Aliás, como bom bacharel em Física, creio que não torce para ninguém e na verdade nem sabe o que se disputa ali naquela arena moderna.

Mas mesmo os físicos, fanhos, com cara de meninos criado pela avó, olhar de louco tipo Jack Nicholson em Estranho no Ninho (assim é meu amigo), até pessoas com esse perfil, por não poderem mandar quem merece para a P... q P...., resolvem se “bater de cara” comigo nessa esquina, debaixo desse sol escaldante e largar uma tonelada de gracinhas na cara do Zé aqui!

Despedimo-nos, prometemos visitas mútuas e partimos. Afinal, a vida continua. Ainda sorria da alegria de ver meu amigo assim de humor elevado quando ouvi uma voz familiar que saia de dentro de um carro, cor de prata, que vagarosamente ao meu lado se postava: - quer uma carona ou vai de quatro?

Virei “em chamas” e... Vá tomar no... Me controlei, ainda bem, ufa! Além de familiar era uma voz, inconfundível. Era um advogado.

Acho que necessito de uma terapia.

Roger Ribeiro.
15 de maio de 2009.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Eu sempre sonhei com você




Você já viu um sapato? Ou melhor, uma bota preta, velha, arranhada, com os cadarços assim, displicentemente folgados, andando por aí afora sem que haja um pé, uma perna, uma cintura, nada a controlar-lhe?

Pois era isso que ele dizia ter visto. Jurava! E se você fizesse a menor menção de duvidar... Ah! Ai meu camarada, como diziam os velhos soviéticos, o “bicho pegava” de vez. Virava uma fera, dedo em riste partia para cima ofendido, magoado. Irritava-se a ponto de necessitar de ajuda. Uma água com açúcar, um conhaque, um calmante qualquer. O melhor era não duvidar, afinal quem tem olho vê o que quer, não é mesmo?

Dizia que a bota, mas não de cano alto, uma bota tipo basqueteira, cano baixo, de couro preto, andava pela cidade fizesse chuva ou sol, não importava. Frequentava a todos os lugares sem preconceito algum. Odiava idéias pré- estabelecidas de que isso era bom, aquilo era ruim, não tinha essa conversa, tinha de ver em loco, senão jamais emitia juízo, parecer, nem arriscava nenhum tipo de comentário. Mantinha-se calado, atento. Dizia sempre que sapato bom fica de bico fechado.

Reportava-se a sua amiga bota como se conversar com uma bota que anda por aí sozinha fosse a coisa mais comum, abundante em qualquer parte, em qualquer local. Pedia-me que observasse como todas as pessoas, em determinado momento do dia, olham para baixo. Principalmente se estiverem sós. Todos acham que se está, naquele momento, descansando ou refletindo sobre algo muito importante como a pandemia de gripe Influenza H1N1, ou sobre a reunião que terá ao chegar ao trabalho, as dívidas acumuladas ou qualquer outra coisa digna de pessoas sérias e atarefadas. Mas, meu caro, dizia meu amigo: - não é nada disso! Na verdade se está naquele momento conversando com os próprios sapatos, ou com um quedes (tênis), sandália ou afins que estiverem por perto.

Diz que ninguém sabe mais do que esses seres, pois por estarem em contato direto com o solo, percebem nuances que o homem, com seu afã de subir, sempre subir, perdeu a percepção.

Encontrei um dia, esse meu barbudo amigo, sentado na sorveteria Cubana tomando um maltado de ameixa, resolvi sentar-me à sua mesa para olhar a baia de Todos os Santos e levar uma leve prosa de fim de tarde, afinal aquele seria um dia especial e eu queria estar alegremente concentrado.

Sabia que a única coisa que não podia fazer seria contrariá-lo, mas meu amigo com sua barba ruiva grisalha não era um maníaco radical. Não é que você não pudesse discordar do que ele dizia, não era assim. Aliás, pelo contrário, poderia passar horas em debates acalorados sobre política, futebol, mulheres, economia internacional, tudo enfim. Só não tolerava a negativa sobre a bota, curta, preta, velha que vagava sem fim pela cidade.

Pensei em puxar uma conversa histórica, aproveitaria o local em que estávamos e falaria sobre a falta que fazem os saveiros na Rampa do Mercado (local aonde se descarregavam os saveiros vindos do Recôncavo baiano, que fica ao lado do Mercado Modelo), porém não deu tempo, quando pensei em falar, ele se antecipou...

Disse-me:
- Já estou sabendo...! Veja lá o que você vai fazer heim?!
Como assim? Do que você está falando? Perguntei-lhe.
- Ela já me falou!
Ela quem? Falou o quê?
- Ora tudo! Não é por isso que você veio aqui?
Olhei para ele meio apreensivo. Será que meu amigo está em surto? Do que será que ele está falando? Após falar isso bem baixinho para mim mesmo, ou para os meus sapatos, procurei mudar o rumo da prosa e comentei: éh! Após tantos dias de chuva nada como esse solzinho de fim de tarde para esquentar, né?

Sem olhar para mim respondeu, puxando um pouco a barba:
- Ela saiu daqui agorinha mesmo, foi à farmácia se pesar. Disse-me que havia engordado por conta dos feriados e precisava saber quantos quilos precisava perder.

Meio ressabiado, sem querer encará-lo para que não pensasse ser uma provocação, perguntei: ela quem? A resposta veio rápida e seca.

- A bota, claro! Aliás, quando foi saindo me falou que você estava chegando, ouvira seus passos de longe e contou-me mais...

Mais? Perguntei angustiado. E o que ela contou?

- Disse-me que você estava tenso e que vinha em busca de espaço e ar fresco para retirar a tensão, pois à noite teria um compromisso que o deixava inseguro, tenso, como menino que passa a noite em claro imaginando como vai perguntar a ela se quer ser sua namorada!

Fiquei calado uns instantes, intrigado, confuso. Como será que ele sabia? Ou pior ainda como ela, a bota sabia do meu compromisso? E o pior, da minha tensão? Cheguei à conclusão que meu amigo estava jogando verde para colher maduro, resolvi despistar. Falei: Que compromisso que nada! E ainda por cima tenso! Eu?! Nunca, acho que desta vez a bota se enganou.

- A é?! Então tá. Agora depois que você tomar o vinho, comer a massa caseira e olhar aquele cabelo liso e preto combinando com o leve vestido sustentado pelos ombros magros, formando um conjunto harmônico e sofisticadamente simples, não vá dizer que seus sapatos te levaram ao topo do Nirvana à toa!

Olhei para a o meu amigo de barba ruiva e grisalha, sem bigodes, pois no dia que ia tomar maltado tirava o bigode, acho que por questão de higiene já que odiava canudinhos e não disse nada. Desviei o olhar para o chão e, incrédulo, percebi que usava uma bota preta, de cano curto, velha, sulcada pelo tempo e pelo andar na cidade.

À noite, após o vinho e a massa, pensei: como vou perguntar se a sandalinha dela quer passear com minha bota?

Roger Ribeiro.
7 de maio de 2009.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Não sou mais um número.






Passei sem a pressa do dia-a-dia, havia decidido que a partir daquela data seria mais humano. Refletiria mais sobre essa condição e menos a respeito da acumulação. Permitir-me-ia! Na verdade acordara naquela manhã me sentindo uma máquina de repetição, sentei no colchão e lembrei-me de uma frase que o professor Saja me dissera há anos atrás e que, já lá, havia me chamado a atenção, mas, o on/off do cotidiano empoeirou-a de tal maneira que resgatá-la foi quase um parto. - “O que você está fazendo com a sua única vida?” Indagou-me o franzino professor.

Pois naquela úmida manhã, resolvi que já era mais que hora de ‘desmaquinar-me’, lembrar um pouco de que não sou movido a álcool, diesel nem tão pouco gasolina. Refletir que não uso óleo nas minhas juntas e nem tão pouco vivo apertando os parafusos de minha cabeça, apesar dos abundantes e diários pedidos para que isso seja feito. Não o farei! Não mais, nunca mais.

Como dizia no início, passava sem pressa e fascinado de como as chuvas que caíram nos últimos dias verdejou a cidade, quando vi você sentada no banco encostada no gradeado da praça. Seus cabelos vermelhos formavam uma vibração de tons intrigante com o verde que se impunha por trás de você. O verde e o vermelho vibravam como quem se repulsa e se atrai simultaneamente, e essa vibração realçava o alvo do seu rosto, não era um alvo pálido, pelo contrário, era um alvo vivo, resplandecia vida.

Permiti-me parar. Recostei em algo que só depois percebi ser a haste da barraca do vendedor de frutas que me olhava incrédulo. O que estava eu fazendo? Ele a montar a barraca apressadamente, e eu, absorto, em plena meia manhã de sexta feira recostado no seu meio de produção como se observasse a passagem de um cometa, um eclipse solar ou o surgir de seres alienígenas! Enfim, senti uma mão em meu ombro e, sem ser necessária uma única palavra, percebi que se não me afastasse ele não poderia por o restante dos apetrechos da tal barraca.

Dei alguns passos à frente, parei cruzei-me, pernas e braços, e continuei a observar aquela estranha vibração entre o verde, o vermelho e o branco.

A cidade estava com pressa, muitos passavam por mim e praguejavam. Era muita ousadia este ser parado, ali no meio da calçada, em plena meia manhã atrapalhando o fluxo, alguns chegavam a trombar em mim deixando claro que ali não era lugar de se estar. Mas essas idéias de ser um empecilho passavam muito remotamente em minha cabeça, afinal, reconstituído de minha humanidade sentia-me aconchegado em qualquer local. Não necessitava mais estar no interior de um automóvel, sob um teto, aconchegado em nenhuma poltrona. Ali, no meio do mundo estava ótimo.

Aquele local parecia que fora feito para mim. Um frescor maravilhoso batia em minha face, dava-me vontade de saborear um café sem açúcar lendo o jornal, ali mesmo em pé, só faltava um balcão. Mas, não poderia me afastar dali, algo me dizia que ali era o local onde eu deveria estar. E eu estava.

Um outro vendedor ambulante, com um jeito muito sutil, colocou uma caixa de produtos praticamente sobre o meu pé e virou-se para pegar outra. Percebi que aquela ação continha em si um “por favor, você me daria licença?”. Isso porque, hoje, recompus-me como humano. Pensei: se fosse ontem teria lido a ação do vendedor de rua como um “sai daí porra!” e certamente a essa altura estaria travando meu primeiro embate do dia, ou melhor, o segundo, pois também não teria aceitado com naturalidade a mão pesada do fruteiro em meu ombro.

Mas meu novo estado humano era um radiante filtro. Não possuía a menor importância a intolerância dos transeuntes frente a minha escolha de local para fixar-me, tão pouco importante se fazia a mão do fruteiro, nem a caixa do vendedor. Senti-me meio “poliânico” e quase enrubesci (como era costume nessas ocasiões em que me sentia meio ridículo). Mas, naquele momento, nem me avermelhei, nem transpirei, nem se quer dei-me o trabalho de observar se alguém ria de mim. Apenas descruzei a perna e aproximei-me mais do gradil da praça.

Lembrei-me de que ali os conjurados da “Revolta dos Búzios” foram executados só porque exerciam suas funções humanas. De uma hora para outra, em plena Praça da Piedade, apiedei-me daquela multidão que não havia ainda percebido o que eu percebi naquela manhã.

Como estava mais perto, ao retornar o olhar para o ponto vibrante de vermelho, verde e branco, percebi algo novo naquele oval alvo emoldurado pelo vermelho carmim. Percebi flutuar duas intensas esferas tão negras que brilhavam com a intensidade dos cristais.

- Você quer crédito pessoal? Ofereceu-me uma gentil moça. Acho que deve ter pensado: “alguém em plena meia manhã, parado na calçada de uma praça... Ou é aposentado, ou louco, ou desempregado, logo necessita de empréstimo pessoal”. Após o susto, sorri para ela e com um leve balançar da cabeça estabeleci a resposta negativa.

O movimento aumentava a cada minuto, as pessoas passavam de lá prá cá e de cá prá lá incessantemente, apressadamente. Para onde será que iriam todas aquelas apressadas pessoas? Pensei que em algum lugar, tanto em um extremo quanto no outro, iria travar. Não haveria espaço para todos passarem. Seria então o fim do caminho?

Tão absorto e feliz estava de me permitir tanto que não percebi, por uma fração de tempo, que algo mudara no cenário verde, vermelho, branco e preto.

Comecei a ouvir uma canção, voltei meu olhar a meu ponto principal e notei que agora ela empunhava um violão e sorrindo para mim cantava.

Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
They slither while they pass they slip away across the universe.
Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my opened mind,
Possessing and caressing me.
Jai guru deva, Om.
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Images of broken light which dance before me like a million eyes,
They call me on and on across the universe.
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box
They tumble blindly as they make their way across the universe
Jai guru deva, Om.
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Sounds of laughter, shades of love are ringing through my opened ears
Inciting and inviting me.
Limitless undying love, which shines around me like a million suns,
And calls me on and on across the universe.
Jai guru deva, Om.
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Nothing’s gonna change my world,
Jai guru deva,
Jai guru deva,
Jai guru deva...*

Imaginava ela, creio, “o que faz aquela criatura ali? Perdida no meio do mundo!”.

Gostei da condição de Homem.

Roger Ribeiro.
24 de abril 2009.

* Across The Universe.
(Lennon & MaCartney)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um corpo de ar. ( Para Mab e Lulu )




Peeeeemmmmmmmmmmmmm... Peeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemmmmmmm, Peeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm.


Ela passou por mim e falou: - todas em seus postos! Sim, era o terceiro sinal, eu estava a uns cinco passos do meu posto. Éramos ao todo seis, eu e mais duas de um lado e as outras três do outro lado, naquele momento, do infinito palco à frente.


Ontem, antes de ontem, tudo isso era visível, real, claro e tranqüilo, porém naquele momento algo havia se transformado. Até aquele terceiro toque da sirene o som que vinha da platéia era alto, ininteligível. Sim! Era uma massa sonora de vozes sem maestro, sem afinação, dissonância pura, passou por minha cabeça a música do maestro Hans-Joachim Koellreutter, que me foi apresentado pelo meu professor de espaço e equilíbrio.


Após o terceiro toque, a massa sonora começou a diminuir, como se alguém estivesse a manipulá-lo nos botões luminosos da mesa de som. O silêncio foi se estabelecendo de tal forma que inundava os meus ouvidos. Sabia que aquela pesada pausa sonora estava a instigar o sentido do olhar dos que lá estavam para ver. Senti um frio correr o meu corpo e como se alguém tivesse aberto o ralo, meu corpo todo gelou e sugou todo o fruto do pré-aquecimento.


Percebi que deveria redistribuir meus sentidos, não podia mais ficar toda dentro da audição, afinal entre o terceiro toque e o movimento de desequilíbrio seriam apenas trinta segundos. Inspirei com força o ar, enchi o pulmão e prendi-o em mim contando lentamente até dez, afinal quando você se enche de ar, você fica mais leve. Assim é com uma embarcação à vela, assim é com o nadador que precisa ficar à flor d’água para atravessar a baia de Todos os Santos. O ar nos limites humanos, quantos quilos a menos?


1, 2, 3... Não compreendia?! Sempre funcionou! Porém desta vez pareceu-me estar, o ar, solidificando-se nos meus pulmões. Eram duas âncoras. Estava a cinco pequenos passos do meu lócus inicial e não havia a menor possibilidade de movimento, deus! Estou começando a me assustar. De longe, muito longe escutei novamente a soprana voz: - todas em seus lugares. O som da voz era tão distante...


4, 5, 6... Dei-me conta de que olhava para frente e, lá do outro lado, a forte luz do refletor azul desfigurava uma silhueta humana à sua frente, ferindo com profundidade meus olhos. Comecei a suar, um filamento de água salgada escorreu de minha testa e percorreu a cavidade do meu olho esquerdo com uma destreza ímpar para não penetrar no globo ocular. Creditei esse caminho d’água a um apoio místico, afinal, tudo que não poderia acontecer nesse momento seria uma irritação nos olhos que já estavam duramente castigados pela luz azul do refletor.


7, 8... Era um aviso, daria tudo certo, daquele momento em diante tinha essa certeza. Pensei em fazer uma oração, lembrei de um trecho do Salve Rainha (Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei! E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto em vosso ventre...), uma oração tão bela que nunca consegui decorar. Graças a isso nunca a rezei na íntegra o que acabou permitindo que a mim ela fosse sempre motivo de audição e admiração.


9....10, expirei com uma força fora do comum como quem quer realmente expurgar algo. Precisava livrar-me das âncoras no meu peito. A meu lado, de vestido branco e voz tensa, veio mais um sinal: - venha, está na hora! Mantive meu pulmão vazio como uma uva passa e reiniciei a contagem, 1..., novamente o suar secou em minha fronte e consegui dar um pequeno passo à frente e movimentar em forma de onda à frente do meu peito meu conjunto de braço, antebraço e mão direita, prestei atenção a esse movimento. Estaria eu leve? Harmônica?


2, 3, 4... Ouvi os últimos ranger das poltronas antes do silêncio tornar-se absoluto, a concentração era de todos, a expectativa tensa era total. Estava no ar entre o salto da plataforma e o mar, estava no contratempo entre a fuga de Miles Davis e a marcação de Charles Mingus, estava solta, completamente solta, no ar entre o largar de uma barra do trapézio e o segurar da oposta.


5, 6, 7... A máquina de fumaça fez um silvo e enamorado das luzes dos refletores eliminou qualquer possibilidade de espaço real. À minha frente um espaço indescritível, indivisível, contínuo. Nem bem a Terra nem bem o cosmos, algo assim como a Terra do Nunca, algo infinito, percebi que eu já não era matéria, meus olhos encharcaram e meu peito ocupou o espaço entre o pescoço e o meu sexo. Meus olhos secaram e fixaram-se no nada. Via tudo, não conseguia distinguir nada.


8, 9 e 10, inspirei. Desta vez, sem pressa e sem força, apenas permiti-me penetrar pelo ar. Desta feita ele era fresco, trazia consigo o cheiro forte da fumaça. Dei mais dois passos à frente e fiquei novamente maravilhada com aquele momento, aquele silêncio, aquele campo etéreo criado pela moldura negra do palco preenchida de luz colorida. Ouvi a respiração das outras meninas, era tudo o que ouvia.


Cheguei enfim ao meu espaço, estava em minha base. Tudo estava pronto como me pareceu que sempre esteve, dobrei levemente os joelhos para ter a certeza de que estava no peso, no tempo e no espaço justo, na tensão exata. Havia algo que não era eu! O eu havia se deslocado de mim. Eu, o eu mesmo, estava sentada na vara de iluminação sorrindo para mim.

Com uma dinâmica crescente de baixo, piano, violas, bateria e guitarras a música preencheu tudo...


- Venham! Todas juntas, ouvi nitidamente aquela mesma voz do início. - Vamos! Todas abraçadas, aí não! Na frente do palco, sim! Agora! Agradeçam.


Abaixei meu tronco sobre as pernas e agradeci as palmas, olhei para a trave de luz e sorri muito, eu já não estava lá.


Roger Ribeiro.

17 de abril de 2009.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Quem?!


Parou, olhou para mim e disparou: - você não está me reconhecendo? Não é mesmo?

Estávamos eu, ele e mais um monte de pessoas, sem rosto, que passavam para lá e para cá, todas enfiadas em mundos diversos, pensando em resolver suas vidas, pensando nas dívidas, pensando em comprar aquelas flores para iniciar a difícil sedução. Parados só ele e eu, que na realidade estava até poucos instantes em movimento e também absorto em pensamentos inconfessáveis, até que, primeiro com o olhar e depois com suas palavras me fez parar.

Duas silhuetas humanas num fim de tarde, parados em uma calçada onde todos estavam em movimento. Eu tinha de parar. Claro, afinal ele havia se dirigido diretamente a mim, não podia eu ser deselegante, a ponto de fingir não ter percebido que ele se dirigia a mim. Naquela multidão de passantes, pensantes, sem rosto, ele distinguiu-me. Eu não era um espectro para ele, não! Eu era real, possuía, inclusive, fisionomia própria.

Ele repetiu, agora de maneira mais incisiva: - você não está me reconhecendo? Não é mesmo?!

Percebi que tinha de apurar minha visão míope, pensei em tirar os óculos, limpá-los para poder vê-lo melhor. Se ele se dirigia de forma tão direta e segura para mim é porque me reconhecia, e pior, sabia que eu não o reconhecia e deixava isso claro e explícito desde o primeiro momento. Balancei um pouco a cabeça, como se estivesse buscando em outro ângulo uma legenda qualquer que me elucidasse de quem se tratava aquela pessoa e... Nada.

- Não adianta! Disparou, - você não vai me reconhecer. Foi taxativo.

Ora, como ele poderia ser tão presunçoso a ponto de saber o que eu posso e o que não posso reconhecer? Comecei a achá-lo demasiadamente autoritário. Que história é essa? Daqui a pouco ele vai querer dizer que eu não sei quem sou e só ele pode me recompor a minha condição de indivíduo. Dei um passo em sua direção fingindo certa intimidade, assim como quem vai dar um tapinha no ombro do outro e dizer: claro que sei! Como vão as coisas? O que anda fazendo?

Mas não fiz nada disso, pois quando dei o passo à frente ele imediatamente deu um passo à trás, era um equilíbrio meio desequilibrado, tomávamos um bom espaço da calçada e as pessoas tinham de fazer um certo jogo de corpo para poder passar.

Ele continuava impávido em relação ao que transcorria no exterior daquela relação tensa entre ele, o inquisidor, e eu: o réu. Mas como posso eu ser réu de um desconhecido? Que condição mais incômoda! Senti-me mal por um momento, pensei em pensar: trata-se de mais um maluco urbano! Dar por encerado o assunto e continuar o meu caminho. Mas isso não seria justo! Seria apenas uma demonstração do meu despreparo humano: rotulá-lo de maluco e sair deixando o ônus do insucesso nos ombros dele. Seria covardia demais.

Ele, creio que percebendo minha situação, veio em meu auxílio: - não se preocupe, você não me reconhece por que eu não quero que me reconheça. Estou disfarçado.

Ah! Disse, logo vi. Afinal sempre fui péssimo em gravar nomes, mas fisionomias sempre gravei muito bem. Me recordo até do semblante de bruxa de conto de fadas de uma senhora amiga de minha mãe que ficava tomando conta de mim e dos meus irmãos quando meus pais saiam à noite. Lembro do seu semblante sádico trazendo uma jarra de chá de limão morno com cravo que dizia ela nos ajudaria a crescer fortes. Arch! Até hoje não posso sentir cheiro de limão morno que fico paralisado de terror. E olha que eu tinha quatro anos, e mesmo assim lembro-me do rosto dela. Como não iria me lembrar daquele meu interlocutor que devia ter minha idade?

Tudo estava elucidado, estava eu plenamente satisfeito, ou seja; eu não o reconhecia porque ele estava disfarçado, exatamente para não ser reconhecido. Ponto final.

Pensei em parabenizá-lo pelo excelente disfarce, pois efetivamente eu não o reconhecia de forma alguma, mas no lugar de simplificar as coisas, parabenizá-lo e ir embora eu fiz a pergunta que não deveria, agora eu sei, ter feito: e porque você está disfarçado?

Ele deu um sorriso de desprezo, acho que ele até então me julgava mais inteligente e sagaz, e com os dentes cerrados como quem está comunicando o óbvio disparou: - todo super herói tem de andar disfarçado até entrar em ação.

Claro! Mas que estupidez a minha, era realmente lógico. Acho que não percebi antes por causa dos problemas que tem tumultuado o meu sono, só pode ser isso. Dei-lhe a mão um pouco temeroso da sua super força e dos seus super poderes, será que ele podia pegar em minha mão?

Ele deu-me a mão, com a outra encostou o dedo que aponta, nos lábios no sinal claro de quem pede sigilo e pusemo-nos a andar, ele para um lado e eu para o outro.

Sorri e percebi que estava feliz como a muito não estava, afinal, havia conhecido um super herói em seu disfarce, isso, creio, deve acontecer a poucos privilegiados afinal todos conhecemos os super heróis em ação, sabemos que eles têm “uma capa de estrela e um cinto de cometas”. Mas assim disfarçado?
E ele realmente parecia uma pessoa comum. As aparências escondem cada coisa...

Roger Ribeiro.
13/02/09.

Tens um analgésico aí?


“Penso logo existo”, vem de longe, de muito longe, essa afirmativa. Mas será mesmo assim? Será que basta pensar e pronto? Terás assim a certeza de que existes?

A vida, ou o que costumamos chamar de vida é assim, passamos por frases afirmativas, exclamativas, interrogativas, frases prontas, por fazer, por constituir-se. Frases soltas, curtas longas, ritmadas, melódicas. Frases falsas, verdadeiras, fingidas, forjadas, frases que não precisam ser ditas ou, que quando ditas tornam-se vazias, ocas, infundadas, infrutíferas. Será a vida realmente assim? Ou, como as frases, passamos por ela e não atentamos para seu significado, sua representação?

Pensar por que sopramos a vela a cada ano? Seria esse ato a representação de que nascemos? Ou na realidade o sentido é circularmente o oposto? Sim, você nem percebeu, mas já deve ter apagado a vela por quinze, vinte, trinta, quarenta e tantas vezes enquanto um seleto grupo lhe rogava por muitos anos mais de vida. Aí é que está o sentido do sopro, todo ano em uma data específica você prova que ainda está vivo, ou seja, se de você emanar ar, é porque estás vivo!

Parece coisa de quem não tem o que fazer, não é mesmo? Mas veja bem, o mundo tem o seu tempo e houve épocas em que a ciência era apenas uma interrogação, às vezes até uma má ação, sujeita a repreensões acaloradas, ardentes até. Portanto, para se certificar de que o ser desfalecido estava realmente apto ao sepultamento, colocava-se uma vela à frente da sua fronte, se a chama oscilasse era porque ainda havia naquele ser algum sopro de vida. A vida e suas representatividades. Será que vem daí a expressão: “a chama da vida”?

Muitos atribuem a tal da “chama da vida” à paixão. Por quê? Ora, porque fica mais fácil, afinal quem consegue definir paixão? Aliás, será a paixão apenas uma resposta que de tanto se repetir acabou tornando-se algo quase real?

Disse-me, um sábio amigo, certa feita, ser a paixão um estado de espírito, mas sempre achei esta explicação falha, veja você, quando estou eufórico, rindo à toa, dando bom dia a cobrador de ônibus, distribuindo simpáticos sorrisos ao meu redor é porque estou apaixonado? Ou “amarradinho”? Como disse um cabeludo ontem à porta de um show. Também quando estou triste, de olhos mareados, semblante fosco, sofrendo de vazio sem fim é porque estou apaixonado? “Amarradinho”? Platonicamente “ferrado”?

Bacana, não é? Mas me responda: e quando eu não estou nada? Onde fica a paixão? Por isso comecei a achar que paixão nada mais é do que uma resposta. Como não sei explicar, representar, demonstrar, então nomeio minhas insanidades de paixão. Sendo assim reflito: não posso ficar em um terreno tão fluido quanto à resposta - “paixão é um estado de espírito”. Ficaria louco se aceitasse isso, afinal, não me responderia nada e, pior, me acrescentaria um contêiner de dúvidas! Diga-me você, ser apaixonado, o que é espírito? Como essa coisa inexplicável, impalpável, inclassificável, irrepresentável, pode ter estado? Eu heim!?

Mas, por favor companheiro, sim você que está lendo essa pequena crônica, não se arvore em classificar-me tão rapidamente, não pense que hoje estou niilista demais, agnóstico em excesso, azedo, amargo. Não, nada disso! continuo concordando com o título de um livro de compilações de textos do poeta popular Caetano Veloso - ele é bom de títulos, muitas de suas músicas eu não gosto, mas gosto do título delas – o livro em questão chama-se “A Vida Não é Chata”, por sinal, recomendo sua leitura, possui uns textos bem legais, não são todos, mas é bem mais interessante do que o marrento “Verdades Tropicais”.

Porém, voltando ao que interessa, preciso parar com essa mania de desviar a rota da prosa, mas é que uma coisa vai puxando a outra, crônica é isso, creio que deve vir de Cronos, tempo, por isso é rápida ágil e fugaz. Uma crônica de hoje pode não ter o menor sentido amanhã, acho que é parecido com horóscopo de jornal, ele te diz que hoje o dia vai ser isso e aquilo, você se imbui disso e toca a existência, no outro dia se você lembrar do que falou sua tábua de astros, vai perceber que nada que foi dito se confirmou, a não ser o fato de que a chama continua a oscilar frente a seu rosto.

Lanço, portanto, a hipótese: tudo é representação. Você já reparou que ninguém consegue ver-te como você é? Acho que isso atormentava o filósofo Sartre. Ora, você não está me vendo? Na verdade você só vê o que quer. Não pense que essa hipótese veio do nada, eis a sua história: veio-me na cabeça a seguinte questão: o que é real? Respondi para mim mesmo: - é uma representação.

Mas, uma representação, necessita de representatividade, me disse essa voz que agente ouve dentro da nossa cabeça e não sabemos de onde vem. Respondi para essa voz com a voz da consciência: será?

Então me explique: cidade do Salvador, capital do Estado da Bahia, área 3.068,50 Km², população 2.844.241 habitantes, densidade demográfica 926,92 Hab/Km², deste montante temos 1.747.280 (um milhão setecentos e quarenta e sete mil duzentos e oitenta) eleitores, divididos em 4.263 seções eleitorais e o representante municipal eleito com maior representatividade teve 15.206 votos, o que lhe confere 0,0087026692916990980266471315415961 de representatividade frente ao Colégio Eleitoral da cidade, já o eleito com menor representatividade teve 5.402 votos o que lhe deposita 0,0030916624696671397829799699189598 do desejo dos cidadãos soteropolitanos.

O que me resta? Bem, resta-me apenas repensar a questão de ser a vida uma mera representatividade.

Roger Ribeiro.
17 de outubro de 2008.