quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um dia acontece



“Parece que foi ontem,
Mas já faz tanto tempo,
Na linha do horizonte,
Eu perdi você de vista.
Te procurei...”*

Hoje ela, ao acordar, percebeu que seu peito estava aberto e o coração, apesar de estar acomodado na caixa torácica, estava totalmente à mostra, não havia pele, carne, músculo, nada! O peito estava desnudo e o coração completamente aberto ao espaço.

Olhou aquela situação inusitada e apenas pensou que teria de lavar o lençol e o colchão, pois estes deveriam estar empapados de sangue. Virou-se para o colchão e lá estava ele no chão, com seu lençol alvo a cobri-lo, as marcas do seu corpo ainda se faziam presentes, porém sangue ou qualquer outro líquido não havia. Apenas o seu peito estava aberto e seu coração à mostra, nada mais.

Ficou aliviada. Passou a iniciar o seu dia como qualquer pessoa: higiene pessoal, café amargo com pão integral, buscou na fruteira, depois na geladeira uma fruta e nada, haviam acabado, era hora de fazer feira. Talvez à noite após o encontro.

Parou um pouco à frente do espelho e ficou por longos minutos observando aquele órgão a pulsar ritmado, passou do ritmo à cor, notou que parte era de um vermelho quase aceso e outra parte arroxeada. Fluxo e contra-fluxo, comprime e expande, notou que conseguia acompanhar o fluxo sanguíneo por todo o seu corpo, era como se o líquido bombeado pelo coração assumisse uma forma fluorescente, perceptível por todo o seu corpo.

Ficou impressionada com a beleza feroz daquele impulso que entrava e saia de órgãos para dentro de dutos que se expandiam e, com uma pulsação de expansão e retração, impulsionava aquele líquido para diante. Veio-lhe na mente uma música, correu até o aparelho de som e colocou Purple Haze para tocar, o som estava alto, bem alto e a guitarra de Jimi Hendrix combinava exatamente com toda a experiência daquela manhã.

Colocou apenas o seu chapéu de palhinhas verdes na cabeça e saiu. Não havia porque cobrir o seu corpo que neste exato momento parecia uma floresta densa, fechada, quase inexplorada.

Ao entrar no elevador, encontrou Dr. Carlos, um médico renomado, grande cirurgião, reparou que sua cabeça estava desnuda. Lá estava o doutor impecavelmente de branco, com sua pasta preta. Nunca o vira de outra forma, porém sua cabeça que até ontem possuía um cabelo grisalho muito bem cortado e penteado, hoje não possuía nada, nem cabelo, nem pele nem osso, nada, a massa cefálica estava toda exposta e movimentando-se como se fosse uma medusa marinha opaca. Cumprimentamo-nos e, ao chegarmos à garagem, cada qual seguiu o seu caminho.

Entrou no seu automóvel que até minutos atrás era verde, sempre sorria de pensar que o seu carro combinava com seu chapéu de palhinha, porém nesta manhã, ao entrar no veículo, este ficou todo transparente. Tudo funcionava perfeitamente, mas translúcido. Esperou o carro da frente sair e ganhou enfim a rua, não conseguia ver se estava atrasada, pois ao por o relógio no pulso, ele desapareceu. Estava lá, sim ela ouvia o seu incessante tic-tac, mas ele em metal e plástico, nada.

A quatro quadras, parou para pegar a sua colega de trabalho que fazia rodízio de carona, cada semana uma ia de carro e levava a outra. Ela entrou no carro, comentou que havia passado uma noite péssima e que estava com os nervos à flor da pele. No sinal fechado, ao virar-se para ela notou, realmente, ela não exagerara, quase não se via pele, era um emaranhado de nervos que ia dos pés à cabeça. Comentou:

- Quer que pare em uma farmácia para que compres algo?
- Não, deixa prá lá. Com o tempo as coisas vão melhorando e o fluxo volta ao normal.
- Se quiser desabafar, é só falar. Sabe que estamos aí para o que der e vier não é mesmo?
- Obrigada, você é realmente uma grande amiga.

No trabalho, o de sempre, que coisa mais repetitiva, o dia se arrasta, vem a hora do almoço, o meio da tarde, o momento do cafezinho, as micro reuniões setorizadas. Parece até que o fluxo do sangue tende a parar. Olhou de relance para seu peito aberto e realmente percebeu que a pulsação tão poderosa na manhã, tornara-se preguiçosa, quase burocrática.

Enfim dezoito horas, pegou seu chapéu, chamou a parceira de carona e chamou o elevador. Durante o dia não havia notado, mas agora com a cabeça de volta ao mundo percebeu que seu Arlindo, o ascensorista, que estava naquele elevador desde o primeiro dia que pisou naquele escritório, e isso já fazia quinze anos, transformou-se em um grande dedo, um indicador e nada mais.

Pegou o automóvel e ganhou as avenidas, deixou a companheira na porta do shopping e foi em casa, nem colocou o carro na garagem, seria uma parada rápida: uma chuveirada, um novo perfume, um novo chapéu, desta vez azul e lá se ia novamente entrando em Avenidas, desaguando em ruas, ruelas, becos até o destino final. Neste o guardador de carros já a esperava com sua vaga, afinal já eram cinco anos, todas as terças e quintas, lá estava ela entre as 19:30 e 20:00 horas. Não havia falha.

Estacionou e com o coração pulsando de uma forma que se comprimia quase na garganta, dando aquela sensação de que irá sair pela boca, entrou no popular bar e restaurante e encostou-se no banco do balcão à espera de uma mesa. O fluxo era tão intenso de ansiedade que suas têmporas estavam dilatadas.

Mesa a postos, pegou seu drinque e sentou-se, examinava o cardápio, apenas para passar o tempo, afinal conhecia-o de trás prá frente. Não demorou muito uma flor lhe foi estendida, pegou-a. A cadeira ao seu lado movimentou-se, primeiro para trás, depois para frente, ocuparam-na. Uma voz masculina, sem muito brilho soou:

- Como foi seu dia?

Ela olhou aquela voz, uma voz que há anos ouvia e que, naquele dia, apenas naquele dia percebeu não ter um corpo, um odor, uma cor, não ter nada... Apenas uma voz.

Levantou-se lentamente, deu um beijo leve naquela voz, viu seu coração aberto derramar uma, apenas uma lágrima, porém de uma cristalinidade nunca vista e saiu sem dizer nada. Apenas cantarolando para si mesma.

“Lá vai uma vela aberta,
Se afastando pelo mar,
Branca visão que desperta,
Anseio de navegar...”**

Roger Ribeiro
22 de fevereiro de 2010


* Parece Que Foi Ontem (Itamar Assumpção)
** Vela Aberta (Cid Franco)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Essa Bahia...



- Não é por mal, mas eu não caibo mais neste anel!
- Mas não é para caber, é para passar. Na verdade este é um portal, uma passagem. Só após passar por seu interior é que conseguirás ver o que existe do outro lado.
- Desculpe-me, mas tome o seu anel. Ele tornou-se grande demais, ou pequeno demais, não sei bem, mas não cabe mais nos meus dedos.

Pegou o pequeno aro, prateado, sem nenhum valor de jóia, aparentemente um aro comum de um metal plebeu qualquer. Olhou-o, balançou negativamente a cabeça e colocou no bolso da camisa verde que costumava usar às segundas-feiras para que a semana começasse com a esperança necessária de renovação.

Estava visivelmente entristecido, mas não se via em seus olhos nem mágoa, nem irritação, sabia que presenciava apenas e somente a renovação. Sabia ser o responsável por isso, esta era a sua função. Desde sempre teve a certeza de que aquele largo anel de outrora tinha apenas e somente uma tarefa a realizar, ou seja, preencher aqueles dedos até que não lhe coubesse mais.

Sem olharem para trás, saíram andando, cada um em uma direção, o tempo foi lhes redirecionando, um ensinando ao outro a necessidade do caminhar, a importância de colocar seus pés sempre um a frente do outro, passos firmes em direção sabe-se lá para aonde. Mas os passos foram dados.

Ambos andavam meio que a deriva, apesar de terem destino certo. Seus corpos se deslocavam no espaço, mas suas mentes permaneciam estáticas, uma de frente para a outra e entre elas uma grande interrogação.

O aro plebeu agora se debatia naquela imensidão de bolso vazio, não havia nem uma moeda, uma bala, um bilhete velho para lhe fazer companhia, por isso debatia-se de um lado para o outro do tecido ficando cada vez mais frio, foi perdendo o calor da pele humana. Tudo perdia o sentido, era escuro naquele local e, sem a luz, aquele anel virava um aro qualquer. Poderia ser confundido com o pedaço de uma engrenagem que, sem função, seria facilmente atirado ao lixo sem que fizesse mal nenhum a nada nem a ninguém.

O seu dono, completamente absorto entre a nebulosa do fato e o ato, descuidou-se e ao fazê-lo, tropeçou no tabuleiro do vendedor ambulante, derrubando-o e espalhando uma infinidade de quinquilharias pela calçada da Avenida Sete de Setembro em plena segunda-feira às 11 horas da manhã.

Foi um corre-corre danado, enquanto o mascate dono do tabuleiro fazia uma barreira com os braços para evitar que as pessoas pisoteassem as mercadorias, o homem da camisa verde apressou-se em abaixar para recolhê-las.

Mais uma vez descuidado, ao abaixar-se não percebeu o anel saltar do bolso e sair girando calçada afora. O tempo correu e ele absorto no ato de recolher aquela quantidade enorme de Pata-Patas, Misses (como se chamam os grampos para cabelos aqui na Bahia) e, o pior, os espelhinhos ovais que deveriam ser recapturados urgentes, principalmente aqueles que estivessem com a foto da mulher nua virada para cima, sem contar os impropérios que o nosso querido mercador dirigia hora a ele, hora ao mundo. Enquanto isso o anel girava sem parar passando incólume por todos os entraves possíveis e imaginários.

Ao findar a ação de recuperação dos produtos e após ouvir coisas do “arco da velha”, continuou o seu caminho, sem perceber que havia perdido o seu precioso aro plebeu.

Já este continuava sua trajetória de fazer inveja a Roberto Carlos em sua fase de aventuras. Ricocheteava em um pneu que o arremessava longe, sendo chutado, displicentemente, por senhoras gordas abarrotadas de sacolas. Enfim, já endoidecido pela indefinição de caminho que tomaria, foi finalmente interceptado de sua perene deambulação por um impassível poste de iluminação. Deu alguns giros em seu próprio eixo e por fim refastelou-se no chão.

A cidade ocupada não percebia a sua presença, pés passavam zunindo por sobre ele, pontas de cigarro quase o alcançavam, porém um olhar, um olharzinho, nada! Ninguém o percebia. Lá estava, largado ao relento, “uma porta”, um “portal” e a humanidade sem saber para aonde ir não percebia que ela poderia indicar-lhe a direção.

Ao fim do dia uma movimentação diferente se aproximou daquele aro, panelas, tabuleiros e muitos panos se ajeitavam ao lado daquele poste, era um ponto de venda de acarajés, e antes de armar o tabuleiro a baiana de vassoura em punha passou a fazer a limpeza do local. Foi ao passar a piaçava que ela percebeu um brilho diferente e abaixou-se para apanhar.

Ao perceber ser um aro cor de prata, resgatou-o carinhosamente pedindo a sua ajudante que fosse à loja do ourives avaliar. Pouco tempo passou e a menina voltou com uma expressão de decepção, entregou o objeto e disse, - Seu Carlos falou que não tem valor nenhum. Sem dó, nem compaixão ele foi novamente largado, displicentemente sobre o tabuleiro que, no abre-fecha do fim de tarde, acabou rolando novamente para o chão.

O dia acabou. O homem da camisa verde percebeu a perda, mas sua perda do dia havia sido maior, por isso nada sentiu. A moça também acabou por sentir que algo faltava nos seus dedos, porém a decisão do dia foi tão difícil que nem conseguiu lembrar o que mesmo faltava em sua mão. A baiana nem atinava mais do ocorrido, a ajudante exaurida de abrir abarás, acarajés, empacotar passarinhas, bolinhos de estudante e tudo mais, nem se lembrava do pequeno aro prateado.

A noite foi passando e uma chuva torrencial caiu naquela madrugada do dia primeiro para o dia dois. O pequeno “portal” foi levado por uma forte correnteza de meio-fio e acabou entrando por uma “boca de lobo”.

Ao raiar do dia a cidade inteira se perguntava o que seria aquele brilho prateado que cegava a todos que olhavam para o mar.

Ela estava radiantemente feliz, era dois de fevereiro.

Roger Ribeiro.
04 de fevereiro de 2010.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu ouvi, tenho certeza que ouvi!



- Era necessário mesmo apagar todo e qualquer vestígio?
- Se não fosse não o teria feito.
- Mas nós nem discutimos a questão!
- Você não lembra? É conveniente, tentei algumas vezes falar sobre a questão, mas agora é tarde. É como se nunca tivesse existido.
- Mas nós sabemos que existiu!
- Isso é um problema, não tenho como apagar isso. A única opção seria a morte, acho que isso está fora de cogitação.
- Por que será que tem de ser assim?
- Não sei, mas acho que aqui neste elevador não é o melhor lugar para filosofarmos sobre o tema.
- Não sei como você consegue se manter tão distante?! É frieza demais.
- Paciência, eu sou assim. Chegamos, vamos.

Desceram do elevador e eu fiquei. Ainda iria subir mais dois andares. Mas que diacho seria aquilo? O que eles teriam ceifado de existência? Que coisa, pra que peguei esse elevador com essas duas pessoas? Isso não se faz.

O elevador parou e me dirigi à porta do consultório para minha avaliação semanal. Tem alguns anos que venho aqui em busca de algo que não faço idéia do que seja. Mas hoje eu quero trabalhar essa minha curiosidade doentia. Ora, eu tenho nada haver com o que aquele casal eliminou?! Mas e se eles cometeram um crime? Eu não posso ficar omisso, eu sei que ela, principalmente ela, cuidou para que nem um rastro permanecesse, e eu sei, eu os vi, posso reconhecê-los em qualquer lugar e a qualquer hora.

Acho que não vou ao terapeuta hoje, vou à delegacia, vou denunciá-los enquanto ainda estão no prédio. A polícia pode cercar o prédio e prendê-los. Sim, isso é o certo a ser feito.

Virei de volta, chamei o elevador que de imediato abriu a porta, entrei, apertei o térreo e observei a porta se fechar. Seria um assassinato? Sim, acho que pode ser afinal eles tinham cara de assassinos mesmo. Lembro de um filme que vi assim mesmo. Um casal que cometia vários assassinatos só pelo prazer de fazer de tal forma que nunca fossem pegos. Afinal, eu vi o sorrisinho maligno que ela deu quando disse “a única opção seria a morte”, talvez eu esteja até mesmo salvando a vida daquele pobre homem. Não acho que isso não, eles são cúmplices. Ele só não participou da limpeza da coisa, mas certamente deve ter participado do plano e do assassinato.

A porta do elevador se abriu, fui até a portaria e preparei-me para perguntar onde ficava a delegacia mais próxima. De repente parei: Nossa! O que estou fazendo? E se não for nada disso? Quem disse que há um crime aí? Coitados! Como posso julgá-los desta forma? Eles poderiam estar falando de tantas coisas, poderia ser um móvel de família que foi dado, vendido, jogado fora, sei lá. Pode ser que sejam amantes e estejam se encontrando escondido, coisa feia, mas... Nada que diga respeito à polícia.

É, é melhor eu voltar e ir para minha terapia. Virei novamente e me dirigi ao elevador. Apertei o botão e aguardei, levou um tempinho e chegou, vinha do subsolo onde fica a garagem por isso algumas pessoas já o ocupavam, dei boa tarde e entrei.

- Você leu mesmo?
- Acredite.
- Meu Deus que barbaridade.
- É, mas agora não tem mais jeito, foi assim mesmo como te contei.
- E eles não disseram mais nada?
- Nada, era como se não fosse com eles.

O elevador parou, e aqueles dois senhores de terno desceram, ainda comentando o lido. Tentei aguçar a audição para saber do que se tratava, mas a porta fechou e só ficamos eu e a senhora que sei, é atendida pelo mesmo psicólogo que eu, o horário dela é depois do meu. Há anos a encontro na ante-sala do consultório, troco uma boa tarde e passo. Nunca soube o seu nome. Sorri para ela e disse: - chegou cedo hoje!

- É estava por aqui e não valia a pena ir em casa para depois voltar.

A porta do elevador abriu novamente e descemos. Na minha cabeça, estava a fala dos dois senhores. Será que eles estavam falando do crime que o casal anterior praticou? Só podem estar se referindo a isso, aliás, a cidade inteira deve está comentando horrorizada, e só eu sei que eles vieram se esconder aqui neste prédio de consultórios e escritórios. Eu sei onde eles estão e se não fizer nada eles continuarão impunes e cometendo um crime após o outro.

Meu Deus o que eu faço? Se ainda tivesse crédito no celular faria uma denúncia anônima, mas não tenho nem um centavo, bem que meu irmão sempre diz que eu tenho de ter crédito sempre, pois um dia posso precisar. Então eu poderia pedir lá no consultório para fazer uma ligação, mas aí todos ficariam sabendo que eu fui o denunciante, e se eles conseguirem fugir e vierem se vingar de mim?
Não... Não posso me expor, preciso encontrar uma solução. A porta do consultório abriu, a menina Cintia saiu me olhou e disse: - pode entrar.

Olhei para a senhora sentada e falei:

Olá, como você se chama?
- Maria da Graça, mas todos me chamam de Gracinha.
- Pois dona Gracinha, a senhora poderia trocar o horário hoje comigo, pois tenho urgência de resolver uma coisa. Eu ficaria hoje depois da senhora.
- Ora, para mim seria ótimo.
- Pronto então ficamos assim, a senhora entra agora e avisa a ele que depois entro eu.
- Pode deixar.

Levantou-se, toda satisfeita e entrou. Apressei-me e novamente chamei o elevador. Passou um tempinho a porta se abriu, novamente entrei apertei o térreo e desci. Saí apressado, passei pela portaria, já na rua, me dirigi à banca de revista mais próxima.

- O senhor tem cartão telefônico?
- Acabou, vendi o último agora mesmo.
- Poxa! Mas tem nada não, o senhor coloca crédito em celular?
- O senhor está sem sorte hoje, o sistema caiu desde o meio dia e até agora não retornou.
- Sabe onde posso encontrar cartão telefônico para vender?
- Olha o seu Manoel, aquele senhor ali que vende água e guarda carros sempre tem, ele não vende, mas aluga os créditos.
- Valeu, vou lá falar com ele.
- Seu Manoel, tem cartão telefônico aí?
- Olha tem esse aqui, mas acho que tá sem crédito, deixa eu ver.

Testou o cartão no telefone público e voltou-se para mim:

- Olha só tem um crédito, serve?
- Serve, é só isso mesmo que necessito, quanto custa?
- Um real.
- Caro heim seu Manoel!
- É meu filho, mas caro mesmo é comprar comida pra meus quatro filhos pequenos.
- Tudo bem.

Paguei e fui ao “orelhão”, pensei, eles não vão sair impunes deste prédio. Disquei o número enquanto pensava. Chamou, atenderam.

- Serviço Público de Remoção, boa tarde. Em que posso ajudá-lo?
- Não é da polícia?
- Não senhor aqui é 192, a polícia é 190.
- Desculpe, liguei errado.
- Por nada, boa tarde.

Eu não acredito que fiz isso! Só tinha um crédito e eu consegui ligar errado.

Voltei cabisbaixo para o prédio do consultório e ao chegar na porta os vi. Eles vinham saindo.

Apressei e me coloquei logo atrás deles, pararam na calçada, esperavam um taxi, concentrei-me na audição e passei a escutá-los. O homem falava:

- Viu o que o pediatra disse?
- Ouvi, claro, não sou surda.
- Eu só quero ver o que você vai fazer quando Clarinha abrir o berreiro à noite.
- Eu continuo com a certeza de que já era mais do que hora dela largar aquela chupeta. Clara já está com quatro anos e os dentes estavam ficando tortos...

Chupeta? Clarinha? Pediatra? Ai meu Deus o que quase eu fiz! Saí rápido para dentro do prédio, preciso falar com meu terapeuta urgente.

Roger Ribeiro
29 de janeiro de 2010.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma Pedra que não Rola



A Pedra dos Pássaros é, como diriam os antigos, um lugar bastante aprazível. A partir de meados da década de 1970, o local passou a ser como uma embaixada do universo, um terreno onde as leis de Estado não se impunham e vigorava, em uma desordem funcional e orgânica, a “Lei da Natureza”.

Ali foi realmente a minha primeira experiência de uma sociedade alternativa, para mim, pelo menos, bem antes do Porto da Barra. Convivíamos em perfeita harmonia, nós meninos que íamos saborear as vertigens dos mergulhos, lá aprendi a dar o meu “espetacular Salto Canivete”, por exemplo, com a turma mais velha que já ia desvendar as tais das ondas sensoriais de que falava o Castaneda. Isso claro até a Rita Lee fazer uma música que alertou a Lei sobre o “pasto de Nazaré das Farinhas”.

Mais isso é outra história que outro dia narro. Quero chegar é em algo infinitamente mais recente, portanto saindo dos setenta do século passado e chegando ao fechamento da primeira década do século XXI, senti na manhã passada uma saudade atroz do friozinho na barriga do mergulho da Pedra dos Pássaros na maré baixa.

Assim sendo, obedeci ao meu instinto, saudosista e aventureiro, e rumei à micro região insular incrustada entre a praia de Santana e a praia da Paciência. Era uma manhã de sol e eu no início das férias buscava faxinar o meu interior com essas aventuras que, por bobeira pura, um dia deixamos de fazer com a regularidade que deveria.

Desci do ônibus e me encaminhei à praia da Bacia das Moças aonde cuidadosamente procurei uma daquelas locas de pedra para guardar, bem escondidinho, minha camisa e minha sandália japonesa, os tempos são outros, não há mais a possibilidade de deixá-las aleatoriamente sobre as pedras ou areia. Bom, não adianta ficar lamentando os tempos idos não é mesmo?! No passado, também, nem tudo eram flores.

Guardei meus pertences e TCHEBUUUM-THUÁÁÁ! Joguei-me nas águas verdes do mar, nadei até a referida Pedra e sem dificuldade reencontrei as entranhas que formam uma escada natural para se subir ao seu topo. Ah! Sentia-me um menino novamente, a alegria se abatia em minha alma como há muito não sentia! Aquele mesmo vento fresco na pele molhada... Dirigir-me à plataforma de onde se mergulha, olhei para baixo, senti uma profunda vertigem. Pensei: é melhor não olhar.

Dei quatro passos, bem contados, para trás, era a manha para tomar o impulso para conseguir a altura necessária para o “Salto Canivete” e quando já ia disparar a corrida, uma voz possante se apresentou.

- Você reparou que a pedra não é mais branca?

Olha, eu juro por tudo neste mundo que meu coração saltou da boca, correu os quatro passos voou em direção ao mar verde profundo, subiu tudo novamente e retornou ao meu peito. Estava estatelado, sólido, frio como gelo sob um sol escaldante. Após este infinito segundo, olhei lentamente para o meu lado esquerdo e, no local onde se pescava chicharro, vi um homem negro alto, forte que a julgar pela sua longa barba e cabelos, ambos brancos, deveria ser já muito idoso, afinal, salvo raras exceções, a etnia negra custa a ficar grisalha.

Como um raio passou uma idéia divertida em minha mente - qual seja: será que ele está aqui desde aquela época? Sua voz cessou minha idéia.

- Você não percebeu não é mesmo? Acha que isso não quer dizer nada?! Você só quer saciar sua adrenalina, ficar segundos no ar entre o céu e o mar até entrecortar as águas em um movimento de parábola, não é mesmo?

- Bem... (Tentei respondê-lo), não é bem assim, tenho uma forte ligação com este local...

- É! Mas se quer percebeu que a pedra hoje é toda escura. Procure, veja se você acha?

- O quê? O quê eu deveria achar?

- Muita coisa! Todas as coisas que faziam com que as aves marinhas aqui viessem repousar, acasalar, descansar e se alimentar.

- É verdade... A Pedra era toda pintada de branco, era o cocô dos pássaros marinhos que aqui habitavam.

- Claro! Por isso se chama Pedra dos Pássaros e não “Pedra dos Imbecis”.

- Calma homem, não precisa se exaltar, muita coisa mudou, inclusive eu e, provavelmente, você também.

- Sabe; eu tenho quase certeza de que elas desapareceram daqui por falta de histórias, ninguém mais vem aqui narrar suas histórias. Sentar olhando para o infinito e narrar aventuras às vezes reais às vezes meras quimeras. Vamos meu rapaz conte o que acabou por te trazer de volta a este local!

- (Fiquei encabulado com a incisiva convocação, mas pensei, não é que ele tem razão! Existe realmente algo que me fez vir aqui para degustar... Algo que ocorreu ontem). Enfim olhando aquela criatura sem saber se era real ou não falei: é bem estranho...

- Estranho?! (falou mostrando com os braços o universo que nos cercava).

- (Tomei coragem, fiquei de pé e, olhando para o infinito do mar iniciei) Era uma festa de aniversário, tudo era bem formal: mesas redondas com toalhas brancas acetinadas, senhores com roupas sociais tensas, senhoras em seus longos cheios de laços, nas costas, ou na cintura, ou nas laterais, cabelos pintados e moldados por horas de salão, mesas com salgados variados visitados de forma regular por crianças vestidas de adultos, mas correndo e berrando como crianças. Ou seja, era uma festa de aniversário de adultos muito adultos.

Do nada percebi um vulto leve, muito mais leve do que tudo que havia vivenciado naquele local até aquele instante. Realoquei o olhar e vi: era uma elegância em total desalinho. Uma imagem de urgência, algo que deveria estar lá 15, 20 ou 60 minutos à frente.

A imagem impôs sua leitura e esta só poderia ser feita no sentido sul / norte. Um sapato de salto alto furta-cor que possuía vida própria a conduzir aquelas pernas finas e longas que quebravam a velocidade do percurso longilíneo na barra de um vestido que belo e novo aparentava ter saído de seu guarda roupa do período de debutante.

Sim! Era isso mesmo, da ponta daquele salto à barra daquele vestido, tudo fazia parte da época do seu quarto cor de rosa cheio de bichinhos de pelúcia. A cor do quarto mudou o espaço entre a sola do salto e a barra do vestido havia ficado enorme, poucos bichinhos ficaram e a maioria dos monstros dos tempos idos se evaporou, mas algo ficou.

O curto vestido transformava-a em uma longa pequena menina o que era reforçado pelos seus estreitos ombros realçando a longinilidade de seus braços que, por vezes se faziam finos e delicados, cálidos até, já outras vezes, tornavam-se firmes, rígidos como uma ponte pênsil, eram juntas poderosas que se encerravam em mãos finas, elegantes como uma lâmina, como o movimento do spalla da orquestra.

Tudo enfim convergia para aquele rosto longo, de fortes traços, nada de sutileza, nem de leveza, era uma fisionomia que se impunha pela força e ornando esta força indomável, uma cabeleira completamente sem linho, sem forma. Era como se aqueles cabelos tivessem caído do espaço sobre aquela cabeça sem nenhuma ordem sem nenhuma harmonia tonal. Era a atonalidade da atonalidade.

Era incrível como aquele conjunto completamente dissonante irradiava um frescor, uma velocidade, uma ruptura urgente. O inquietante transitando por todos os espaços diametralmente opostos a ele, explodindo em um infinito avesso ao bom-gosto do imposto pelo ambiente.

Ela se impôs à própria festa. Enfim havia algo a se comemorar... Imaginei ser assim o ar respirado por Leila Diniz, Luz D’El Fuego, Elvira Pagã. Tudo parecia mínimo aonde ela era o máximo.

- E você, assustado não lhe disse nada. Ficou suspenso no ar como no momento em que seus pés se desprendem da pedra e sua cabeça não toca a água.

- Talvez, com esse mesmo frio na barriga, como um menino vendo a imensidão do mar.

- Vá voe da pedra para a água.

Quando eu voltei e subi novamente na Pedra dos Pássaros, o velho negro já não estava lá, porém alguns pássaros marinhos pousavam, disfarçando - assim meio de lado - se esgueirando, fingindo não se dar conta da minha presença.

Roger Ribeiro.
12 de janeiro de 2010

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Esse cheiro de dendê no ar...



- Tá olhando o quê?

Bradou ela para que todos ouvissem. E todos ouviram. Eram 17 horas e quarenta minutos de uma terça-feira típica de novembro, ou seja, após um dia de sol intenso, o final de tarde trazia o alento da brisa fresca que vem do mar, além, claro, do forte cheiro de dendê quente que toma conta de todos os cantos desta cidade a partir das 17 horas.

Não houve quem não direcionasse o olhar para a fonte da voz. Ela era uma morena grande, daquelas que se vê com certa freqüência aqui na cidade do Salvador. Não era muito alta, possuía uma estatura mediana, normal para as moças soteropolitanas, assim no “olhometro”... Um metro e sessenta, não mais que isso, porém as partes do seu corpo possuíam lateralidades e volumes que lhe conferiam uma presença muito mais impositiva.

Estava em pé, de frente para o lado do mar. O coletivo estava cheio, é o horário de saída de trabalhadores e estudantes. A cada ponto mais gente se espremia para entrar no ônibus, e o trânsito interno no veículo já se tornava bastante difícil. Como se não bastasse, uma baiana colocou seus “apetrechos” (tabuleiro, mocó, cestos e afins) muito próximos da saída do transporte, afunilando, e muito, a passagem. Ninguém reclamou. Quem é maluco de reclamar com a baiana?! Ainda mais que ontem, 25 de novembro, foi o dia delas!

Aqui por essas bandas é assim, o transporte coletivo, se você estiver de bom humor, é sempre uma atração à parte no seu dia. Todos falam ao mesmo tempo e alto, o baleiro entra pedindo atenção de todos para suas promoções de balas e chocolates, alguém briga porque o trocador não tem troco para dar, todos comentam que é sempre assim, que o trocador está de má vontade, que o motorista está correndo demais, ou que está lento demais, o celular de alguém toca um pagode aos berros, crianças choram, idosos entram aos montes e ocupam metade das cadeiras, ninguém diz nada mas todos praguejam baixinho, pois estão cansados, trabalharam o dia inteiro. E pra completar, sempre tem um gaiato fazendo galhofa de tudo e de todos.

- Tá olhando o quê?

Repetiu, mais incisivamente a morena. Percebi que ela falava com um rapaz franzino que estava sentado no banco, dois passos atrás dela.

- Pensei que fadas só andassem em pontas de estrelas! É a primeira vez que vejo uma andando de ônibus. (respondeu o rapaz)

Ela disfarçou, mas não aguentou e largou um sorriso, porém antes que tivesse tempo de dizer algo alguém, uma voz perdida naquele coletivo lotado, completou:

- Também nunca se viu uma fadinha com um “pandeiro” deste tamanho, haja estrela!!
- É porque sua mãe só concorreu para o título de bruxa!!

Bradou a morena com sua possante voz. Todos caíram na gargalhada, assovios, berros, instigações, ouvia-se de tudo.
De repente a voz oculta mostrou-se e novamente manifestou-se:

- Não bote minha mãe no meio disso sua “broaca”!

Só ouvi o zunido do vento e depois o Splashh! Só que não era o beijo roubado no cinema e sim uma “bifa” (tapa, sopapo, ou como queira chamar), daqueles que pegam em cheio na bochecha e saem ardendo da nuca até o Tendão de Aquiles.

- Broaca é a ...
- É o quê? Cê só fala isso por que é mulher...
- venha cá que te dou outro sopapo... E blábláblá...

Nossa! A gritaria no ônibus era tão intensa que não se conseguia distinguir mais nada, era um empurra-empurra sem fim, todos provocavam a todos, na verdade cada um buscava colocar um gravetinho para ver a fogueira pegar fogo.

Quando a situação já estava insuportável de tantos gritos, palavrões, risadas, assovios, provocações e os “cambaus”. Veio a “gota d’água”: o cesto do baleiro voou! Foi amendoim, jujuba, balas, chocolates, doces em geral prá todo lado!

- “Peraí motô”!

O grito foi forte, o motorista olhou o campo de guerra pelo espelho, deu sinal e parou o veículo com aquele freio mais contundente que costumamos nomear de freio de arrumação.

- Tá pensando que tá carregando boi?

E voou um saco de amendoim na cabeça do motorista.
Por sorte, ou não, logo atrás do ônibus vinha uma viatura da polícia, que imediatamente parou e dela desceram três soldados da polícia militar já de arma em punho. Acho que desconfiavam ser um assalto.
Entram no ônibus e ordenam:

- As mulheres ficam os homens descem com seus pertences.
- Mas que é isso! Eu tô atrasado, esse povo maluco!
- Olha doutor, eu só quero saber quem vai pagar meu prejuízo? (Falou o baleiro com voz de choro).
- Esse vagabundo me chamou de “broaca”!
- Essa “broaca” ofendeu minha mãe.
- Aquele magricela disse que eu tinha que andar na ponta sabe lá do quê, pois ele nem tem caixa prá encarar o filé aqui!
- Eu só tava dizendo um gracejo!
- Alto lá! (berrou o Capitão, como ficou conhecido), vamos parar com essa gritaria. Já falei os homens descem com seus pertences e as mulheres ficam.

Todos resmungando, aceitaram a ordem, não havia jeito.
Revista de cá, revista de lá, a coisa começou a demorar, então alguém falou ao motorista:

- “Ô motô”, vou ali comprar uma água, não saia sem mim, heim!
Apontou para uma birosca que estava a uns 5 metros de onde o ônibus parou. E cada um que terminava a revista se dirigia à birosca. De água, alguém pediu uma cerveja, copos, as pessoas iam chegando, o baleiro tentava negociar seu prejuízo entre um copo e outro da cerveja. O motorista fingiu que ia no banheiro para tomar um copinho, pois como estava trabalhando e dirigindo não podia beber.

Chegou também a morena, a baiana, o gaiato, um dos policiais... De repente alguém sacou do pandeiro, o dono da birosca botou uma carne no carvão...
A morena achou o magricela e disparou com um copo na mão:

- E aí neném vai encarar?
O magricela pigarreou, olhou para a morena de cima a baixo, chegou para junto do pandeiro e disparou;

- “Lá vem a baiana
De saia rodada, sandália bordada
Vem me convidar para dançar
Mas eu não vou
Lá vem a baiana
Coberta de contas, pisando nas pontas
Achando que eu sou o seu iôiô
Mas eu não vou
Lá vem a baiana
Mostrando os encantos, falando dos santos
Dizendo que é filha do Senhor do Bonfim
Mas, pra cima de mim?!
Pode jogar seu quebranto que eu não vou
Pode invocar o seu santo que eu não vou
Pode esperar sentada, baiana, que eu não vou
Não vou porque não posso resistir à tentação
Se ela sambar
Eu vou sofrer
Esse diabo sambando é mais mulher
E se eu deixar ela faz o que bem quer
Não vou, não vou, não vou
Nem amarrado porque eu sei
Hum hum hum hum hum hum...”*

O ônibus foi embora, vazio!

Roger Ribeiro.
26 de Novembro de 2009.

* “Lá Vem a Baiana” – Dorival Caymmi

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Inteiro ou fração?




- Você destroca para mim?
Parei olhei a mão estendida a segurar uma nota de cinquenta reais e pensei: sim, eu entendo o que ela quer, ela quer saber se eu troco aquela nota por frações que a somatória dê aquele total. Mas porque ela coloca o “des” na frente do trocar?
- Moço! Você destroca ou não?
Continuei absorto pensando na semântica da coisa: eu só poderia destrocar se já tivesse antes realizado o ato da troca. Enfim falei:
- Você quer que troque?
- Sim “fiu”, você desgarra pra mim?
- Desgarrar?
- Sim! Preciso pagar umas compras na quitanda e lá ele não destroca.
Peguei a carteira pra ver se possuía a quantia.
- Cinco de dez...
- É já ajuda, obrigada.
- De nada, boa sorte!

Segui o meu caminho ainda pensando no assunto e concluindo que existe uma linguagem cotidiana que está longe, muito longe dos bancos escolares, das conjugações verbais, das sintaxes e morfologias. Existe uma linguagem que não está aprisionada em papeis, ela é viva, dinâmica. Anda pelas ruas e vai ganhando forma as mais diversas. Apega-se muito ao timbre, sem saber o que é timbre, mas na maior parte das vezes a entonação da palavra dita, diz mais do que a própria palavra.

Afinal, não é por preguiça, afinal dizer trocar é muito mais fácil do que dizer destrocar. É uma questão de comunicação, conheço pessoas que ao invés de ter dificuldade, tem dificulidade, e como a dificulidade é séria não há nem espaço para uma sonora risada já que a sonoridade da nova palavra tem um acento cômico quando chega aos ouvidos. Mas cada um sabe o grau das suas dificuldades, ou dificulidades, não é mesmo?

De tão intrigado nos meus pensamentos acabei por passar do local para onde estava me dirigindo, parei, percebi o erro gerado pela minha distração e dei meia volta para chegar ao local exato. Percebi que do outro lado da rua havia um quiosque oferecendo água de coco. Atravessei a pista cheguei ao balcão do quiosque e pedi:

- Por favor, me veja um gelado! (o calor era intenso).
Sem uma palavra o rapaz com muita destreza retalhou o coco, colocou um canudo rosa e me entregou a fonte do meu desejo imediato.
Tomei todo o conteúdo enquanto observava ao redor o colorido das pessoas que passavam naquela manhã ensolarada de um céu azul intenso que realçava as cores das roupas das pessoas. Fiquei uns dez minutos tomando a água de coco e saboreando a idéia de como a cidade era colorida. Pessoas negras vestidas de branco, pessoas brancas vestidas de preto, pessoas nem brancas nem negras vestidas de verde, vermelho, roxo, azul, amarelo, laranja, passou uma menina com um vestido de arco-íris... Embriaguei-me de tantas cores!

Perguntei o preço, só para confirmar, pois havia uma tabuleta bem clara que dizia: “coco natural ou gelado 1,00”.

- Um real!

Meti a mão nos bolso, nada! No outro e no outro... Percorri todos os bolsos e, nada! Peguei a carteira e lá estava arrumada em “berço esplêndido” a nota de cinqüenta reais “destrocada”. Meio sem graça, mas fingindo naturalidade peguei-a e estendi-a ao rapaz.
Ele me olhou e percebi no olhar que não estava acreditando muito no que via. Coçou a cabeça com o cabo do facão e disse:

- rapaz, tem trocado não?

Ainda sem graça, pois sabia que consuetudinariamente, eu estava errado, apesar de legalmente estar certo, afinal era dinheiro, eu não estava me recusando a pagar, portanto a obrigação de ter troco era dele. Porém, na lei do dia-dia não é assim.
O olhar dele para mim era de incredulidade, ou seja, ele não tinha troco, não tinha como sair dali, pois não havia ninguém para ficar no seu lugar e, pior, se eu não pagasse quem pagaria seria ele, afinal ele não era o proprietário do quiosque e sim apenas o funcionário e, certamente, o dono não iria nem querer saber, os cocos estavam contados e se não batesse quantitativo com receita quem pagaria seria ele.

- Rapaz, respondi, tenho não. Mas espera um pouco que vou tentar trocar.

Sai perguntando, fui a uma banca de jornais próxima e perguntei:
- Por favor, você troca pra mim?
A resposta foi um aceno de cabeça negativo. Saí perguntando a todas as coloridas pessoas que passavam. Nada. Voltei ao quiosque e perguntei:

- Rapaz ninguém troca, como a gente faz?
Ele me olhou, levantou o ombro e nada disse.
- Até que horas você fica aqui?
- Seis (que na verdade eram 18 horas).
- Olha, vou fazer o seguinte, estou atrasado para um compromisso, mas volto mais tarde e pago o coco. Não tem jeito, você vai ter de confiar em mim.
- Fazer o quê né bacana! Cê vem tomar um coco com uma nota de cinqüenta?
- Não se preocupe eu volto.
- Tá (um tá visivelmente contrariado)

Saí sem graça, me sentindo errado e com aquele olhar em cima de mim como quem diz: “vai voltar nada”. Mas para mim era questão de honra, precisava reparar o meu erro, não podia deixar a corda partir no lado mais fraco.

Cheguei ao meu compromisso, era uma palestra a respeito de conflitos sócio-políticos na África subsaariana na atualidade e de como se matava aleatoriamente em nome de diamantes, petróleo, ouro, drogas, enfim, como se matava por tudo, o palestrante passou trecho de filmes como “O Senhor das Armas”, “Diamantes de Sangue”, “Hotel Ruanda” e outros mais.

Saí impressionado com os exércitos infantis, meninos e meninas com armas, por vezes maior do que eles próprios. O palestrante era um sobrevivente de uma noite de massacre daquelas. Os horrores narrados eram de um realismo cortante. Lembrei das cores que avistara ao tomar o coco no Largo Dois de Julho, senti uma profunda repugnância pelo ser humano. Como podia um ser tão dotado de especialidades quase divinas praticar tantos horrores, em nome de metais, pedras, ou sei lá o quê!?

Saí do prédio do Centro de Estudos Afro Orientais da Universidade Federal da Bahia, meio atônito, fui ao florista, comprei umas flores vivas, muito coloridas, tão coloridas quanto o povo da minha cidade. Entreguei a nota de cinqüenta e já olhando para o quiosque de coco, pensei: e ele, com o facão na mão, em momento algum ameaçou me acertar, e olha que era por uma água de coco, algo infinitamente mais importante do que ouro, diamante, petróleo ou coisa que os valha. Instintivamente perguntei ao florista:

- Você destroca para mim?

Roger Ribeiro.
16 de novembro de 2009.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O dia em que o Lá menor se apaixonou



Todos os dias, pouco importava se era início, meio ou fim de semana, podia também ser feriado pátrio ou religioso, era inabalável: entre quatro e meia e cinco horas, junto aos primeiros raios do sol, os meus sentidos despertavam ao som daquela melodia saída do piano de alguma daquelas dezenas de janelas. De onde será que vinha? Que mãos será que passeava tão delicadamente por aquelas teclas brancas e pretas?

Por várias vezes levantei e fui até a janela tentar decifrar esses enigmas. Procurava por luz acesa em alguma das janelas, mas nada! Ou não havia nenhuma ou algumas. Tentei apurar a audição a ponto de definir o nascedouro geográfico da melodia, nada! O som se propagava livremente naquelas quase sempre manhãs frescas de brisas leves. Às vezes imaginava um roteiro para cinema, essa era a única forma que encontrava para responder a todas aquelas perguntas.

Bolei de tudo, senhoras viúvas nuas desvairadas, enlouquecidas, jovens românticas sofrendo por perdas amorosas, meninas feias de áureas grandiosas, Jovens senhoras que tocavam para o corpo embalsamado do marido ou do filho no centro da sala... Em um ano criei mais argumentos e roteiros fílmicos do que toda a produção das companhias Atlântida e Vera Cruz somadas.

Porém, essa necessidade de definição só durou um ano, primeiro porque encontrei outro dilema para me preocupar, qual seja: numa dessas belas manhãs enquanto ouvia uma melodia triste, bem triste de Franz Liszt (sim passei a estudar música para reconhecer o que vinha do piano) e bolava mais um argumento, percebi que todas as histórias que criava sempre a protagonista era do gênero feminino, seja nova, madura ou velha, mas sempre era mulher e o piano sempre negro e opaco.

Fiquei efetivamente preocupado com isso, seria um sintoma de paranóia? Uma fixação materna, uma carência afetiva, uma patologia emocional, uma fixação na fase infantil? Eram perguntas e mais perguntas sem respostas, busquei ajuda, alistei-me no rol de pacientes de um psicólogo, fiquei um mês, percebi neste tempo que a psicologia é uma ciência lenta e cara, nestes trinta dias e quatro encontros o meu querido “médico de maluco”, não me disse nada e eu acumulei um novo problema: dívidas.

Larguei as consultas e resolvi que se havia vivido até aquele momento bem com minha fixação pelo sexo oposto, então continuaria assim, voltaria a ser um feliz sociopata romântico e não endividado. Foi difícil chegar a esse ponto, mas cheguei e percebi que tudo isso havia me desviado do melhor, ou seja, a ação de apenas me permitir embalar pela melodia matinal produzida pela busca incessante da carícia dos dedos nas teclas do piano e virse-versa. Mãos finas e femininas e piano negro opaco, claro.

Notei que ninguém nunca reclamou, apesar do horário, nunca ninguém gritou da janela: “para com essa zonada aí!”. Na verdade, creio que todos como eu, achavam-se privilegiados, afinal, em uma cidade como esta, com todas as cruezas das cidades grandes, com todo o corre-corre, o barulho, a sujeira, o mau-humor, os atrasos, trânsitos, incompreensões, enfim, com tudo o que compõe a vida urbana contemporânea, quantas pessoas têm o luxo de serem acordadas por uma suave e linda melodia?

Sim, era uma benção, por isso após passar pela paranóia de ter de explicar tudo, quando eu evoluí para minha condição de imagem e semelhança do bem e me deixei embriagar pela música, então meus dias passaram a ter sempre a perspectiva de serem maravilhosos.

Uma hora, sempre por uma hora, alguém, aquela mulher, presenteava a cidade com sua sonoridade. Passei a buscar variações, levantava e sentava no chão da cozinha, vestia uma bermuda e ia para a varanda, descia do prédio e ficava no meio da rua, subia ao último andar e, após longa negociação consegui fazer uma cópia da chave que me dava acesso ao teto onde fica o tanque d’água do prédio. Em cada lugar o som chegava diferente, mais grave, mais agudo, ecoando, reverberando, equilibrado...

Um dia fiquei parado no meio daquela imensa avenida ouvindo-a tocar e imaginei aquele som seguindo avenida afora, sem nada para detê-lo, desviar o seu caminho. Invadiu-me uma sensação de infinitude e liberdade, que jamais havia sentido.

Em uma manhã especial, quando o céu foi ficando todo rosa e uma bruma de água pousava lentamente sobre a cidade, ela tocou Ave Maria de Schubert. Estava na janela esperando o início do concerto e fiquei paralisado. Costumava ouvir essa composição, pois tinha o hábito de correr ao final de tarde e a rádio que escutava enquanto me exercitava, às 18 horas tocava-a com os mais variados interpretes, porém, com aquele sentimento, com aquela sensibilidade, eu nunca havia escutado.

Era quase que a idealização do que seria o paraíso! Aquela bruma de água, o roseado celeste, o cheiro da terra úmida e aquelas notas sonoras suspensas no ar. Cheguei a parar de respirar para não interferir. Cheguei à conclusão de que deveria ser o dia do aniversário dela, anotei no calendário da cozinha, só podia ser isso.

Nesse dia, nada conseguiu me aborrecer, no trabalho todos brincavam de que eu estava com cara de apaixonado, com ar de quem viu o passarinho verde, ofereceram-me a trilogia de Polyana, me aconselharam sobre os perigos da paixão, etc, etc.

Fui ao banheiro do escritório e percebi que realmente havia algo estranho na minha fisionomia.

Pois amanhã faz exatamente um ano daquela manhã, faz também um ano que entrei para o conservatório de música da Universidade Federal e estudei compulsivamente. Agora estou aqui, no ônibus indo à Praça da Sé, marquei com meu amigo-irmão Pedro Santana, na loja de instrumentos musicais, pois ele irá me ajudar a escolher um violino.

Amanhã ela terá uma grande surpresa! No dia do seu aniversário, de uma janela que ela não saberá qual, o som do meu violino irá dançar junto à melodia que, por tanto tempo solitário, aqueles delicados dedinhos produziam nas teclas do piano negro opaco. Será um amanhecer para a eternidade.

Roger Ribeiro
30 de outubro de 2009.