sexta-feira, 28 de maio de 2010

A GAROA TURVA




Para que minha amiga fique bem


- Venha para dentro, saia deste sereno, menina!

Ela apenas balançava a cabeça adornada com seus cabelos cor de ouro barroco. Tremia muito e os olhos estavam brasis. Suponho que estivesse febril. Na verdade, debruçado de minha janela, observava a voz e a menina. O que será que ela tinha? Era tudo muito rápido, as mudanças eram bruscas, por vezes parecia uma criança frágil, quase um bebê indefeso, suplicando que algum colo lhe aquecesse, logo em seguida era um rompante vulcânico, tornava-se enorme, engolia a própria sombra que se projetava a partir da luz do poste.

- Não se maltrate, seja uma boa menina venha para dentro, olha pegue esta toalha e tome um banho morno, você se sentirá bem melhor.

Novamente apenas os cabelos sacudiam em uma extensa negativa à voz cansada que quase escorria pela sarjeta junto a água da fina e fria garoa que se impunha entre o solo e a nuvem. Não a via cair, ela flutuava, estava estática no ar abraçando a tudo que fosse sólido e estivesse no espaço delineado por aquelas minúsculas gotas d’água.

Coloquei a mão para fora da janela para sentir aquele véu abraçá-la, abri um buraco na garoa que logo se ajeitou anatomicamente ao meu braço, resfriou-lhe e por segundos senti que havia dois sentidos em um só corpo, a úmida e fria pele, carne e líquidos do meu braço e o seco e morno resto do meu corpo.

- NÃO, não faça isso!

O grito da voz me fez voltar ao mundo real. Assustei-me e também gritei: PARE! Não faça isso.

Seguiram-se alguns instantes e a perna dela ficou no ar, não tocou o asfalto, um pé firme na ponta do meio-fio, o outro suspenso. O carro passou muito rápido, creio que ele nem viu a perna suspensa sobre o início do asfalto. Os pneus ergueram água o suficiente para encharcar-lhe o vestido. Fiquei surpreso, pois a garoa não molhava o vestido, as gotas se sobrepunham intactas sobre ele, não se partiam, não viravam água, permaneciam gotas.

Porém, a levantada pelo pneu não, esta formou uma parede sólida de água que se projetou violentamente sobre o vestido, este por sua vez que rendia a ela uma levitação, passou a sugá-la, colou no seu corpo e passou a pingar pela barra intensamente, e quanto mais pingava mais ela se esvaía, não era a água da poça sobre ela que pingava, era ela.

Vi-me aterrorizado, presenciava de minha janela algo fora, completamente fora de minha capacidade de entendimento. Ela perdia massa, peso, volume, cor! O chão a sua volta parecia ter enferrujado, ela se ia descendo a calçada, desfeita, e nada fazia.

- Não, Não, por favor não se permita isso...

“Não se permita isso”, esta frase dita a ela entrou por meus ouvidos como se fosse para mim. Abri os olhos com tamanha energia que lentamente, ela lá em baixo, perto ao poste que esticava a um sem fim sua sombra, que seguia o mesmo sentido do seu corpo que se ia, esvaziando o vestido branco, foi virando a cabeça em minha direção, lentamente ergueu a cabeça, retirou os longos fios de cabelo da fronte e mirou com seus olhos brasis o brilho alvo dos meus olhos.

De repente percebeu que não estava só, de repente percebi que também não estava só. Éramos eu, sobre a janela, ela sobre a bruma d’água e a voz deslocando o que havia de mais sólido naquele momento; o ar.

- O que você vê? Perguntou-me ela com uma fio de voz, mas que chegou a mim perfeitamente como se ela estivesse a apenas centímetros de mim.

- Porque me observas? O que queres descobrir? Não sabes que não se deve ater-se aos eclipses?

Percebi um contra movimento na calçada, as formas começavam a se reagrupar, subia-lhe pelos pés finos e alvos e re-preenchiam o vestido, os cabelos antes lânguidos agora esvoaçavam, eram como tocha, iluminavam aquele corpo antes frágil, agora magro, porém firme como se fossem de pau-ferro, seu olhar já não era brasil, mas sim de um branco cristal, impossível de fitar.

Por um instante tudo parou, estacionou o tempo e o espaço, a voz ficou suspensa no ar, meu gesto não se completou, estancou no meio do caminho, a garoa estática não caía, nada... Por longos segundos não houve nada, apenas ela transformava-se em um oceano de átomos girando sobre si mesma como um grande rodamoinho, era um clarão inimaginável, a luz da irrealidade, o clarão da loucura, a beleza da insensatez!

Quando o brilho cessou e o mundo voltou ao seu movimento normal, estava eu e ela dançando no asfalto molhado como um mestre-sala e sua porta bandeira, rodopiando, loucos de tanta alegria, enquanto a voz cantava a pleno pulmão:

- Quem é você?
- Adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- ...que eu quero saber o seu jogo
- ...que eu quero morrer no seu bloco...
- ...que eu quero me arder no seu fogo
- Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão...Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
- Eu sou tão menina
- Meu tempo passou
- Eu sou colombina
- Eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser
Seja você quem for, seja o que Deus quiser.*

No meio da algazarra total percebi que no vestido branco dela, existiam minúsculas margaridinhas amarelas bordadas.

Roger Ribeiro
27 de maio de 2010.

*Noite dos Mascarados - Chico Buarque

terça-feira, 18 de maio de 2010

De onde raios viestes?


Apreciava leituras soturnas, vivia de sebo em sebo em busca das letras grafadas com asco, dizia que estes livros eram sempre encontrados em excelente estado de conservação, mesmo que fossem edições antigas, de vinte, trinta anos ou mais


Eram conservados por que ninguém conseguia lê-los, teorizava. – “Repare! Mostrava a quem lhe desse ouvido, veja como até a página 45 há marcas de dedos, de manuseio, porém a partir daí... Nada! Veja páginas virgens, nunca dantes vistas, lidas, acarinhadas”.


Sentava-se por volta das 16 horas em um dos bancos que ficam em frente ao farol da Barra, dizia que ali era o melhor lugar da cidade do Salvador, mas só a partir das 16 horas quando a sombra começava a se projetar sobre o gramado e o vento nordeste fresco, vindo do mar, sopra baixo deixando sua alma presa a você em ângulo reto, como um lençol preso ao varal em dia de vendaval.

Neste espaço, portanto, entre senhores que sentam para olhar as meninas passarem com seus trajes de corrida, colegiais que escapuliram dos muros das escolas para namorar ao por do sol, vendedores de bugigangas fedidos, desgrenhados, loucos para vender um colarzinho, uma fitinha para comprar algo que os entorpeçam, enfim em meio a uma “fauna” urbana doentia e instigante, ele sentava-se com no mínimo dois ou três amigos, como chamava seus livros, e retirava a âncora de sua caravela!

Deixou-se invadir pelas características do olhar sobre a obra. Sobre o lábio superior, um grosso bigode em total contraste com a tez clara cera, adornada por uma cabeleira rala e lisa, cor de cenoura, completamente irregular que combinava com a imperfeição linear do fino aro do óculos dourado de vidros grossos. Era realmente uma figura um tanto quanto exótica para uma cidade litorânea e tropical.

Um dia, o vi entretido com “A Hora da Estrela” da Clarice Lispector, percebi ao longe que algo o incomodava na leitura, parava repetidas vezes, balançava a cabeça, olhava para cima, levantou reclamou com a baiana de que o cheiro da fritura do acarajé o desconcentrava, ouviu um olhar de desprezo dela e nada mais. Sentou-se novamente e novamente entregou-se a Clarice de tal forma que passou a lê-la como se fosse um locutor de rádio-relógio.

Ficava meio agoniado, pois sabia que seu tempo era curto, afinal o local é mal iluminado, sendo assim quando escurece... Já não há mais possibilidade de leitura, os seres voltam às suas capas duras.


Escreveu várias vezes para os jornais, telefonou para as rádios e televisões pedindo solução para a questão da precariedade da iluminação, mas nunca obteve solução dos poderes constituídos. Também nunca teve esta esperança, afinal seu niilismo era afiado o suficiente para entender a mente e as ações do Ser Humano, principalmente aqueles que se julgam poderosos. A eles, a lâmina fria das letras de Schopenhauer.


Mas não julguem que sou um desocupado, que fico olhando a vida dos outros, não é isso, é que tenho uma bússola nata nos olhos que se atraem a seres diferenciados. Gosto de ver como se estabelecem e encontram espaço para serem assim em um mundinho tão limitado, tão previsível. Acho que busco através destes seres, alimentar em mim, a idéia de que é possível construir um universo paralelo sem que as pessoas fiquem o tempo todo dizendo que você é isso ou aquilo por não conseguir divertir-se com as carências alheias.

Meu amigo “nietzscheriano” me instiga de que algo pode e deve acontecer. Não se contentava em ser uma Macabéia, também não possuía a intenção de ser um astro, pelo contrário, divertia-se em ser apenas um corpo para dar vida a seres incríveis como “O Homem que Sabia Javanês”, ou Dr. Simão Bacamarte, ou Josef K, Brás Cubas, enfim milhares de Policarpos, centenas de Quaresmas espalhados entre o branco do papel e o negro da tinta, mesmo que seja nos confins das prisões siberianas, ou no quarto fétido ao fundo da loja de antiguidades.

Hoje, vou anotar a data para nunca esquecer, ele estava diferente, formal, sustentava em seu corpo esquelético um elegantíssimo terno escuro completo, usava um chapéu de feltro, cinza escuro, o sapato brilhava, o cabelo cuidadosamente penteado, só o óculos permanecia torto formando um ângulo de 45 graus com a linha dos olhos. Era outra pessoa, o que será que aconteceu? Ou o que será que iria acontecer?

Eram 16 horas em ponto, ele ergueu-se, pegou o pacote que estava sobre o banco, desenrolou cuidadosamente, ergueu o livro de capa negra à altura dos olhos e brandiu:

- No princípio criou Deus o céu e a Terra,
E a Terra estava vasta e vazia e havia trevas sobre a face das águas,
E disse Deus: haja luz; e houve luz.
E viu Deus que a luz era boa;
E fez Deus a separação entre a Luz e as trevas...

Sorri, ele enfim havia superado seus mestres. Hoje a noite se fez às 16 horas!


Roger Ribeiro

18 de maio 2010.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Brilho na Linha Amarela




Dizia ele:

- Quando não houver o que dizer, fique calado. Apenas observe. Se ela passar por você, fique nublado, deixe chover, escorrer pelo cabelo, descer pela coluna até o calcanhar mal disfarçado.

- Não deixe jamais trovejar, relampejar então, nem pensar, não que haja necessidade de ser um ator de teatro, não! Mas a faca entre os dentes é sempre um prenúncio de pecado, de desafio mal tocado, de seresta desafinada, de cordel mal ritmado. Escute o que te digo não há nada pior do que um choro mal chorado.

Ele andava de um lado para o outro em frente ao Rei do Pernil, no Comércio, onde não por acaso eu estava encostado no balcão tomando um refresco de tamarindo, bem geladinho, para aliviar o corpo interior naquela tarde abafada.

Fiquei olhando fixamente para ele e apesar do seu aspecto físico de louco, não via loucura em suas palavras, simpatizava com elas, achava-as até mesmo sábias. Será que ele havia passado por essas coisas de que se referia? Notei que olhou para mim com uma certa afeição, acho que percebeu que eu o dava atenção, aliás acho que eu era o único ali naquele balcão que notava-lhe a presença. Com um gesto, me pediu um pouco do meu refresco, pedi ao balconista que lhe servisse um inteiro. Paguei o meu e o dele e saí, meio constrangido, me sentindo meio mal ao perceber que o dele havia sido servido em copo descartável.

Saí cabisbaixo refletindo sobre a condição humana, lembrei que li algo de um intelectual local que traduzia as obras de Freud do alemão diretamente para o português brasileiro e que, em determinado momento ele dizia que era lento na ação e que traduzia uma página por dia (seria em busca da exatidão? Pensei), ri com ele ao dar conta de que ele havia encontrado uma função para toda a vida. O que seria que ele me diria sobre copos de vidro e de plástico na psique de um ser humano?

Lamentei que minha louca amiga tradutora também não mais estivesse com um mínimo de contato comigo, pois ela certamente saberia me dizer algo sobre tradutores e pessoas que passam o dia na rua traduzindo frases vagas, olhares, andares, sons emitidos, soluços fingidos, alegrias tristes, sorrisos sem dentes de ilustres desconhecidos que passam pela rua, sem notar-lhe a presença, mas dele não escapando. Sua tradução é afiada, é como dizia aquela antiga canção do Belchior: é como “um canto torto que como faca, corta a carne de vocês”.

Mas a diferença entre o meu copo de vidro e o copo de plástico dele, continuava a me incomodar apesar de eu entender a posição do dono da casa do pernil, que temia perder sua clientela se vissem aquele homem em estado natural, sem sabonete, perfume, xampu, cremes, dentifrício, aparelho de barba, nada, bebendo o seu refresco no copo de vidro que depois seria usado pela secretária executiva com seu talleur acompanhado de seu sapato de salto alto e fino, ornando com o cabelo preso na parte superior da nuca.

Não tinha jeito, mesmo entendendo a posição de coisificação humana do dono do pernil e também dono do refresco, não achava que ele fosse dono da verdade, muito pelo contrário, continuava achando que não haveria nada de mais em servir o nosso psicólogo social com o copo de vidro, situação de incômodo, diga-se de passagem, minha, pois ele não demonstrou nada, muito pelo contrário, pegou o refresco que lhe dei e saiu feliz e fagueiro, mas, julgava eu, era só lavar o copo, como, aliás, era feito após qualquer um ter tomado o refresco.

Eu ainda achava mais, afinal, e disso tinha certeza, da minha boca saíam muito mais besteiras, bobagens, comentários chulos, rasteiros, palavras feias, descabidas do que da boca dele. Portanto meu copo era muito mais sujo do que o dele, essa certeza me confortou e me envergonhou ao mesmo tempo.

Segui meu caminho, subi o Plano Inclinado Gonçalves, ultrapassei a Praça da Sé, o Elevador Lacerda, olhei com dor o abandono do Palace Hotel na rua Chile e resolvi entrar no novo Cine Glauber Rocha, para olhar uns livros, mas, principalmente, para me refestelar no ar refrigerado, fugindo do calor intenso.

Fiquei no ar frio de dentro observando as pessoas que passavam no ar quente do lado de fora. De repente revi o meu psicólogo social novamente. Vinha caminhando lentamente e largando suas observações para que o vento as carregasse, do nada parou, virou de frente para mim abriu um imenso sorriso de poucos dentes o que acabou por me seduzir a sair do meu aquário de ar frio. Chegou mais perto de mim, pegou no meu ombro e disse:

- Um sorriso é tudo o que o homem necessita, lhe foi dado uma caixa cheia e renovável deles, mas ele com seus medos o guardam, como fazem com seus bens, trancam no cofre do peito. Têm vergonha de dizer que são felizes onde tantos sofrem. Uns bobos.

Sorri para ele e como mágica brotou na minha memória o sorriso mais lindo que já vi em minha vida, ele vinha iluminando a cidade sobre a linha amarela da pista de automóveis entre a Barra e a Ondina, no meio da multidão.

Concordei com ele, sim uma linda raça de bobos! A sorte é que os melhores fabricam música!

Roger Ribeiro
06 de maio de 2010.


Roger Ribeiro
06 de maio de 2010.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

33 1/3 rpm



Este texto foi feito para Patrícia

Ficava melancólica, triste mesmo, todo dia ao final da tarde. Dizia que eram os tons, ao que eu rebatia afirmando serem os dons. Sempre ganhava um sorrisinho com isso, mas era apenas de boca, os olhos não enganavam, a melancolia dominava aquela menina de forma tão profunda que só poderia ser efêmera. Durava o tempo necessário do azul claro do céu avermelhar, arroxear e por fim tornar-se breu, aí... Adeus melancolia! Já era hora de pensar nas luzes, no brilho que se deitaria sobre a cidade morna em uma noite de outono.

Gostava de me levar para passear, se íamos ao teatro, ao cinema ou à casa de um amigo qualquer, sempre queria fazer o caminho mais longo, gostava de ver, de olhar e, principalmente, sentir o vento salgado bater no seu rosto, dizia que um dia viraria uma estátua de sal. Hoje, quando vejo estes artistas de rua fazendo aquelas performances de estátuas prateadas, douradas, ou seja lá como for, sempre me pergunto se ela virou uma de sal.

Viajamos muito juntos, tínhamos um jeito de gostar muito semelhante e isso nos atraía de maneira intensa, adorávamos as montanhas, as cachoeiras, os rios e ficávamos dias nas serras invertendo a realidade, inventando a nossa própria visão que nos permitia olhar, entre os nossos compridos cabelos, uma verdade que hoje pareceria infantil. Tudo são épocas, cada qual com seus moinhos, porém tenho de revelar, estive um dia em um local onde o céu era verde e a terra e sua vegetação eram azuis. Por favor, não ria.

Hoje, passando por uma antiga loja de discos, tão antiga que seus produtos a venda ainda se compõem de vinis, sim! Vinis, LPs, Compactos simples e duplos, tudo feito para girar em 33 1/3, dei-me conta de que o mundo já girou nesta velocidade. Engraçado pensar isso, hoje os Compact Discs (CDs) giram a uma velocidade estonteante, mas o que sai deles não possui a fúria que saía dos velhos 33 1/3, porém isso não tem a menor importância, foi só porque eu lembrei da guitarra de Alvin Lee & Ten Years After.

Mas, retomando a prosa, parei na loja dos discos e avistei de longe a capa de um álbum que freqüentava muito as nossas vitrolas e, assim como ela, há tempos eu não ouvia e nem via: Ivinho ao Vivo no Montreux Internacional Jazz Festival, um LP de Ivson Wanderley, registrado nos idos 1979. Entrei, comprei e não permiti que o dono da loja colocasse no saco quadrado preto fosco, não... Eu queria sair com ele debaixo do braço para que todos vissem o que eu tinha, o que eu ouvia, afinal era assim que arranjávamos as nossas namoradinhas!

Com o Ivinho debaixo do braço, continuei minha peregrinação pelo centro da cidade em direção ao trabalho. Era uma manhã quente, passei por bancas de rua improvisadas que vendiam peixes frescos, olhei para um Vermelho Ariacó fresquinho e fiquei meio frustrado, pois já o via nadando no dendê na minha panela de barro, mas tinha ainda um longo dia de trabalho pela frente e, tenho certeza, meus colegas não ficariam muito satisfeitos com aquela presença por muito tempo. Foi uma pena.

Tudo enfim parecia que seria igual à ontem, ou a antes de ontem, ou a qualquer dia desses mornos de outono, mas as aparências, muitas vezes, enganam. No caminho de sempre havia algo novo, era um tumulto, uma roda de pessoas que se espremiam para acompanhar algo que acontecia no meio daquele círculo humano. Fiquei curioso, afinal era algo novo no meio de um caminho que eu fazia de segunda a sábado, invariavelmente, há anos.

A ordem estava quebrada, as pessoas faziam exclamações de surpresa, depois se calavam atentas para novamente externarem um “ÔH!”, em uníssono, um verdadeiro Cantus Planus Gregoriano.

Olhei para o meu relógio e constatei que não daria tempo, era tudo cronometrado, se parasse me atrasaria e, se me atrasasse, quebraria uma tradição que já durava mais de década: jamais me atrasei.

Fiquei em uma situação embaraçosa, minhas pernas caminhavam para frente, mas meu cérebro contornava, retornava, atravessava para o lado oposto, para o lado de lá. Lembrei que jamais havia feito o caminho pelo lado de lá, não o conhecia, éramos estranhos um ao outro, fiquei frio, em plena manhã quente de outono, tive a certeza de que se atravessasse... Se irrompesse aquela divisória invisível, estaria para sempre perdido.

Onde estaria? Como regressaria? Se eu estava indo de lá para cá, só poderia ir por esse lado, pois aquele outro lado, apesar de paralelo, certamente conduziu de algum lugar desconhecido para qualquer outro lugar longe, muito longe, de onde eu tinha de ir. Onde estaria eu?

O temor me fez afogar no meu próprio suor, as pernas não mais iam, elas teimavam em vir, tropeçavam uma na outra, que absurdo, como minha mente podia ter a ousadia de mandar em minhas pernas?!

Senti na vertigem que alguém puxou do meu braço o disco do Ivinho. Isso já era demais saí feito louco a uma velocidade de 33 1/3, no rastro do LP, a vertigem me fez perder o equilíbrio, segurei em algo, respirei fundo e ouvi a melodia entrar por todos os meus poros:

I look at you all see the love there that's sleeping
While my guitar gently weeps
I look at the floor and I see it needs sweeping
Still my guitar gently weeps
I don't know why nobody told you how to unfold your love
I don't know how someone controlled you
They bought and sold you
I look at the world and I notice it's turning
While my guitar gently weeps
With every mistake we must surely be learning
Still my guitar gently weeps
I don’t know how you were diverted
You were perverted too
I don’t know how you were inverted
No one alerted you
I look at you all see the love there that's sleeping
While my guitar gently weeps
Look at you all...
Still my guitar gently weeps *

Senti meus olhos arderem, a boca secar, era como se tivesse acabado de sair do mar... O disco do Ivinho estava sobre o meu colo, o brilho ao redor era de uma intensidade tal que tornava impossível a nitidez plena, o real não passava de vultos brilhantes. Tive a sensação de que entre a floresta de brilho que estava, ter avistado um vulto especial, sorrindo para mim, um vulto de sal girando a 33 1/3.

Roger Ribeiro.
29 de abril de 2010.

* While My Guitar Gently Weeps
George Harrison

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ling,Ling, Lin, Rouxinol!


Apertou o nó da gravata, passou um pano seco para dar brilho no sapato, fechou o paletó, passou a mão esquerda nos cabelos e saiu sem olhar para trás, sem dizer uma palavra, sem alterar o semblante. Os olhos cor de mar da Penha na Ilha de Itaparica pareciam brilhar mais intensamente naquela noite escura de lua nova.
Era o momento de escutar as criaturas da noite, por isso se fazia necessário todo um ritual de preparação; durante o dia o mínimo deexposição a sons altos ou estridentes, agudos demais, falar então... somente o indispensável. Era preciso estar pleno, todo aberto, era como se o corpo como caixa de ressonância precisasse estar vazia, limpa, limpíssima, para captar até os sons mais longínquos, de freqüências quase imperceptíveis, quase como se necessário fosse ouvir o som da luz se espatifando na parede!
Era realmente uma figura estranha: alto, muito alto, magérrimo, curvo para frente daquela forma em que o nariz chega sempre muito antes do resto do corpo nos lugares, vestia-se de uma elegância um tanto quanto, se não assustadora, pelo menos morbida. Terno completo e negro, acompanhado de uma camisa de seda grafite e o mais claro era a gravata italiana de um cinza chumbo, ornada por uma garra com um rubi. Logicamente, evitava locais de grandes aglomerações ou intensa presença de veículos. Seus locais eram ruelas residenciais de preferência com alto índice de moradores da terceira idade, pois estes dormiam cedo, silenciando suas casas e arredores, havia mapeado a cidade e sabia de todas as ruas e ruelas que possuíam estas características.
Certa feita, ao ser entrevistado por estudantes universitários, destes que acham que o que não é regra é cult e é moderno gostar de pessoas cult (como costumam chamar os seres que minha geração chamava simplesmente de malucos). Perguntaram-lhe porque não ia morar numa mata, na Chapada Diamantina, no Capão, afinal cult que é cult, vai pro Capão se integrar com a natureza, Nosso amigo curvado que estava com o queixo apoiado nos punhos e o braço no joelho, abriu levemente os “líquidos” olhos azuis esverdeados e disse, calmamente: “sou um homem urbano”.
Já não era jovem, aliás, longe disso. Seus cabelos ralos e de longos fios grisalhos demonstravam claramente se tratar de um senhor, criavam-se muitas histórias que iam cada vez mais mitificando aquele senhor de tez alva cera, mãos compridas e dedos finos, aquilo que costuma-se chamar de mãos de pianista. Diziam que já havia sido professor universitário, coveiro, pianista, pintor. Também surgiam histórias horripilantes que o vendiam como vampiro, fantasma, seqüestrador de crianças e, aquela verdade para todos nós, que há décadas atrás, tínhamos não mais do que dez anos: lobisomem, sim na nossa cidade havia um legítimo.
Estas lendas eram passadas de um para o outro e, ainda hoje, todos explicam suas saídas apenas na lua nova ao cansaço que tinha de tantas e tantas metamorfoses de homem para lobo e de lobo para homem. Possuía um par de orelhas enormes. Será que assim ficaram de tanto ativar para melhor ouvir? Não sei, mas que eram enormes isso eram! E com este belo par de orelhas saia para escutar as criaturas da noite.
Dizia que as urbanas eram as mais instigantes, comunicavam-se por sons nunca antes perceptíveis pelos homens e viviam em todos os lugares, nas frestas, nas crostas das arvores, debaixo do asfalto, das calçadas, algumas eram aladas e, como morcegos, se guiavam por reverberações sonoras, andavam por debaixo da terra, mas acima de tudo emitiam sons.
O velho grisalho não carregava consigo gravador, microfones, nada para registro. Sabia que estes seres eram muito ariscos, não gostavam da civilização humana e não queriam por ela serem descobertos, sabiam que se assim acontecesse seus dias estariam contados. Viviam no mesmo planeta, e no mesmo espaço que nós, porém é como se estivessem em dimensões diferentes, paralelas.
Tudo isso fazia daquele homem um ser efetivamente estranho, cult para os mais novos ou louco para os mais velhos. Mas uma coisa é certa, por todas essas décadas nunca ninguém havia ouvido falar de uma maldade se quer produzida por ele. Um Homem incapaz de machucar uma formiga, diziam.
Nesta noite, saiu por volta das 20 horas, impecável, não usava perfume, pois o cheiro forte e artificial inibia as criaturas, pegou um táxi e saiu como quem vai da beira mar para o interior da cidade, uma cidade aonde já não se encontram ruas e ruelas silenciosas, uma comunidade que produz uma enormidade de barulhos compatível à de lixo. Uma cidade aonde os anjos já não adormecem no peitoril dos sobrados, um lugar aonde as pessoas falam alto, muito alto, gritam muito, berram... Uma cidade onde as pessoas não sabem mais o que dizem e porque dizem.
As criaturas da noite silenciaram ao amanhecer, acordei na alvorada e fui para o portão de casa para ver meu velho vizinho chegar. Oferecer-lhe uma xícara de chá quente e pedir-lhe para que me narrasse as aventuras sonoras dos micro tons desta noite.
Ele não desceu do táxi, não subiu a rua com seu terno negro e seu passo largo, não olhou-me com aqueles olhos de mar.
Acho que esta noite ele reencontrou seu grande amigo Walter Smetak.
Você está ouvindo?

Roger Ribeiro
14 de abril 2010.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Super-Homem





Colocou a calça jeans cor de couro cru que tanto gostava e escolheu a camisa de tecido branco de manga longa para proteger a pele do sol, sempre dizia que as pessoas erradamente se protegiam do calor se expondo ao sol, para ele o segredo era exatamente o oposto, quanto menos o sol tocasse sua pele mais fresca ela permanecia e consequentemente, menos calor sentia.

Era uma teoria, não havia necessidade nem de concordar nem de discordar dela, afinal não mudaria o curso nem do tempo, nem do espaço, muito menos da humanidade.

Neste dia em especial estava eufórico, não pensava em outra coisa a não ser nos físicos cientistas que havia posto em funcionamento o acelerador de partículas, só lamentava que não houvesse sido aqui em sua terra e sim lá no hemisfério norte, na Europa. Isso o enfurecia, afinal porque tudo tinha de ser no hemisfério norte? Ora, dizia – eles deveriam nos respeitar observar nossa busca incessante pelo equilíbrio entre a terra e o oceano.

Bem aí já é uma outra teoria do nosso jovem rebelde que para ser a reencarnação perfeita do James Dean, só faltava o topete e o olhar melancólico. Nem tudo pode ser perfeito, mas dos seus devaneios não abria mão em hipótese alguma.

Passou por mim apressado e quando me notou retornou correndo, pegou em meu braço e saiu me puxando ao mesmo tempo em que falava como um texto da ‘Geração Beat’, não havia pontuação, pausa, não havia nada, era um encadeamento de palavras que iam se sobrepondo, no caso dele, sem formar algo, nem ligeiramente, inteligível.

Consegui que ele parasse um pouco, pedi que respirasse e pausadamente me falasse o que desejava. Não foi fácil, mas enfim...

Passou então a me falar sobre o acelerador de partículas da ciência física e como esta em breve entraria em contato direto com as experiências da célula tronco, das ciências biomédicas e como deste encontro, um novo ser surgiria, segundo ele seria a redenção, algo com o poder de abstração e conhecimento de César Lattes, somado à sensibilidade social de Darcy Ribeiro, mais a poesia de Bob Dylan, mais o equilíbrio de Vaslav Nijinsk, e a percepção de Salvador Dali. Seria algo grandioso para a humanidade.

Fiz uma cara de interrogação e perguntei-lhe:

- Meu caro! Essa experiência toda não seria algo perigoso? Isto me remete a coisas de Homens Perfeitos, raças superiores e estas coisas que a história já nos mostrou serem eugênicas demais. O homem é o que é. Essa diversidade o torna um ser efetivamente interessante...

- Você não está achando que quero criar um super-homem e substituir a raça humana por este, não é mesmo? Ora te conheço há décadas e sei que tens mais cérebro do que isso.

- Bom; obrigado pelo quase elogio, mas pelo seu discurso...

Não me deixou acabar a fala.

- Claro que não, afinal eu não preciso criar o que já existe. O que creio é que a conjunção destas experiências físicas e biológicas podem, isso sim, acordar este ser que adormeceu. O homem necessita recobrar em sua memória que ele é o super, e que justamente por isso muito, ou quase tudo que está em cima desta bola depende deste despertar.

- Hum... A coisa está começando a clarear. Por falar nisso não sabia desta tua paixão pela física.

- Escuta vem comigo que quero te mostrar algo.

Pegou novamente no meu braço e saiu me arrastando, falando novamente sem pontuação e sem pausas, o que atribuía a sua fala um idioma ininteligível. Pegamos um transporte para a Ribeira e ao chegar paramos na rua da orla e ficamos por um tempo a observar o fundo da Baia de Todos os Santos, Eram onze horas da manhã de um dia claro e azul, a luminosidade transformava o entorno entre a Ribeira e Plataforma em algo quase místico, era de uma beleza indescritível.

Meus olhos marearam enquanto os dele permaneciam “duro”, fixos em algo entre uma margem e outra. Sua fisionomia era inabalável, sabia exatamente o que procurava, enquanto eu não procurava nada, apenas me permitia poetizar o meu olhar.

- Venha!

Acordou-me do meu êxtase visual, entramos em um cais, pagamos um real cada e entramos no transporte marítimo que liga uma ponta à outra. Exatamente no meio da travessia, ele voou com uma agilidade incomum para a sua idade e desligou o motor da embarcação. Todos o olharam assustados e perplexos, ele com sua calça deans cor de couro, sua camisa branca de manga longa e tecido fino e sua “surrada bota de guerra”; bradou:

- Vejam, olhem ao redor desta bela baia, o que vocês vêem? Beleza?! O super-homem precisa despertar rápido em nós ou o “Crac”, continuará corroendo a humanidade de nossas crianças, transformando águas cristalinas em lodo, poesia em meras palavras, música em barulho.

Abaixei a cabeça, por um instante e lembrei de uma poesia do Bob Dylan em que ele alerta que “uma forte chuva irá cair”.

O motor retomou o seu funcionamento e, novamente em terra firme, não consegui mais enxergar aquele local como antes.

Roger Ribeiro
05 de abril de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Louco, eu?!


Sempre despreocupado, nada nem ninguém o tirava do eixo, dizia sempre a quem quisesse ouvir que a Terra era um grande jardim que lhe haviam presenteado para que pudesse passear, vagar, admirar!

Também não se importava com esse negócio de saúde, se entregava aos vícios de forma plena e dizia:

- Tudo que está presente é para ser experimentado. Não adianta temer, pois a morte é o destino único e em algum lugar, um ser irá sabatiná-lo sobre o que viu, o que experimentou e o que sentiu em seu estágio terrestre e se você, por seus medos e preconceitos, pouco ou quase nada vivenciou, serás então por toda a eternidade um desperdício divino.

Por isso fumava, mas não pense você que era um fumantezinho daqueles de fim de semana, ou do cigarrinho após o almoço. Não, nada disso, o negócio era profissional. Acendia um cigarro na “guimba” do outro, isso ininterruptamente, do acordar até o ir dormir, quando não acabava dormindo com o dito, ainda aceso na boca, o que lhe rendia uma série de marcas de queimaduras no peito. Eram as medalhas.

Bebia bastante, comungava com o ditado, que dizia ser escocês, de que “a realidade era uma falta profunda de álcool”. Tomava leite com manga, comia jaca mole e saia no sol quente, dizia gracejos para qualquer moça que passasse a menos de um metro dele e não importava se estava acompanhada ou não, se era branca, preta, azul ou rosa, se era magra ou gorda, baixa ou alta, não interessava, queria ser feliz e que as pessoas que por ele passassem se sentissem queridas, belas, amadas. Um dia lhe perguntei em tom de brincadeira se os homens também não eram merecedores de partilhar a felicidade? Ele me olhou de canto de olho e sem rodeios disparou:

- Seres desprezíveis.

Calei-me.

Gostava de andar, andava a cidade inteira, por vezes falava de amigos que construía nas suas andanças. Dos que falava, o que demonstrava mais afinidade e carinho era um tal de um barbudo das botas pretas, sempre se referia a ele com deferência. Pelo que dizia, o julgava um sábio, alguém que por sangrar no coração acabou por desenvolver uma forma peculiar de raciocínio emocional, dizia ser um helênico.

Parei certo dia na esquina do colégio Manoel Devoto para comer o abará de Dona Maria, sem dúvida um dos melhores ofertados na cidade, e para o bem, não era ela uma das “quituteiras de grife”, que abundam o antigo pacato e provinciano bairro do Rio Vermelho.

Enquanto pedia meu abará, invariavelmente só com pimenta, senti uma mão apoiar-se no meu ombro e com uma voz um pouco tensa dizer:

- Você se lembra de Catarina Peixeira? Da Mulher de Roxo? Do Homem da Gruta de São Lázaro?

Apesar do timbre grave da voz, eu imediatamente a reconheci, virei-me e disse:

- Desta estirpe só restou Samuca.
- Como podem desaparecer, e ninguém se quer lembrar deles?
- É verdade... Quer um abará?
- Estou sem recursos.
- Que nada, pegue aí um.

Cada um com seu abará em punho saímos caminhando para o ponto de ônibus. Era fim de tarde e havia uma enorme horda de estudantes vagando pela calçada, esperando o transporte, mas acima de tudo, fazendo barulho. Existem duas coisas no mundo que fazem algazarra ao final do dia: os pássaros e os adolescentes.

Paramos no abrigo do transporte e ele, recuperando seu tom sempre sereno de voz, comentou:

- Este é o horário de maior vida nesta cidade! O barulho, os carros, as meninas que correm e os meninos que correm atrás das meninas, os pássaros que voam a gralhar, os odores de comidas misturados aos de gasolina, óleo diesel, uréia nas esquinas e postes, tudo enfim, tudo isso junto demonstra que aqui há vida.

Fiquei ouvindo, e meu olhar se desviou do foco. O semáforo que fica a três metros de onde estávamos fechou e fiquei observando o reluzir daqueles carros metálicos brilhando à luz do sol que se ia e das luzes do poste que se acendiam, a impressão que tive ao juntar o som com a imagem era de que a cidade ardia em chamas, labaredas passavam zunindo ao abrir o sinal e acalmavam-se quando o vermelho brilhava no asfalto negro.

Quando olhei para o lado novamente, ele já não estava lá! Fiquei confuso, olhei em todo o redor. Aonde teria ido parar? Procurei por fumaça de cigarro, caminhei até a esquina e olhei no bar, nada. Ônibus algum havia passado. Por onde ele se foi, para onde? Por um momento, achei que ele, na verdade, nunca havia estado ali, mas contei o dinheiro do meu bolso e vi que realmente faltava exatamente a quantia de dois abarás. Respirei um pouco aliviado, não estava ficando louco.

Lembrei da sua chegada e das pessoas citadas por ele, todas sem exceção, viviam em planos paralelos ao dito plano real. Por infinitos instantes, temi ter perdido também a noção deste real, não que ele seja grande coisa, mas ficar no intermeso não deve ser também lá muito confortável.

Foi exatamente neste instante, entre o som do real e a fúria da loucura, que lembrei de você. Estavas linda com seu vestido vermelho de laço na cintura, sua pele morena, seu sorriso tímido que apertava os olhinhos escondidos no óculos oval de lentes grossas de miopia, os cabelos longos escuros e um leve sotaque mineiro de ser.

Ali, parado na calçada vivi novamente o momento em que na escada do prédio de meus pais, pedi auxílio à Lô Borges e te perguntei: “você ainda quer morar comigo?”.


O sinal abriu, os carros aceleraram e tudo ganhou uma velocidade nauseante. O mundo redefiniu os caminhos. Muitos treze de março passaram...

Resolvi ir caminhando, não sabia muito bem para onde, mas segui o fluxo do trânsito, passo após passo, ia lembrando de músicas que reavivavam lembranças e também ativavam sonhos que apontavam para o futuro.

Senti novamente uma mão no meu ombro...

- De Catarina Peixeira, a Mulher de Roxo, o Homem da Gruta de São Lázaro, Samuca... O mundo é dos loucos! Quer um cigarrinho?

- CARAMBA! Que susto Malí. Vai matar o diabo!


Roger Ribeiro
18 de março de 2010