segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Façamos um Brinde!





Dia 31 de janeiro;
é dia de um baiano retado.
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- Saúde! Muita saúde!
- Dinheiro! Felicidade! Saúde, sim saúde!
- Ao Baêêa!!
- Nada, aqui, só dá o Leão!
- À vida! Todos de pé, vamos lá... À vida!

O retorno veio rápido e certeiro; uma voz cambaleante, verdadeiramente embriagada, vibrou do último banco do balcão.

- Nem saúde, nem dinheiro, nem felicidade, nada! Nada disso, só e apenas uma coisa é fundamental para se viver nesta Vila dos efes gregorianos; humor, muito senso de humor meus jovens, nada mais que isso, aliás, sem ele o destino é um só: acabarás louco, aluado, doido varrido!

O silêncio se instaurou. O local não estava muito cheio, e o barulho que até então fazia lembrar estarmos em uma taberna contemporânea, vinha exatamente daquele enfileiramento de mesas onde, mais ou menos, quinze adolescentes tentavam brindar a alguma coisa que não se definia.

O silêncio foi quebrado em fim com uma zoada seca: scapufff! Todos olharam e era o nosso querido interpelador de brindes que havia despencado do seu banco e resmungava algo, acho que, em “aramaico arcaico” estatelado no chão.

Alguns meninos levantaram na intenção de socorrer quando a voz de dentro do balcão intercedeu:

- Não se apoquenta não criança, é assim todos os dias a mais de quinze anos, ali é o lugar dele. Vê aquela obra ali... Pois, tive de mudar o toalete de lugar, pois a entrada do anterior era exatamente onde este ser deita todos os dias, não sei como Deus ainda não o levou, pior, deixa esta cruz aqui para eu e meu bigode aturar. Se incomodem não, vão brincar, daqui à uma hora ele levanta toma mais uma e cai novamente (falou abrindo um sorriso que mostrava sua boca toda dourada).

- Mas gente... - falou a menina magrinha de cabelos avermelhados e longos - finalmente a que vamos brindar?
- Já falei... crianças, arg! Não aprendem, ao humor!
- Fica quieto Neneca, se não mando chamar dona Margarida, prá te levar e por debaixo de uma boa ducha fria, que é o que estás a precisar.
- Bom (desta vez tomou a palavra um rapagão, forte de cabelos curtos e voz um tanto quanto fina para a potência do seu corpo), devemos brindar ao que move o mundo! Viva o amor!

- Ai... Esta até doeu, será que nenhum destes cretinos irá usar o cérebro!

Nosso querido Neneca começou a buscar o banco como aliado para uma tentativa um tanto quanto hercúlea; Levantar a velha carcaça carcomida por um oceano de álcool, ao qual estava submerso; creio, desde o naufrágio do Galeão Sacramento, esforço daqui, esforço dali, força, a luta contra a gravidade era efetivamente grega, Odisseu virava conto infantil em sua lida com os Deuses frente aquela batalha que ali, no fundo escuro do imundo bar, ops! Bar não, Empório.

Sim Empório, e tinha de ser assim com letra maiúscula, o Empório São Cristovam de Seu Alaor, aafi, se ele ouvisse ou soubesse que você havia chamado o estabelecimento de bar... Hum! Das duas uma, se estivesses nele eras convidado a retirar-se, se nele não se encontrasse, terias seu nome escrito no quadro de giz em frente ao Empório, como pessoa não grata no estabelecimento.

- Vejam o Seu Alaor meninos, vive nestas bandas a mais de sessenta anos, possui o último Empório do além mar, vive aguardando a Nau trazer as barricas de bacalhau, azeite e especiarias, cultivou esta protuberância estomacal com o mesmo zelo que mantém este “ruibarboseano” bigode. É a memória viva, fez o bufet do casamento de Diogo Alves Correia e Catarina Paraguassú, vendeu pastel com guaraná da Fratelli Vitta para JJ Seabra e Antônio Balbino, conseguiu cobrar e receber dívida de Quincas Berro D’Água, conseguiu fazer Mário Sérgio brindar com Roberto Rebouças, ou seja um homem na história desta cidadela e é assim... Rabugento...

- Olha que te arremeto o salame na fuças... seu...

- Não falei, olha só, tá parecendo um pimentão não consegue ser feliz. Sabem por quê? Heim... Alguém aí sabe?

Stttrrrechhhh... Desta vez além de se “estabocar” no chão, levou também a mesa de metal - graças ao Senhor do Bonfim só havia um copo que se espatifou junto a ele.

- Ai minha Nossa Senhora de Fátima... Com este já vai prá mais de uma dúzia só este mês.

Do chão mesmo, Neneca completou:

- Não tem humor... É um velho ranzinza, mal amado, triste... Não consegue conviver com os carros sobre as calçadas, nem com o cheiro intenso de urina por todos os cantos, sem falar dos palavrões em qualquer lugar e a qualquer hora. Até o carnaval, que ele tanto gostava, saía vestido de viúva lisbonense, pois até o carnaval, para ele virou depravação pura, odeia as músicas de carnaval atual, diz que se enganou, pensou que nada seria pior do que o Rock, quando nos anos cinqüenta por aqui aportou, hoje acha o tal do Rock angelical frente aos locais mais inusitados e depreciativos em que as moças são clamadas a esfregar a tcheca, a bochecha, o than e os cambaus!!

- Aêêê, colé seu Alaor, assim não dá... vai dizer que não gosta de um pagodinho?
- Olha meninos desaforados, é melhor não dar ouvidos a este cachaceiro de uma figa, se não boto cês tudo pra correr.
- Não falei? Eu disse a vocês! E agora vocês querem ficar como ele? Como eu? Então garotada... Vamos todos de uma única vez, levantemos os nossos copos e com uma sonora gargalhada brindemos:

E o som ecoou pela cidade – Longa vida ao bom humor!

- Seu a Alaor (falou um molequinho que entrou no Empório), mainha pediu pro senhor mandar um quilo de farinha de guerra e por na caderneta.

Chaff, chiiiii... Ficou no ar o som da farinha escorrendo no saco de papel pardo.

Roger Ribeiro.
31 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pega! Não, deixa voar.


Em agradecimento a 2010.

Não é nada assim impossível, muito pelo contrário é uma caminhada de, no máximo, um quilômetro bastante agradável, principalmente porque havia se resguardado do sol escaldante e uma brisa muito fresca se fazia presente, arejando-lhe a fronte, tornando tudo ao redor em uma paisagem típica de filme Espanhol (pós surrealistas, claro).

Ao seu lado esquerdo o mar encrespado pelo vento nordeste baixo típico do fim de tarde, deixava-o com uma cor de azul fundo encorpado, era água se arremessando para todos os lados, parecia que o grande vale onde se aloja o mar estava pequenino para sua fúria. Os olhos andarilhos observavam a fúria com complacência, no fundo da retina sabia quantas e quantas vezes já havia passado pela mesma sensação da cavidade do seu peito ser mínima para a fúria de sentidos que afloravam.

Os passos eram lentos, porém firmes, os ouvidos atentos conseguiam, com raros erros, identificar o modelo do automóvel que se movia veloz à sua direita. Divagava nos pensamentos imaginando como seria morar em Nova York. Estaria neste momento perto do ano novo e certamente viveria uma experiência que não conhecia, afinal como seria o dia-dia em uma cidade coberta de neve? Como será acordar, sair, se transportar ao trabalho? Seria tudo normal? Não conseguia sentir a sensação exata do que seria isso.

Sabia apenas de uma coisa; não tinha vontade de passar o fim de ano lá como turista, não tinha o menor gosto nisso, para isso preferia passar o período nas areias do Arpoador na festa de ano-novo mais autêntica e natural que conhecia.

Na verdade pensava era como se vive na maior cidade da civilização Ocidental - ela sob eu sobre a neve? Era este cheiro, este tato, este gosto que queria sorver. Será que eles param em um quiosque e pedem um café bem quente? Será que há quiosques?

Seu cérebro estava de tal forma dominado por estas curiosidades que o caminho tornou-se uma paisagem sem registro, já não percebia o que estava à sua volta, não percebia mais nada! Estava dominado por seus pensamentos, parecia que tudo aquilo se decifraria a alguns metros à frente. Esqueceu que estava de calção de banho, camiseta regata e sandália de dedo, não percebia que se realmente estivesse a metros de seus pensamentos, estaria em sérios apuros com seus dois reais que levava para a água de coco, estaria enrascado, ou melhor, em uma gelada.

- Meu filho!

Era a voz de uma senhora sem dúvida e esta o tirou, vagarosamente, porém sem retorno, de sua quimera cerebral.

- Meu filho! Por favor...

A voz começava a mostrar certa irritação com a distração do alvo.

- Por acaso sabe me informar como chego à Quinta Avenida?
- Hã? Quinta o quê?
- Quinta Avenida meu filho! O que há com você está drogado? Necessita de ajuda?
- Nããão... De forma alguma, desculpe-me apenas estava distraído.
- Hum... Você conhece o livro “Distraídos Venceremos”?

“Ainda ontem
Convidei um amigo
Para ficar em silêncio
Comigo
Ele veio
Meio a esmo
Praticamente não disse nada
E ficou por isso mesmo”.*

Ao ouvi-la foi lentamente dirigindo os olhos que antes vislumbravam, meio turvamente, o Farol da Barra e dirigiu-se para aquela pequena senhora que lhe abordava. Ela tinha a pele morena clara e, pelos muitos anos que acumulava, a pele soltara da já inexistente carne ficando uma pele longa e enrugada sustentada por finos ossos, estava belamente vestida de Mulher Maravilha, com aquela saia de bandeira norte-americana estilizada e prendendo-lhe os prateados fios de cabelo a tiara com a estrela maior.

- Bom (falou ele recuperando o senso de real), a senhora quer ir à Quinta Avenida?
- Afii!... Eta povinho difícil sô! Pois já não te falei isso?
- A senhora está vendo aquele Farol?
- Espera, deixa-me acionar meus olhos de laser! Sim, nitidamente.
- Pois então, a Quinta fica exatamente à oitava volta do farol vermelho sobre a quina da Pedra dos Peixes.
- Ô meu filho, que Deus o abençoe... Muito obrigada.
- Não por isso, vá com cuidado.

Ela partiu, ele continuou o seu caminho como se nada tivesse acontecido, permaneceu olhando, ora em frente admirando a arquitetura do forte guardião dos “olhos do mar”, ora para as ondas que travavam a remotíssima batalha com as poderosas rochas litorâneas, sempre as imaginei como filhas de Erik o Vermelho.

Andando distraído tropeçou em algo, quase caiu, olhou para trás e viu tratar-se de uma fina e esquelética perna, assustou-se, será que a havia machucado? Olhou para o corpo que cabia àquela perna e apressou-se:

- Perdão minha senhora, estava distraído... e...

De repente reconheceu, era ela novamente! Mas como pode ser? E a roupa de mulher maravilha? Estava agora toda rota, suja... O que haveria acontecido?

- Senhora, lembra de mim? Há pouco lhe indiquei o caminho da Quinta Avenida?
- Sim meu filho, claro, você foi tão gentil! Como iria esquecê-lo?
- O que aconteceu?...
- A Quinta Avenida é linda meu filho, mas seus encantos são traiçoeiros, morei lá por tempos, desde que me indicastes o caminho, ouvi jazz, cansei de ver a bola do ano novo, porém me enamorei mesmo, foi pela maçã, perdi os dentes, mas não perdi o sabor da vida!
E você que não vejo há tanto tempo, continua andando distraidamente pela vida? O que fizeste durante o século XXI?

“(...) Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:

fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda”**

-Eu?!


Roger Ribeiro
31 de dezembro 2010.

* “Arte do Chá” – Leminski
** “O Sim Contra o Sim”- trecho – João Cabral de Melo Neto.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Acontece todo dia


É algo incompreensível! Falei alto olhando para os próprios sapatos. Até parece que estou ficando louco. Veja você (agora falando com o Barba que havia retornado do banheiro), Ela diz que não é nada disso e que tudo é fruto de minha fértil imaginação, mas não é o que os fatos mostram! Você mesmo é testemunha, quantas vezes você presenciou, porém não tem jeito, é sempre a mesma conversa, a insensibilidade é sempre minha e fim de papo, fazer o que?

Na verdade é uma coisa bem diferente... Não há aquela relação de querer fazer junto sabe?

- quer um pastel? Perguntou o Barba.

Sim, me veja um de palmito, por favor.

Escuta, sei que já não agüenta mais esta conversa, mas eu preciso descobrir como funciona esta coisa, ou melhor, como funciona aquela cabeça?! É quase impossível entender, é como se de repente desse um curto circuito...

- Ora, ora meu velho amigo, você nem parece que anda com esta bota velha! Veja bem quantos caminhos você já andou, quantas loucuras já destrinchou, tens estrada o suficiente para saber que não funciona assim, aliás, nunca - em tempo algum - funcionou. Vamos deixa disso, hoje tem o show daqueles dois violonistas que você gosta, vou com você, tomamos um trago e passaremos uma noite bem mais divertida do que nesta birosca, comendo pastel.

Enquanto Barba falava, senti que alguém mais nos observava, não deu nem tempo de procurar, o procurado se apresentou:

- Boa noite, sou Marco Antônio, mas todos me chamam de Nuvem, acho melhor, pois Marco Antônio tem som bélico, não gosto, prefiro o nome pelo qual sou conhecido, ele é muito mais leve, fluido!

Confesso que fiquei meio assustado com a abordagem, mas a profunda calma e complacência do Barba me tranqüilizaram.

Sim acho que já o vi aqui outras vezes.

- Claro que sim, tá vendo aquela bicicleta incolor metálica ali encostada? Pois, sempre estou com ela, outro dia mesmo você quase tropeçou nela, vou-te dizer, foi por um triz.

- Ola rapazes, tudo bom?

Olhei em direção à voz e... Era uma linda jovem de cabelo preso na nuca e vestida de bailarina. Respondi: olá! Sim tudo corre muito bem, acho.

- Sabe, falou ela olhando fixamente para nós três, tenho de ensaiar o meu número para a apresentação de amanhã, mas os meus músicos não vieram me deram bolo, será que vocês podiam fazer o favor de tocar o tema para mim?

- Gostaria de todo o coração, meu anjo, mas não sei tocar nada!

- Claro que sim, responderam simultaneamente o Barba e o Nuvem, porque não? Será um prazer!

- Poxa muito obrigada, vocês são estrelas que o destino colocou no meu caminho.
Pegou sua enorme bolsa (não sei por que mas dançarinas sempre andam com bolsas enormes)e de dentro dela começou a retirar coisas, primeiro um violino, que entregou ao Barba, depois um bandolim, que foi alojar-se nos braços do Nuvem e por fim um trompete prata brilhante que grudou em meus lábios. Um detalhe, sem importância, mas que não pode faltar: jamais em minha vida pus sequer uma daquelas flautinhas doce de plástico na boca.

Barba começou a tocar como se ensaiasse com ela desde que o samba é samba, Nuvem então chegou a sugerir que se trocasse um acorde por outro em determinado compasso de uma música que nunca nem eu, nem nenhum dos dois havia se quer ouvido. Mas lá estávamos nós em meio ao bar trocando informações sobre tons, dinâmicas, pausas, fugas, stacatos e afins.

Do nada, Dona Camélia, a sempre mal humorada esposa do Bigode, dono do bar, tirou de debaixo do balcão um surrado teclado cor de rosa e começamos a tocar.

Todos se afastaram e a nossa menina começou a bailar no meio do salão, era divino, eu solava no trompete como se minha vida intera tivesse feito isso, Nuvem, Camélia e Barba, sorriam e nem se olhavam, o tema saia com uma naturalidade magistral.

De repente as luzes foram se apagando e apenas um feixe dela se lançava ao centro do salão, nossa menina, agora vestida de um traje espanhol pesado e denso, escondia metade do rosto em um leque de seda negro, aproximou-se de um microfone que sei lá de onde apareceu!? A banda lançou um acorde de preparação longo no qual larguei a sustentação de um si sustenido na oitava mais alta que consegui tirar do meu prateado instrumento. Veio então a voz possante, estremecendo todos no bar:

Cuanto te ame, puedo decir
Que jamás a outra mujer,
Podre querer como a vos.
La juventud no volverá nunca más
Y a La ambición ya puedo darte El adiós
Que tiempo aquel,
Hora fugaz que se fue
Todo El valor de uma pasión conocí.
Cuantas feliz frases de amor escuche,
Que siempre yo, sumiso y fiel te crei
Lãs carícias de tu manos
Tu palabras de ternura,
Dejaron cruel amargura,
Porque nada fue verdad
Bejos falsos de tu boca, juramentos, ilusiones,
Mataron mis ambiciones, sin um poço de piedad.
Pero, por El mal que vos me hiciste,
Solo dice mi alma triste
Mentirosa, mentirosa
Todo lo que me hás echo pasar,
Penas ilanto, con outro lo has hecho pasar,
Ya encontrarás quien um amor fingirá
Y entonces si, vas querer sin mentir has de ser vos La que AL final llorará
Ha de sangrar tu corazón AL pensar,
Em todo El mal que hicistes a mi ilusión
Y hasta AL morir, hasta El morir, mirarás
Los ojos Del fantasma de tu traición
Pero, por El mal que vos me hiciste, solo dice mi alma triste,
Mentirosa, mentirosa
Todo lo que me has hecho passar
Penas lanto com outro lo has de pagar*


Era algo mágico, olhava para barba e as lágrimas desciam sem parar, não conseguia me conter. Ninguém dizia uma palavra, reparei que estavam todos de olhos fechados, só eu via aquela menina, tão sombria naquele momento, interpretando com tamanha força aquele tema tão doído que o mundo parecia ter parado. A Terra parou de girar, meu coração parou de bater.

O dia foi amanhecendo, encostei por um minuto a cabeça no balcão e quando levantei, já não havia nada em volta, nada. Procurei meu trompete, a menina, o Nuvem, nada, nada... Não mais havia nada, somente eu e o barba sorrindo para mim.
- Vamos (falou)

Sim, não disse mais nada, apenas olhei para o expositor do bar e vi o pastel de palmito, olhei fixamente para ele e por um momento, juro, o vi dando uma imensa gargalhada da minha cara!

Roger Ribeiro

25 de novembro 2010.

*La Mentirosa – Carlos Gardel

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sem tensão heim!


O despertador avisou, berrou, triliííííntou até ficar rouco, era hora de acordar. Bambo olhou em direção aos ponteiros, eram 6:00 horas de uma manhã já quente, uma nuvem ao longe indicava que em alguma hora poderia cair uma chuvinha rápida daquelas que só servem para evaporar e piorar em muito a situação. Não havia jeito, o mundo estava de cabeça para baixo e nem mais a primavera era respeitada, afinal cadê as borboletas? Sim! Onde estavam elas que tão fartas eram nas frescas primaveras e agora, creio, mal nasciam e o calor já derretia suas asinhas, borboletas sem asas, que coisa ridícula.

Sem outra opção levantou-se e calculou todo o tempo de que dispunha até sair de casa, era um ser de cálculos, gostava de calcular tudo milimetricamente, a sorte era que o que possuía de calculista possuía também de anárquico senso de humor, aliás, todos acreditavam que só calculava tudo para poder rir muito dos erros dos cálculos. Vivia se atrasando aos compromissos, sentia uma brisa úmida e calculava que dali a, no máximo, duas horas iria chover... Que chovia, chovia! Mas, dali a umas vinte e quatro horas!

De tudo isso ria muito e não cansava de contar a todos os seus erros de cálculos mais recentes, errava tanto que só de filho já estava no sexto, mas dizia que não erraria mais. Encontrei um dia com Maria, a sua gentil esposa, e perguntei-lhe (meio na galhofa): “e aí Ma, quando vem o sétimo?” Ela respondeu: “não, agora ele não erra nunca mais nos cálculos, operei, fechei a “fábrica””. Rimos muito, e ela me contou que agora a diversão dele era calcular os astros para acertar o destino profissional dos seis rebentos! Fiquei na dúvida se ela acreditava ou zombava do que dizia.

Dirigiu-se à cozinha e metodicamente lavou as louças da noite passada e produziu um café da manhã para os sete - a mulher e os seis filhos - cozinhou banana da terra, aipim, fritou ovos mexidos, esquentou leite, chocolate, pão, queijo, atum... Tudo sobre a mesa junto aos pratos e talheres. Para ele mesmo, só um café quente ingerido em pé e já com a toalha no ombro.

Banho, roupa leve, beijo na testa de Maria e... Rua, lá se foi ele para um dia importante, aliás, um dia esperado, aguardado com apreensão, com uma ansiedade daquelas que parece que não irá chegar nunca, mas chegou. Era o dia, após alguns meses das provas do concurso no qual a primeira colocação lhe valeria um pouco de tranqüilidade à mente e ao coração de alguém que viveu até então no universo draconiano do setor privado.

Entrou no velho e companheiro carrinho e dirigiu-se à Junta Médica do Estado para apresentar os resultados dos exames, que com certa dose de felicidade de dever cumprido, foi pelo caminho lembrando da “odisséia” que foi as duas semanas anteriores para fazer aquela lista interminável de exames:
a)sangue, esqueceram de dizer-lhe que deveria ter ido em jejum de doso horas (teve de ir duas vezes);
b)PSA, esqueceram de dizer-lhe que deveria ter, no mínimo, uma abstinência de 74 horas (mais duas vezes);
c)Sumários, esqueceram de dizer-lhe que deveria ser a primeira urina do dia, pois multiplique também por dois, começou a achar que os múltiplos de dois dominavam a vida na Terra.

Bem, mas havia vencido! O que poderia ter sido feito em, no máximo três dias, levou quinze para ser realizado, porém para quem esperou tanto... O que eram quinze dias não é mesmo?

Chegou ao local, parou o “Demolidor”, simpático nome de seu automóvel, aliás, carro, automóvel é outra coisa, no estacionamento do supermercado que fica próximo e dirigiu-se à aguardada Junta Medica do Estado. Chegou a um centro cheio de prédios medianos e perguntou ao simpático porteiro geral que estava em acirrada disputa filosófica a respeito do Campeonato Nacional de Futebol, após uns cinco minutos se fez notar e adquiriu a informação necessária. Entrou no prédio certo e foi à atendente, perguntou se era ali a Junta Médica, recebendo uma resposta com um mero balanço de cabeça e um papel velho imundo com um número e a frase: - “sente e aguarde, chamarei pelo número”.

Escolheu uma cadeira que estivesse na mira do ventilador, sentou e olhou as horas, eram 08h30min, pensou: “beleza, sairei cedo, levo ainda hoje o apto e tomo posse!” Seria a glória... Seria!
- Número 12.
Opa! Chegou, levantou-se e voltou ao já visitado balcão.
- Os documentos.
Retirou os documentos de dentro da pasta e apresentou. Ela começou a examinar, ele aguardava e ao mesmo tempo pensava: “ela não me olhou nem uma vez... Deixa disso, se ela olhar a todos que aqui chegam irá perder pelo menos uns 10 segundos em cada atendimento o que no fim será um atraso significativo – (eis um homem de cálculos).
Eram já 09h20min, e veio a sentença:
- Falta o carimbo deste exame.
- Como? (falou tremulo).
- Falta o carimbo deste exame.
- Mas minha amiga, todos os outros tem o carimbo, olha este aqui foi feito no mesmo laboratório e tem o carimbo.
- Mas este não tem.
- Olha minha linda, (um gracejo nervoso), este laboratório fica do outro lado da cidade...
- Só o que posso fazer por você é garantir que quando retornar não precisará pegar esta fila novamente.
- Tá bom, fazer o que né? (descobriu neste instante que não haveria argumentação possível para demovê-la).

Entrou no carro - calor absurdo, engarrafamento, atravessou a cidade e foi ao laboratório. Entrou esbaforido falando:
- Por favor, preciso de um carimbo neste exame!
A atendente pegou e respondeu:- “sinto muito, aqui é apenas recolhimento do material, as bioquímicas ficam na outra sede”.
Ele nem sabia que havia outra sede:
- e onde ficam as bioquímicas?
- Na sede da Pituba!
Ele gelou, andou uns quinze quilômetros só de ida e a tal da sede estava a apenas uns dois quilômetros no máximo da Junta Médica. Saiu “voando, atravessou tudo novamente, chegou à sede certa, pegou o carimbo e correu para a Junta.
Era meio-dia e vinte quando chegou, dirigiu-se a atendente (a mesma), e disse-lhe:
- É hora do almoço né?
- Não senhor, aqui não paramos.
Maravilha! (pensou) A sorte havia mudado, devem ser os cálculos astrológicos entre a manhã e a tarde. Entregou novamente os exames que foram vistoriados, aprovados com um leve balançar de cabeça e, ainda sem olhar para ele, entregou-lhe outra ficha numerada e disse: - “dirija-se ao quarto andar à esquerda e apresente a ficha”.
Realmente não havia interrupção para o almoço, mas das seis médicas que periciavam até as 14h30min só ficava uma que creio, havia perdido o sorteio.

Às 16 horas foi chamado, estava faminto, não havia almoçado. Muito suado, calculava o que havia passado entre o acordar e aquele momento histórico.
- Boa tarde, tudo bem?
Perguntou-lhe a médica, que como não viu entrar, presumiu ter sido ela que havia perdido no sorteio. Sabia que tinha de conter a fúria contra a burocracia que lhe massacrava o ser. Respondeu-lhe tentando ser gentil e alegre:
- Tudo bem!... Tirando a fome!
Ela sorriu, perguntou que horas havia chegado e mais um monte de coisas bobas, enquanto vistoriava e analisava os exames. Chegou à conclusão que tudo estava ótimo... Só faltava o último passo, medir a tensão.

Puf, puf, puf, apertou o braço dele e...
- Nossa sua tensão está muito alta!
- Minha senhora, com todo respeito, mas depois de tudo que passei neste calor infernal, sem almoçar, sem nem mesmo beber um copo d’água se minha tensão não estivesse alta eu estaria morto!
Ela não gostou. Levantou, olhou-o de cima para baixo e decretou:
- preciso de um parecer exato de um cardiologista, procure o de sua confiança faça os exames e depois volte.
- Mas...
- Boa tarde senhor.
Pensou em voar no pescoço dela, em desistir, em pular pela janela...
Pegou o veredito, botou debaixo do braço e saiu, esquivando-se, apressado, temeroso de que o sol, enfim, caísse-lhe sobre a cabeça! Já na rua... Recebeu a do cutelo:
- Aê tio, sem tensão... Dá um trocado prá completar meu almoço?

Roger Ribeiro.
16 de novembro de 2010.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pode acreditar



Nosso amor que não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar e sem violão#

Foi de repente, assim... entre um segundo e outro fez PAC! E saiu, foi, vazou, tirou, deu no pé, retirou-se, disse adeus, tchau, té’mais, ou seja lá como queira. Só sei que quando ele notou já era tarde, ela já estava do outro lado da rua olhando para a cara dele e sorrindo, um sorriso largo. Virou-se e saiu andando.

Ele incrédulo se olhava sem acreditar, com um olhar de quem se pergunta: mas o que está acontecendo? Porque logo comigo? O que eu fiz de errado? Passaram-se longos segundos, tempo suficiente para ela distanciar-se. Enfim ele parou de querer entender e percebeu que tinha de ir buscá-la de volta, saiu meio atabalhoado, atravessou a rua sem olhar, por muito pouco não foi atropelado, chegou do outro lado da rua, subiu em um pequeno batente e conseguiu enxergá-la já ao longe. Acelerou o passo e rumou atrás dela.

Quando ela percebeu que estava sendo seguida, também apertou o passo, era uma perseguição voraz, quanto mais ele adiantava o passo mais ela punha velocidade no andar, de repente não mais andavam, corriam,foram para a beira do asfalto, pois na calçada havia muita gente, era estreita e, de espaço em espaço havia um coqueiro, um ambulante, buracos à granel, de todos os tamanhos e profundidade, e, quando não havia isso tudo, (é vergonhoso mas tenho de dizer), em pleno século vinte e um, havia carros parados sobre a calçada.

A mil, próximo à sarjeta corriam, ela na frente ele atrás, de repente ela entrou em um beco, ele teve dificuldades, pois passava muita gente e ele perdeu tempo, ela saiu do outro lado, ele chegou... Não sabia para que lado ela havia ido, perguntou a uma e a outro até que um senhor muito velho lhe disse:

- Elas sempre vão para a esquerda, não tem erro.

Saiu correndo pela esquerda e algum tempo depois conseguiu avistá-la novamente. Ela achando que havia se desvencilhado havia parado de correr, andava rápido, mas não corria. Ele aproveitou e foi correndo, se esgueirando para não ser visto e quando estava a poucos passos de pegá-la, tropeçou no buraco, saiu metros “catando ficha”, com o corpo todo dobrado para frente, caiu de cara no chão a centímetros do tacho de dendê da Baiana de Acarajé. Suspirou assustado, foi por pouco!

Ela percebeu a presença e novamente saiu a correr, entrava em loja, saía de loja, entrava em ruas, saía de ruas e ele atrás, não desgrudava, não conseguia alcançá-la, mas não a perdia. Ela entrou em uma roda de pessoas onde um pastor pregava o apocalipse, todos erguiam as mãos para o céu e gritavam freneticamente:

- aleluia, aleluia.

Ele passou direto, ela deu meia volta e saiu correndo na direção contrária, ele viu, retornou, se bateu no pastor, este caiu, os fiéis não gostaram saíram correndo atrás dele, um deu-lhe uma rasteira, caiu, pela segunda vez, foi chutado, não reagiu,tudo o que queria era levantar rápido para não perdê-la de vista.

Novamente em pé, ficou perdido, onde estaria ela? Suava muito, resolveu entrar no bar e pediu um refresco de maracujá. Estava quase desistindo da perseguição quando viu pelo espelho do fundo do bar, ela, do outro lado da rua encostada num poste olhando para ele e dando uma sonora gargalhada!

Não é possível, ele disse, ela só pode esta querendo provocar, saiu do bar correndo e esqueceu-se de pagar o refresco, o atendente gritou em vão, ele não ouvia nada, estava louco, cego, precisava retomá-la, isso não poderia ficar assim, estavam correndo já há horas e nada! Decidiu que seria agora; colocou todo o fôlego que ainda lhe restava e saiu a toda. Empurrava quem estivesse na frente, pulava coisas, derrubou o carrinho de caldo de cana, estava realmente decidido.

Era agora, enfim estava conseguindo, levantou o braço para pegá-la e... sentiu uma forte mão segurando-lhe o ombro e um cassetete apertando-lhe a garganta, era a polícia, atrás dela vinha, o pastor, o atendente do bar, o dono do caldo de cana, e uma porção de “peru-de-fora”, a dar palpite e opinião. Ele a viu se afastar.

Na delegacia, uma espera interminável, ele tentava explicar, ninguém lhe dava ouvidos, parecia que falava para a parede, enfim acompanhado por um guarda foi a um caixa eletrônico, retirou dinheiro, pagou o refresco, o prejuízo do caldo de cana, tomou dois cascudos por ter machucado o pastor, pediu desculpas a quem devia e a quem não devia e por fim, já noite alta, foi liberado.

Saiu desolado, não tinha mais esperança de recuperá-la, quando do nada, do outro lado da rua, lá estava ela, olhando para ele e sorrindo, virou-se e correu, ele atrás, chegaram então ao Porto da Barra, o céu já arroxeava para amanhecer e uma Lua Cheia enorme, se escondia por detrás da Ilha de Itaparica, ele a viu, pela última vez, a Lua a levou.

Desolado, sentou-se no meio-fio, deitou a cabeça sobre os braços e nada mais disse.

Ali estava um homem que daquele momento em diante teria de aprender a viver sem alma.

Roger Ribeiro
13 de outubro 2010.

#Nosso Amor – Noel Rosa

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Que papelão!


Era cedo o sol ainda estava frio e as sombras longas, mas para muitos o dia já estava a mil. Rapazes fortes se apossavam de pedaços de rua como se fossem realmente proprietários, só faltavam mostrar o carnê do IPTU para definitivamente comprovar que aquele minifúndio urbano lhes pertencia e para estacionar ali terias de desembolsar uma quantia, que a depender de sua cara, sua idade e, principalmente seu sexo, podia ter uma variação de mais de 1000%.

Outros já não tão fortes se esgueiravam ao largo para dar o bote em senhores e senhoras mais idosas que, em respeito ao ato cívico, não se permitiam ir à vontade e, exatamente seus requintes, eram o que estas “almas sebosas” visavam, não se refutando a derrubar, machucar pessoas de generosas idades para obter algo que brilhasse. O verdadeiro ouro dos tolos.

Também chegavam mulheres, principalmente elas, com camisas estampando rostos, siglas, números e o escambau... Traziam “malocados” em seus pertences pequenos papéis com os mesmos números fotos e mimos, que seriam distribuídos, jogados ao solo, levados pelo vento em uma perfeita demonstração de como podemos emporcalhar uma cidade em fração de minutos.

Incrível é que o mundo mudou, todos perceberam menos estes que fazem a “Grande Festa da Democracia”, como “berram” as manchetes dos jornais. Estes não perceberam, e do canto daquela calçada uma pergunta ecoa e não quer se calar:

- Será que estes malditos não percebem que ao fazer as funestas carreatas, que incomodam a todos, não estão irritando e afastando qualquer possibilidade de simpatia popular ao projeto, já que este parte do equívoco de que incomodar causando engarrafamentos, usando os jurássicos carros de som (me diga alguém consegue ouvir o que aqueles pagodes terríveis conseguem dizer?), faz alguém prestar atenção no número daquele infeliz que fica berrando naquele som de péssima qualidade, que passam por você ininterruptamente, enquanto tudo o que você quer é um pouco de paz e silêncio?!

Não! Mas eles não percebem... Não percebem nada e, ao não perceberem nada, se igualam em um espectro do que há de mais retrógado, mais atrasado.

Chamou-me atenção um louco urbano que gritava em pleno pulmão:

- Não! Não acreditem neles, só São Sebastião, sangrando pelas flechadas pode nos trazer a salvação, o seu sangue não é este papel que é derramado pelo chão!

Do outro lado da rua uma moça de uns vinte e poucos anos tocava um violão surrado ao lado de uma criança que deveria ter uns quatro anos no máximo, tocava e cantava para conseguir um dinheiro para tomar café da manhã. Estava feliz e quando uma senhora abaixou-se e deu-lhe uma nota, não vi de quanto, agradeceu com um grande sorriso e disse:

- eles não valem, nenhum deles vale, nenhuma canção.

Percebi que ela estava plenamente livre, sabia que aqueles motoqueiros das carreatas eram pagos, que aquelas “militantes panfletetes” eram remuneradas, que nada daquilo era real, para ela o real era seu violão, a canção e o pão com café que tomaria em breve com sua filha, estava feliz, já não fingia acreditar na “Farsa da Democracia”, preferia o sonho da vida real.

Chegamos a tal da zona, sim digo chegamos, pois era eu, meus sapatos e mais uma ruma de gente, era gente prá tudo que é lado, todos procuravam pela sua Zona, lembrei de tempos idos e de pessoas como Iolanda da Ondina, Martinha da Barra, lembrei do que se chamava de zona e por um estranho sentido, tive vergonha de perguntar onde era minha zona, parei e perguntei a uma pessoa de crachá: - por favor, onde fica esta urna? Sabia onde era minha zona e, sabia mais, sabia que ali é que não era.

Devidamente indicado engendrei por um estreito corredor com portas azuis de um lado e do outro e que não possuía ventilação alguma; era um calor daqueles que aos poucos vai minando qualquer possibilidade de bom humor.

Mas olhei para frente e havia apenas umas dez pessoas, ora com a votação eletrônica e, com todo mundo trazendo sua “cola” de representantes seria rápido. Mais um engano. Cada vez que parecia que iria entrar alguém de minha frente... pumba!

Chegava um sexagenário membro da “melhor idade”, lá vai ele entrar e nós... bem nós no calor, na fila, uma fila que começou a me lembrar o metrô de Salvador, ou seja ela estava lá, existia, mas ninguém nunca andou.

Tudo bem... vamos manter a calma, alguém gritou:

- Viva os verdes?

A resposta foi imediata:

- Marciano não cobra dízimo!

- Colé?! (Alguém gritou) vocês querem derrubar o que resta de mata, por isso estão afiando a Serra!

-Para com isso gente!

- Vamos fazer uma festa cívica civilizada!

- A luta continua Companheiros...

Ái..., esta doeu já esperei o grito de guerra dos anos setenta que, claro veio na tampa... três garotos no fim da fila em coro entoaram:

- Alho, alho, alho companheiro é o caralh...!

Xi... o clima pesou, veio a segurança, gente de tudo que é cor de crachá, queriam prender os meninos, “desacato ao ato cívico!”, meia fila não resistiu... a gargalhada foi geral... desacato a quê? Perguntou uma senhora que dizia ter oitenta anos... acho que foi namorada do Cavalheiro da Esperança, pois de sombrinha em riste dizia que só levariam os meninos dali por cima do seu cadáver! Êta terrinha de povo que cultua sua história! Gritou uma criatura sabe lá de onde...

– Viva Maria Quitéria!

Respondeu o outro a quatro pessoas de mim...

- Maria Quitéria coisa nenhuma sua ignorante; Viva Joana Angélica...

Resposta na lata:

- Vá se fod...

Vaias tempitóricas ...

E o calor? Se antes estava uns quarenta graus no maldito corredor agora estava oitenta! O velinho votou. Saiu... todos respiraram aliviadas e... Chegou uma grávida, e depois outra velhinha e chegou um sujeito chamado Raimundo vendendo picolé Capelinha, o segurança queria botar ele prá fora, ali não podia mercar nada, mas e os votos? Ora, ora tudo levava a crer que o pau que dava em Chico não dava em Francisco! Picolé não, mas voto, vaga na fila, santinhos, passe de Umbanda, fitinhas do Bomfim, tudo se vendia...

Aos trancos e barrancos chegou minha vez. Entrei olhei bem para aquela cabaninha de papelão e a única coisa que me veio à cabeça foram aquelas pessoas que eu passava todos os dias dormindo pela calçada na Avenida Sete de Setembro, a única coisa que eles possuíam era um papelão para se cobrir.

E ali estava eu, em frente ao meu país e a única coisa que ele tinha era um pedaço de papelão a cobrir os mesmos Brasis.

Roger Ribeiro
05 de outubro 2010.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Só faltava essa!


Não, não precisa explicar nada, é assim mesmo...

Vamos, quando passarmos por lá, te pago uma esfirra, é boa, o local é assim meio estranho, possui uma aparência meio suja e, te digo, não é só aparência não, é sujo mesmo, mas como lá desde pequeno, nunca tive maiores problemas, pelo contrário, já comi em lugares cheio de fru-frus, e me dei muito mal.

Sim! Não estou dizendo que estás com fome, afinal não é necessário estar com fome para comer. Digo-te até mais, prefiro comer exatamente quando não estou com fome, pois assim come-se pouco, come-se pelo prazer, sentindo mesmo o sabor do que se está comendo. Quando estamos com fome a tendência é comermos mais apressadamente, acabamos por comer por demais e não apreciamos realmente o que estamos sorvendo. Estou te levando em um local clássico, para saborear uma iguaria que tem em muitos lugares, mas o de lá, não sei por que, é diferente.

Sabe. Ontem quando a gente se encontrou, tive a nítida impressão de que já te conhecia de muitas datas, de outros tempos, não sei te explicar, mas quando você me falou o seu nome, tive a certeza de que eu já sabia, talvez tenha te visto tocando em algum bar? No ônibus? Pensei até que poderíamos ter sido colegas no grupo escolar, você sabe como é né? A gente muda tanto... Ficam uns traços aqui outros ali, reconhecemo-nos sim, mas de resto só nós mesmos é que achamos que não mudamos, afinal o nosso interior é o mesmo, ou pelo menos, achamos que seja, afinal só nós acompanhamos a evolução de nossas próprias loucuras!

Não... Não se preocupe, hoje esta impressão já passou, tenho absoluta certeza de que nunca a vi em minha vida, seu nome?! Nunca pronunciei, aliás, esqueci, incrível! Apaguei, não sei como te chamar! É estranho estar andando lado a lado com uma pessoa que nunca vi, falando com alguém que não sei de onde veio, para onde vai? Do que gosta? O que escuta? O que lê? O que vê? Ou seja, uma ilustre desconhecida que desce sabe lá de onde e ao meu lado se dirige, a apressados passos, em direção ao centro da Avenida Carlos Gomes, para comer algo que como desde a minha infância! Sabe o que isso significa?...

Claro que não sabe! E tenho certeza, nem quer saber. Mas te direi mesmo assim, de agora em diante você saberá infinitamente mais de mim do que eu de você!

Não! Nem venha com essa conversa de que eu quero saber de você para poder te manipular, não há a menor chance de isso ocorrer. nada de domínios, de posses, de só para mim! De forma alguma, olha, veja bem uma coisa, não somos donos de nada. Nem mesmo da nossa própria vida! É nem dela, apenas a temos por empréstimo, vai chegar o momento em que alguém vai chegar e dizer: “muito bem, está na hora de me devolver a sua vida” e aí... pluf, leva-a de volta. Sendo assim, se nem mesmo de minha vida eu sou dono, como posso querer ser dono de alguém? Pode ficar tranqüila, isso não ocorrerá jamais.

Chegamos... Sim é aqui, olha não faz essa cara de nojo, o atendente vai ficar cismado e de repente nem vai querer nos vender.
Moço por favor, duas esfirras de carne e dois sucos de laranja sem açúcar e pouco gelo, por favor.

Sim sempre peço, por favor, sei que muitas pessoas acham que ele tá ali para isso mesmo e que na verdade não está te fazendo favor algum, mas mesmo assim, peço, por favor, e quando chega ainda agradeço, acho que isso é civilizado.

Tá... Tudo bem... Concordo em parte. Sim, civilizado é infinitamente mais que isso, manter estas praxes sociais de bom dia, boa tarde, obrigado, licença e etc, é muito pouco, o que necessitamos é realmente muito mais civilidade do que esta cortesia, mas uma coisa não elimina a outra. Podemos iniciar por estas pequenas coisas até chegarmos aos respeitos máximos e necessários, até podermos abandonar estas coisas bestas de buscar identidades disso ou daquilo, de necessitarmos impor uma individualidade ou coletividade, de clamar por isso ou aquilo de ficarmos nos “acoitadando”, ficarmos dissimulando nossas carências buscando nos discursos étnico-ideológicos nos afastar do que somos em busca do que fomos.

Sei que chegar a civilidade de assumirmos que somos todos, todos sem exceção, seres individuais e intransferíveis e sabermos que isso não tem nada de mais, que nem é melhor nem pior e que isso também não interessa a absolutamente ninguém a não ser a quem está interessado em nós, é algo bem maior.

O que? Não gostou? Você colocou pimenta? Como alguém pode não gostar? Tudo bem deixa aí que eu como. Bebe pelo menos o suco. O copo tá sujo! Ai, ai, ai assim não dá, ontem você bebeu aquele refrigerante por aquele canudinho que estava exposto ali a meses, cheio de poeira e outras coisas derivadas de visitas que por ventura por ali passaram, e nada disse, agora o copinho, só porque tá assim com este jeitão meio tosco você tá tirando esta onda. Sei não viu.

Tá bom, tá bom. Vamos embora, mas olha depois não vai ficar na minha orelha dizendo que está com fome heim!

Pronto, aqui estamos... A orquestra já começou a tocar. Vamos deixar nossas coisas naquela mesa e vamos dançar.

Sim, é o velho Clube Comercial mesmo, o que tem de mais? Como assim? Você não é pessoa para vir ao Clube Comercial? Mas o que tem demais?

Não! O assoalho não está arranhado, ele é antigo. Nada disso, você está procurando coisa, não tem cheiro de mofo nenhum, a cortina não está empoeirada, o banheiro não esta fedendo coisa nenhuma... O quê!? O piano não está desafinado, o pianista é ótimo! O crooner tem voz de taquara rachada? De forma alguma, taquara rachada é seu nariz. Não inventa; aquela senhora de vermelho não está te olhando feio, o senhor da direita não está babando coisa nenhuma, não tem nada de cafona.

O balcão não está rachado, a gravata do garçom não está torta, a bebida não é falsificada, o trompete não está alto demais de forma alguma, meu sapato está lustrando sim, a música é boa...

Garçom! Por favor, me traga um copo de aguardente urgente, urgentíssimo...

Pronto! agora você vai ficar aí dentro deste copo, não te trago mais, nunca mais levo este cérebro pra passear... Agora licença, vou dançar!

Roger Ribeiro.
17 de setembro de 2010.