quinta-feira, 2 de junho de 2011

NORMAL MEU CARO! NORMAL.


Saiu sem olhar para trás, aliás, não olhava nada, seus olhos miravam o chão, porém sua visão estava etérea, não enxergava nada a não ser as palavras. Precisava arrancar de si as palavras exatas e, sabia bem claramente, que estas não queriam sair, teria que arrancá-las, expulsá-las de dentro de si.

Sabia que sangraria, e por não ter o costume do sangue, não tinha certeza se sobreviveria. A cada passo seu peito ia apertando, seu pulmão o sufocava, sua respiração lhe inebriava, sentia vertigem pela existência e ao mesmo tempo nada lhe garantia existir. Sentia-se inexistente.

Passava pelas pessoas como se ninguém lhe visse, jogava-se furiosamente contra o ar era como se este fosse uma montanha que tinha de deslocar para poder mover-se.

Lembrou-se de milhares de músicas ao mesmo tempo e anteviu, ao olhar uma vitrine, que sua cabeça iria estourar. Não havia sincronia em nada no seu corpo, seu andar não estabelecia relação com a respiração, o olhar com a audição, os pensamentos com os batimentos cardíacos, o que antes era oco tornou-se solidamente preenchido, o que devia ser sólido se desmanchava, nada escapava, nada.

Atravessou a rua como um suicida, gerou protestos, não notou nada, apenas sentiu um braço fino e quente enroscar-se em sua cintura e conduzi-lo a algum lugar. Qual? não viu. Foi deitado por este braço e sentiu a umidade que identificou ser de grama, permitiu-se estar totalmente impotente frente à gravidade, tombou e pousou sua cabeça lentamente sobre um colo, qual? Não sabia a quem pertencia. Fechou os sentidos e sentiu um desfalecer de alívio, apenas escutou pelo interior do colo que lhe abrigava, o vácuo racional do solfejar de uma canção:

Well I followed her to the station
With a suitcase in my hand
Yeah, I followed her to the station
With a suitcase in my hand
Whoa, it's hard to tell, it's hard to tell
When all your love's in vain

When the train come in the station
I looked her in the eye
Well the train come in the station
And I looked her in the eye
Whoa, I felt so sad so lonesome
That I could not help but cry

When the train left the station
It had two lights on behind
Yeah, when the train left the station
It had two lights on behind
Whoa, the blue light was my baby
And the red light was my mind
All my love was in vain
All my love's in*

Despertou. Sua cabeça repousava sobre uma pedra negra e arredondada, a grama estava com um forte cheiro de noite, estava bastante confuso, não sabia a quanto tempo ali estava, levantou-se, olhou ao redor e avistou o que poderia lhe ser a solução, aproximou-se e perguntou:

- Tens água mineral?

- Só vendo coco.

- (vistoriou o bolso, certificou-se que possuia algumas notas) veja-me uma natural, por favor.

- Um real e cinquenta.

- Por acaso você sabe da pessoa que estava comigo?

- Desculpe senhor, mas chegastes sozinho, deitastes e apagastes, ainda fui até você saber se estavas bem? Você acentiu com a cabeça e nada mais falou.
Meu Deus! (pensou)O que teria acontecido?

- Que horas o senhor tem? Por favor.

- (o vedendor de coco, olhou no telefone as horas) 21:00.

Pagou e apressou o passo, estava atrasado...

Entrou em um local escuro e barulhento, recebeu muitos comprimentos, sorrisos, mas nada disse. Continuava com o olhar etéreo, estava em uma interface de tempo e espaço.

As luzes azuis e vermelhas se acenderam, se viu no centro do tablado alto, empunhando uma luzente guitarra verde. Permitiu-se, pela primeira vez naquele dia, olhar a realidade, tensionou com a palheta as seis cordas e vendo no salão centenas de corações expostos fora do peito bradou:

O meu cigarro apagou
Eu vou dançar o rock and roll
E o meu dinheiro acabou
Eu me liguei no rock and roll
E o meu cigarro, o meu cigarro
O meu dinheiro acabou
E hoje eu me liguei é só no
Rock and roll
E o meu cigarro apagou
E o meu dinheiro acabou
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o rock and roll
Meu rock and roll
Posso perder minha mulher (rock and roll)
Posso perder a minha irmã (rock and roll)
Posso perder a minha mãe (rock and roll)
Posso perder até minha avó (rock and roll)
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o meu rock and roll!**

Roger Ribeiro
03 de junho 2011.

*Love In Vain - Robert Johnson.
** Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll - Arnaldo Dias Baptista / Ritta Lee / Arnolpho Lima Filho (Liminha)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Buracos de alma



- Vamos, anda logo... Levanta daí.

Confesso que me assustei, afinal estava, tranquilamente deitado em um banco da praça sob uma frondosa amendoeira, tentando tirar uma soneca compensatória por uma noite mal dormida e aquela voz, forte e grave, cortava, o até então, pacato som bucólico característico de praças arborizadas, para me trazer de volta à sombria realidade da condição humana!

Imediatamente achei tratar-se da Guarda Municipal e esperei o complemento do tipo: não é permitido deitar no banco, ou, Não é permitido dormir na praça... Mas, nada disso aconteceu, quando a voz soou novamente, já foi inquirindo:

- Desde quando usas barba? Estas se disfarçando? Fugindo da polícia? Ou fugindo de você?

Abri os olhos e vagarosamente fui observando aquele ser de pé ao meu lado. Botas pretas gastas, um dos “bicos” abertos, calça jeans surrada, camisa de meia branca básica, e uma barba grisalha que praticamente só deixava de fora a ponta do nariz e os olhos... Perguntei-lhe: e agora usas chapéu?

- O céu está desmoronando por isso agora uso chapéu.

Lá estava meu amigo Barba! Havia muito tempo que eu não o via... Senti um alívio ao ver seu, sempre gentil, sorriso para mim!

- Aliás, meu caro (continuou ele), estava te procurando exatamente por isso. Porque ainda não levantastes?

- Calma Barba, já vai...

- Veja como andas; você nem mesmo percebeu como nestes últimos tempos que os dias não estão sendo tão claros e as noites não estão escurecendo o suficiente, não foi mesmo?

- Te confesso que não reparei, mas também tenho tido dias muito confusos e atribulados, não tenho reparado muito as coisas.

- Pois este é exatamente o problema, você tem visto muito pouco e o pior, não deu crédito ao que viu, assim não tomou as atitudes e decisões que deveriam ter sido tomadas.

As coisas aqui fora são bem diferentes meu velho amigo, muito diferentes... Veja! Você nem reparou que o céu está despencando! Tá vendo aquele buraco ali? E aquele ali?

Olhei para cima e tomei um susto, era verdade, o céu estava cheio de buracos, o que será que estava acontecendo? Logo o céu?!

- Pois é o que eu estava te dizendo (continuou Barba), nem o céu agüenta mais esta humanidade e suas farsas, humanidade de humanóides sem o sentido filosófico, que isso fique claro!

Vamos levanta logo daí e vamos ali para você me pagar um bauru com um suco de laranja, que vou te explicar o que tenho visto e que você não viu.

- Colé Barba, tá sem grana?

- Não de forma alguma, mas pagar um lanche para um amigo é algo nobre dentro de uma amizade! Sendo assim, vamos ali à padaria que tem um sanduiche ótimo.

- Tá bom. Mas o que explica estes buracos no céu?

- Seus olhos.

- Ãh... Como assim?

- Você continua enxergando o mundo com os olhos internos meu caro!

- Barba, sinto ter de dizer, mas acho que as seqüelas dos anos 70s finalmente se revelaram!

- É nada, lembra de uma das últimas vezes que nos encontramos e você falava sem parar de um jantar que iria à noite?

- Caramba isso faz tempo heim...

- Pois, desde aquela época venho de longe te observando, e vi quando você começou a ficar sem cor, transparente, translúcido, flutuavas, parecia uma onda no mar... Só não se apercebeu que no mar existem os recifes para as ondas se espatifarem...
Por favor, um bauru e um suco de laranja sem açúcar.

- Barba acho que você está sendo dramático demais...

- Você acha mesmo? Você tá escutando? (apontou para a pequena caixa de som na parede).

De tudo se faz canção,
E o coração na curva de um rio...”*


Olhei para o lado e lá estava o bauru e o suco de laranja, mas o Barba já não mais estava, notei que havia mais um buraco no azul do céu.

Roger Ribeiro
10 de maio 2011.

* “Clube da Esquina II” - Lô Borges / Márcio Borges / Milton Nascimento

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Aff, eu devia ter ficado calado!



- Por favor, o senhor poderia falar mais baixo?

- Mas como assim?! Não vês que estou pregando a palavra do Senhor? Acaso é um destes hereges?

- Não meu senhor, sou apenas um trabalhador, retornando do serviço neste coletivo...

- Pois irmão! Não há hora melhor para que permitas que o Nosso Senhor se aloje em seu coração...

- Meu amigo, não tenho nada contra seu credo, apenas pedi para que falasse mais baixo, pois estás berrando no meu ouvido...

- Vejam vocês que absurdo! (apontando aos céus) Foi por pessoas assim que ele foi torturado, crucificado...

- Olha, sinceramente, prá mim chega! Você fica aqui berrando no ouvido de quem quiser, eu vou descer.

Pééééémmmmmmmmmmmm, puxou a cordinha e desceu no primeiro ponto.

Resolveu ir caminhando prá casa, ao todo seriam uns 8 a 10 quilômetros, seria bom para desopilar de um dia tenso no trabalho. Não conseguia tirar a idéia da cabeça de injustiça global sobre seus ombros, afinal como podia, um ser como ele, tão capaz, tão inteligente e responsável, ter que labutar dia-a-dia em algo tão indigno?! Ficar recebendo e cumprindo ordens ínfimas, que nada afetariam a humanidade, nada, nada que ultrapassasse as paredes sujas daquele escritório bolorento...

Parou em uma pastelaria.

- Por favor, um pastel de queijo.
- Só tem misto, pizza e carne.
- O de pizza tem presunto?
- Presunto, queijo, tomate e orégano.
- Hummm,
- Sim, quer do quê? A fila tá grande e o senhor esta ocupando espaço!
- O problema é que não como carne e...
- Então, vá procurar uma pastelaria natural e me deixe em paz!
- Você é um animal!
- E daí?! Você não come carne mesmo... vá...

Antes que o atendente complementasse a frase, o lado direito e esquerdo de seu rosto foi atropelado por braços portadores de fichas que aos berros tentavam se comunicar com o balconista!

- Uma esfirra, um de pizza, duas coxinhas...

Era um tumulto, foi assim que, posso dizer, foi praticamente expurgado do ambiente e exposto em seu limite vegetariano na calçada onde uma senhora esquálida olhava-o balançando negativamente a cabeça. Imaginou o que poderia se passar pela cabeça daquela senhora... Dirigiu-se a ela falando:

- Não precisa me julgar... Tome (entregou-lhe o dinheiro que antes tentava trocar pelo alimento), vá lá e compre a porcaria que quiseres.

- Obrigado senhor, que Deus o dê em dobro.

Pela calçada continuou seu percurso, até chegar a uma pequena praça que nunca havia observado existir. Ali se sentou e começou a refletir sobre os seus dias, sua existência e de como passou a vida inteira tentando ser uma pessoa boa e que ao final sempre ressoava a mesma classificação sobre si: - Um coitado.
- Coitado é a puta que pariu...!

Brandiu do nada, a todo o pulmão.

Uma senhora que passava carregando a sacola com pão e leite, levantou-lhe a vista e com um ar sério de repreensão acusou-o:

- Velho tarado, não se respeita? Aqui é um lugar decente!

Olhou ao redor e enrubesceu, realmente ali só haviam crianças brincando acompanhadas por suas mães ou babas. Ficou sem ação ao ter a certeza de que havia externado o que, por anos a fio, apenas passava em sua cabeça...

- Perdão gente! Não foi minha intenção... Eu juro!
- De boas intenções o inferno está cheio (censurou uma destas senhoras portadora de criança).

- Desculpem-me!

Retirou-se apressadamente, sem se dar conta de que havia esquecido a gravata e a pasta de trabalho sobre o banco da praça. Andava apressado assim como disse o poeta Paulo Leminski, como se sentisse alguma dor. Na verdade sentia, era uma dor profunda, muito funda que não tinha a coragem de atormentá-la. Por fim fatigado, pensou que não poderia chegar em casa ofegante daquela forma. Parou mais uma vez, desta vez em um boteco, destes de esquina e pediu uma cerveja bem gelada.

- Engraçado nunca o vi por aqui... (comentou uma jovem, morena, não diria atraente, mas pelo trajar, diria ser bem oferecida).

- É verdade, não costumo freqüentar este local, aliás, prá ser sincero, nunca o havia visto antes...

- Aqui é bom! A cerveja está sempre gelada e temos um cardápio especial que fica logo ali dentro daquela saleta atrás daquela cortina roxa... (falou isso a menos de 5 centímetros do seu rosto, piscou o olho e saiu, fazendo um andar que ... Bem não é preciso nem dizer que ninguém anda daquela forma).

- Humm... Eu heim; que dia! (falou para si mesmo).

Pagou a cerveja e terminou o percurso. Chegou ao prédio verdinho em que morava, respirou fundo para superar os três andares de escada, subiu, abriu a porta e... Lá estava ela, sua querida mulher, com ar de exausta após também um dia puxado de trabalho... Estava enfim salvo. Ela o olhou,olhou, mirou e disparou:

- Ôxeee, cadê a gravata?
- Hã...
- E sua pasta de trabalho? (aproximou-se e...) Mas que cheiro de perfume é esse? (apalpou-o cheirando-o e...) E cadê a sua carteira? Tá suado, cheirando perfume barato e cerveja...Olha...

- Amor não é nada disso... Foi um dia... Senta aqui que vou te contar...

- Contar coisa nenhuma... Bem que Creuzinha sempre me alertou... Velho tarado!

- eu?! Vocês é que vivem inventado coisas...

- Inventando?! Tá me chamando de mentirosa?... De mentirosa é...?!

Crashhh... foi-se a garrafa d’água, cabrumm (vaso), splasshhh... brawummmm, voou mais de metade da casa pela janela... E o grito ecoava sem parar...

- Mentirosa é? Seu velho tarado...

O vizinho aumentou o som para nada ouvir...

“Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...”*


Roger Ribeiro
14 de abril de 2011
*gatinha manhosa – Erasmo Carlos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Façamos um Brinde!





Dia 31 de janeiro;
é dia de um baiano retado.
-



- Saúde! Muita saúde!
- Dinheiro! Felicidade! Saúde, sim saúde!
- Ao Baêêa!!
- Nada, aqui, só dá o Leão!
- À vida! Todos de pé, vamos lá... À vida!

O retorno veio rápido e certeiro; uma voz cambaleante, verdadeiramente embriagada, vibrou do último banco do balcão.

- Nem saúde, nem dinheiro, nem felicidade, nada! Nada disso, só e apenas uma coisa é fundamental para se viver nesta Vila dos efes gregorianos; humor, muito senso de humor meus jovens, nada mais que isso, aliás, sem ele o destino é um só: acabarás louco, aluado, doido varrido!

O silêncio se instaurou. O local não estava muito cheio, e o barulho que até então fazia lembrar estarmos em uma taberna contemporânea, vinha exatamente daquele enfileiramento de mesas onde, mais ou menos, quinze adolescentes tentavam brindar a alguma coisa que não se definia.

O silêncio foi quebrado em fim com uma zoada seca: scapufff! Todos olharam e era o nosso querido interpelador de brindes que havia despencado do seu banco e resmungava algo, acho que, em “aramaico arcaico” estatelado no chão.

Alguns meninos levantaram na intenção de socorrer quando a voz de dentro do balcão intercedeu:

- Não se apoquenta não criança, é assim todos os dias a mais de quinze anos, ali é o lugar dele. Vê aquela obra ali... Pois, tive de mudar o toalete de lugar, pois a entrada do anterior era exatamente onde este ser deita todos os dias, não sei como Deus ainda não o levou, pior, deixa esta cruz aqui para eu e meu bigode aturar. Se incomodem não, vão brincar, daqui à uma hora ele levanta toma mais uma e cai novamente (falou abrindo um sorriso que mostrava sua boca toda dourada).

- Mas gente... - falou a menina magrinha de cabelos avermelhados e longos - finalmente a que vamos brindar?
- Já falei... crianças, arg! Não aprendem, ao humor!
- Fica quieto Neneca, se não mando chamar dona Margarida, prá te levar e por debaixo de uma boa ducha fria, que é o que estás a precisar.
- Bom (desta vez tomou a palavra um rapagão, forte de cabelos curtos e voz um tanto quanto fina para a potência do seu corpo), devemos brindar ao que move o mundo! Viva o amor!

- Ai... Esta até doeu, será que nenhum destes cretinos irá usar o cérebro!

Nosso querido Neneca começou a buscar o banco como aliado para uma tentativa um tanto quanto hercúlea; Levantar a velha carcaça carcomida por um oceano de álcool, ao qual estava submerso; creio, desde o naufrágio do Galeão Sacramento, esforço daqui, esforço dali, força, a luta contra a gravidade era efetivamente grega, Odisseu virava conto infantil em sua lida com os Deuses frente aquela batalha que ali, no fundo escuro do imundo bar, ops! Bar não, Empório.

Sim Empório, e tinha de ser assim com letra maiúscula, o Empório São Cristovam de Seu Alaor, aafi, se ele ouvisse ou soubesse que você havia chamado o estabelecimento de bar... Hum! Das duas uma, se estivesses nele eras convidado a retirar-se, se nele não se encontrasse, terias seu nome escrito no quadro de giz em frente ao Empório, como pessoa não grata no estabelecimento.

- Vejam o Seu Alaor meninos, vive nestas bandas a mais de sessenta anos, possui o último Empório do além mar, vive aguardando a Nau trazer as barricas de bacalhau, azeite e especiarias, cultivou esta protuberância estomacal com o mesmo zelo que mantém este “ruibarboseano” bigode. É a memória viva, fez o bufet do casamento de Diogo Alves Correia e Catarina Paraguassú, vendeu pastel com guaraná da Fratelli Vitta para JJ Seabra e Antônio Balbino, conseguiu cobrar e receber dívida de Quincas Berro D’Água, conseguiu fazer Mário Sérgio brindar com Roberto Rebouças, ou seja um homem na história desta cidadela e é assim... Rabugento...

- Olha que te arremeto o salame na fuças... seu...

- Não falei, olha só, tá parecendo um pimentão não consegue ser feliz. Sabem por quê? Heim... Alguém aí sabe?

Stttrrrechhhh... Desta vez além de se “estabocar” no chão, levou também a mesa de metal - graças ao Senhor do Bonfim só havia um copo que se espatifou junto a ele.

- Ai minha Nossa Senhora de Fátima... Com este já vai prá mais de uma dúzia só este mês.

Do chão mesmo, Neneca completou:

- Não tem humor... É um velho ranzinza, mal amado, triste... Não consegue conviver com os carros sobre as calçadas, nem com o cheiro intenso de urina por todos os cantos, sem falar dos palavrões em qualquer lugar e a qualquer hora. Até o carnaval, que ele tanto gostava, saía vestido de viúva lisbonense, pois até o carnaval, para ele virou depravação pura, odeia as músicas de carnaval atual, diz que se enganou, pensou que nada seria pior do que o Rock, quando nos anos cinqüenta por aqui aportou, hoje acha o tal do Rock angelical frente aos locais mais inusitados e depreciativos em que as moças são clamadas a esfregar a tcheca, a bochecha, o than e os cambaus!!

- Aêêê, colé seu Alaor, assim não dá... vai dizer que não gosta de um pagodinho?
- Olha meninos desaforados, é melhor não dar ouvidos a este cachaceiro de uma figa, se não boto cês tudo pra correr.
- Não falei? Eu disse a vocês! E agora vocês querem ficar como ele? Como eu? Então garotada... Vamos todos de uma única vez, levantemos os nossos copos e com uma sonora gargalhada brindemos:

E o som ecoou pela cidade – Longa vida ao bom humor!

- Seu a Alaor (falou um molequinho que entrou no Empório), mainha pediu pro senhor mandar um quilo de farinha de guerra e por na caderneta.

Chaff, chiiiii... Ficou no ar o som da farinha escorrendo no saco de papel pardo.

Roger Ribeiro.
31 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pega! Não, deixa voar.


Em agradecimento a 2010.

Não é nada assim impossível, muito pelo contrário é uma caminhada de, no máximo, um quilômetro bastante agradável, principalmente porque havia se resguardado do sol escaldante e uma brisa muito fresca se fazia presente, arejando-lhe a fronte, tornando tudo ao redor em uma paisagem típica de filme Espanhol (pós surrealistas, claro).

Ao seu lado esquerdo o mar encrespado pelo vento nordeste baixo típico do fim de tarde, deixava-o com uma cor de azul fundo encorpado, era água se arremessando para todos os lados, parecia que o grande vale onde se aloja o mar estava pequenino para sua fúria. Os olhos andarilhos observavam a fúria com complacência, no fundo da retina sabia quantas e quantas vezes já havia passado pela mesma sensação da cavidade do seu peito ser mínima para a fúria de sentidos que afloravam.

Os passos eram lentos, porém firmes, os ouvidos atentos conseguiam, com raros erros, identificar o modelo do automóvel que se movia veloz à sua direita. Divagava nos pensamentos imaginando como seria morar em Nova York. Estaria neste momento perto do ano novo e certamente viveria uma experiência que não conhecia, afinal como seria o dia-dia em uma cidade coberta de neve? Como será acordar, sair, se transportar ao trabalho? Seria tudo normal? Não conseguia sentir a sensação exata do que seria isso.

Sabia apenas de uma coisa; não tinha vontade de passar o fim de ano lá como turista, não tinha o menor gosto nisso, para isso preferia passar o período nas areias do Arpoador na festa de ano-novo mais autêntica e natural que conhecia.

Na verdade pensava era como se vive na maior cidade da civilização Ocidental - ela sob eu sobre a neve? Era este cheiro, este tato, este gosto que queria sorver. Será que eles param em um quiosque e pedem um café bem quente? Será que há quiosques?

Seu cérebro estava de tal forma dominado por estas curiosidades que o caminho tornou-se uma paisagem sem registro, já não percebia o que estava à sua volta, não percebia mais nada! Estava dominado por seus pensamentos, parecia que tudo aquilo se decifraria a alguns metros à frente. Esqueceu que estava de calção de banho, camiseta regata e sandália de dedo, não percebia que se realmente estivesse a metros de seus pensamentos, estaria em sérios apuros com seus dois reais que levava para a água de coco, estaria enrascado, ou melhor, em uma gelada.

- Meu filho!

Era a voz de uma senhora sem dúvida e esta o tirou, vagarosamente, porém sem retorno, de sua quimera cerebral.

- Meu filho! Por favor...

A voz começava a mostrar certa irritação com a distração do alvo.

- Por acaso sabe me informar como chego à Quinta Avenida?
- Hã? Quinta o quê?
- Quinta Avenida meu filho! O que há com você está drogado? Necessita de ajuda?
- Nããão... De forma alguma, desculpe-me apenas estava distraído.
- Hum... Você conhece o livro “Distraídos Venceremos”?

“Ainda ontem
Convidei um amigo
Para ficar em silêncio
Comigo
Ele veio
Meio a esmo
Praticamente não disse nada
E ficou por isso mesmo”.*

Ao ouvi-la foi lentamente dirigindo os olhos que antes vislumbravam, meio turvamente, o Farol da Barra e dirigiu-se para aquela pequena senhora que lhe abordava. Ela tinha a pele morena clara e, pelos muitos anos que acumulava, a pele soltara da já inexistente carne ficando uma pele longa e enrugada sustentada por finos ossos, estava belamente vestida de Mulher Maravilha, com aquela saia de bandeira norte-americana estilizada e prendendo-lhe os prateados fios de cabelo a tiara com a estrela maior.

- Bom (falou ele recuperando o senso de real), a senhora quer ir à Quinta Avenida?
- Afii!... Eta povinho difícil sô! Pois já não te falei isso?
- A senhora está vendo aquele Farol?
- Espera, deixa-me acionar meus olhos de laser! Sim, nitidamente.
- Pois então, a Quinta fica exatamente à oitava volta do farol vermelho sobre a quina da Pedra dos Peixes.
- Ô meu filho, que Deus o abençoe... Muito obrigada.
- Não por isso, vá com cuidado.

Ela partiu, ele continuou o seu caminho como se nada tivesse acontecido, permaneceu olhando, ora em frente admirando a arquitetura do forte guardião dos “olhos do mar”, ora para as ondas que travavam a remotíssima batalha com as poderosas rochas litorâneas, sempre as imaginei como filhas de Erik o Vermelho.

Andando distraído tropeçou em algo, quase caiu, olhou para trás e viu tratar-se de uma fina e esquelética perna, assustou-se, será que a havia machucado? Olhou para o corpo que cabia àquela perna e apressou-se:

- Perdão minha senhora, estava distraído... e...

De repente reconheceu, era ela novamente! Mas como pode ser? E a roupa de mulher maravilha? Estava agora toda rota, suja... O que haveria acontecido?

- Senhora, lembra de mim? Há pouco lhe indiquei o caminho da Quinta Avenida?
- Sim meu filho, claro, você foi tão gentil! Como iria esquecê-lo?
- O que aconteceu?...
- A Quinta Avenida é linda meu filho, mas seus encantos são traiçoeiros, morei lá por tempos, desde que me indicastes o caminho, ouvi jazz, cansei de ver a bola do ano novo, porém me enamorei mesmo, foi pela maçã, perdi os dentes, mas não perdi o sabor da vida!
E você que não vejo há tanto tempo, continua andando distraidamente pela vida? O que fizeste durante o século XXI?

“(...) Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:

fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda”**

-Eu?!


Roger Ribeiro
31 de dezembro 2010.

* “Arte do Chá” – Leminski
** “O Sim Contra o Sim”- trecho – João Cabral de Melo Neto.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Acontece todo dia


É algo incompreensível! Falei alto olhando para os próprios sapatos. Até parece que estou ficando louco. Veja você (agora falando com o Barba que havia retornado do banheiro), Ela diz que não é nada disso e que tudo é fruto de minha fértil imaginação, mas não é o que os fatos mostram! Você mesmo é testemunha, quantas vezes você presenciou, porém não tem jeito, é sempre a mesma conversa, a insensibilidade é sempre minha e fim de papo, fazer o que?

Na verdade é uma coisa bem diferente... Não há aquela relação de querer fazer junto sabe?

- quer um pastel? Perguntou o Barba.

Sim, me veja um de palmito, por favor.

Escuta, sei que já não agüenta mais esta conversa, mas eu preciso descobrir como funciona esta coisa, ou melhor, como funciona aquela cabeça?! É quase impossível entender, é como se de repente desse um curto circuito...

- Ora, ora meu velho amigo, você nem parece que anda com esta bota velha! Veja bem quantos caminhos você já andou, quantas loucuras já destrinchou, tens estrada o suficiente para saber que não funciona assim, aliás, nunca - em tempo algum - funcionou. Vamos deixa disso, hoje tem o show daqueles dois violonistas que você gosta, vou com você, tomamos um trago e passaremos uma noite bem mais divertida do que nesta birosca, comendo pastel.

Enquanto Barba falava, senti que alguém mais nos observava, não deu nem tempo de procurar, o procurado se apresentou:

- Boa noite, sou Marco Antônio, mas todos me chamam de Nuvem, acho melhor, pois Marco Antônio tem som bélico, não gosto, prefiro o nome pelo qual sou conhecido, ele é muito mais leve, fluido!

Confesso que fiquei meio assustado com a abordagem, mas a profunda calma e complacência do Barba me tranqüilizaram.

Sim acho que já o vi aqui outras vezes.

- Claro que sim, tá vendo aquela bicicleta incolor metálica ali encostada? Pois, sempre estou com ela, outro dia mesmo você quase tropeçou nela, vou-te dizer, foi por um triz.

- Ola rapazes, tudo bom?

Olhei em direção à voz e... Era uma linda jovem de cabelo preso na nuca e vestida de bailarina. Respondi: olá! Sim tudo corre muito bem, acho.

- Sabe, falou ela olhando fixamente para nós três, tenho de ensaiar o meu número para a apresentação de amanhã, mas os meus músicos não vieram me deram bolo, será que vocês podiam fazer o favor de tocar o tema para mim?

- Gostaria de todo o coração, meu anjo, mas não sei tocar nada!

- Claro que sim, responderam simultaneamente o Barba e o Nuvem, porque não? Será um prazer!

- Poxa muito obrigada, vocês são estrelas que o destino colocou no meu caminho.
Pegou sua enorme bolsa (não sei por que mas dançarinas sempre andam com bolsas enormes)e de dentro dela começou a retirar coisas, primeiro um violino, que entregou ao Barba, depois um bandolim, que foi alojar-se nos braços do Nuvem e por fim um trompete prata brilhante que grudou em meus lábios. Um detalhe, sem importância, mas que não pode faltar: jamais em minha vida pus sequer uma daquelas flautinhas doce de plástico na boca.

Barba começou a tocar como se ensaiasse com ela desde que o samba é samba, Nuvem então chegou a sugerir que se trocasse um acorde por outro em determinado compasso de uma música que nunca nem eu, nem nenhum dos dois havia se quer ouvido. Mas lá estávamos nós em meio ao bar trocando informações sobre tons, dinâmicas, pausas, fugas, stacatos e afins.

Do nada, Dona Camélia, a sempre mal humorada esposa do Bigode, dono do bar, tirou de debaixo do balcão um surrado teclado cor de rosa e começamos a tocar.

Todos se afastaram e a nossa menina começou a bailar no meio do salão, era divino, eu solava no trompete como se minha vida intera tivesse feito isso, Nuvem, Camélia e Barba, sorriam e nem se olhavam, o tema saia com uma naturalidade magistral.

De repente as luzes foram se apagando e apenas um feixe dela se lançava ao centro do salão, nossa menina, agora vestida de um traje espanhol pesado e denso, escondia metade do rosto em um leque de seda negro, aproximou-se de um microfone que sei lá de onde apareceu!? A banda lançou um acorde de preparação longo no qual larguei a sustentação de um si sustenido na oitava mais alta que consegui tirar do meu prateado instrumento. Veio então a voz possante, estremecendo todos no bar:

Cuanto te ame, puedo decir
Que jamás a outra mujer,
Podre querer como a vos.
La juventud no volverá nunca más
Y a La ambición ya puedo darte El adiós
Que tiempo aquel,
Hora fugaz que se fue
Todo El valor de uma pasión conocí.
Cuantas feliz frases de amor escuche,
Que siempre yo, sumiso y fiel te crei
Lãs carícias de tu manos
Tu palabras de ternura,
Dejaron cruel amargura,
Porque nada fue verdad
Bejos falsos de tu boca, juramentos, ilusiones,
Mataron mis ambiciones, sin um poço de piedad.
Pero, por El mal que vos me hiciste,
Solo dice mi alma triste
Mentirosa, mentirosa
Todo lo que me hás echo pasar,
Penas ilanto, con outro lo has hecho pasar,
Ya encontrarás quien um amor fingirá
Y entonces si, vas querer sin mentir has de ser vos La que AL final llorará
Ha de sangrar tu corazón AL pensar,
Em todo El mal que hicistes a mi ilusión
Y hasta AL morir, hasta El morir, mirarás
Los ojos Del fantasma de tu traición
Pero, por El mal que vos me hiciste, solo dice mi alma triste,
Mentirosa, mentirosa
Todo lo que me has hecho passar
Penas lanto com outro lo has de pagar*


Era algo mágico, olhava para barba e as lágrimas desciam sem parar, não conseguia me conter. Ninguém dizia uma palavra, reparei que estavam todos de olhos fechados, só eu via aquela menina, tão sombria naquele momento, interpretando com tamanha força aquele tema tão doído que o mundo parecia ter parado. A Terra parou de girar, meu coração parou de bater.

O dia foi amanhecendo, encostei por um minuto a cabeça no balcão e quando levantei, já não havia nada em volta, nada. Procurei meu trompete, a menina, o Nuvem, nada, nada... Não mais havia nada, somente eu e o barba sorrindo para mim.
- Vamos (falou)

Sim, não disse mais nada, apenas olhei para o expositor do bar e vi o pastel de palmito, olhei fixamente para ele e por um momento, juro, o vi dando uma imensa gargalhada da minha cara!

Roger Ribeiro

25 de novembro 2010.

*La Mentirosa – Carlos Gardel

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sem tensão heim!


O despertador avisou, berrou, triliííííntou até ficar rouco, era hora de acordar. Bambo olhou em direção aos ponteiros, eram 6:00 horas de uma manhã já quente, uma nuvem ao longe indicava que em alguma hora poderia cair uma chuvinha rápida daquelas que só servem para evaporar e piorar em muito a situação. Não havia jeito, o mundo estava de cabeça para baixo e nem mais a primavera era respeitada, afinal cadê as borboletas? Sim! Onde estavam elas que tão fartas eram nas frescas primaveras e agora, creio, mal nasciam e o calor já derretia suas asinhas, borboletas sem asas, que coisa ridícula.

Sem outra opção levantou-se e calculou todo o tempo de que dispunha até sair de casa, era um ser de cálculos, gostava de calcular tudo milimetricamente, a sorte era que o que possuía de calculista possuía também de anárquico senso de humor, aliás, todos acreditavam que só calculava tudo para poder rir muito dos erros dos cálculos. Vivia se atrasando aos compromissos, sentia uma brisa úmida e calculava que dali a, no máximo, duas horas iria chover... Que chovia, chovia! Mas, dali a umas vinte e quatro horas!

De tudo isso ria muito e não cansava de contar a todos os seus erros de cálculos mais recentes, errava tanto que só de filho já estava no sexto, mas dizia que não erraria mais. Encontrei um dia com Maria, a sua gentil esposa, e perguntei-lhe (meio na galhofa): “e aí Ma, quando vem o sétimo?” Ela respondeu: “não, agora ele não erra nunca mais nos cálculos, operei, fechei a “fábrica””. Rimos muito, e ela me contou que agora a diversão dele era calcular os astros para acertar o destino profissional dos seis rebentos! Fiquei na dúvida se ela acreditava ou zombava do que dizia.

Dirigiu-se à cozinha e metodicamente lavou as louças da noite passada e produziu um café da manhã para os sete - a mulher e os seis filhos - cozinhou banana da terra, aipim, fritou ovos mexidos, esquentou leite, chocolate, pão, queijo, atum... Tudo sobre a mesa junto aos pratos e talheres. Para ele mesmo, só um café quente ingerido em pé e já com a toalha no ombro.

Banho, roupa leve, beijo na testa de Maria e... Rua, lá se foi ele para um dia importante, aliás, um dia esperado, aguardado com apreensão, com uma ansiedade daquelas que parece que não irá chegar nunca, mas chegou. Era o dia, após alguns meses das provas do concurso no qual a primeira colocação lhe valeria um pouco de tranqüilidade à mente e ao coração de alguém que viveu até então no universo draconiano do setor privado.

Entrou no velho e companheiro carrinho e dirigiu-se à Junta Médica do Estado para apresentar os resultados dos exames, que com certa dose de felicidade de dever cumprido, foi pelo caminho lembrando da “odisséia” que foi as duas semanas anteriores para fazer aquela lista interminável de exames:
a)sangue, esqueceram de dizer-lhe que deveria ter ido em jejum de doso horas (teve de ir duas vezes);
b)PSA, esqueceram de dizer-lhe que deveria ter, no mínimo, uma abstinência de 74 horas (mais duas vezes);
c)Sumários, esqueceram de dizer-lhe que deveria ser a primeira urina do dia, pois multiplique também por dois, começou a achar que os múltiplos de dois dominavam a vida na Terra.

Bem, mas havia vencido! O que poderia ter sido feito em, no máximo três dias, levou quinze para ser realizado, porém para quem esperou tanto... O que eram quinze dias não é mesmo?

Chegou ao local, parou o “Demolidor”, simpático nome de seu automóvel, aliás, carro, automóvel é outra coisa, no estacionamento do supermercado que fica próximo e dirigiu-se à aguardada Junta Medica do Estado. Chegou a um centro cheio de prédios medianos e perguntou ao simpático porteiro geral que estava em acirrada disputa filosófica a respeito do Campeonato Nacional de Futebol, após uns cinco minutos se fez notar e adquiriu a informação necessária. Entrou no prédio certo e foi à atendente, perguntou se era ali a Junta Médica, recebendo uma resposta com um mero balanço de cabeça e um papel velho imundo com um número e a frase: - “sente e aguarde, chamarei pelo número”.

Escolheu uma cadeira que estivesse na mira do ventilador, sentou e olhou as horas, eram 08h30min, pensou: “beleza, sairei cedo, levo ainda hoje o apto e tomo posse!” Seria a glória... Seria!
- Número 12.
Opa! Chegou, levantou-se e voltou ao já visitado balcão.
- Os documentos.
Retirou os documentos de dentro da pasta e apresentou. Ela começou a examinar, ele aguardava e ao mesmo tempo pensava: “ela não me olhou nem uma vez... Deixa disso, se ela olhar a todos que aqui chegam irá perder pelo menos uns 10 segundos em cada atendimento o que no fim será um atraso significativo – (eis um homem de cálculos).
Eram já 09h20min, e veio a sentença:
- Falta o carimbo deste exame.
- Como? (falou tremulo).
- Falta o carimbo deste exame.
- Mas minha amiga, todos os outros tem o carimbo, olha este aqui foi feito no mesmo laboratório e tem o carimbo.
- Mas este não tem.
- Olha minha linda, (um gracejo nervoso), este laboratório fica do outro lado da cidade...
- Só o que posso fazer por você é garantir que quando retornar não precisará pegar esta fila novamente.
- Tá bom, fazer o que né? (descobriu neste instante que não haveria argumentação possível para demovê-la).

Entrou no carro - calor absurdo, engarrafamento, atravessou a cidade e foi ao laboratório. Entrou esbaforido falando:
- Por favor, preciso de um carimbo neste exame!
A atendente pegou e respondeu:- “sinto muito, aqui é apenas recolhimento do material, as bioquímicas ficam na outra sede”.
Ele nem sabia que havia outra sede:
- e onde ficam as bioquímicas?
- Na sede da Pituba!
Ele gelou, andou uns quinze quilômetros só de ida e a tal da sede estava a apenas uns dois quilômetros no máximo da Junta Médica. Saiu “voando, atravessou tudo novamente, chegou à sede certa, pegou o carimbo e correu para a Junta.
Era meio-dia e vinte quando chegou, dirigiu-se a atendente (a mesma), e disse-lhe:
- É hora do almoço né?
- Não senhor, aqui não paramos.
Maravilha! (pensou) A sorte havia mudado, devem ser os cálculos astrológicos entre a manhã e a tarde. Entregou novamente os exames que foram vistoriados, aprovados com um leve balançar de cabeça e, ainda sem olhar para ele, entregou-lhe outra ficha numerada e disse: - “dirija-se ao quarto andar à esquerda e apresente a ficha”.
Realmente não havia interrupção para o almoço, mas das seis médicas que periciavam até as 14h30min só ficava uma que creio, havia perdido o sorteio.

Às 16 horas foi chamado, estava faminto, não havia almoçado. Muito suado, calculava o que havia passado entre o acordar e aquele momento histórico.
- Boa tarde, tudo bem?
Perguntou-lhe a médica, que como não viu entrar, presumiu ter sido ela que havia perdido no sorteio. Sabia que tinha de conter a fúria contra a burocracia que lhe massacrava o ser. Respondeu-lhe tentando ser gentil e alegre:
- Tudo bem!... Tirando a fome!
Ela sorriu, perguntou que horas havia chegado e mais um monte de coisas bobas, enquanto vistoriava e analisava os exames. Chegou à conclusão que tudo estava ótimo... Só faltava o último passo, medir a tensão.

Puf, puf, puf, apertou o braço dele e...
- Nossa sua tensão está muito alta!
- Minha senhora, com todo respeito, mas depois de tudo que passei neste calor infernal, sem almoçar, sem nem mesmo beber um copo d’água se minha tensão não estivesse alta eu estaria morto!
Ela não gostou. Levantou, olhou-o de cima para baixo e decretou:
- preciso de um parecer exato de um cardiologista, procure o de sua confiança faça os exames e depois volte.
- Mas...
- Boa tarde senhor.
Pensou em voar no pescoço dela, em desistir, em pular pela janela...
Pegou o veredito, botou debaixo do braço e saiu, esquivando-se, apressado, temeroso de que o sol, enfim, caísse-lhe sobre a cabeça! Já na rua... Recebeu a do cutelo:
- Aê tio, sem tensão... Dá um trocado prá completar meu almoço?

Roger Ribeiro.
16 de novembro de 2010.