quinta-feira, 7 de julho de 2011

Se é verdade?




All across the town, all across the night
Everybody's driving with full headlights
Black or white turn it on, face the new religion
Everybody's sitting 'round watching television!*



- Um abará só com pimenta, por favor.
- Dois e cinqüenta. Vai beber alguma coisa?
- O universo em um só trago!
- Humm... tome cuidado com o que você diz, as palavras são fortes, meu “fiu”.
- É... Então quero um milhão de dólares, ou como diz o saudoso Itamar, “ou coisa que os valha”.
- Só te digo uma coisa, cuidado!
- Valeu, até amanhã!
- Inté! Não esqueça, vá devagar.

Esta baiana vem com cada uma... O que será que ela viu? (saiu pensando), daqui a pouco vai dizer que tenho de cozinhar não sei o quê, andar de ponta cabeça, branquear ovo de codorna, nadar até Itaparica, assoviar o samba de Tião Motorista, andar em barra de trapezista... Mas, o que eu queria mesmo era vestir uma roupa linda feita pela irmã da menina Maria, ah! Isso eu queria.

Virando a esquina do bar Cravinho no sentido Terreiro de Jesus Praça da Sé, do nada e, aparentemente, em nada, tropeçou. Abriu os braços, buscou algum tipo de equilíbrio, os passos em desalinho variavam entre retos e tangenciais, a situação foi ficando incontrolável, na busca do equilíbrio foi acelerando e cambaleando...

- vixi! Uma hora desta e já está neste estado, creioemDeuspai...(condenou a senhora que saia da Catedral Basílica da Sé).

Crianças riam, um estudante, tirando onda de intelectual, cantarolou a canção de Aldir Blanc, “O Bebado e o Equilibrista”, difícil era definir ali, o que era bêbado e o que era equilibrista. Coitado não havia ingerido nem uma gota de álcool. O ser humano realmente.

Chegou à Ladeira da Praça e, a esta altura, seu movimento já havia virado um moto contínuo, já não havia como parar, o abará sorvido trafegava no estômago como a centrifugação da máquina de lavar. Passou por seu Jorge vendedor de acaçá que ao ver a cena balançou a cabeça e sentenciou:

- Falou demais, pediu e não agradeceu! Hum... Agora a verdade vai ter de encarar.

E assim foi. Era como se houvesse um motor de poupa. ao mesmo tempo algo o impedia de cair, parecia que sua função não era ir ao chão. Por sua cabeça apenas a preocupação de manter o tosco equilíbrio, mas mesmo no momento do “desandar dos ponteiros” lembrou do samba do Moreira e não conseguiu travar os dentes ao cantarolar, “descendo no samba a ladeira da Praça”, só que (pensou), no caso era descendo no tombo a Ladeira da Praça...

Pluuff, bummm. Caiu de costas na calçada. Olhou para cima e viu um rosto redondo e negro, ornado por uma vasta seqüência de límpidos e brilhantes dentes brancos a sorrir.

- vai prá onde meu branco?

Era uma negra gorda de semblante feliz, que ao ver a situação resolveu intervir, colocou-se à frente do caminho do nosso equilibrista e estancou-o entre os fartos seios e o farto abdome, foi tiro e queda, ou melhor, bater cair.

- Moça, affi... Não sei nem como te agradecer, achei que só ia parar em Itapoã.
Após uma larga risada que estrondou da Bahia a Minas Gerais, ela esticou o braço e de um só golpe o colocou de pé, ajeitou-lhe a gola da camisa, passou a mão nos seus cabelos e, sem perder jamais o sorriso, falou-lhe bem baixinho no “pé-de-ouvido”:

- Tem alguém te espiando!

- O quê?

- Oxi, vou ter que desenhar?

Olhou de um lado para o outro, notou que a vida continuava a mil, ninguém mais o notava, podia retomar o seu dia de onde havia parado.

Lembrou que a última coisa que, lúcido, havia pensado foi sobre a roupa da irmã de Maria. Olhou para aquela roupa de escritório que usava, lembrou de quantas rezas executara, quantos pedidos ao pé do altar por aquela vaga!

Meu Deus e agora onde estava? Que sentido aquele momento lhe proporcionava? Quantos documentos lhe restava? Quantos minutos de vida lhe faltavam...? E aquela roupa que lhe apertava!

- Moço, moço?!

Sentiu uma mão que lhe pegava, ouviu uma voz que lhe chamava, um olhar que lhe fitava, um frio que de repente do nada lhe arrebatara... Virou-se para quem lhe falara e disse apressado:

- Não adianta pedir, não tenho nada.

- Não é isso (disse-lhe a voz do menino que lhe pegara), apenas acho melhor por uma roupa, pois o poeta da Praça já está escabreado, a moça das flores apavorada, a devota de São Cristovam descabelada e a polícia tá com cara de que não tá gostando nada, nada!

Ao ser grampeado pelos “Homens da Lei”, seguro pelos braços e sem mostrar resistência, olhou para o alto do edifício, e viu na janela do décimo andar uma multidão se apinhando para olhar! Sorriu e, nu a todo pulmão, começou a cantar:

“Não pare na pista / é muito cedo prá você se acostumar”.**

Na cabeça a certeza: o movimento necessita do desequilíbrio!

Pela primeira vez ouviu-se um trovão soar em forma de um gostoso gargalhar.

Roger Ribeiro
07 de julho 2011.

* London's Burning -The Clash - Joe Strummer e M. Jones
** Não Pare Na Pista - Raul Seixas / Paulo Coelho

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma! Talvez uma



Era uma cidade diferente, não desconhecida, não isso não! Aliás, muito pelo contrário, era uma velha cidadela conhecida. Fazia um frio gostoso, nada abaixo de dezoito graus, o que fazia daquele caminhar entre prédios imperiais algo extremamente prazeroso.

Museus, teatros, cinemas, bares e restaurantes, tudo muito elegante sem perder o calor do abraço. Não era uma elegância fria de salão, era a imponência do belo e pleno, tudo composto para que a paisagem humana transitasse como notas musicais em uma partitura. Afinal não existe função para um pentagrama que não seja pendurar o tecido musical.

Aquele fim de tarde azulado pedia uma parada na padaria para um café coado, a conversa no balcão era intensa, porém calma e tranqüila, não havia alterações, alguns falavam de política, outros de futebol, praia, seleção, enfim era um universo múltiplo sem dúvida.

Após o café continuamos andando eu com minhas surradas botas pretas e meu amigo “Barba”, sempre com seu olhar atento, buscando fazer uma relação entre a larga avenida em que transitávamos e o que poderia ser aquele Vale no período pré-cabralino. Realmente um exercício intenso de imaginação e, claro, muito romantismo idílico.

Por um instante “Barba” parou. Senti os seus olhos se encherem d'água:

- O que houve? Perguntei-lhe.
- Olhe para frente...

Olhei e lá estava uma enorme e bela edificação religiosa.

- Bela não?
- O mais belo é o que foi refeito aqui.
- Como assim?
- Aquela igreja é a Candelária...
- Sim... Agora lembro; o local da chacina dos meninos.
- É... Veja o que fizeram! O largo está límpido, colocaram um monumento ao ocorrido, clarearam a região, mas, acima de tudo, mantiveram o luto, não empurraram para debaixo do tapete os fatos, eles estão ali, esta sociedade assume a sua culpa e não quer fazer esquecer, mas sim expor para não torná-la.

Calei-me e permitir-me refletir. Continuamos andando lado a lado, porém nos permitimos apenas calarmos, passamos pelas pessoas, pelas coisas, algum momento lembrou-me das poesias de Arnaldo Antunes e comentei com “Barba”, ele sem nem mesmo virar-se para mim subiu no pedestal da estátua e:

O buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora*


- Desce daí rapaz...(falei)
- Olha lá como fala, este local merece uma poesia!

Refiz-me do susto e não tive outra opção a não ser concordar, sim aquele local merecia uma poesia...

Senti a mão dele no meu ombro que saiu me puxando,adiantou o passo. Saímos da fase contemplativa como se tivéssemos um compromisso inadiável, novamente não deu tempo nem mesmo de tomar fôlego, nem de falar nada. Quando me vi estava entrando em um prédio lindo, onde havia várias exposições, salas de espetáculo e uma livraria maravilhosa encostada à lanchonete.

Subimos ao terceiro andar e quando me vi, já estava sentado à terceira fileira de uma simpática sala de fazer rir e chorar.

- “Barba” o que teremos aqui?
- A tradução!
- Como assim...?
- Não sei o que está acontecendo com você, estás desconectado!

Não deu tempo de responder, as luzes se apagaram e após aqueles famosos cinco minutos de não pode isso, desligue aquilo, temos isso e aquilo, o silêncio se fez. Dois vultos entraram no palco sentaram-se. Um acordeom bem sutil junto a uma Gibson semi-acústica vermelha encheu de uma música plena, porém leve e suave o ambiente

As luzes foram se ascendendo lenta e progressivamente. Da penumbra para a claridade ao centro do palco estava um ser prateado de sandálias de gladiador, lá estava ela soberana. Antes que emitisse qualquer som, sua presença se fazia, como na retórica de Gilberto Gil, enchendo de si todo o ar da sala de sonhar.

Sobre a cabeça uma cabeleira que parecia ter sido emprestada por alguém de diâmetro, raio ou sei lá com que medida se analisa cabeça e cabelo, maior do que ela. Era realmente algo impossível de não se ver, de não se admirar.


Cantou um blues nordestino, triste... daqueles de doer nos ossos, e seus olhos brilhavam como lagoa em lua cheia onde sabe-se que deve-se mergulhar, porém jamais se sabe aonde vai dar.

Mergulhei.

Roger Ribeiro
05 de julho de 2011

*Os buracos do espelho - Arnaldo Antunes

quinta-feira, 2 de junho de 2011

NORMAL MEU CARO! NORMAL.


Saiu sem olhar para trás, aliás, não olhava nada, seus olhos miravam o chão, porém sua visão estava etérea, não enxergava nada a não ser as palavras. Precisava arrancar de si as palavras exatas e, sabia bem claramente, que estas não queriam sair, teria que arrancá-las, expulsá-las de dentro de si.

Sabia que sangraria, e por não ter o costume do sangue, não tinha certeza se sobreviveria. A cada passo seu peito ia apertando, seu pulmão o sufocava, sua respiração lhe inebriava, sentia vertigem pela existência e ao mesmo tempo nada lhe garantia existir. Sentia-se inexistente.

Passava pelas pessoas como se ninguém lhe visse, jogava-se furiosamente contra o ar era como se este fosse uma montanha que tinha de deslocar para poder mover-se.

Lembrou-se de milhares de músicas ao mesmo tempo e anteviu, ao olhar uma vitrine, que sua cabeça iria estourar. Não havia sincronia em nada no seu corpo, seu andar não estabelecia relação com a respiração, o olhar com a audição, os pensamentos com os batimentos cardíacos, o que antes era oco tornou-se solidamente preenchido, o que devia ser sólido se desmanchava, nada escapava, nada.

Atravessou a rua como um suicida, gerou protestos, não notou nada, apenas sentiu um braço fino e quente enroscar-se em sua cintura e conduzi-lo a algum lugar. Qual? não viu. Foi deitado por este braço e sentiu a umidade que identificou ser de grama, permitiu-se estar totalmente impotente frente à gravidade, tombou e pousou sua cabeça lentamente sobre um colo, qual? Não sabia a quem pertencia. Fechou os sentidos e sentiu um desfalecer de alívio, apenas escutou pelo interior do colo que lhe abrigava, o vácuo racional do solfejar de uma canção:

Well I followed her to the station
With a suitcase in my hand
Yeah, I followed her to the station
With a suitcase in my hand
Whoa, it's hard to tell, it's hard to tell
When all your love's in vain

When the train come in the station
I looked her in the eye
Well the train come in the station
And I looked her in the eye
Whoa, I felt so sad so lonesome
That I could not help but cry

When the train left the station
It had two lights on behind
Yeah, when the train left the station
It had two lights on behind
Whoa, the blue light was my baby
And the red light was my mind
All my love was in vain
All my love's in*

Despertou. Sua cabeça repousava sobre uma pedra negra e arredondada, a grama estava com um forte cheiro de noite, estava bastante confuso, não sabia a quanto tempo ali estava, levantou-se, olhou ao redor e avistou o que poderia lhe ser a solução, aproximou-se e perguntou:

- Tens água mineral?

- Só vendo coco.

- (vistoriou o bolso, certificou-se que possuia algumas notas) veja-me uma natural, por favor.

- Um real e cinquenta.

- Por acaso você sabe da pessoa que estava comigo?

- Desculpe senhor, mas chegastes sozinho, deitastes e apagastes, ainda fui até você saber se estavas bem? Você acentiu com a cabeça e nada mais falou.
Meu Deus! (pensou)O que teria acontecido?

- Que horas o senhor tem? Por favor.

- (o vedendor de coco, olhou no telefone as horas) 21:00.

Pagou e apressou o passo, estava atrasado...

Entrou em um local escuro e barulhento, recebeu muitos comprimentos, sorrisos, mas nada disse. Continuava com o olhar etéreo, estava em uma interface de tempo e espaço.

As luzes azuis e vermelhas se acenderam, se viu no centro do tablado alto, empunhando uma luzente guitarra verde. Permitiu-se, pela primeira vez naquele dia, olhar a realidade, tensionou com a palheta as seis cordas e vendo no salão centenas de corações expostos fora do peito bradou:

O meu cigarro apagou
Eu vou dançar o rock and roll
E o meu dinheiro acabou
Eu me liguei no rock and roll
E o meu cigarro, o meu cigarro
O meu dinheiro acabou
E hoje eu me liguei é só no
Rock and roll
E o meu cigarro apagou
E o meu dinheiro acabou
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o rock and roll
Meu rock and roll
Posso perder minha mulher (rock and roll)
Posso perder a minha irmã (rock and roll)
Posso perder a minha mãe (rock and roll)
Posso perder até minha avó (rock and roll)
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o meu rock and roll!**

Roger Ribeiro
03 de junho 2011.

*Love In Vain - Robert Johnson.
** Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll - Arnaldo Dias Baptista / Ritta Lee / Arnolpho Lima Filho (Liminha)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Buracos de alma



- Vamos, anda logo... Levanta daí.

Confesso que me assustei, afinal estava, tranquilamente deitado em um banco da praça sob uma frondosa amendoeira, tentando tirar uma soneca compensatória por uma noite mal dormida e aquela voz, forte e grave, cortava, o até então, pacato som bucólico característico de praças arborizadas, para me trazer de volta à sombria realidade da condição humana!

Imediatamente achei tratar-se da Guarda Municipal e esperei o complemento do tipo: não é permitido deitar no banco, ou, Não é permitido dormir na praça... Mas, nada disso aconteceu, quando a voz soou novamente, já foi inquirindo:

- Desde quando usas barba? Estas se disfarçando? Fugindo da polícia? Ou fugindo de você?

Abri os olhos e vagarosamente fui observando aquele ser de pé ao meu lado. Botas pretas gastas, um dos “bicos” abertos, calça jeans surrada, camisa de meia branca básica, e uma barba grisalha que praticamente só deixava de fora a ponta do nariz e os olhos... Perguntei-lhe: e agora usas chapéu?

- O céu está desmoronando por isso agora uso chapéu.

Lá estava meu amigo Barba! Havia muito tempo que eu não o via... Senti um alívio ao ver seu, sempre gentil, sorriso para mim!

- Aliás, meu caro (continuou ele), estava te procurando exatamente por isso. Porque ainda não levantastes?

- Calma Barba, já vai...

- Veja como andas; você nem mesmo percebeu como nestes últimos tempos que os dias não estão sendo tão claros e as noites não estão escurecendo o suficiente, não foi mesmo?

- Te confesso que não reparei, mas também tenho tido dias muito confusos e atribulados, não tenho reparado muito as coisas.

- Pois este é exatamente o problema, você tem visto muito pouco e o pior, não deu crédito ao que viu, assim não tomou as atitudes e decisões que deveriam ter sido tomadas.

As coisas aqui fora são bem diferentes meu velho amigo, muito diferentes... Veja! Você nem reparou que o céu está despencando! Tá vendo aquele buraco ali? E aquele ali?

Olhei para cima e tomei um susto, era verdade, o céu estava cheio de buracos, o que será que estava acontecendo? Logo o céu?!

- Pois é o que eu estava te dizendo (continuou Barba), nem o céu agüenta mais esta humanidade e suas farsas, humanidade de humanóides sem o sentido filosófico, que isso fique claro!

Vamos levanta logo daí e vamos ali para você me pagar um bauru com um suco de laranja, que vou te explicar o que tenho visto e que você não viu.

- Colé Barba, tá sem grana?

- Não de forma alguma, mas pagar um lanche para um amigo é algo nobre dentro de uma amizade! Sendo assim, vamos ali à padaria que tem um sanduiche ótimo.

- Tá bom. Mas o que explica estes buracos no céu?

- Seus olhos.

- Ãh... Como assim?

- Você continua enxergando o mundo com os olhos internos meu caro!

- Barba, sinto ter de dizer, mas acho que as seqüelas dos anos 70s finalmente se revelaram!

- É nada, lembra de uma das últimas vezes que nos encontramos e você falava sem parar de um jantar que iria à noite?

- Caramba isso faz tempo heim...

- Pois, desde aquela época venho de longe te observando, e vi quando você começou a ficar sem cor, transparente, translúcido, flutuavas, parecia uma onda no mar... Só não se apercebeu que no mar existem os recifes para as ondas se espatifarem...
Por favor, um bauru e um suco de laranja sem açúcar.

- Barba acho que você está sendo dramático demais...

- Você acha mesmo? Você tá escutando? (apontou para a pequena caixa de som na parede).

De tudo se faz canção,
E o coração na curva de um rio...”*


Olhei para o lado e lá estava o bauru e o suco de laranja, mas o Barba já não mais estava, notei que havia mais um buraco no azul do céu.

Roger Ribeiro
10 de maio 2011.

* “Clube da Esquina II” - Lô Borges / Márcio Borges / Milton Nascimento

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Aff, eu devia ter ficado calado!



- Por favor, o senhor poderia falar mais baixo?

- Mas como assim?! Não vês que estou pregando a palavra do Senhor? Acaso é um destes hereges?

- Não meu senhor, sou apenas um trabalhador, retornando do serviço neste coletivo...

- Pois irmão! Não há hora melhor para que permitas que o Nosso Senhor se aloje em seu coração...

- Meu amigo, não tenho nada contra seu credo, apenas pedi para que falasse mais baixo, pois estás berrando no meu ouvido...

- Vejam vocês que absurdo! (apontando aos céus) Foi por pessoas assim que ele foi torturado, crucificado...

- Olha, sinceramente, prá mim chega! Você fica aqui berrando no ouvido de quem quiser, eu vou descer.

Pééééémmmmmmmmmmmm, puxou a cordinha e desceu no primeiro ponto.

Resolveu ir caminhando prá casa, ao todo seriam uns 8 a 10 quilômetros, seria bom para desopilar de um dia tenso no trabalho. Não conseguia tirar a idéia da cabeça de injustiça global sobre seus ombros, afinal como podia, um ser como ele, tão capaz, tão inteligente e responsável, ter que labutar dia-a-dia em algo tão indigno?! Ficar recebendo e cumprindo ordens ínfimas, que nada afetariam a humanidade, nada, nada que ultrapassasse as paredes sujas daquele escritório bolorento...

Parou em uma pastelaria.

- Por favor, um pastel de queijo.
- Só tem misto, pizza e carne.
- O de pizza tem presunto?
- Presunto, queijo, tomate e orégano.
- Hummm,
- Sim, quer do quê? A fila tá grande e o senhor esta ocupando espaço!
- O problema é que não como carne e...
- Então, vá procurar uma pastelaria natural e me deixe em paz!
- Você é um animal!
- E daí?! Você não come carne mesmo... vá...

Antes que o atendente complementasse a frase, o lado direito e esquerdo de seu rosto foi atropelado por braços portadores de fichas que aos berros tentavam se comunicar com o balconista!

- Uma esfirra, um de pizza, duas coxinhas...

Era um tumulto, foi assim que, posso dizer, foi praticamente expurgado do ambiente e exposto em seu limite vegetariano na calçada onde uma senhora esquálida olhava-o balançando negativamente a cabeça. Imaginou o que poderia se passar pela cabeça daquela senhora... Dirigiu-se a ela falando:

- Não precisa me julgar... Tome (entregou-lhe o dinheiro que antes tentava trocar pelo alimento), vá lá e compre a porcaria que quiseres.

- Obrigado senhor, que Deus o dê em dobro.

Pela calçada continuou seu percurso, até chegar a uma pequena praça que nunca havia observado existir. Ali se sentou e começou a refletir sobre os seus dias, sua existência e de como passou a vida inteira tentando ser uma pessoa boa e que ao final sempre ressoava a mesma classificação sobre si: - Um coitado.
- Coitado é a puta que pariu...!

Brandiu do nada, a todo o pulmão.

Uma senhora que passava carregando a sacola com pão e leite, levantou-lhe a vista e com um ar sério de repreensão acusou-o:

- Velho tarado, não se respeita? Aqui é um lugar decente!

Olhou ao redor e enrubesceu, realmente ali só haviam crianças brincando acompanhadas por suas mães ou babas. Ficou sem ação ao ter a certeza de que havia externado o que, por anos a fio, apenas passava em sua cabeça...

- Perdão gente! Não foi minha intenção... Eu juro!
- De boas intenções o inferno está cheio (censurou uma destas senhoras portadora de criança).

- Desculpem-me!

Retirou-se apressadamente, sem se dar conta de que havia esquecido a gravata e a pasta de trabalho sobre o banco da praça. Andava apressado assim como disse o poeta Paulo Leminski, como se sentisse alguma dor. Na verdade sentia, era uma dor profunda, muito funda que não tinha a coragem de atormentá-la. Por fim fatigado, pensou que não poderia chegar em casa ofegante daquela forma. Parou mais uma vez, desta vez em um boteco, destes de esquina e pediu uma cerveja bem gelada.

- Engraçado nunca o vi por aqui... (comentou uma jovem, morena, não diria atraente, mas pelo trajar, diria ser bem oferecida).

- É verdade, não costumo freqüentar este local, aliás, prá ser sincero, nunca o havia visto antes...

- Aqui é bom! A cerveja está sempre gelada e temos um cardápio especial que fica logo ali dentro daquela saleta atrás daquela cortina roxa... (falou isso a menos de 5 centímetros do seu rosto, piscou o olho e saiu, fazendo um andar que ... Bem não é preciso nem dizer que ninguém anda daquela forma).

- Humm... Eu heim; que dia! (falou para si mesmo).

Pagou a cerveja e terminou o percurso. Chegou ao prédio verdinho em que morava, respirou fundo para superar os três andares de escada, subiu, abriu a porta e... Lá estava ela, sua querida mulher, com ar de exausta após também um dia puxado de trabalho... Estava enfim salvo. Ela o olhou,olhou, mirou e disparou:

- Ôxeee, cadê a gravata?
- Hã...
- E sua pasta de trabalho? (aproximou-se e...) Mas que cheiro de perfume é esse? (apalpou-o cheirando-o e...) E cadê a sua carteira? Tá suado, cheirando perfume barato e cerveja...Olha...

- Amor não é nada disso... Foi um dia... Senta aqui que vou te contar...

- Contar coisa nenhuma... Bem que Creuzinha sempre me alertou... Velho tarado!

- eu?! Vocês é que vivem inventado coisas...

- Inventando?! Tá me chamando de mentirosa?... De mentirosa é...?!

Crashhh... foi-se a garrafa d’água, cabrumm (vaso), splasshhh... brawummmm, voou mais de metade da casa pela janela... E o grito ecoava sem parar...

- Mentirosa é? Seu velho tarado...

O vizinho aumentou o som para nada ouvir...

“Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...”*


Roger Ribeiro
14 de abril de 2011
*gatinha manhosa – Erasmo Carlos

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Façamos um Brinde!





Dia 31 de janeiro;
é dia de um baiano retado.
-



- Saúde! Muita saúde!
- Dinheiro! Felicidade! Saúde, sim saúde!
- Ao Baêêa!!
- Nada, aqui, só dá o Leão!
- À vida! Todos de pé, vamos lá... À vida!

O retorno veio rápido e certeiro; uma voz cambaleante, verdadeiramente embriagada, vibrou do último banco do balcão.

- Nem saúde, nem dinheiro, nem felicidade, nada! Nada disso, só e apenas uma coisa é fundamental para se viver nesta Vila dos efes gregorianos; humor, muito senso de humor meus jovens, nada mais que isso, aliás, sem ele o destino é um só: acabarás louco, aluado, doido varrido!

O silêncio se instaurou. O local não estava muito cheio, e o barulho que até então fazia lembrar estarmos em uma taberna contemporânea, vinha exatamente daquele enfileiramento de mesas onde, mais ou menos, quinze adolescentes tentavam brindar a alguma coisa que não se definia.

O silêncio foi quebrado em fim com uma zoada seca: scapufff! Todos olharam e era o nosso querido interpelador de brindes que havia despencado do seu banco e resmungava algo, acho que, em “aramaico arcaico” estatelado no chão.

Alguns meninos levantaram na intenção de socorrer quando a voz de dentro do balcão intercedeu:

- Não se apoquenta não criança, é assim todos os dias a mais de quinze anos, ali é o lugar dele. Vê aquela obra ali... Pois, tive de mudar o toalete de lugar, pois a entrada do anterior era exatamente onde este ser deita todos os dias, não sei como Deus ainda não o levou, pior, deixa esta cruz aqui para eu e meu bigode aturar. Se incomodem não, vão brincar, daqui à uma hora ele levanta toma mais uma e cai novamente (falou abrindo um sorriso que mostrava sua boca toda dourada).

- Mas gente... - falou a menina magrinha de cabelos avermelhados e longos - finalmente a que vamos brindar?
- Já falei... crianças, arg! Não aprendem, ao humor!
- Fica quieto Neneca, se não mando chamar dona Margarida, prá te levar e por debaixo de uma boa ducha fria, que é o que estás a precisar.
- Bom (desta vez tomou a palavra um rapagão, forte de cabelos curtos e voz um tanto quanto fina para a potência do seu corpo), devemos brindar ao que move o mundo! Viva o amor!

- Ai... Esta até doeu, será que nenhum destes cretinos irá usar o cérebro!

Nosso querido Neneca começou a buscar o banco como aliado para uma tentativa um tanto quanto hercúlea; Levantar a velha carcaça carcomida por um oceano de álcool, ao qual estava submerso; creio, desde o naufrágio do Galeão Sacramento, esforço daqui, esforço dali, força, a luta contra a gravidade era efetivamente grega, Odisseu virava conto infantil em sua lida com os Deuses frente aquela batalha que ali, no fundo escuro do imundo bar, ops! Bar não, Empório.

Sim Empório, e tinha de ser assim com letra maiúscula, o Empório São Cristovam de Seu Alaor, aafi, se ele ouvisse ou soubesse que você havia chamado o estabelecimento de bar... Hum! Das duas uma, se estivesses nele eras convidado a retirar-se, se nele não se encontrasse, terias seu nome escrito no quadro de giz em frente ao Empório, como pessoa não grata no estabelecimento.

- Vejam o Seu Alaor meninos, vive nestas bandas a mais de sessenta anos, possui o último Empório do além mar, vive aguardando a Nau trazer as barricas de bacalhau, azeite e especiarias, cultivou esta protuberância estomacal com o mesmo zelo que mantém este “ruibarboseano” bigode. É a memória viva, fez o bufet do casamento de Diogo Alves Correia e Catarina Paraguassú, vendeu pastel com guaraná da Fratelli Vitta para JJ Seabra e Antônio Balbino, conseguiu cobrar e receber dívida de Quincas Berro D’Água, conseguiu fazer Mário Sérgio brindar com Roberto Rebouças, ou seja um homem na história desta cidadela e é assim... Rabugento...

- Olha que te arremeto o salame na fuças... seu...

- Não falei, olha só, tá parecendo um pimentão não consegue ser feliz. Sabem por quê? Heim... Alguém aí sabe?

Stttrrrechhhh... Desta vez além de se “estabocar” no chão, levou também a mesa de metal - graças ao Senhor do Bonfim só havia um copo que se espatifou junto a ele.

- Ai minha Nossa Senhora de Fátima... Com este já vai prá mais de uma dúzia só este mês.

Do chão mesmo, Neneca completou:

- Não tem humor... É um velho ranzinza, mal amado, triste... Não consegue conviver com os carros sobre as calçadas, nem com o cheiro intenso de urina por todos os cantos, sem falar dos palavrões em qualquer lugar e a qualquer hora. Até o carnaval, que ele tanto gostava, saía vestido de viúva lisbonense, pois até o carnaval, para ele virou depravação pura, odeia as músicas de carnaval atual, diz que se enganou, pensou que nada seria pior do que o Rock, quando nos anos cinqüenta por aqui aportou, hoje acha o tal do Rock angelical frente aos locais mais inusitados e depreciativos em que as moças são clamadas a esfregar a tcheca, a bochecha, o than e os cambaus!!

- Aêêê, colé seu Alaor, assim não dá... vai dizer que não gosta de um pagodinho?
- Olha meninos desaforados, é melhor não dar ouvidos a este cachaceiro de uma figa, se não boto cês tudo pra correr.
- Não falei? Eu disse a vocês! E agora vocês querem ficar como ele? Como eu? Então garotada... Vamos todos de uma única vez, levantemos os nossos copos e com uma sonora gargalhada brindemos:

E o som ecoou pela cidade – Longa vida ao bom humor!

- Seu a Alaor (falou um molequinho que entrou no Empório), mainha pediu pro senhor mandar um quilo de farinha de guerra e por na caderneta.

Chaff, chiiiii... Ficou no ar o som da farinha escorrendo no saco de papel pardo.

Roger Ribeiro.
31 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pega! Não, deixa voar.


Em agradecimento a 2010.

Não é nada assim impossível, muito pelo contrário é uma caminhada de, no máximo, um quilômetro bastante agradável, principalmente porque havia se resguardado do sol escaldante e uma brisa muito fresca se fazia presente, arejando-lhe a fronte, tornando tudo ao redor em uma paisagem típica de filme Espanhol (pós surrealistas, claro).

Ao seu lado esquerdo o mar encrespado pelo vento nordeste baixo típico do fim de tarde, deixava-o com uma cor de azul fundo encorpado, era água se arremessando para todos os lados, parecia que o grande vale onde se aloja o mar estava pequenino para sua fúria. Os olhos andarilhos observavam a fúria com complacência, no fundo da retina sabia quantas e quantas vezes já havia passado pela mesma sensação da cavidade do seu peito ser mínima para a fúria de sentidos que afloravam.

Os passos eram lentos, porém firmes, os ouvidos atentos conseguiam, com raros erros, identificar o modelo do automóvel que se movia veloz à sua direita. Divagava nos pensamentos imaginando como seria morar em Nova York. Estaria neste momento perto do ano novo e certamente viveria uma experiência que não conhecia, afinal como seria o dia-dia em uma cidade coberta de neve? Como será acordar, sair, se transportar ao trabalho? Seria tudo normal? Não conseguia sentir a sensação exata do que seria isso.

Sabia apenas de uma coisa; não tinha vontade de passar o fim de ano lá como turista, não tinha o menor gosto nisso, para isso preferia passar o período nas areias do Arpoador na festa de ano-novo mais autêntica e natural que conhecia.

Na verdade pensava era como se vive na maior cidade da civilização Ocidental - ela sob eu sobre a neve? Era este cheiro, este tato, este gosto que queria sorver. Será que eles param em um quiosque e pedem um café bem quente? Será que há quiosques?

Seu cérebro estava de tal forma dominado por estas curiosidades que o caminho tornou-se uma paisagem sem registro, já não percebia o que estava à sua volta, não percebia mais nada! Estava dominado por seus pensamentos, parecia que tudo aquilo se decifraria a alguns metros à frente. Esqueceu que estava de calção de banho, camiseta regata e sandália de dedo, não percebia que se realmente estivesse a metros de seus pensamentos, estaria em sérios apuros com seus dois reais que levava para a água de coco, estaria enrascado, ou melhor, em uma gelada.

- Meu filho!

Era a voz de uma senhora sem dúvida e esta o tirou, vagarosamente, porém sem retorno, de sua quimera cerebral.

- Meu filho! Por favor...

A voz começava a mostrar certa irritação com a distração do alvo.

- Por acaso sabe me informar como chego à Quinta Avenida?
- Hã? Quinta o quê?
- Quinta Avenida meu filho! O que há com você está drogado? Necessita de ajuda?
- Nããão... De forma alguma, desculpe-me apenas estava distraído.
- Hum... Você conhece o livro “Distraídos Venceremos”?

“Ainda ontem
Convidei um amigo
Para ficar em silêncio
Comigo
Ele veio
Meio a esmo
Praticamente não disse nada
E ficou por isso mesmo”.*

Ao ouvi-la foi lentamente dirigindo os olhos que antes vislumbravam, meio turvamente, o Farol da Barra e dirigiu-se para aquela pequena senhora que lhe abordava. Ela tinha a pele morena clara e, pelos muitos anos que acumulava, a pele soltara da já inexistente carne ficando uma pele longa e enrugada sustentada por finos ossos, estava belamente vestida de Mulher Maravilha, com aquela saia de bandeira norte-americana estilizada e prendendo-lhe os prateados fios de cabelo a tiara com a estrela maior.

- Bom (falou ele recuperando o senso de real), a senhora quer ir à Quinta Avenida?
- Afii!... Eta povinho difícil sô! Pois já não te falei isso?
- A senhora está vendo aquele Farol?
- Espera, deixa-me acionar meus olhos de laser! Sim, nitidamente.
- Pois então, a Quinta fica exatamente à oitava volta do farol vermelho sobre a quina da Pedra dos Peixes.
- Ô meu filho, que Deus o abençoe... Muito obrigada.
- Não por isso, vá com cuidado.

Ela partiu, ele continuou o seu caminho como se nada tivesse acontecido, permaneceu olhando, ora em frente admirando a arquitetura do forte guardião dos “olhos do mar”, ora para as ondas que travavam a remotíssima batalha com as poderosas rochas litorâneas, sempre as imaginei como filhas de Erik o Vermelho.

Andando distraído tropeçou em algo, quase caiu, olhou para trás e viu tratar-se de uma fina e esquelética perna, assustou-se, será que a havia machucado? Olhou para o corpo que cabia àquela perna e apressou-se:

- Perdão minha senhora, estava distraído... e...

De repente reconheceu, era ela novamente! Mas como pode ser? E a roupa de mulher maravilha? Estava agora toda rota, suja... O que haveria acontecido?

- Senhora, lembra de mim? Há pouco lhe indiquei o caminho da Quinta Avenida?
- Sim meu filho, claro, você foi tão gentil! Como iria esquecê-lo?
- O que aconteceu?...
- A Quinta Avenida é linda meu filho, mas seus encantos são traiçoeiros, morei lá por tempos, desde que me indicastes o caminho, ouvi jazz, cansei de ver a bola do ano novo, porém me enamorei mesmo, foi pela maçã, perdi os dentes, mas não perdi o sabor da vida!
E você que não vejo há tanto tempo, continua andando distraidamente pela vida? O que fizeste durante o século XXI?

“(...) Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:

fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda”**

-Eu?!


Roger Ribeiro
31 de dezembro 2010.

* “Arte do Chá” – Leminski
** “O Sim Contra o Sim”- trecho – João Cabral de Melo Neto.