quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amanhã



Não soube o que aconteceu. Avistei pela última vez entrando no coletivo que se dirigia ao centro da cidade, daí em diante, aonde desceu? Para onde se dirigiu? O que
fez da própria vida...? Não sei dizer, o fato é que sumiu, desapareceu de vez, virou fumaça.

Enquanto todas estas dúvidas pairavam em minha cabeça, continuava, sentado na biblioteca com aquele livro do “Nuvem Cigana” em minha frente, porém não conseguia absorver nada, lia as letras e estas não formavam palavras, as palavras não formavam frases, as frases não formavam períodos, enfim o abstrato não se materializava em nada e isso me deixava efetivamente desnorteado, desde pequeno desenvolvi uma verdadeira aversão ao nada. Afinal nada é muito pouco.

Mas, foi assim mesmo, do nada ela entrou na sala de leitura, aliás, antes dela efetivamente entrar o que entrou foi o seu cheiro... Um cheiro forte de mata ao amanhecer. Imediatamente ergui os olhos, não foi nenhum sacrifício, afinal do “Nuvem Cigana”, nada absorvia mesmo - que me perdoem os velhos vanguardistas cariocas - mas a nuvem não chovia no meu cérebro.

Em pé à porta estava ela, percorri a sua geografia e fui me divertindo ao vê-la. Seu cabelo estilo “joãozinho”, que junto a um óculos daqueles de armação grossa e grande que normalmente as mulheres só aceitam sobre o nariz quando escuros na arreia da praia, mas os dela não, eram branquinhos, translúcidos e seu aro inferior praticamente moldava um leve sorriso de quem ainda observa se estava no local certo, na hora certa e, isto bem mais subjetivo, fazendo a coisa certa.

O ponteiro de segundos mal se moveu, porém as horas voavam, será que todos viam o que eu via? Bem, uma coisa é certa ela não via nada, pois seu olhar por de trás das grandes lentes brancas não fitavam nada... Olhava absorta para a parede de livros sem procurar efetivamente nada. Seus passos relapsos dirigiram-se ao recepcionista da sala e com a voz empostada e em tom alto perguntou:

- Ele já chegou?

- Desculpe senhora (falou o recepcionista), de quem a senhora está falando?

- Por favor, não se faça de desentendido. O senhor escutou muito bem...

- Sim, não estou negando, realmente escutei, porém não sei há quem a senhora se refere.

- Ele...Ela...

- A senhora por acaso já observou nas outras salas se ele, ela, não é assim? Por lá não está?

- Creio que o senhor está querendo esconder algo de mim. Marquei aqui, veja o relógio! Marcam exatamente 9:35 desta quita feira, 25 de agosto de 2011. Não existe equívoco algum tudo foi milimetricamente acertado.

- Minha senhora! Aqui se escondem nestas páginas destas centenas de livros, muitas histórias, muitos encontros e desencontros, porém como a senhora pode perceber, só a senhora sabe com quem marcou, sendo assim como eu posso saber se já chegou ou não? É homem ou mulher?

- Não importa o que espero não tem sexo. Vou caminhar pela sala, talvez não tenha observado o suficiente.

Andou pela sala tentando disfarçar, olhava atentamente a todos, e quando a pessoa se sentia observada, desviava o olhar, fingia ajeitar o cabelo, tossia, ou seja, disfarçava, aliás... muito mal.

Retirou um tipo de echarpe muito fino de motivo indiano da bolsa e cobriu os cabelos curtos e arredondados, olhou-me atentamente, levantei a vista e, pela primeira vez não tentou disfarçar, permaneceu esquadrinhando cada centímetro de meu rosto, minha expressão. Aproximou-se e respirou fundo, queria inalar o meu aroma. Na mesma comprida mesa em que eu estava havia uma jovem estudante atribulada com suas pesquisas escolares.

Ela sentou-se ao lado da minha vizinha estudante, olhou-a fixamente, puxou-lhe o livro que lia e quando esta levantou a vista para saber do que se tratava...

- Você está aqui há muito tempo? (disparou ela à jovem).

- Desde as 8:00, quando abriu, porque? (respondeu-lhe de forma ríspida característico dos jovens estudantes)

- Você então deve ter testemunhado a chegada?!

- Que é isso minha senhora? É algum tipo de brincadeira?

- Não brinco com coisas sérias. Foi visto entrando em um coletivo em direção ao centro da cidade, portanto, claro que já deve está aqui.

- A senhora é louca?

A jovem levantou assustada dirigiu-se ao recepcionista e falou algo inaudível para nós. Antes, ao ouvi-la falar de alguém que havia se transportado em direção ao Centro e não havia vestígio, levantei a vista e fitei-a. Ela olhou-me novamente e disparou:

- Você também aguarda, não é mesmo? Eu sei que sim, seu cheiro é de quem aguarda.

- Não sei se falamos da mesma coisa, mas faz tempo que soube que transitou em direção ao Centro, mas aqui não chegou.

Ela sorriu de forma leve e serena, ergueu-se, caminhou lentamente, como se flutuasse, até a mim, fitou-me mais uma vez atentamente, pegou em minha testa pressionando-a para trás, passou o dedo entre meu nariz e meu lábio superior, balançou negativamente a cabeça, virou-se e saiu lenta e levemente andando e dizendo-me:

- Se Amanhã chegar, por favor, diga-lhe que Hoje esteve aqui.

Dirigiu-se à estante e, se não fiquei louco, achei que havia entrado em um determinado livro. Balancei a cabeça, apertei os olhos para certificar-me de estar acordado e são. Para que ninguém notasse e pensasse tratar-se de um louco, deixei o tempo passar... Levantei-me e discretamente dirigir-me até a estante. Puxei o volume que, para mim, ela havia entrado, sorri ao ler: CRONICA DE UNA MUERTE ANUNCIADA - GARCIA MARQUEZ, GABRIEL. Estava tudo explicando.

Roger Ribeiro.
25 de agosto de 2011.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Arquitetura do Ser

Para uma jovem avó, que me ensinou que o verdadeiro arquiteto é o poeta - a verdade.




"Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento".*




Andava distraído, não havia um destino exato, era um caminhar misto de desocupação, contemplação e exercício. O dia era chuvoso, uma chuva fina, aquilo que os paulistanos chamam de garoa, umedecia a cidade e, naquela praça gramada e repleta de árvores, uma das poucas remanescentes da cidade, esta friagem era ainda mais sentida.

No ouvido o fiel fone ligado ao rádio, que de tanto ser o companheiro do solitário caminhador já havia sido batizado, ironicamente, de Orlando Silva – “O Cantor das Multidões”. Pois, foi exatamente dos poderosos pulmões, ou melhor, dos poderosos transistores de “Orlando” que lhe veio à surpresa. Havia, ele não sabia quem, transformado uma lenta e sensibilíssima canção de amor em uma levada funk pop, sem o menor sentido.

O nosso caminhador tomou tal susto que chegou a parar, ele não acreditava naquilo, como podia alguém transformar uma canção como “A Linha e o Linho” naquilo, não era possível, é algo impensável, para você ter uma idéia seria como retirar “Moon Over Bourbon Street” da obra “Bring On The Nigth” - o álbum duplo pós Police - e colocá-la em um arranjo típico do “Chiclete com Banana” (a banda baiana). Nossa! Como seria possível tamanha falta de sensibilidade?

Ele balançava a cabeça em negativa, estava realmente incrédulo com o que lhe invadia os ouvidos. Pensava: será que eles não percebem que esta poesia possui música própria?

Não agüentou, retirou os fones de “Orlando” do ouvido e passou a olhar aquela paisagem fria e úmida, algo quase londrino em plena Salvador. Pessoas passavam por ele com vestimentas de “malhação” sempre muito coloridas e ar de ausência, afinal quem pode estar em atividade física em plena quinta-feira às 9:00 horas desta manhã chuvosa de alguma forma se sente ausente, para o bem ou para a dor, do mundo robótico dos “normais”.

Continuou sua caminhada e agora mais do que nunca estava alheio a tudo que lhe cercava. Apenas a imensa interrogação lhe ocupava a mente: como podem ter feito aquilo?

Caminhando mais que distraído acabou por esbarrar em uma árvore; bateu caiu... Quando recobrou o mínimo de consciência estava deitado em um chão molhado, rodeado de olhares que lhe interrogavam de cima para baixo:

- Você, você, cê, c... Está, está, tá, t... bem, bem, bem be...b...?

Eram muitas vozes que lhe arrebatavam o espaço que até então era exclusivo de “Orlando”, balbuciou meio que embriagadamente:

- T... tudo bem... mas, algum de vocês pode me dizer como pode ser?

- Moço,olha o seu rádio...Caiu mas já testei, pra sua sorte ele tá funcionando.

- “Orlando”! Nossa não sei como te agradecer...

Olhou aquela mão fina e morena jambo, como as melodias de Jards Macalé, que lhe estendia o seu grande e único companheiro e foi lentamente reparando aquela menina encoberta por um vestido vermelho que lhe realçava a pele morena e o sorriso que lhe reduzia os pequenos olhos, que, menores ainda ficavam por detrás daquele óculos de lentes grossas.

- Ôcê poderia ter se machucado...

- Pior, muito pior, menina cor de jambo, eu poderia ter decretado a morte de “Orlando”, Deus do céu!

- Quem?!!

- “Orlando”, que você salvou para mim!

- Ah! Seu rádio chama-se “Orlando”?

- Sim, “O Cantor das Multidões”! E você, mineirinha né? Tem nome?

- Não sou mineira, morei muito tempo lá, mas sou daqui, de qualquer forma você pode me chamar de mineira, fica-me bem... e eu mato um pouco a saudade.

Passaram a andar juntos, ela, como boa mineirinha, matutando disparou:

- Mas o quê houve com você?

Ele olhou-a com uma ternura de séculos sorriu e disse:

- Os tolos pensam que podem ludibriar os poetas!

Roger Ribeiro
04 de agosto de 2011

*SONETO ANTIGO – Cecília Meireles

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Se é verdade?




All across the town, all across the night
Everybody's driving with full headlights
Black or white turn it on, face the new religion
Everybody's sitting 'round watching television!*



- Um abará só com pimenta, por favor.
- Dois e cinqüenta. Vai beber alguma coisa?
- O universo em um só trago!
- Humm... tome cuidado com o que você diz, as palavras são fortes, meu “fiu”.
- É... Então quero um milhão de dólares, ou como diz o saudoso Itamar, “ou coisa que os valha”.
- Só te digo uma coisa, cuidado!
- Valeu, até amanhã!
- Inté! Não esqueça, vá devagar.

Esta baiana vem com cada uma... O que será que ela viu? (saiu pensando), daqui a pouco vai dizer que tenho de cozinhar não sei o quê, andar de ponta cabeça, branquear ovo de codorna, nadar até Itaparica, assoviar o samba de Tião Motorista, andar em barra de trapezista... Mas, o que eu queria mesmo era vestir uma roupa linda feita pela irmã da menina Maria, ah! Isso eu queria.

Virando a esquina do bar Cravinho no sentido Terreiro de Jesus Praça da Sé, do nada e, aparentemente, em nada, tropeçou. Abriu os braços, buscou algum tipo de equilíbrio, os passos em desalinho variavam entre retos e tangenciais, a situação foi ficando incontrolável, na busca do equilíbrio foi acelerando e cambaleando...

- vixi! Uma hora desta e já está neste estado, creioemDeuspai...(condenou a senhora que saia da Catedral Basílica da Sé).

Crianças riam, um estudante, tirando onda de intelectual, cantarolou a canção de Aldir Blanc, “O Bebado e o Equilibrista”, difícil era definir ali, o que era bêbado e o que era equilibrista. Coitado não havia ingerido nem uma gota de álcool. O ser humano realmente.

Chegou à Ladeira da Praça e, a esta altura, seu movimento já havia virado um moto contínuo, já não havia como parar, o abará sorvido trafegava no estômago como a centrifugação da máquina de lavar. Passou por seu Jorge vendedor de acaçá que ao ver a cena balançou a cabeça e sentenciou:

- Falou demais, pediu e não agradeceu! Hum... Agora a verdade vai ter de encarar.

E assim foi. Era como se houvesse um motor de poupa. ao mesmo tempo algo o impedia de cair, parecia que sua função não era ir ao chão. Por sua cabeça apenas a preocupação de manter o tosco equilíbrio, mas mesmo no momento do “desandar dos ponteiros” lembrou do samba do Moreira e não conseguiu travar os dentes ao cantarolar, “descendo no samba a ladeira da Praça”, só que (pensou), no caso era descendo no tombo a Ladeira da Praça...

Pluuff, bummm. Caiu de costas na calçada. Olhou para cima e viu um rosto redondo e negro, ornado por uma vasta seqüência de límpidos e brilhantes dentes brancos a sorrir.

- vai prá onde meu branco?

Era uma negra gorda de semblante feliz, que ao ver a situação resolveu intervir, colocou-se à frente do caminho do nosso equilibrista e estancou-o entre os fartos seios e o farto abdome, foi tiro e queda, ou melhor, bater cair.

- Moça, affi... Não sei nem como te agradecer, achei que só ia parar em Itapoã.
Após uma larga risada que estrondou da Bahia a Minas Gerais, ela esticou o braço e de um só golpe o colocou de pé, ajeitou-lhe a gola da camisa, passou a mão nos seus cabelos e, sem perder jamais o sorriso, falou-lhe bem baixinho no “pé-de-ouvido”:

- Tem alguém te espiando!

- O quê?

- Oxi, vou ter que desenhar?

Olhou de um lado para o outro, notou que a vida continuava a mil, ninguém mais o notava, podia retomar o seu dia de onde havia parado.

Lembrou que a última coisa que, lúcido, havia pensado foi sobre a roupa da irmã de Maria. Olhou para aquela roupa de escritório que usava, lembrou de quantas rezas executara, quantos pedidos ao pé do altar por aquela vaga!

Meu Deus e agora onde estava? Que sentido aquele momento lhe proporcionava? Quantos documentos lhe restava? Quantos minutos de vida lhe faltavam...? E aquela roupa que lhe apertava!

- Moço, moço?!

Sentiu uma mão que lhe pegava, ouviu uma voz que lhe chamava, um olhar que lhe fitava, um frio que de repente do nada lhe arrebatara... Virou-se para quem lhe falara e disse apressado:

- Não adianta pedir, não tenho nada.

- Não é isso (disse-lhe a voz do menino que lhe pegara), apenas acho melhor por uma roupa, pois o poeta da Praça já está escabreado, a moça das flores apavorada, a devota de São Cristovam descabelada e a polícia tá com cara de que não tá gostando nada, nada!

Ao ser grampeado pelos “Homens da Lei”, seguro pelos braços e sem mostrar resistência, olhou para o alto do edifício, e viu na janela do décimo andar uma multidão se apinhando para olhar! Sorriu e, nu a todo pulmão, começou a cantar:

“Não pare na pista / é muito cedo prá você se acostumar”.**

Na cabeça a certeza: o movimento necessita do desequilíbrio!

Pela primeira vez ouviu-se um trovão soar em forma de um gostoso gargalhar.

Roger Ribeiro
07 de julho 2011.

* London's Burning -The Clash - Joe Strummer e M. Jones
** Não Pare Na Pista - Raul Seixas / Paulo Coelho

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma! Talvez uma



Era uma cidade diferente, não desconhecida, não isso não! Aliás, muito pelo contrário, era uma velha cidadela conhecida. Fazia um frio gostoso, nada abaixo de dezoito graus, o que fazia daquele caminhar entre prédios imperiais algo extremamente prazeroso.

Museus, teatros, cinemas, bares e restaurantes, tudo muito elegante sem perder o calor do abraço. Não era uma elegância fria de salão, era a imponência do belo e pleno, tudo composto para que a paisagem humana transitasse como notas musicais em uma partitura. Afinal não existe função para um pentagrama que não seja pendurar o tecido musical.

Aquele fim de tarde azulado pedia uma parada na padaria para um café coado, a conversa no balcão era intensa, porém calma e tranqüila, não havia alterações, alguns falavam de política, outros de futebol, praia, seleção, enfim era um universo múltiplo sem dúvida.

Após o café continuamos andando eu com minhas surradas botas pretas e meu amigo “Barba”, sempre com seu olhar atento, buscando fazer uma relação entre a larga avenida em que transitávamos e o que poderia ser aquele Vale no período pré-cabralino. Realmente um exercício intenso de imaginação e, claro, muito romantismo idílico.

Por um instante “Barba” parou. Senti os seus olhos se encherem d'água:

- O que houve? Perguntei-lhe.
- Olhe para frente...

Olhei e lá estava uma enorme e bela edificação religiosa.

- Bela não?
- O mais belo é o que foi refeito aqui.
- Como assim?
- Aquela igreja é a Candelária...
- Sim... Agora lembro; o local da chacina dos meninos.
- É... Veja o que fizeram! O largo está límpido, colocaram um monumento ao ocorrido, clarearam a região, mas, acima de tudo, mantiveram o luto, não empurraram para debaixo do tapete os fatos, eles estão ali, esta sociedade assume a sua culpa e não quer fazer esquecer, mas sim expor para não torná-la.

Calei-me e permitir-me refletir. Continuamos andando lado a lado, porém nos permitimos apenas calarmos, passamos pelas pessoas, pelas coisas, algum momento lembrou-me das poesias de Arnaldo Antunes e comentei com “Barba”, ele sem nem mesmo virar-se para mim subiu no pedestal da estátua e:

O buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora*


- Desce daí rapaz...(falei)
- Olha lá como fala, este local merece uma poesia!

Refiz-me do susto e não tive outra opção a não ser concordar, sim aquele local merecia uma poesia...

Senti a mão dele no meu ombro que saiu me puxando,adiantou o passo. Saímos da fase contemplativa como se tivéssemos um compromisso inadiável, novamente não deu tempo nem mesmo de tomar fôlego, nem de falar nada. Quando me vi estava entrando em um prédio lindo, onde havia várias exposições, salas de espetáculo e uma livraria maravilhosa encostada à lanchonete.

Subimos ao terceiro andar e quando me vi, já estava sentado à terceira fileira de uma simpática sala de fazer rir e chorar.

- “Barba” o que teremos aqui?
- A tradução!
- Como assim...?
- Não sei o que está acontecendo com você, estás desconectado!

Não deu tempo de responder, as luzes se apagaram e após aqueles famosos cinco minutos de não pode isso, desligue aquilo, temos isso e aquilo, o silêncio se fez. Dois vultos entraram no palco sentaram-se. Um acordeom bem sutil junto a uma Gibson semi-acústica vermelha encheu de uma música plena, porém leve e suave o ambiente

As luzes foram se ascendendo lenta e progressivamente. Da penumbra para a claridade ao centro do palco estava um ser prateado de sandálias de gladiador, lá estava ela soberana. Antes que emitisse qualquer som, sua presença se fazia, como na retórica de Gilberto Gil, enchendo de si todo o ar da sala de sonhar.

Sobre a cabeça uma cabeleira que parecia ter sido emprestada por alguém de diâmetro, raio ou sei lá com que medida se analisa cabeça e cabelo, maior do que ela. Era realmente algo impossível de não se ver, de não se admirar.


Cantou um blues nordestino, triste... daqueles de doer nos ossos, e seus olhos brilhavam como lagoa em lua cheia onde sabe-se que deve-se mergulhar, porém jamais se sabe aonde vai dar.

Mergulhei.

Roger Ribeiro
05 de julho de 2011

*Os buracos do espelho - Arnaldo Antunes

quinta-feira, 2 de junho de 2011

NORMAL MEU CARO! NORMAL.


Saiu sem olhar para trás, aliás, não olhava nada, seus olhos miravam o chão, porém sua visão estava etérea, não enxergava nada a não ser as palavras. Precisava arrancar de si as palavras exatas e, sabia bem claramente, que estas não queriam sair, teria que arrancá-las, expulsá-las de dentro de si.

Sabia que sangraria, e por não ter o costume do sangue, não tinha certeza se sobreviveria. A cada passo seu peito ia apertando, seu pulmão o sufocava, sua respiração lhe inebriava, sentia vertigem pela existência e ao mesmo tempo nada lhe garantia existir. Sentia-se inexistente.

Passava pelas pessoas como se ninguém lhe visse, jogava-se furiosamente contra o ar era como se este fosse uma montanha que tinha de deslocar para poder mover-se.

Lembrou-se de milhares de músicas ao mesmo tempo e anteviu, ao olhar uma vitrine, que sua cabeça iria estourar. Não havia sincronia em nada no seu corpo, seu andar não estabelecia relação com a respiração, o olhar com a audição, os pensamentos com os batimentos cardíacos, o que antes era oco tornou-se solidamente preenchido, o que devia ser sólido se desmanchava, nada escapava, nada.

Atravessou a rua como um suicida, gerou protestos, não notou nada, apenas sentiu um braço fino e quente enroscar-se em sua cintura e conduzi-lo a algum lugar. Qual? não viu. Foi deitado por este braço e sentiu a umidade que identificou ser de grama, permitiu-se estar totalmente impotente frente à gravidade, tombou e pousou sua cabeça lentamente sobre um colo, qual? Não sabia a quem pertencia. Fechou os sentidos e sentiu um desfalecer de alívio, apenas escutou pelo interior do colo que lhe abrigava, o vácuo racional do solfejar de uma canção:

Well I followed her to the station
With a suitcase in my hand
Yeah, I followed her to the station
With a suitcase in my hand
Whoa, it's hard to tell, it's hard to tell
When all your love's in vain

When the train come in the station
I looked her in the eye
Well the train come in the station
And I looked her in the eye
Whoa, I felt so sad so lonesome
That I could not help but cry

When the train left the station
It had two lights on behind
Yeah, when the train left the station
It had two lights on behind
Whoa, the blue light was my baby
And the red light was my mind
All my love was in vain
All my love's in*

Despertou. Sua cabeça repousava sobre uma pedra negra e arredondada, a grama estava com um forte cheiro de noite, estava bastante confuso, não sabia a quanto tempo ali estava, levantou-se, olhou ao redor e avistou o que poderia lhe ser a solução, aproximou-se e perguntou:

- Tens água mineral?

- Só vendo coco.

- (vistoriou o bolso, certificou-se que possuia algumas notas) veja-me uma natural, por favor.

- Um real e cinquenta.

- Por acaso você sabe da pessoa que estava comigo?

- Desculpe senhor, mas chegastes sozinho, deitastes e apagastes, ainda fui até você saber se estavas bem? Você acentiu com a cabeça e nada mais falou.
Meu Deus! (pensou)O que teria acontecido?

- Que horas o senhor tem? Por favor.

- (o vedendor de coco, olhou no telefone as horas) 21:00.

Pagou e apressou o passo, estava atrasado...

Entrou em um local escuro e barulhento, recebeu muitos comprimentos, sorrisos, mas nada disse. Continuava com o olhar etéreo, estava em uma interface de tempo e espaço.

As luzes azuis e vermelhas se acenderam, se viu no centro do tablado alto, empunhando uma luzente guitarra verde. Permitiu-se, pela primeira vez naquele dia, olhar a realidade, tensionou com a palheta as seis cordas e vendo no salão centenas de corações expostos fora do peito bradou:

O meu cigarro apagou
Eu vou dançar o rock and roll
E o meu dinheiro acabou
Eu me liguei no rock and roll
E o meu cigarro, o meu cigarro
O meu dinheiro acabou
E hoje eu me liguei é só no
Rock and roll
E o meu cigarro apagou
E o meu dinheiro acabou
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o rock and roll
Meu rock and roll
Posso perder minha mulher (rock and roll)
Posso perder a minha irmã (rock and roll)
Posso perder a minha mãe (rock and roll)
Posso perder até minha avó (rock and roll)
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o meu rock and roll!**

Roger Ribeiro
03 de junho 2011.

*Love In Vain - Robert Johnson.
** Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll - Arnaldo Dias Baptista / Ritta Lee / Arnolpho Lima Filho (Liminha)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Buracos de alma



- Vamos, anda logo... Levanta daí.

Confesso que me assustei, afinal estava, tranquilamente deitado em um banco da praça sob uma frondosa amendoeira, tentando tirar uma soneca compensatória por uma noite mal dormida e aquela voz, forte e grave, cortava, o até então, pacato som bucólico característico de praças arborizadas, para me trazer de volta à sombria realidade da condição humana!

Imediatamente achei tratar-se da Guarda Municipal e esperei o complemento do tipo: não é permitido deitar no banco, ou, Não é permitido dormir na praça... Mas, nada disso aconteceu, quando a voz soou novamente, já foi inquirindo:

- Desde quando usas barba? Estas se disfarçando? Fugindo da polícia? Ou fugindo de você?

Abri os olhos e vagarosamente fui observando aquele ser de pé ao meu lado. Botas pretas gastas, um dos “bicos” abertos, calça jeans surrada, camisa de meia branca básica, e uma barba grisalha que praticamente só deixava de fora a ponta do nariz e os olhos... Perguntei-lhe: e agora usas chapéu?

- O céu está desmoronando por isso agora uso chapéu.

Lá estava meu amigo Barba! Havia muito tempo que eu não o via... Senti um alívio ao ver seu, sempre gentil, sorriso para mim!

- Aliás, meu caro (continuou ele), estava te procurando exatamente por isso. Porque ainda não levantastes?

- Calma Barba, já vai...

- Veja como andas; você nem mesmo percebeu como nestes últimos tempos que os dias não estão sendo tão claros e as noites não estão escurecendo o suficiente, não foi mesmo?

- Te confesso que não reparei, mas também tenho tido dias muito confusos e atribulados, não tenho reparado muito as coisas.

- Pois este é exatamente o problema, você tem visto muito pouco e o pior, não deu crédito ao que viu, assim não tomou as atitudes e decisões que deveriam ter sido tomadas.

As coisas aqui fora são bem diferentes meu velho amigo, muito diferentes... Veja! Você nem reparou que o céu está despencando! Tá vendo aquele buraco ali? E aquele ali?

Olhei para cima e tomei um susto, era verdade, o céu estava cheio de buracos, o que será que estava acontecendo? Logo o céu?!

- Pois é o que eu estava te dizendo (continuou Barba), nem o céu agüenta mais esta humanidade e suas farsas, humanidade de humanóides sem o sentido filosófico, que isso fique claro!

Vamos levanta logo daí e vamos ali para você me pagar um bauru com um suco de laranja, que vou te explicar o que tenho visto e que você não viu.

- Colé Barba, tá sem grana?

- Não de forma alguma, mas pagar um lanche para um amigo é algo nobre dentro de uma amizade! Sendo assim, vamos ali à padaria que tem um sanduiche ótimo.

- Tá bom. Mas o que explica estes buracos no céu?

- Seus olhos.

- Ãh... Como assim?

- Você continua enxergando o mundo com os olhos internos meu caro!

- Barba, sinto ter de dizer, mas acho que as seqüelas dos anos 70s finalmente se revelaram!

- É nada, lembra de uma das últimas vezes que nos encontramos e você falava sem parar de um jantar que iria à noite?

- Caramba isso faz tempo heim...

- Pois, desde aquela época venho de longe te observando, e vi quando você começou a ficar sem cor, transparente, translúcido, flutuavas, parecia uma onda no mar... Só não se apercebeu que no mar existem os recifes para as ondas se espatifarem...
Por favor, um bauru e um suco de laranja sem açúcar.

- Barba acho que você está sendo dramático demais...

- Você acha mesmo? Você tá escutando? (apontou para a pequena caixa de som na parede).

De tudo se faz canção,
E o coração na curva de um rio...”*


Olhei para o lado e lá estava o bauru e o suco de laranja, mas o Barba já não mais estava, notei que havia mais um buraco no azul do céu.

Roger Ribeiro
10 de maio 2011.

* “Clube da Esquina II” - Lô Borges / Márcio Borges / Milton Nascimento

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Aff, eu devia ter ficado calado!



- Por favor, o senhor poderia falar mais baixo?

- Mas como assim?! Não vês que estou pregando a palavra do Senhor? Acaso é um destes hereges?

- Não meu senhor, sou apenas um trabalhador, retornando do serviço neste coletivo...

- Pois irmão! Não há hora melhor para que permitas que o Nosso Senhor se aloje em seu coração...

- Meu amigo, não tenho nada contra seu credo, apenas pedi para que falasse mais baixo, pois estás berrando no meu ouvido...

- Vejam vocês que absurdo! (apontando aos céus) Foi por pessoas assim que ele foi torturado, crucificado...

- Olha, sinceramente, prá mim chega! Você fica aqui berrando no ouvido de quem quiser, eu vou descer.

Pééééémmmmmmmmmmmm, puxou a cordinha e desceu no primeiro ponto.

Resolveu ir caminhando prá casa, ao todo seriam uns 8 a 10 quilômetros, seria bom para desopilar de um dia tenso no trabalho. Não conseguia tirar a idéia da cabeça de injustiça global sobre seus ombros, afinal como podia, um ser como ele, tão capaz, tão inteligente e responsável, ter que labutar dia-a-dia em algo tão indigno?! Ficar recebendo e cumprindo ordens ínfimas, que nada afetariam a humanidade, nada, nada que ultrapassasse as paredes sujas daquele escritório bolorento...

Parou em uma pastelaria.

- Por favor, um pastel de queijo.
- Só tem misto, pizza e carne.
- O de pizza tem presunto?
- Presunto, queijo, tomate e orégano.
- Hummm,
- Sim, quer do quê? A fila tá grande e o senhor esta ocupando espaço!
- O problema é que não como carne e...
- Então, vá procurar uma pastelaria natural e me deixe em paz!
- Você é um animal!
- E daí?! Você não come carne mesmo... vá...

Antes que o atendente complementasse a frase, o lado direito e esquerdo de seu rosto foi atropelado por braços portadores de fichas que aos berros tentavam se comunicar com o balconista!

- Uma esfirra, um de pizza, duas coxinhas...

Era um tumulto, foi assim que, posso dizer, foi praticamente expurgado do ambiente e exposto em seu limite vegetariano na calçada onde uma senhora esquálida olhava-o balançando negativamente a cabeça. Imaginou o que poderia se passar pela cabeça daquela senhora... Dirigiu-se a ela falando:

- Não precisa me julgar... Tome (entregou-lhe o dinheiro que antes tentava trocar pelo alimento), vá lá e compre a porcaria que quiseres.

- Obrigado senhor, que Deus o dê em dobro.

Pela calçada continuou seu percurso, até chegar a uma pequena praça que nunca havia observado existir. Ali se sentou e começou a refletir sobre os seus dias, sua existência e de como passou a vida inteira tentando ser uma pessoa boa e que ao final sempre ressoava a mesma classificação sobre si: - Um coitado.
- Coitado é a puta que pariu...!

Brandiu do nada, a todo o pulmão.

Uma senhora que passava carregando a sacola com pão e leite, levantou-lhe a vista e com um ar sério de repreensão acusou-o:

- Velho tarado, não se respeita? Aqui é um lugar decente!

Olhou ao redor e enrubesceu, realmente ali só haviam crianças brincando acompanhadas por suas mães ou babas. Ficou sem ação ao ter a certeza de que havia externado o que, por anos a fio, apenas passava em sua cabeça...

- Perdão gente! Não foi minha intenção... Eu juro!
- De boas intenções o inferno está cheio (censurou uma destas senhoras portadora de criança).

- Desculpem-me!

Retirou-se apressadamente, sem se dar conta de que havia esquecido a gravata e a pasta de trabalho sobre o banco da praça. Andava apressado assim como disse o poeta Paulo Leminski, como se sentisse alguma dor. Na verdade sentia, era uma dor profunda, muito funda que não tinha a coragem de atormentá-la. Por fim fatigado, pensou que não poderia chegar em casa ofegante daquela forma. Parou mais uma vez, desta vez em um boteco, destes de esquina e pediu uma cerveja bem gelada.

- Engraçado nunca o vi por aqui... (comentou uma jovem, morena, não diria atraente, mas pelo trajar, diria ser bem oferecida).

- É verdade, não costumo freqüentar este local, aliás, prá ser sincero, nunca o havia visto antes...

- Aqui é bom! A cerveja está sempre gelada e temos um cardápio especial que fica logo ali dentro daquela saleta atrás daquela cortina roxa... (falou isso a menos de 5 centímetros do seu rosto, piscou o olho e saiu, fazendo um andar que ... Bem não é preciso nem dizer que ninguém anda daquela forma).

- Humm... Eu heim; que dia! (falou para si mesmo).

Pagou a cerveja e terminou o percurso. Chegou ao prédio verdinho em que morava, respirou fundo para superar os três andares de escada, subiu, abriu a porta e... Lá estava ela, sua querida mulher, com ar de exausta após também um dia puxado de trabalho... Estava enfim salvo. Ela o olhou,olhou, mirou e disparou:

- Ôxeee, cadê a gravata?
- Hã...
- E sua pasta de trabalho? (aproximou-se e...) Mas que cheiro de perfume é esse? (apalpou-o cheirando-o e...) E cadê a sua carteira? Tá suado, cheirando perfume barato e cerveja...Olha...

- Amor não é nada disso... Foi um dia... Senta aqui que vou te contar...

- Contar coisa nenhuma... Bem que Creuzinha sempre me alertou... Velho tarado!

- eu?! Vocês é que vivem inventado coisas...

- Inventando?! Tá me chamando de mentirosa?... De mentirosa é...?!

Crashhh... foi-se a garrafa d’água, cabrumm (vaso), splasshhh... brawummmm, voou mais de metade da casa pela janela... E o grito ecoava sem parar...

- Mentirosa é? Seu velho tarado...

O vizinho aumentou o som para nada ouvir...

“Meu bem
Já não precisa
Falar comigo
Dengosa assim...”*


Roger Ribeiro
14 de abril de 2011
*gatinha manhosa – Erasmo Carlos