terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ah... Esqueci!



O tempo não era dos mais afortunados, sentia-se como nunca havia se sentido antes. Era um enorme descompasso entre o interno e os limites definidos pela fina pele, a impressão que tinha era que a luz estava apagada em plena noite de Lua Nova, ao meio-dia.

Sentia os lobos rondando e surdamente rosnando aguardando o momento exato para traiçoeiramente atacar. Não se expunham frente a frente, nas sombras, nas curvas e quinas aguardavam no subterfúgio no jogo, mas sempre à espreita com suas babas viscosas, aguardavam a primeira oportunidade. Vivem do que tramam.

Poucos dias atrás conseguiu reaver um contato que há muito não fazia. Alguém muito especial, ainda mais em um momento como este nunca d’antes imaginado, reapareceu. Em conversa rápida pôde expressar um pouco do seu desafinar dentro do momento vivido. Como sempre lhe foi dada a generosa atenção e um pouco de acalanto, lembrou-lhe de uma certeza que sempre carregou consigo: o movimento deriva do desequilíbrio.

Saiu um pouco daquele ambiente insalubre e foi buscar alguma coisa que normalmente quando não sabemos bem do que se trata, dizemos que estamos em busca de um pouco de ar puro. Claro que isso não condiz com a realidade, afinal ar só se procura quando se está em baixo d’água e, viver em uma grande cidade hoje e encontrar algo como ar puro, é querer viver em um planeta entre Salvador Dali e Zé do Bar e os Filósofos que Tomaram Ácido!

Era necessário encontrar uma saída, aquele micro-universo já não lhe seduzia, estava algo parecendo o carnaval de Salvador: faltava brilho, luminosidade, alegria, enfim faltava fantasia!

Com estes devaneios na cabeça caminhava absorto, lenço não possuía, mas os documentos, estes eram abundantes, porém não prestou atenção à suas próprias observações e sem mais nem menos, em uma minúscula pedrinha, tropeçou... Neste tropeço viu o mundo girar, tentou se segurar no ar, tateou, nadou em terra firme, mas nada o ajudou e ao solo foi com a sede dos Beduínos. De longe ouviu o comentário:

- Pô o cara tomou um “estabaque retado”! (seguido de grande e jubilosa gargalhada)

Na sua cabeça (ao solo) ficava dividido entre a vontade de responder àquelas gargalhadas e entender o que havia acontecido? Afinal como uma minúscula pedrinha daquela poderia levá-lo ao solo daquela forma?

- Levanta daí. Não está vendo que estás impedindo a passagem? Toma vergonha, uma hora dessas em vez de está trabalhando ta aí bêbado feito um gambá!

Neste momento veio em seu pensamento: gambá? E gambá bebe desde quando? Ou será que esta criatura no alto de sua arrogância quer dizer que estou fedendo? Vagarosamente foi revirando a cabeça para responder aquela interlocução. O bico do seu sapato estava a menos de três dedos da ponta do seu nariz e a sua visão, no sentido Sul – Norte, demonstrava uma perna longilínea, torneada, ornada por uma meia feminina prata que parecia não ter fim. Tomou fôlego e:

- A senhora está insinuando que estou bêbado?
- Olha se não está é bom procurar um médico, pois o vi cambaleando por uns cinco metros procurando no ar uma garrafa imaginária até não resistir mais e desabar como uma jaca mole e aí permanecer parecendo uma lagarta aguardando as asas.
- Minha senhora...
- Senhorita, por favor?
- Acaso está sentido cheiro de álcool?
- Estou muito gripada, estas viroses pós carnaval...
- Saiba que a senhorita está muito enganada, sou um trabalhador de respeito, só estou aqui arejando um pouco o juízo para retornar ao trabalho...
- Arejar o juízo...? Olha meu querido, lá em casa eu tenho sabão e escovão e estou necessitando de alguém para arejá-la. Ali sim o lar de uma trabalhadora. Arejar o juízo? Isto deve estar escrito em tudo que é parede de banheiro de boteco.
- Hã! Assim a senhora está me ofendendo...
- Senhorita já disse! És surdo ou abestalhado?

Se levantou vagarosamente sentindo ponto por ponto aonde doía mais e aonde doía menos.

- Senhora, senhora e senhora... E mais: uma senhora broaca, e se não gostou vá dar queixa no módulo policial! (acho que desta vez me vinguei)
- Você é um mal educado descompreendido que não sabe enxergar uma pessoa decente quando vê, e sabe por quê? Porque no mundo de lixo em que vive não há nem sequer um exemplar!
- Você é que não se enxerga! Não vê que estás sendo mesquinha e egoísta? Tropecei no girar da terra e tomei uma queda que, se fosses uma pessoa realmente humana, me perguntaria se me machuquei e me ajudaria a levantar, mas em vez disso ficas aí me ofendendo...
- Agora quer que eu o chame de coitadinho? Não me faça rir de você. Termina logo de levantar que estou com fome!
- E eu com sua fome?
- Xiii, acho que bateu a cabeça e avariou de vez. Vamos logo afinal você vai me levar para almoçar e eu vou te contar maravilhas do planeta em que venho!

Assim, sem mais forças para reagir, lembrou que esqueceu. Deu-lhe o braço e saíram em direção ao almoço, não sabia mais de onde vinha nem aonde deveria estar. Sua única dúvida era aonde levar a senhorita? Ao natural ou a churrascaria? Com as portas e as janelas da cabeça aberta, começou a cantar... E no meio da rua ela o puxou para dançar!

“"Astronarta" libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia”*

E eu vendo tudo daqui da Lua Nova.

Roger Ribeiro
28 de fevereiro de 2012.
*2001 – Tom Zé

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Qual o seu plano?



Para Maurício, um sábio amigo.

Por aqui é assim mesmo, os dias não nascem apenas por nascer. Existe sim, claro, o dia que nasce preguiçoso e deixa a cargo dos seres terráqueos a função de fazê-lo acontecer, mas tem dias que as conjunturas já se pronunciam, é nesta hora que o dia já nasce atento, ou como dizia Dona Beré em sua sabedoria sino-recôncava: “o dia nasce de olho aberto!”.

Há algum tempo atrás, em uma tarde marrenta, calorenta e úmida dirigi-me ao Largo Dois de Julho, para espantar o calor sorvendo um “pão líquido”, como definitivamente e sabiamente define a velha cervejinha a nossa Rita Bacana. Não havia marcado nada com ninguém, porém as sintonias transitam pelo imponderável e quase simultaneamente chegamos para ficarmos sob a jurisprudência gentil de Manoel, que rapidamente nos levou, eu, o Barba e o Gordo para uma mesa de alumínio fresca, já empunhando uma “ampola” do nosso pão “líquido”, assim do nada já estávamos no velho e bom Líder. A tarde iria render.

A prosa começou com o eterno sorriso largo do Gordo, que nunca escutei falar na primeira pessoa do singular, de sua boca a pronúncia era sempre o nós. Esta era a pessoa que ocupava o seu universo, o nós. Pois assim disse:

- Os meninos estão dispersos demais.

Uma pausa foi feita para se ter a clareza do dito. Nesta pausa quase que um livro inteiro passou na minha cabeça (O Solara da Fossa). Realmente era uma verdade, os meninos estavam dispersos. É algo que se passa de geração em geração, acontece principalmente com nós meninos, olhei para Barba que neste momento fitava seriamente suas velhas botas pretas, e verbalizando parte do meu pensamento disse:

- Mas Gordo, esse é o caminho natural, principalmente para os garotos, esta necessidade de ruptura de laços para transpor a fase infantil para a fase adulta.

Mais um tempo de pausa, e finalmente o Barba resolveu entrar na questão:

- Sim é verdade, parece que este movimento pendular não irá se romper nunca. Nascemos com a essência sutil aberta, até determinado momento somos como que um seminário de aprendizado, agregamos a nós talentos que vão se somando aos nossos e de pedacinho em pedacinho, de pessoa a pessoa que agregamos a nós, formamos um grande mosaico, um todo que adentra no mundo como a Escola de Samba no Sambódromo. Simplesmente invade sem pedir licença e, encanta.

Sim, pensei, é assim mesmo. Lembrei da frase inicial do Gordo, as idéias foram se conectando: café, estúdio, jornalismo, composições, etc. Tudo isso que um dia formou um único corpo agora formava partes que mantinha-se educadas, “aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação”*

- Estupidez eterna! (retomou a palavra o Barba) Abandona-se a essência sutil para inflar o ego, a camada mais densa, perde-se a noção do mosaico, da somatória, no lugar de fortalecer a generosidade e a ingenuidade desprovida de ambições desmedidas, isola-se acreditando que um homem deve tornar-se arrimo de sua vida, só. Desapega-se do coletivo rico e composto, para o minimalismo individual e frágil.

Ouvindo o Barba lembrei-me das olheiras de Tom Zé, tomando café da manhã na Padaria Santa Marcelina em Perdizes, que, em uma leitura minha muito minha, parecia perguntar atônita aonde andava a turma? Era época de um suposto ostracismo, mas que como hoje fica claro, nunca deixou de ser gestor.

“Todos os dias eu faço força pra lembrar,
Coisas pequenas que eu nunca pude reparar direito,
Onde será que andava o mato do jardim,
E os bichos da noite,
Que eu nunca ouvi tão alto assim?”**

- Precisamos quebrar este ciclo vicioso, (retomou o raciocínio o Gordo), é preciso fazer alguma coisa.

O tempo entre aquele encontro passou, a idéia central jamais se perdeu, mas como disse, nesta terra existem caminhos que não se explicam apenas se aplicam e se aprende com eles.

Um dia o Gordo, do nós, fez questão de ficar sozinho e assim só partiu para uma nova viagem, mas por que ele do nós neste dia quis ser o eu?

Os dias seguem seu curso, mas o aprendizado fica. Pelo menos para os que ainda se permitem ter tempo para ler os signos da vida.

Roger Ribeiro
07 de fevereiro 2012


*Volte para o seu lar – Marisa Monte
**O brilho das pedras – Sá, Rodrix e Guarabyra

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Não Perdes por esperar



Por que ele foi me dizer isso? E agora? Não consigo parar de pensar nem um segundo... É muito grave. Imagina só, a guerra já começou, e todos estão em seus carros seus ônibus, taxis, bicicletas ou sei lá como, indo e vindo do trabalho, da escola, dos bares, teatros, cinemas ou sei lá de onde e a guerra sobre suas cabeças. Meu Deus! Alguém precisa fazer algo.

Parei em frente à banca de revista e comprei avidamente todos os jornais, revistas semanais, mensais tudo enfim, afinal não me conformava que a guerra já estivesse sendo travada, bem debaixo do meu próprio nariz, e eu aqui sem saber de absolutamente nada?! Ou como dizia aquele velho cantador: “eu aqui na praça dando milho aos pombos”? Não aceito e pronto.

O pior é ter a certeza de que desta vez trata-se realmente de um conflito de caráter mundial. Ela esta sendo travada até mesmo na mais minúscula ilha da Polinésia, seus efeitos podem ser devastadores, lembro bem do brilho dos seus olhos quando me confidenciou saber sobre o conflito e bem sei que aquele brilho tinha razão de ser, afinal a nova arma estava entrando em ação, uma arma muito antiga, mas muito pouco utilizada até então. Então lá está o raio-X do conflito: o arcaico munido de suas velhas, obsoletas e obtusas práticas de opressão, repressão e afins versus mentes ágeis e jovens usando a tão temida inteligência.

De todo o planeta parte pelo ciberespaço perguntas diretas para as principais e mais representativas corporações que representam o que ainda há de resquício da ordem de domínio, bombardeio de perguntas que vão sendo rebatidas pelas defesas da corporação até que uma destas perguntas não consiga ser respondida. Pronto é o inimigo abatido, a porta do sistema é escancarada e penetrada, assim em um momento estão dentro do IBM, do Pentágono ou de qualquer outra corporação. E, mesmo que não consiga penetrar, a multiplicação de milhões de acessos ao mesmo tempo... como se diz por aqui “despiroca” a geringonça.

Pare imediatamente, falei, ou melhor, berrei para mim mesmo, porém tudo mentalmente, neste exato momento enquanto meu corpo oscilava entre trinta e seis e trinta e sete graus, meu cérebro estava fervendo, a tampa da cabeça parecia que iria explodir como um bueiro carioca. Precisava desviar as idéias o mais rápido possível. Para começar uma água bem geladinha iria ajudar, entrei no boteco e fui direto ao balcão.

- Por favor, uma água sem gás bem gelada.

Olhei ao redor e percebi ao meu lado uma silhueta feminina tão bela quanto enigmática. Estava toda coberta de um tecido colorido e bordado de pequenas flores que lhe dava uma aura primaveril, uma alpercata de finas tiras de couro que permitia ver um pouco da pele alvíssima, quase transparente de um pezinho fino como uma lâmina. Esqueci todos os conflitos como um passe de mágica e fiquei completamente entregue a decifrar aquela bela e fluida mulher que dividia o balcão comigo.

Nossos pedidos chegaram ao mesmo tempo, duas garrafinhas de água sem gás, tentei ver o seu rosto, porém estava encoberto por um óculos escuro que lhe tomava praticamente toda a face complementado por lenço cor de laranja forte que lhe envolvia a cabeça e o pescoço, de fora somente a boca vermelha carnuda umedecida pela água. Tomou metade de um copo, levantou-se e iniciou sua saída. Olhei para o balcão e percebi que havia ficado uma folha de papel...

- Moça, moça! Você esqueceu este papel.
- Não, você está enganado.
- Como assim? Não é seu?
- Sim é meu, mas eu não o esqueci. Deixei-o aí, pois creio que é para você.
- Para mim?

Virei-me para pegar o papel e quando retornei a vista para frente ela já não estava, corri até a porta e tive por alguns segundos uma vertigem por conta da claridade, esfreguei os olhos e a procurei na rua... nada, ela simplesmente havia sumido, evaporado. Entrei novamente com o papel na mão e voltei ao balcão, começava a temer pela minha sanidade.

Sentei-me no banco do balcão, tomei mais um copo da água e finalmente resolvi ver o que havia naquele papel:

“Depois de ler e reler o texto escrito
constatei aflito ser um ultimato,
ser um veredicto:
abandone as esperanças
Tudo por aqui é teia de aranha, seu mosquito”.*

Confesso que tremi. Meu Deus porque ela disse que me pertencia? Paguei a água e sai do bar mais atordoado do que havia entrado, lembrei-me do conflito mundial, das questões cotidianas, lembrei que havia combinado esquecer... Não esqueci. Andava como um zumbi, até ser interditado por alguém que postou-se em minha frente, pegou no meu ombro e sorrindo me disse: delete.

Não sei mais de mim.

- Você me leva pra tomar um sorvete de cajá com coco verde na Ribeira?
- hã...

Ainda meio tonto abracei-a pela cintura e saí cantarolando um samba de Kid Morengueira: “(...) vai ter outra lua-de-mel, você vai ser madame, morar no Palace Hotel, (...)”**

Roger ribeiro
27 de janeiro de 2012

*Perdidos Nas Estrelas - Itamar Assumpção
**Acertei no Milhar - Wilson Batista e Geraldo Pereira

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

São meninas tão bonitas!




O convite veio pelo correio. Era um envelope estranho todo lacrado, mas, à frente vinha um nome conhecido: o meu. Já no verso o remetente era um enigmático conjunto indefinido de algarismos construindo um notável enigma que me levou um bom mói de tempo para ao fim não chegar a lugar algum.

Era algo jurássico, um telegrama, creio que muito dos que estão atentos a esta narrativa jamais conheceram um, mas digo, já foi tão revolucionário na comunicação quanto a internet e seus penduricalhos. E, como sempre, telegrama era algo de travar a respiração de qualquer um, afinal quem e porque teria tanta pressa de falar com alguém assim? O mundo da era do Telex não era tão paranóico, as pessoas sabiam um pouco mais ficar sozinhas, ou se contentavam com suas companhias, um telegrama, e isso era indiscutível, ou trazia uma má ou, de preferência, uma ótima notícia.

Fico pensando nas bobagens que vejo hoje nas “redes sociais”, do tipo: “acordei, vou pra academia”, “bom dia a todos”, ”estou no avião”, “cheguei a casa”... E por aí a fora, como se seu deslocar, ou não, interessasse a todo mundo?! Meu Deus! Penso eu, será que alguém se deslocaria até uma agência do correio, escreveria e pagaria para enviar uma mensagem a todos dizendo: “cheguei da academia”? Bom mas são tempos modernos e o que já foi pago, já foi, assim pode-se escrever o que quiser...

Bem, voltando ao meu telegrama, senti aquele velho frio no estômago e pensei imediatamente nas pessoas mais velhas, mãe, tias, tios, amigos destes e etc, afinal este é, e seria, um meio de comunicação natural delas e assim sendo as notícias nestes meios sempre nos dão aquela expectativa, claro mantendo sempre o pensamento positivo. Abri vagarosamente o comunicado, com cuidado para não atingir nenhuma letrinha do valoroso escrito:

- Querido, espero por você, por favor, não se ausente.

Não havia assinatura, endereço, mapa, vestígios algum, nada, absolutamente nada... Como alguém, sujeito oculto, pode me convidar para um local indeterminado, sem dia, hora, nada! Como ela, ou ele, poderia querer que eu não faltasse? Mas que loucura é essa? Voltei à frente e fundo do envelope, afinal eu deveria estar enganado, em algum local, deveria constar os dados necessários para o meu comparecimento, olhei, refolhei, coloquei contra a luz (lembrei disso em um filme de espionagem que havia visto), e finalmente; nada.

Deixei-o de lado e procurei tocar meu dia, mas tinha mais do que certeza de que a maior parte dos meus sentidos ligados ao intelecto havia ficado ali sobre a mesa junto ao telegrama, de agora em diante, naquele dia eu não teria comigo nem dez por cento de minha condição de concentração e entendimento. Como alguém pode fazer isso com outra pessoa?

Sai, fui trabalhar, fiz tudo daquele instante em diante no chamado “piloto automático”, graças aos meus anjos da guarda nada apareceu que necessitasse de grande ação do intelecto, eram apenas coisas banais do dia-a-dia, e meu cérebro inteiramente deitado por sobre o papel cáqui da comunicação. Entendi mais do que nunca o poeta quando dizia que “o pensamento parece uma coisa à toa, mais como é que agente voa quando começa a pensar”, e lá estava eu, foram dez, sim sem exagero nenhum, dez horas voando sobre aquele enigma totalmente amedrontado de que ao fim deste estivesse a Esfinge sem o seu nariz.

Fim de expediente e como de costume alguém bradou:

- E aí galera quem topa uma gelada?

De imediato, praticamente no reflexo respondi:

- Aí “thurma da firlma”, hoje pra mim não vai dar, tenho algo muito importante me esperando, já fui...

O coro foi total: - Aêêê!! Vai tirar o pé da jaca heim!...

Nem olhei, saí em disparada, afinal certamente deveria haver um complemento por baixo da porta, não era possível que assim não fosse. Entrei esbaforido em casa com os olhos pregados no chão procurando. Olhei, abaixei, olhei mais pra cá, mais pra lá, afinal o vento podia ter levado e: nada. Decepção total.

Caramba! Olha (falei para mim) deixa isso pra lá, se quem mandou não deu referências é porque não quis, sendo assim... Vou tomar meu banho e fica como se isso não tivesse acontecido. Aliás, o que mesmo aconteceu? (tática de esquecimento).

Foi só o tempo de tomar a ducha, ainda estava abraçado à toalha quando a campa da porta disparou. Cheguei a tomar um susto, afinal para quem mora sozinho a única coisa que chega a sua porta sem você são os códigos de barra que passam, despudoradamente, por baixo dela. Perguntei de longe quem lá estava à porta, mas não obtive resposta, espiei pelo olho-mágico e nada vi. Abri vagarosamente a porta, ou pelo menos tentei, pois logo senti o tranco:

- Sai pra lá, você está lento hem camarada?! Não temos tempo a perder.

E invadiu o ambiente carregando algo enorme. Era uma linda moça de um metro e sessenta que, apesar de não ter dado tempo de se apresentar, ou ao menos de eu ver direito quem penetrava meu lar, deixou-me a nítida impressão de já ter visto aqueles cabelos castanhos ao vento em algum lugar. Olhei o corredor externo para me certificar de que não havia mais ninguém, fechei ainda assustado a porta e me virei temendo o que poderia encontrar.

Recuei incrédulo até bater as costas na porta, não era possível, no lugar de minha minúscula e entulhada sala, abria-se um imenso salão todo alvo como uma nuvem de verão! Não era possível avistar o fim, o brilho era intenso, era algo entre o inexistente e o inacreditável. Ao centro da sala havia um piano de calda igual ao que John Lennon tocou Imagine e sentada com as mãos cuidadosamente sobre as teclas estava ela, seus cabelos castanhos agora estavam enormes e flutuavam pelo imenso e brilhante vão. Meio incrédulo perguntei:

- Hoje é você?

- Bem que haviam me dito que você era meio leso, claro que sou eu, ou está achando que é quem?

- Podia ser Ontem? (falei)

- Infelizmente minha irmã Ontem se perdeu na bruma.

Quando lhe faria a pergunta, que tanto me atormentou, sobre o telegrama a companhia estrilou novamente, abri a porta e lá estava ela, linda com seus cabelos negros e seu vestido esmeralda. Do centro da sala veio a voz:

- Amanhã? Enfim você chegou... E começou a tocar a Valsa Romântica de Claude Debussy.

Amanhã e eu começamos a girar pelo infinito salão

Roger Ribeiro.
26 de dezembro de 2011.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Maria, a Bahia tem um jeito...



Criiiiiiiiiiiiiiiii.... Foi bem no meio da
Avenida Contorno, atravessado por uma Kombi bicolor que descia do Dois de Julho em direção à Conceição da Praia, e que simplesmente saiu; assim mesmo, como veio saiu, não olhou para um lado nem para o outro, aliás, nem para cima, pois se assim tivesse feito veria o próprio Jesus Cristo boca aberta, olhos arregalados e cabelos arrepiados com a barbaridade que fez.

O nosso coletivo vinha “na banguela” ladeira abaixo, o vento zunia pelas janelas, os rádios ligados misturavam “de um tudo”, era música evangélica, hip-hop, pagode, a coisa dentro do velho Campo Grande/Ribeira tava mais quente que festa de Largo na barraca do Juvená nos anos setenta. Como dizem por estas bandas, o dendê tava fervendo!

Foi aí que veio aquele “freio de arrumação” que você ouviu lá na primeira linha, eu vi tudo, não havia alternativa, ou estancava o “bumbão” ou ia voar caco de Kombi pra tudo que é lado. Pegaria pelo meio e, se não me falham os cálculos neste momento de emoção, iria sair a Kombi voando por sobre o Solar do Unhão e iria parar no meio da Baia de Todos os Santos, algo assim entre a Gameleira e o Farol de Humaitá. Seria uma tragédia,sem dúvida.

Mas foi daí que a Kombi, que nem notou nada seguiu seu curso e a nossa odisséia começou. Prá início de conversa a freada foi tão violenta que os dois pneus dianteiros do “buzú”, simplesmente
estouraram! O motorista só teve uma reação que foi escancarar o bocão e gritar a pleno pulmão:

- Fela de uma put...!

Clamor, aliás, o qual nós passageiros respondemos em uníssono:
- ôôôôÔô.
Pois nestas ocasiões, com o coletivo razoavelmente lotado, o primeiro culpado é sempre o motô (motorista para os não acostumados com o vocabulário local), daí até explicar que Chico não é
Francisco, corre um rio Amazonas por baixo da ponte.

Para piorar um pouco a situação, uma elegantíssima senhora que vinha em seu poderoso e importado automóvel no vácuo do nosso “bumbão”, não conseguiu parar e... Crashhhhhh-pracatabrum... entrou com tudo no fundo, slaflet abriram-se duas bolas de ar que não permitia ver nada dentro do poderoso automóvel, lentamente a porta se abriu e ela desceu com seu vestido longo prateado, seu cabelo cheio de laquê e sobre o salto de lá mesmo começou, delicadamente, a berrar:

- Seu Viad... FdP, ta com o olho no c...

Menino era um festival de impropérios que até eu, que não sou disso, fiquei rubro. Quem diria que uma senhora tão fina heim?!

Neste contexto externo, pegando fogo, o nosso querido e injustiçado motorista, levantou-se do seu acento e muito gentilmente dirigiu-se ao interior do coletivo:

- Tem alguém machucado “aê”?

- Aííí “motô”, tô toda quebrada... rodei pela borboleta (nome local para torniquete) umas quinze vezes, afff... tô completamente tonta e toda roxinha! Olhe só estou te vendo a cara do Lázaro
Ramos! Aliás dá um beijinho aqui no meu joelhinho que ta dodói...

Todos nós nos viramos para ver quem falava: xiiii, a coisa tava feia pro nosso querido condutor, o ser falante era algo um tanto quanto indefinido, mas como este é meu trecho de vida cotidiano, e sempre fui muito observador, lembrei-me no ato daquela fisionomia, aliás, era um tanto quanto difícil de esquecer, se algum dia já tivesse posto o olho naquele genuíno ser de uma Salvador contemporânea. Se não vejamos:

Cabelos longos descoloridos, com mechas em tons de roxo, vermelho e verde; olhos, um verde outro azul, denunciando as lentes de contato, ombros estreitos e peitoral delicado, da cintura em diante abria-se um “pandeirão” de fazer inveja as antigas “Mulatas do Sargentelli”, descendo para pernas fortes e torneadas, fechando com um “coturnão”, 46/bico largo.

Esta sua formatação lhe facilitava a vida, eu sabia disso, pois um dia já havia conversado com aquela criatura e ele havia me explicado como o Grande e Soberano Senhor lhe havia presenteado com aquela forma física, que aliado ao talento nato para produzir vozes as mais diversas, lhe permitia ser pela manhã ajudante de pedreiro, pela tarde vendedor de lingerie nas lojas do Tabuão, ao fim de tarde virar uma das mais charmosas Baiana de Acarajé da região da Conceição da Praia, pra onde aliás, estava se dirigindo, sem contar que aos fins de semana vendia coco verde pelas praias, onde aliás o conheci.

Não podemos negar, ali Deus foi benevolente e pródigo, assim nosso amigo conseguia viver, criar dois filhos da nova companheira e ainda pagar a pensão para as três crianças que havia tido com
Dona Maria dos Prazeres, a qual sempre se referia com toda a deferência, era a mãe de seus adorados filhos os quais não cansava de mostrar as fotos, que ocupavam mais de noventa por cento de sua carteira.

O semblante do nosso condutor ao ouvir o pedido do nosso companheiro de viagem foi realmente algo impar, e se alguém havia se batido, ou sentia alguma dor naquele momento, tudo se dissipou. A gargalhada foi geral, até a nossa madame que havia trombado de frente no fundo do coletivo não agüentou, colocou a mão na cintura, e batendo o pezinho, de salto e tudo, no chão metálico do ônibus, olhou para o “motô” e disse:

- Hummm, achou em heim!?

Mas o pior era a realidade pura que vivíamos naquele momento, fomos todos descendo do ônibus desolados, sem saber o que fazer, afinal, dois pneus furados, um carrão enfiado entre os pneus traseiros e no meio da Avenida Contorno, aonde o único vizinho é a Bahia de Todos os Santos. Começamos lentamente a caminhar em fila indiana para evitar maiores transtornos quando se ouviu o estrondo:

CABRUUUMMMMMMMMMMMMMMM!!!!
E o horizonte que já estava se arroxeando estourou em um clarão que a nos cegou por alguns instantes... Neste momento lá do fundo de nosso caminhar se ouviu o berro, de quem? Ora imagina... Só podia ser dele mesmo, com joelho doendo e tudo a criatura esganiçou a voz e berrou:

- Valei-me minha mãe, vamos todos para o Pelourinho reverenciar Yansã!

“Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo dentro de mim
Rainha
dos raios, rainha dos raios
Rainhas dos raios (...)”*

A vida vai passando e a gente não nota, mas era 4 de dezembro, acho que por isso as minhas bochechas estavam tão vermelhas.

Roger Ribeiro
01 de dezembro 2011.

*Iansã - Caetano Veloso

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Quase uma canção

“Desde o começo do mundo
Que o homem sonha com a paz
Ela está dentro dele mesmo
Ele tem a paz e não sabe (...)”*

O domingo nascia junto ao sol e lá estava ela sentada na escada frontal da Igreja de Santana com sua roupa branca toda amarrotada e suja, a maquiagem borrava-lhe todo o pálido rosto, dando-lhe um ar surrealista, poderia passar facilmente por um ensaio fotográfico moderno, mas não era.

Os “vampiros” saindo dos bueiros do Rio Vermelho atolados de tudo passavam e dirigiam-se à ela de forma jocosa, desrespeitosa, indelicada, estavam acelerados demais em suas realidades provinciano-universais, para perceber que existe algo além das fronteiras demarcadas do prazer.

A ela nada afetava, desde as tentativas mais engraçadinhas até as mais bebadamente grosseiras, não lhe atingiam, ela simplesmente não absolvia, não ouvia, não é que estivesse ignorando, não! Simplesmente não existiam aquelas pessoas, aquelas palavras.

Olhava fixamente com os olhos encharcados para o amanhecer que refletia um alaranjado quase ouro à enseada de onde saem as flores para o mar no dia dois de fevereiro. Parecia que, em algum plano, conseguia dialogar com algo que estava ali, mas só ela percebia, só ela via, tudo estava entre a Casa do Peso e a Pedra dos Pássaros. O ar soprava fresco espalhando, ao transpassá-la, um aroma de Acássia que deveria acalmar o ambiente, se os humanos ao redor se permitissem.

Homens, ainda quase bêbados da noite anterior, desciam as escadas com suas cordas, linhas de pesca, varas, tarrafas, panos... Peito nus iniciavam um dia de sal, de salitre de balançar pelas águas em busca do peixe que, sabe como, apesar de toda barbaridade cometida, ainda se mostravam, se não abundantes, pelo menos o suficiente para manter aquela comunidade em sua atividade artesanal.

Acostumados a ver o invisível sobre seus saveiros, e inebriados pelo alto volume de álcool, que se perpetuava em suas veias, passavam por aquele olhar borrado e ornado pelo despenteado e farto cabelo, mas ali não viam nada demais, era apenas mais uma visão de um calhau se espatifando na proa do saveiro. Alguns a olhavam com uma visão apaixonada, certamente lembrando-se de velhos sonhos passados e carcomidos pela força cortante do sal.

Poucos carros ainda trafegavam e alguns começavam a trazer as pessoas para o Templo de Santana, aonde outrora sinos chamavam os seus seguidores fieis. Hoje o badalar mecânico, soa distorcido, mas não abala à fé de quem as possui. Era efetivamente um típico amanhecer de um domingo, aonde uns lamentam o fim da noite de sábado, outros botam sua fé em atividade, seja na oração de agradecimentos, seja na força do saveiro cortando as águas escuras do mar.

A esta altura a moça de branco que sofria, havia descido a ascadaria que levava à praia, tirara a sandália prateada e molhava os finos e alvos pés nas águas geladas, onde Manteiga arremessava sua incansável tarrafa em busca das Pititingas, que iriam alimentar iscas para pesca e óleos quentes no decorrer do domingo.

Sem dizer uma palavra uma mão escura e enrugada a pegou pelo antebraço, e a conduziu de volta para a escadaria do Templo, pacientemente retirou-lhe a areia dos pés, calçou-lhe novamente as sandálias, ajeitou-lhe, dentro do possível, os cabelos, limpou-lhe o rosto dos excessos, sorriu-lhe como se lhe dissesse: pronto. Ergueu-a e entraram braços dados pela porta central do Templo, aonde todos em silêncio levantaram e as olharam.

Elas, firmes e benevolentes, olhavam fixamente para um ponto acima do altar, a jovem reverenciando o filho a velha, o neto.

Poucos perceberam, “eles estão surdos”*.

Roger Ribeiro
22 de novembro de 2011


* Todos Estão Surdos
Roberto Carlos

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Cada um crê no que convém




Passou na banca, comprou o jornal uma pastilha de hortelã e retirou-se meio que olhando os buracos do chão meio que as manchetes do jornal. De quando em quando olhava as pontas dos dedos e balançava negativamente a cabeça, afinal como podia um diário daquele que possuía um belo parque gráfico, que por muito tempo gabou-se de ser o jornal de maior tiragem do Norte e Nordeste, pintar-lhe, despudoradamente, os dedos de carvão daquela forma? Paciência (rosnou mentalmente).

Aportou no velho botequim escolhido cuidadosamente para ser a sua base de leitura aos domingos no meio-dia. Sim! Esta ressalva é necessária, teria de ser um local aonde não servisse almoço, pois assim poderia calmamente sorver sua “tubaína” de malte e cevada, com a despretensiosa e preguiçosa leitura do jornal dominical que, segundo o próprio, é o diário de quem não gosta de ler jornal.

Sem nem mesmo precisar levantar o olhar ou pedir qualquer coisa, já sobre a sua mesa foi postada a “ampola” de líquido amarelado e estupidamente gelado, acompanhado de uma pequena louça contendo azeitonas pretas e queijo branco. Fez um leve aceno com a mão como quem dissesse: muito obrigado meu querido Barriga (como era conhecido carinhosamente o garçom que ali estava há anos, atendendo quase sempre as mesmas personalidades).

Estava um belo meio-dia azulado e quente, o suficiente para tornar aquela mesa e cadeira postada à calçada o melhor lugar do mundo para se estar naquele momento. Por vezes elevava a cabeça refletindo alguma informação acabada de ler, pelo seu olhar podia-se deduzir se concordava ou discordava desta. Muito raramente emitia algum parecer, se barriga estivesse por trás “pescando piabas” de seu jornal, falava para este, se não valava para o colarinho de sua própria camisa, algo inaudível e intraduzível, um verdadeiro rosnar.

Mas, óbvio, aquele certamente não seria um domingo qualquer! Disso eu tinha plena certeza desde o início, afinal o que estaria eu fazendo naquele local àquela hora sob a sombra de uma amendoeira, observando aquela cotidiana e, por vezes, enfadonha cena?

Dito e feito. O carro surgiu do nada, veio acelerado, a mil! E ao chegar exatamente em frente às mesas e cadeiras sobre a calçada, freou abruptamente, freada daquelas que faz soar o pneu travado no chão. Ali mesmo, no meio da rua, impedindo qualquer trânsito ela desceu, largou a porta aberta o som do carro gritando ao mundo:

– (...) nem parece o mesmo / tá ficando pirado / onde você encosta dá curto / você passa, o mundo desaba(...)”.*

Ela vinha nitidamente enfurecida, passos duros e olhar reto, mirava o seu alvo sem piscar, pensei: é... Esse não escapa, mas quem seria? Olhei para Barriga em busca de uma pista, percebi que também ele estava incrédulo com a cena. A chegada ao alvo foi triunfal, a mão subiu e desceu - zastrasss-brucstrimmmm! Voaram azeitonas, queijo e porcelanas por todos os lados.

Por sorte tratava-se de um boteco de marmanjos já escolados pela vida se não... Certamente seria um corre-corre dos infernos, acompanhado de gritarias e tudo que estas coisas agregam em si. Mas não, o máximo que aconteceu foram, aqueles que liam observaram sobre os jornais para se certificar do que ocorria, os que de cabeça baixa pensavam na vida ou nas dívidas, apenas levantaram os olhos com cara de quem pede: “por favor, sem barulho”, nada além disso, Barriga se recostou junto ao caixa e ficou confabulando sobre um assunto qualquer com o Galícia, o “Homi-do-Dinheiro”, como era conhecido. Tudo isso aguçou minha curiosidade, afinal, além da moça do automóvel, da louça estilhaçada e dos acepipes pelo chão... Nada mais ocorria.

“(...) Vivendo em tempo fechado / correndo atrás de abrigo / exposto a tanto ataque / você ta perdido (...)”, continuava a berrar o automóvel no meio da pista e todo arreganhado. Nosso amigo foi o único que não abaixou o jornal, aliás acho que nem notou que o vazo de tira-gosto que havia se transformado em um 14-Bis desastroso tivesse sido o dele. Este desdém foi o suficiente... a mão levantou-se novamente, todos arregalaram os olhos, pararam de respirar, aliás o mundo parou por um instante e... ZAAAZZZZZZZZZZZZZZ, a mão desceu zunindo e apanhou o jornal pelo meio...

- Cachorro, canalha, porque você esta inventando isso de mim? O que te fiz? Você não pode ficar por aí, impunemente, inventando estas sandices, eu nunca fui isso, nunca fiz nada disso...

Os olhos dela faiscavam, o ódio era latente, percebia-se, mesmo de longe que era uma ira incontrolável... Enquanto isso o nosso amigo com ar de quem nada está entendendo procurava sobre a mesa por seus óculos que havia retirado enquanto lia o, agora já inexistente, jornal.

“(...) E pra se ajudar / você faz promessas / e pra piorar até o papa te esquece / e pra te arrasar nem o inferno te aceita (...)”*, o som do carro agora assessorado por um turbilhão de buzinas inconformadas, aumentavam o suspense e a expectativa, enquanto isso nosso amigo, agora já com uma fisionomia preocupada, apalpava freneticamente a mesa em busca de seus óculos, foi quando o golpe final foi dado...

Ela olhou e, o pior viu! La estava sobre a mesa ele: o copo de cerveja gelada e cheio até a boca... A mão novamente levantou, sacou do copo e chuááá!!! Vôo o líquido sobre o rosto sem óculos que incrédulo o máximo que fez foi balbuciar: - mas, mas...

- O quê é? (ela virou-se para o ambiente) Tão com pena deste miserável? Vejam a cara de sínico dele!

Neste momento, acho que se sentindo plenamente vingada apontou para o nosso amigo e...

- Nãããão! Não é possível! (disse ela)
- Sim é possível. (disse o nosso amigo)
- Mas de olhos fechados, dentro do carro e você atrás do jornal não havia a menor dúvida de que era...
- Sim, de olhos fechados pode ser, mas, não sou.
- Meu Deus, como pode ser? Eu tinha total certeza...
- Pois é, era o que tentava te dizer... Estavas mirando o inimigo errado, veja se ele não está dentro de você?! Barriga, por favor, uma gelada e uma porção de azeitonas pretas e queijo branco.

Ela, mãos sobre o rosto, dirigiu-se ao escancarado carro que junto às buzinas berrava:

(...) E pra te danar
Nada mais dá certo
E pra piorar
Os falsos amigos chegam
E pra te arrasar
Quem te governa não presta”.*

Roger Ribeiro
08 de novembro de 2011.

* Declare Guerra - Barão Vermelho