terça-feira, 31 de julho de 2012

Tem placa e número



Alô...

- Imobiliaria João de Barro, Pois não.

- Por favor, gostaria de informações a respeito do produto oferecido. É com o senhor mesmo?

- Pode ser, mas é melhor o senhor falar com a responsável direta.

- E ela se encontra no momento?

- Claro! Só um instante que irei chamar.

- Maria Cláudia, pois não.

- Olá Maria Cláudia, é a respeito de um anúncio que li aqui no bairro do Jardim Apipema...

- Sim...! Sabe, o senhor já é a quinta pessoa que nos liga e olha que colocamos o aviso hoje pela manhã!

- É, acredito, pois, deve ser um sonho de consumo de muita gente, não é mesmo?

- Creio que sim. Mas, o senhor já o visitou?

- Claro! Aliás, estou exatamente ao lado dele. Olha vou te dizer uma coisa que não sei se os outros te disseram e espero que a senhora não aumente o valor por causa disso, mas ele tem estilo... Muito estilo, não sei... Tem algo diferente.

- Ah! Enfim alguém notou... Claro, olha sei que existem muitos pela cidade, aliás, até muito mais novos, em locais mais arejados, até mesmo em frente à praia, mas igual a este não tem. Por sinal, o senhor correu ele todo?

- Como assim?

- Sim... A varanda, os quartos, viu a suíte? Olha aquele toalete da suíte é simplesmente um luxo! E a sala então, nossa! Não precisa nem falar, aquele tabuado...

- Quarto, suíte, varanda, luxo?! Acho que está havendo um engano.

- Como assim? O senhor não está se referindo ao apartamento anunciado no Jardim Apipema?

- Apartamento? Não senhora... Estou falando do poste onde está a placa de vende-se com este número de telefone, e...

Crasshhh, pi, pi, pi, pi, pi...

- Alô, alô... Eu heim, que criatura louca! Moço, moço... Por favor...

- Pois não, (olhando ao redor) sou eu?

- Sim, por favor, me ajude aqui, é rápido.

- Só se for rápido realmente, pois estou muito atrasado.

- É rápido sim. Diga-me uma coisa: o que você vê preso neste poste?

- Uma placa de vende-se e o telefone.

- E quanto custa?

- O quê?

- Ora meu amigo, o poste! Este belo mobiliário urbano... Um obelisco contemporâneo, a sustentação da luz... Ei, ei!  Aonde vais? Não corras, cuidado!

Sacou novamente o celular e, com ferocidade, discou o número apregoado no poste.

- Alô.

- ALôôu! Escuta, estou aqui embaixo de uma placa de vende-se com este número...

- De onde o senhor está falando?

- Estou aqui no Jardim Apipema e preciso saber o valor?

- Olha em relação ao valor podemos conversar...

- Não! O senhor não está entendendo, eu quero saber do valor!

- Espera, vou chamar a responsável.

- Pois não.

- Alô.

- Sim. Aqui é sobre o anúncio no Jardim Apipema...

- Não acredito, é você novamente? Olha, não estamos vendendo poste nenhum e se o senhor insistir tomarei providências.

Clic. PI,PI,PI,PI...

Ficou cabisbaixo sem saber o que ocorria, olhava para a placa, para o poste, para a lâmpada no ápice deste e, desiludido, buscava qualquer coisa pelo chão para chutar, na verdade chutava a sua própria sombra, prisioneira daquele poste, isto o desesperava! Estaria sua sombra presa àquela luz, àquele poste pela eternidade?

- Não (gritou), isto não vai ficar assim!

Agarrou-se ao poste, sua sombra diminuía, ficava quase que apenas um ponto escuro, mas como abandoná-lo, ponto ou não ali era a sua sombra, o homem não vive sem sombra (pensava). Dava um passo rápido para ver se conseguia que sua sombra se desvencilhasse. Nada, lá estava ela, esticava-se longamente, quase ao infinito, depois encolhia-se novamente à condição de ponto, mais sempre presa ao pé do poste. Falou para si mesmo:

- Preciso levar este poste comigo. (sacou novamente o celular, olhou o número na placa e discou).

- Imobiliária João de Barro, pois não!

- pois não, não! Pelo amor de Deus, eu pago o que vocês quiserem, mas libertem minha sombra! Eu ...

Crash – pin, pin, pin...

- Seres sem alma! (berrou).

Contorcia-se sobre a sombra, não conseguiria viver assim, sempre fora um homem livre, jamais conseguiria viver aprisionado.

- Nãããããõooooo.

Sentou-se no meio-fio e suspirou ouvindo sua sombra cantar:

“Um homem com uma dor

É muito mais elegante

Caminha assim de lado

Como se chegando atrasado

Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor

Como se portasse medalhas

Uma coroa, um milhão de dólares

Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos

Não me toquem nessa dor

Ela é tudo o que me sobra

Sofrer vai ser a minha última obra”*

- Oi...! Ôh, acorda homem...

- Ãh... Pô, que susto, não tens o que fazer não? Não tens piedade, não enxergas que minha dor já é por demais homérica!

- Deixa de drama, homem. Sei o que te atormenta, assisti a tudo, salvar-te-ei da tua prisão, irás sarar a dor.

Sob a luz era quase translúcida, seu brilho tão intenso que  lhe feria os olhos, apenas conseguia fitar a barra do vestido com um zig-zag de linhas coloridas que lhe traziam à mente o furta-cor do alvorecer da Diamantina mineira.

- Acaso és um anjo? Uma fada? Um querubim?

- Acaso viste alguma estrela? Não sabes que estes seres só andam em pontas de estrelas?

- Podes me tirar da torre deste castelo?

- Claro! Vamos combinar: ficarei à frente da luz, serei a represa, não suportarei por muito tempo a pressão. Assim corra, vire à esquina e estarás liberto.

- Mas e você? (olhou-a e percebeu o sangue prata correndo em seu corpo por sob o vestido), tudo bem.

Assim foi feito, a liberdade se fez, mas onde estava ela agora? Olhou por entre as folhagens e a viu dançando entre os fachos de luz, era o próprio brilho.

Virou-se, não podia aprisionar-se por quem lhe libertou. Olhou para frente e...

Sacou o celular:

- Alô!

- Imobiliária Oca, boa noite!

- Boa noite, por favor, qual o preço do muro?

Roger Ribeiro

27 de julho 2012

* Dor Elegante - Leminski / Itamar

quinta-feira, 12 de julho de 2012

On/Off




Na internet a vida era frenética, tudo partia e retornava em uma velocidade estonteante, não havia problema que a solução não corresse o mundo e retornasse em questão de segundos, o mundo estava realmente em um estágio mágico e era exatamente neste universo que sentia-se o máximo! Um rei.



Conhecia milhares de pessoas ao redor do mundo, criaram uma língua de códigos e sinais que os faziam prosear horas e horas por entre seres de línguas as mais diversas, coisas jamais imagináveis, aliás coisas que fariam Vitor Hugo estremecer, seriam léguas e léguas pelo espaço.



O seu mundo era simples, um on ou off, ou um curtir ou não curtir, um ou dois clics, a comunicação em verbo único, rápido, rasteiro, dinâmico! Era disso que o cérebro humano sempre ansiava, pelo menos assim pensava em sua pouca vivência etária, mas sua universal relação. De uma coisa se orgulhava, seu avô, que havia sido Adido Cultural em vários países, não colecionava uma rede de amigos, que chegasse a um terço da que ele, em tão pouco tempo, construíra.



Seu mundo era perfeito e seguro, de tudo participava e nada o atingia, isso para os dias atuais de tanta violência e insegurança era tudo de bom. Sair só para ir à faculdade, com muita tensão, e retornar o mais rápido possível, não agüentava os limites da rua, se sentia em um aquário, limitado, tolhido, era pouco demais, precisava voltar ao seu quarto ao on-line e... Lá estava o mundo aos seus pés, ou melhor aos seus dedos.



- Aí... oooi... tem uma senhora ali, você não acha que deveria dar este lugar para ela sentar?

- ÃH... como? Desculpe. Você ta falando comigo?

- Claro, se toquei no seu ombro e falei diretamente olhando para você... Com quem mais estaria falando?



Nitidamente nauseado, abriu a janela e deixou o vento bater em seu rosto...



- Desculpe, você poderia repetir?

- Ôh... fecha esta janela aí, ta querendo me molhar todo?



Virou-se assustado, para ver a quem pertencia aquela voz, razoavelmente enfurecida, que “bafava” ao seu cangote. Amedrontou-se, sentiu-se ameaçado, começou a suar frio, era um contato áspero, temia por tudo, não sabia o que fazer, o que aquelas pessoas queriam e o que poderia fazer para sair daquela situação.



- Sim... E aí?! Você não está vendo que aquela senhora tem três vezes a sua idade? Não acha que deveria dar o lugar para ela descansar?

- Claro, claro, desculpe...

- Nossa! Não agüento mais ouvir você pedir desculpas...

- e aí, vai fechar essa janela ou não vai? (retornou a voz ao fundo, a esta altura já em pé sobre a sua cabeça).

- Só um estante (tentou fechar a janela), emperrou...

- Olha se você não vai levantar diga logo...



Criiii...crash...pah! Estrondou a janela ao lado do seu ouvido direito, olhou aquela mão enorme que ainda segurava a lingüeta da janela.



- Menino mole... Ta dormindo neném? Não tomou seu leitinho hoje não?



A gargalhada foi geral, de repente o ônibus inteiro parecia está sobre os seus ombros, em sua cabeça surgiam flashes que remetiam a trechos do filme do Pink Floyd...



Did you see the frightened ones?

Did you hear the falling bombs?

Did you ever wonder?

Why we had to run for shelter?*



O mundo girou. De repente a náusea, o insuportável. Aos seus olhos afiadas garras de harpias rondavam seu pescoço, olhos vermelhos o miravam, dentes tornavam-se pontiagudos; de sorrisos passavam a condição de ameaças, pensou em levantar, as pernas não obedeciam... A luz turvou, sobre a imensa montanha da sanidade os braços fecharam-se envoltos ao sol, o eclipse glaceou a Terra.



Acordou apavorado sem saber onde estava. Tudo era branco, havia sobre seu corpo um fino lençol branco que unia-se ás paredes brancas, o teto, a cortina, o piso, a porta, tudo era branco... Levantou o tronco assustado, a cabeça agitada, os cabelos em total desalinho:



- Onde estou? Que lugar é este? O que estou fazendo aqui? (tentou levantar), preciso ir embora...

- Calma, não tenha medo, está tudo bem...

- Mas como? O que estou fazendo aqui? Quem é você? Qual o seu link? Sua conexão? Não gosto de usar o Skype, prefiro digitar? A voz... esta voz... eu te conheço, conheço? Há quanto tempo somos amigos? Você disponibilizou foto?



Alguns passos e ela estava ao lado esquerdo de seu leito, era praticamente a única coisa não branca daquele ambiente, seu rosto fino e alvo, brilhava emoldurado pelos negros e longos cabelos que lhe caiam quase até a cintura, braços finos e muitos anéis prata compunham seus braços que saiam das finas alças do vestido estampado de milhares de desenhos de pequenas crianças empinando pipas, jogando peões, chutando bolas, brincando de roda... O vestido que se estendia até os joelhos, formavam um universo colorido e de uma alegria viva, tão viva que lhe despertou um largo sorriso quase unindo as pontas dos lábios à ponta dos olhos.



- Sim! Agora reconheci. Você é a voz que me falava algo no transporte... O que era mesmo?

- pedia-lhe para dar o acento para uma senhora, você sentiu-se mal, desmaiou e eu o trouxe ao hospital - (Tocou-lhe o braço), você está bem agora?



Ao sentir o toque, leve, suave e frio daqueles dedos finos, enfeitados de anéis e sentir o calor daquela voz, tão perto, em uma língua tão próxima e ao mesmo tempo tão esquecida, gelou! Sentiu-se despencando em um abismo sem fim... Quanto mais descia mais frio ficava, sentia como se seu sangue estivesse a ponto de congelar, não conseguia unir as palavras para formar uma frase, seu cérebro formava Estalactites que pingavam por seus olhos, correu o olhar sobre aquela menina de sapatilhas azul-turquesa e negros cabelos e finalmente conseguiu dizer uma pequena frase:



- Como você se chama?

- Amor.



Roger Ribeiro

12 de julho 2012.  



*Goodbye Blue Sky

Você já viu os apavorados?

Você já ouviu as bombas caindo?

Você já se perguntou

Por que tivemos que correr em busca de abrigo?










quinta-feira, 24 de maio de 2012

Cocorocô! Feitiço dobrado






- Não tem pechincha não, o preço é este. Nem mais nem menos!

- Mas meu amigo...

- Que amigo? Como assim? Diga aí, qual o meu nome? Onde eu moro? O nome dos meus filhos? Vá diga! Você não disse que é meu amigo?

- É modo de falar! Só queria dizer que está caro.

- Então não compre. Simples não é mesmo? Vá comprar em outra freguesia. O preço é este. Só falta agora você querer que eu retire as penas e corte as unhas do bicho pra ficar mais barato. É cada um que aparece aqui.

- Meu caro...

- já te falei que não é caro, é o preço. Veja você, aonde mais acharias um galo vermelho com estes detalhes em dourado nas pontas, peito forte, postura altiva e este olhar de que já anunciou centenas de alvorecer por um precinho deste? Diga aí, vá! Onde?

- Olha àquela senhora ali adiante me falou que iria buscar um pra mim por quase a metade do preço. O problema é que só chegaria à tarde.

- Então o senhor vai naquela barraca ali, tá vendo?

- Qual?

- Aquela com a placa Cantinho do Cosme... Está vendo agora? Pois, ele é como se fosse meu irmão, você senta lá toma umas quentes, rebate com umas geladas, come a tripa frita, que por sinal é melhor da feira, joga uma prosa fora com uma ruma de desocupado que freqüenta, todo dia, o local e quando der a hora você vai lá buscar seu galo. Mas tô te avisando, quando botar na ponta do lápis as doses de “meladinha”, as geladas, as voltas de tripas e o galo moribundo que vais comprar, verás que gastou o dobro.

- É... Desta vez tenho que te dar razão. Mas você bem que poderia fazer um precinho melhor né?

- Olha no galo num dá não, mas se quiser levar aquela galinha branca cotó ali... Dá pra fazer um precinho pra você.



Parou olhou a tal da galinha e não gostou do que viu. A bichinha tava toda estropiada, a situação era tão grave que se pusesse um ovo certamente teria a gema roxa!



- Olha aquela galinha deveria está na UTI do galinheiro, num serve nem pra fazer um ensopadinho com chuchu. De mais a mais meu querido...

- Como é que é?! Querido? Ôôôh Jangada, o cara aqui disse que eu sou o querido dele! Pode?

- Hummmmm Cráudio, ta querendo treta! Quero ser padrinho viu!

- Olha aqui meu cliente, sim cliente, freguês, não venha com intimidade não. (olhando pra cima como se fizesse uma oração), é mole? Chego aqui as quatro da matina, alimento os galos, galinhas, pintos, pombos, porcos, bodes e até os habitantes agregados (gatos, cachorros, bem-te-vis e tudo mais) e no meio da manhã me chega este sujeito, sei lá de onde, me chamando de amigo, de querido e, acho que, se ficar mais um pouquinho vai querer até beijinho... Eu mereço. Ôh Jangada, eu dei bicuda no ebó de Yemanjá?



A gargalhada foi geral, a feira praticamente havia parado para apreciar o duelo entre Cráudio, o freguês e no meio de tudo isso, o impávido e cobiçado galo (mas... Sabe que olhando ele assim de perfil é realmente mais garboso do que o da embalagem de azeite de oliva), seria ele então, vamos dizer, o Chantecler  da Feira de Água de Meninos!



Já sem graça, mão no bolso e sem argumentação possível, resolveu pagar o preço e levar o nosso Chantecler, que devidamente amarrado pelos tornozelos (galo tem tornozelo?), asas e com o afiado bico embalado em papelão foi entregue ao freguês com votos de felicidades e boa sorte.



- Aí freguês! Pra você voltar, passa lá na banca do Cosme e toma uma “cangibrina” por minha conta, diz que foi o Cráudio que mandou.



Saiu assim meio contrariado, mas não deixou de passar no Cosme, afinal seria uma chance de melhorar o dia. Tomou a “cangibrina”, inclusive ficou sabendo que era o “carro chefe” da banca, conversou sobre amenidades tipo: se era época de caranguejo gordo? Se o quiabo estava duro? Se podia confiar no fígado de boi que se vendia na feira? E outras coisinhas mais. Despediu-se e foi saindo quando meio atordoado, e já fora da banca, olhou ao seu torno e:



- Cadê meu galo? (gritou).



Entrou rápido na banca do Cosme. Olhou em todos os cantos, até no teto improvisado de plástico procurou e, nada. Aonde raios havia se enfiado o Chantecler?



- Seu Cosme, o senhor não viu meu galo? Entrei aqui com ele debaixo do braço?

- Seu menino, vou te dizer uma coisa: “ômi” que perde o galo ta perdido pra sempre. Pergunta ali prá Thiana Doida o que aconteceu com o saudoso Tainha quando perdeu o galo? Aliás, pergunta não, é melhor nem saber. Dizem que a ignorância Deus perdoa né?

- Mas seu Cosme, eu tava com ele aqui agora mesmo?!

- Agora mesmo meu fiu! Mas tem um minuto que você me perguntou pelo galo?

- Sim... Ah meu Deus! Agora mesmo é maneira de falar... Mas na hora que entrei a mando do Cráudio pra tomar a cangibrina, o galo tava debaixo do meu braço.

- Reparei não... Ôh Alice você viu se entrou algum galo aí na cozinha?

- Aqui não Cosminho, imagina se galo vem ciscar em meu terreiro? É ruim heim!

- Meu querido eu tenho de fazer um trab...

- Êpa, pêra lá! Que história é esta de meu querido? Eu nem te conheço? Cráudio, êh Cráudio! Que “ômi” foi esse que tu mandaste prá cá?

- Meu amigo... Pelo amor de Deus, querido é maneira de dizer...

- Amigo? Hum, já entendi tudo, vai querer tomar mais cangibrina e fiar né? É sempre assim... Quando vem com essa conversinha de meu amigo... Que amigo o quê? Eu nunca te vi mais gordo “ômi”.



- (Ai! Tudo de novo não, pensou) Escuta seu Cosme, preciso levar este galo o mais rápido possível se não minha mulher me mata.

- Xiii... Perdeu o galo na feira, a “mulé” vai ficar sem o feitiço e o “ômi” vai ficar no ora veja! Quer um conselho “ômi”, esquece. Senta aí, toma uma “cangibrina”, umas geladas, come uma tripinha frita de primeira qualidade e deixa o vento passar se não o feitiço pode se voltar contra você.

- Será?

- ôxi! Tô nisso desde menino, pode acreditar.

- Então... Manda uma dose dupla e uma cervinha bem gelada... Ah! Manda a tripinha também.



Daí em diante o sol rodou, dezenas de pescadores, vendedores, compradores, turistas e outras figuras inclassificáveis passaram pela banca do Cosme, rolou prosa de tudo: mulher, futebol, preços, produtos, mar, vento, raios e trovões... Rolou de tudo. A tarde já ia longe quando adentrou o Cráudio.



- Cosme tudo bom? E aí Alice tô com fome!



Da parte interna da banca que ficava separada por uma divisória de tecido colorido e sujo, falou Alice:



- Vai demorar um pouco seu Cráudio, o galinho era atleta, duro que só.



Vocês não vão acreditar, mas eu que tava vendendo meu caranguejo entre as bancas do Cráudio e do Cosme, juro que vi: algo explodiu no ar e voou pedaço de feitiço pra tudo que é lado.

Agarrei as cordas dos bichinhos e dei o pinote... Eu heim! Num volto lá nem que galo crie dente!



Roger Ribeiro

24 de maio de 2012.

         

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tu separarás a terra do fogo e o sutil do espesso**



Para meu amigo que sofre do coração.


De domingo a domingo esteja chovendo ou ensolarado, não importava, lá estava ela impávida sobre a Pedra do Peixe ao noroeste-próximo do Farol da Barra, poucos a viam. Todos os dias centenas de centenas de pessoas passavam passeando, correndo, de automóvel, bicicleta, skate, de mãos dadas, abraçados, absortos, loucos, enfim de tudo um pouco, mas poucos ou quase nenhum a enxergava, parecia coisa resguardada aos poetas, aos estetas ou aos aluados.



Apesar de tudo isso, estava ela, sempre de uma elegância impar com seus vestidos de levíssimos tecidos de florido bordados à mão de tamanha beleza e delicadeza que só poderiam ter sido incrustados naquele tecido por mãos de fadas, não qualquer fada, mas do tipo das que criaram o vestido da Gata Borralheira. Os pés descalços confundiam-se com o brilho do sal nas pequenas poças d’água que formavam oásis para pequeninos peixes na escura e inabalável rocha negro-chumbo.



Por solfejar intermitentemente uma linda melodia, aqueles que não a viam, mas que a ouviam, costumavam chamar aquele local de “morada das sereias”. Os que viviam do mar temiam; nem as ondas violentas das ressacas de março ousavam tocar-lhe, apenas a fresca brisa nordeste lhe acariciava e fazia flutuar seus imensos fios de cabelo azuis que, os contadores de histórias desta terra, desde tempos de Monan e Maire, portanto anterior à chegada de Cristo ou Oxossi por estas terras, narravam que as pontas destes cabelos apagavam as pegadas das virgens nativas nas areias de uma das Ilhas mágicas, que se petrificou, saindo do hiato entre a Terra sutil e a Terra sólida com a chegada de Martin Afonso de Souza que a denominou de Ilha de Tinharé.



Não se tratava de uma jovem, os sulcos em sua face demonstravam que ampulheta havia virado por várias vezes, seus olhos negros confundiam-se com as Marias-Pretas, rápidas e abundantes nas poças que rodeavam aquela pedra, conseguiram permanecer abundante por terem pouca carne e muitas espinhas, o destino lhes foi benevolente. Enquanto o sol brilhava atinha-se a terra, lia com muita atenção a fisionomia de todos que passavam. Nada dizia. À noite voltava-se para o horizonte marítimo e postava-se como em oração. Nada dizia.



Apenas quando os poucos que a enxergava chegavam e mansamente sentavam ao seu lado parava de solfejar e atinha-se de corpo e alma ao que lhe era narrado. Jamais se apressava em emitir parecer, o tempo lhe era grande aliado, sabia ouvir os sinais da natureza, não bastavam as palavras, era necessário ouvir a brisa reverberar no som das palavras, o sol estalar na pele do narrador, havia muitos sinais que iam além dos limites impostos pelo que seus bloqueios mais sutis permitiam falar, e era exatamente ali que podiam estar os caminhos possíveis.



Por vezes sentia que o vento perdia a rota, sentia pelos fios dos cabelos que saiam da reta e rodopiavam perdendo a cor azul-água corando-se de verde-esmeralda que a emoção daquele corpo estava confusa. Os pássaros marinhos não ousavam se aproximar muito menos piar nestes momentos, de longe observavam as mudanças melódicas, aliás, do Morro Ypiranga ouvia-se:  


“Quando o riso se perde da face
E a tristeza invade
Entre o céu e o mar (...) / as gaivotas (...)”*

Em um destes momentos, quando o seu acompanhante iria começar a narrativa, levantou a mão pedindo-lhe que nada dissesse, colocou levemente os dedos sobre seus lábios e fechou os olhos para poder ouvir o vento e o sol naquele corpo, os odores que surgiam naquele momento, a reação dos peixes e das aves, foi neste momento que me viu voando entre o sol e seus olhos, sombreando-os, sorriu largo para meu voar! Voltou-se para o seu acompanhante e baixinho lhe falou:

- Amedrontamo-nos com o só por temermos ter de nos aceitar.

Seus cabelos retornaram à rota, agora em um azul-marinho vivo. Seus longos cabelos nas pegadas nativas – o tempo.

Roger Ribeiro
08 de maio de 2012.
*Vôo Rasante – Lui Muritiba
** Hermes

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Se vou passar?


“come on baby
transformar esse limão em limonada
(...)
seguir o coração, em disparada
numa estrada que só tem a contramão”*

- Sim (disse o gerente do RH, ou seria o psicólogo? Bem vamos adiante), liste-me porquê o senhor acha-se apto para a vaga?

- Em primeiro lugar porque sou formado pela Universidade Federal da Bahia em Regência com especialização em Violão Clássico, sabe do que se trata não é mesmo? Erudito, não tem negócio de serenata na praia em Lua Cheia não, é Orquestra mesmo.
Também toco piano e sanfona, esta última em homenagem a meu maior ídolo - o Rei Luiz Gonzaga, conhece? “Quando olhei a terra arder...”, ele é que canta e toca o resto é com o Humberto, mas não vá confundir, não é o Humberto que assina a carta de referência aí na frente não, este é meu ex-cunhado, se é que isso existe, estou falando do Mestre Humberto Teixeira, êta “cabra bão”.

- Sim, mas parece que o senhor não está...

- Olha querida Banca, conheço um pouco dos meus direitos referentes à entrevista e sei que não posso ser interrompido em meio ao detalhamento do que me foi perguntado. Sendo assim, prosseguirei.
Tenho também vasta experiência em trilhas para o cinema e teatro, os senhores certamente assistiram ao curtíssimo curta “Fechei meus olhos”, sem falar na Menção Honrosa ganha no festival Teatro de Rua, isso faz... Acho que uns nove anos, a trilha era demais! Cinqüenta minutos de sustentação de um Si Bemol pelo violoncelo, emocionante, não tem outra descrição: emocionante, ganhei até um largo sorriso do mestre Ataualba.

Enquanto isso, na sala anexa, uma dezena de concorrentes aguardavam segurando suas pastas, livros, documentos e afins. No ambiente aquele cheiro de adrenalina que explode pelos poros. O tempo parecia congelado, cada candidato possuía dez minutos, não mais que isso, para a última fase rumo à sonhada vaga: a paralisante entrevista. Antes dali passaram por três outras fases e, de um total de mil e quinhentos candidatos, agora só restavam aqueles quinze, era uma disputa acirrada, apenas um sairia dali “coroado”. Mas, retornando à sala da entrevista...

- Caro candidato gostaríamos que o senhor se ativesse ao universo condizente com a situação (expressou com desagrado aquele que deveria ser o presidente da Banca).

- Claro! Como não? Sendo assim não poderia jamais deixar de lembrar que também fiz parte do primeiro grupo de pichadores desta cidade, sim não havia esse negócio moderno de grafiteiro, éramos todos chamados de pichadores, e euzinho fazia parte dos primeiros, vocês devem lembrar... Tinha o “Faustino” do Miguel, o “transforme” do Marcus, isso só pra citar alguns que vocês devem reconhecer. Eu fazia parte dos que faziam divulgação dos shows nos muros da cidade, arte e publicidade, não sei como não fui contratado, a peso de ouro, pelas grandes da propaganda. Aliás, sei sim: panelinha... Pode crer amizade, panelinha...

- Sim meu caro candidato, mas...

- Pinauna, é assim que o mundo me conhece, meu nome de batismo ficou no passado.

- Mas nós não podemos nos referir ao indivíduo, somente à sua condição de candidato, assim: estamos vendo aqui que suas avaliações, nas três etapas anteriores, foram excelentes, mas gostaríamos de saber do senhor sua experiência especificamente em relação ao cargo pleiteando.

- Claro! Veja bem, andava eu acabrunhado, desbeiçado de todo, já não sabia a que ou a quem recorrer, diria até aos senhores que minha condição humana havia se desfigurado, foi dentro desta plena certeza de estar desumanizando-me que me ocorreu poder viabilizar um projeto que estabelecesse o elo entre o estado das coisas, lembrando aos senhores que a coisa, no caso, trata-se da minha pessoa. Assim decidi...

- Meu amigo, o seu tempo está se esgotando e até o momento ainda não conseguimos identificar o que há de ligação entre você e este local!

- Amigo? Você? Vocês precisam se definir, afinal segundos atrás os senhores me disseram que eu era apenas um candidato e que os senhores, sem fisionomia e nome, seriam uma Banca! Vocês estão querendo me confundir? Tenho todas as condições necessárias para estar aqui, afinal, pergunto a vocês, senhores, ou como queiram que os trate: existe alguém mais apto do que eu?

- Senhor candidato, apesar de suas excelentes avaliações como já dito, realmente não enxergamos nexo entre as suas habilidades e o cargo disponível. Enfim, e, por favor, seja claro, qual o seu interesse no cargo?


- Não tenho o menor interesse. Estou aqui apenas para poder comunicar ao Senhor Digníssimo Presidente desta conceituada e internacional empresa que, de hoje a sete dias, estarei casando com sua filha, afinal:
“a vida não tá certa, nem errada
aguarda apenas nossa decisão”*.

Roger Ribeiro
25 de abril de 2012.
*Tudo ou Nada – Alice Ruiz e Itamar Assumpção.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O brilho das pedras




Eu tinha absoluta certeza que não teria como preencher a expectativa. Não, não estávamos em uma estrada comum, aliás, como diziam os Novos Baianos: “(...) não é uma estrada, é uma viagem (...)”. O tempo era de poucas certezas, os ventos eram fortes e traziam de longe o cheiro do sargaço na areia escura. Nunca fui de ter muitas certezas na vida, pois nunca entendi claramente o que fazia eu nela e muito menos o que ela, a vida, desejava de mim, por isso não seria agora, assim do nada, que encontraria a lança da bússola.

Havia aportado. Não sabia se aquele era realmente o local e muito menos a hora em que deveria estar, mas assim como sempre dei crédito ao acaso, fiquei. Mantive-me como uma sombra aguardando os caprichos da luz. Nada esperava, porém sabia que em instantes, talvez, tudo poderia acontecer. Em minha mente contorcia-se o som do segundo em que nasci e a nítida reverberação de que seria também em meio à fração do ponteiro que separa um segundo do outro que se romperia o elo entre o ser e o não mais ser.

O sol era quente o suficiente para permitir observar a evaporação das pessoas que pelo campo da visão transitavam. Pensava: será que daria tempo destas pessoas chegarem aos seus destinos? Conseguiriam realizar a tarefa na qual estavam imbuídas? Ou evaporariam plenamente a ponto de tornarem-se disformes poucos quilos, alguns até gramas, em algum canto da cidade?

Enfim uma árvore frondosa para acolher-me, permitir sair do estado de sombra para solidificar-me novamente, deitei sobre a grama fina e permitir arejar-me. Agora era apenas aguardar, estar pleno para não permitir que o instante escape.

Olhava o verde da copa da árvore como quem admirasse um milagre, ouvia as seivas transitando por aquele imenso tronco que exigia das folhagens absorção absoluta, era um fluxo de uma força absurda, na verdade o universo deitava sobre os olhos, restava admirar. Tudo aquilo acontecia independente do meu ver. Lembrei-me do poeta, sorri e sussurrei: realmente a cor verde é a mais verde que existe.

Não a viu passar propriamente, percebeu a abertura de um vácuo que se iniciava nela em movimento, fui tragado por este vácuo, não havia como resistir, era infinitamente mais forte do que eu, tentava identificar o que me arrastava com tamanha energia, o máximo que enxerguei foi uma fina e alva mão que bailava ao lado do volume que se deslocava, o vácuo, ao contrário do que muitos pensam, não é translúcido e sim leitoso, permite ver um vulto, porém não se consegue foco suficiente para uma identificação.

Na mão que estava fora do rastro leitoso percebi as pontas, ali estava o que talvez fosse o que tanto aguardava, ali estaria o código. Seria a ponta dos dedos daquela mão bailarina o código? Apertei o cérebro para decifrar, ali deveria estar a resposta.

Carregado pelo vácuo o tempo perde sua linearidade, e por isso vi, ouvi e toquei em várias situações que transitavam pelo passado, presente e futuro. Erros e acertos tomaram-me a alma com a fúria de um rio que desce cordilheiras. Mas, antes de qualquer coisa estavam as pontas daqueles dedos que pareciam digitar algo na tábua do tempo.

Eram quatro pontas cinza-musgo e uma laranja, quatro que apontavam e cravavam na terra e uma que refletia o sol que soberano evaporava corpos. Eram quatro quase verdes, uma laranja de vivo e cintilante amarelo, eram quatro jogadores que das pontas dos dedos se entranhavam pelas mãos, braços, avançando pelo alvo corpo que aos poucos perdia sua água vital, submetendo-se ao calor do alaranjado que lhe atraia ao fogo solar. Não havia tensão, não havia dor, só havia cor e fluxo. A velocidade tornava-se impensável para qualquer corpo sólido. Ela neste momento era apenas o vácuo da fornalha alaranjada sobre o cinza-musgo, e eu preso ao vácuo do próprio vácuo.

As partículas do que antes fora nossos corpos aceleravam-se a ponto de nos aproximar da explosão do gênese. Sorriamos enquanto voávamos e desmaterializávamos. Nada mais havia a não ser o brilho do vácuo leitoso e o ensurdecedor som dos nossos sorrisos, éramos estrelas, sem ontem, sem hoje e muito menos sem amanhã.

As janelas estremeceram com a explosão do trovão, tudo clareou em flash, e um forte aguaceiro desceu do espaço molhando meu pé e a ponta do meu colchão. Atordoado levantei para fechar a janela. Um novo raio cortou a cortina de água e, espantado, te vi passar entre o flesh do raio, o som do trovão e a força das águas que caíam, com as tiras dos cabelos molhados esvoaçando em direção ao horizonte. Virou-se, encontrou com seu olhar de partículas incandescentes meus olhos e por eles escreveu em minha alma:

“(...)Sonhei que viajava com você em um balão
Que flutuava muito acima de um vulcão em erupção
Para o oriente vento quente, pés longe do chão

Voava sem ter asas como a imaginação
Nós dois bem alto sãos e salvos rumo ao japão
Numa sacola mel, laranja e manjericão (...)”*

- Senhor, senhor (segurando no meu braço), não é permitido mergulhar a cabeça no aquário.

Alertou-me a sempre muito gentil garçonete do restaurante chinês.

Roger Ribeiro
10 de abril de 2012

* Sonhei Que Viajava Com Você - Itamar Assumpção

sexta-feira, 16 de março de 2012

Estrondou o silêncio!



- Estava ali. Sim, estou te falando, estava ali sim, mas você demorou de virar o rosto, voou.
- E prá onde foi?
- Ora tirando avião, helicóptero e estes brinquedinhos humanos, sabe-se lá aonde vão os seres alados? Voou e pronto. Da próxima vez seja mais atenta, mais rápida, afinal a qualquer momento pode-se chegar ao ponto final.

Afastaram-se.

Saiu meio andando meio parada com a cabeça no peito e o coração sobre o pescoço, continuava sem crer, afinal foram tantos os fenômenos naturais, tantas Luas giraram em suas evoluções e involuções, sóis que nasceram à cabeceira de sua cama e se puseram aos pés de suas botas desbotadas. Lembrou-se do que Iara escreveu: “Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida” *.

- Sei que não há desculpa, mas naquele exato instante o vento soprava os longos fios de cabelos pela minha face e minha nuca desfigurando-me enquanto matéria humana. O Eu era apenas partículas como as que se despreendem da água que explode na pedra abaixo da cachoeira.

Sentou-se em um banco de praça já quase inexistênte: pés retorcidos de ferro marrom, assento e encosto de ripas torneadas e vazadas caprichosamente pintadas de verde folha. Não havia pressa para nada, o mundo passava ao seu largo não se fazendo presente no âmbito de sua visão, o som continuo da sinaleira ficando verde-amarelo-vermelho-verde- amarelo... não lhe atingia os tímpanos, no olfato um aroma de respiração a inundava. Era ela! E do nada se apercebeu de quantas eram ela e a imensidão dela, nela mesma.

Lentamente foi reagrupando as suas partículas, recolheu as asas, debruçou e apoiou o olhar por sobre o jardim da praça, sentiu-se acalentada. Começou a perceber que o mundo a seu redor andava acelerado, se sentiu um tanto quanto deslocada, pensou no tempo em que observava o “mundo”, o verde, passar pela janela do Interestadual São Geraldo. Eram horas e horas para ver o tempo se materializar em mata, poeira, amanhecer, anoitecer, paradas imundas à beira da estrada aonde na maioria das vezes lá estava ele: de pé, botas de couro cru surradas, calças de tergal azul marinho, camisas de botão poídas, chapeu negro e a viola de aço pendurada no ombro: O cantador que de tanto viver o ir e vir, cantava a sua situação estática:

“Não sei o que faço, a minha vida é uma luta sem fim,
Sinto-me no espaço, o tempo todo a procura de mim,
Há dias na vida, que a gente pensa que não vai conseguir,
Que é bem melhor deixar de tudo e fugir
Que outro mundo tudo vai resolver”.**

- Ei... psiu! Queria ser amarela como aquela ali.

Virou-se para ver quem falava. Olhou, olhou novamente e mais atentamente e não viu ninguém, isto lhe fez franzir o pensamento. Estaria ficando louca?

- Ela se queixou de ser vermelha, não foi? Queria ser amarela! Hum... Todo dia é a mesma coisa, não se cansa, e o pior é que se você for falar com aquela amarelinha ali, que lhe é o seu grande desafeto neste jardim, ela vai dizer que está é vermelha de vergonha, afinal havia lhe tirado o Cravo branco. Jamais a perdoaria!

Virou-se, desta vez com agilidade, retirando rapidamente o cabelo preso aos lábios cor de jambo, arregalou os olhos para aquela voz grossa secular e em um sobressalto questionou:

- O quê? Quem é você? De onde você surgiu?

O dono da voz, um franzino senhor de cabelos brancos e botas pretas, olhou ternamente para aquele olhar aflito e disse:

- Calma menina, sou apenas o jardineiro. Trato de seres como você e elas! (apontou para a queixosa Rosa vermelha e a brava Margarida amarela.
- Desculpe-me senhor, mas hoje sou a flecha que não curva, a palavra que se propaga ao infinito e a oportunidade que não vi.
- Desculpe-me menina, mas não foi o que me disse aquele pássaro ali...
- aonde?

Virou-se apressada, com os cabelos abraçando sua face e sua nuca. O avistou distanciando-se em um voou sereno.

O jardineiro virou-se para a menina novamente, mas junto ao banco havia apenas um par de botas, um pé amarelo, o outro vermelho, deixadas aleatoriamente sobre a grama. O homem franzino de cabelos brancos e botas pretas olhou para o infinito e sorriu ao ouvir a imensidão do som das asas cortando a linha do tempo.

Roger Ribeiro
16 de março de 2012.

* Provérbio Tibetano.
** Não Creio Em Mais Nada - Paulo Sérgio