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sexta-feira, 3 de abril de 2009

1968 -Para não dizer que não falei de flores e espinhos.


“Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou”
(Sérgio Sampaio)

E você aonde andava quando o pau quebrou?

Sei, sei que estou falando para você meu querido e assíduo frequentador das jovens tardes de domingo na Máquina do Som, e sei que quando esse “pau quebrou”, em 1968, você não era nem projeto ainda.

Mas saiba que o mundo girava, girava na bola, girava na vitrola, o mundo girava a mil na estréia da peça “Roda Viva” de Chico Buarque; no teatro Record, o “Rei do Ye ye ye” brazuca, fazia a última edição do programa da “Jovem Guarda”; o Exército vietcong inicia a chamada Ofensiva de Tet; militares norte-americanos massacram cerca de 150 civis vietnamitas na aldeia de My Lai no Vietnã; o governo da África do Sul apresenta três leis que culminam no apartheid. É assassinado a tiros, aos 39 anos, o pastor negro Martin Luther King; lançado, na Tchecoslováquia, o programa de reformas políticas que ficou conhecido como Primavera de Praga; cerca de 60 mil manifestantes protestam, no Central Park em Nova York exigindo o fim da Guerra do Vietnã; estréia na Broadway o musical "Hair"; realizada no Rio de Janeiro, a "Passeata dos Cem Mil"; é lançado com um show em São Paulo, o disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circensis"; confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, em São Paulo, mata o estudante José Guimarães; cerca de 1.200 estudantes são presos em Ibiúna (São Paulo), quando realizavam clandestinamente o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes); o ditador-presidente Costa e Silva aprova a lei de censura de obras de teatro e cinema; é criado também o Conselho Superior de Censura. Chega às lojas, nos EUA, o "Álbum Branco" dos Beatles.

13 de dezembro - Entra em vigor o AI-5.

È! O mundo está incandescente como preconizava desde 1962, o jovem poeta norte-americano Bob Dylan; “Uma Forte Chuva vai cair” ( Hard Rain's A-gonna Fall), e caiu.

O mundo nunca mais foi o mesmo após o levante da juventude de Paris, do México, dos EUA, da Alemanha, do Brasil, enfim a velha ordem era posta em cheque, “a pílula de vida do Dr. Rossi, enfim, dissolveu na barriga de Maria”. Paz, Amor, Sonho, sexo e Liberdade substituíam os velhos chavões das decrépitas democracias beligerantes dos Johnsons e Kennedys ou das coletividades fascistas dos stalinismos de prontidão.

“Eu quero é botar o meu bloco na rua”. E quarenta anos depois dessa explosão o mundo nunca mais foi o mesmo. Meninos e meninas de braços dados cultuando o sonho do verbo SER, enfim, superar o verbo TER.

Mas, o futuro se esconde nas “curvas da estrada de Santos”, e no “além do horizonte”, o establishment soube cooptar os louros da explosão juvenil, transformou tudo em produto. A liberdade permaneceu, mas retirada dela o sentido coletivo, radicalizou-se a liberdade individual, e aos poucos o espírito de 1968 foi sendo devorado por um individualismo autoritário e feroz.
Fortalecendo o grito que um dia fez os cabelos cresceram:

Help!
(Lennon/McCartney)
Help! I need somebody – Socorro! Preciso da ajuda de alguém

Help! Not just anybody – Ei! Não serve qualquer pessoa

Help! You know, I need someone, help! – Por favor! Você sabe, eu preciso de alguém, ajude!

When I was younger- Quando eu era jovem

So much younger than today- Muito mais jovem do que hoje

I never needed anybody's help in any way- Eu nunca precisava da ajuda de ninguém

But now these days are gone- Mas agora estes dias fazem parte do passado

I'm not so self assured- Não me sinto tão seguro

Now I find I've changed my mind - Agora percebo que mudei de idéia

I've opened up the doors- Eu abri as portas

Help me if you can, I'm feeling down – Me dê uma força, se puder, estou pra baixo

And I do appreciate you being 'round- E eu realmente agradeço por você estar aqui.

Help me, get my feet back on the ground - Me ajude a colocar meus pés de volta ao chão

Won't you please, please, help me? – E aí? Será que vai poder me ajudar mesmo?

And now my life has changed in - E agora que minha vida se transformou

Oh, so many ways – E tomou vários rumos

My independence seems to vanish in the haze - Minha liberdade parece ter se transformado em névoa.

But every now and then I feel so insecure – Mas, de vez em quando, eu me sinto tão inseguro

I know that I just need you like - Agora eu sei que preciso de você como

I've never done before- Eu nunca precisei antes

Help me if you can, I'm feeling down - Me dê uma força, se puder, estou pra baixo

And I do appreciate you being 'round - E eu realmente fico agradecido por você estar aqui.

Help me, get my feet back on the ground- Me ajude a colocar meus pés de volta ao chão

Won't you please, please, help me? - E aí? Será que vai poder me ajudar mesmo?

Até 27 de julho de 2008,

Roger Ribeiro.
2008

Tradução: Anna Paola Misi.

Toc, toc, toc... Quem vem lá?


- Estavam aqui?
- Sim, estavam.
- Muito antes de tudo isso?
- Sim! Exato.
- Com suas vergonhas de fora?
- Sim, estavam em toda parte. Sobre as árvores, nas matas ralas, nas margens dos rios, mares... Sim, lá estavam com sua pele abrasada e tonificada pela tintura brasil. Eram os donos de tudo e, como tal, espalhavam-se.

Do nada chegaram os brancos. Vinham em grandes luas de madeira. Usavam uma plumagem reluzente e uma forma incisiva de falar. Chegaram como donos e, como tal, começaram a ordenar: - ergue uma cruz aqui; você, prá lá e você, prá cá. Tudo com o dedo em riste, “donos do pedaço”, aliás, pedaço lhes dado sabe-se lá por quem! Ou melhor, por um tal de Papa, que aos olhos dos aborígenes, que não possuíam esta noção de posse, Papa. Rei, ou seja lá quem fosse, pouco ou nada dizia. Mas possuíam uma madeira que fazia trovão, fogo e matava como nunca se havia visto pelas terras dos papagaios. Eram feiticeiros. Donos, portanto, espalharam-se.

Estes mesmos estranhos brancos, revestidos de plumagem sólida e brilhante, trouxeram outros mais diferentes ainda. Eram escuros, negros mesmo, viviam amarrados e possuíam os olhos sempre avermelhados e destes percebia-se um jeito longínquo de fitar.
Logo perceberam que o inferno não havia acabado ao serem desempilhados das luas crescentes de panos encardidos, aliás, perceberam logo que não eram mais donos de nada, nem mesmo de si. Foram espalhados e “esquartejados”.

Não era possível acontecer mais nada não é? Engano seu! De repente começaram a chegar outros, desta vez vindos de balsas tão brilhantes como a plumagem sólida dos que chegaram sobre as luas e, do meio dessas balsas, subiam troncos reluzentes que não paravam de fazer fumaça, parecia a madeira dos brancos iniciais, mas da barriga dessa fornalha começaram a sair seres mais brancos ainda, já não vinham com plumagem brilhante nem sólidas. A plumagem que cobria seus corpos era leve e solta, parecia uma folhagem multicolorida. Eram tão brancos que facilmente se rosavam, sobre a cabeça exibiam um encordoamento quase branco, outros avermelhados. Nitidamente sofriam com o sol inclemente das baias tropicais por isso foram escorregando para regiões mais frias. Não eram donos, mas sentiam-se como tal e, como tal, espalharam-se.

Meu Deus, o que falta acontecer? Dos poucos que sobraram havia os originais, de um vermelho escuro encarnado, também os brancos encardidos, os negros enigmáticos como a noite, agora os alvos rosados, uns espalhados, outros se espalhando, ocupavam as antigas matas e misturavam-se. Uns por prazer, outros por cruz, uns com prazer outros por júbilo e, de repente, como se ainda fosse pouco, lá vêm eles! Amarelados, de baixa estatura em sua maioria, falando uma língua que parecia muito os sons das antigas matas.
Não sei como enxergavam, possuíam os olhos rasgados e carregavam suas crias em embalagens presas às costas. Sabiam que não eram donos de nada, por isso se agruparam nos menores espaços possíveis. Parecia que queriam que ninguém os notassem, novamente foram usados e abusados pelos que se diziam donos. Não se espalharam, concentraram-se.

E de repente, e isso só pôde ter ocorrido pela ausência, sentida e lamentada, do síndico Tim, chega, sem aviso prévio, sem nem mais nem menos, os PINGUINS!
- É o quê?!
- Sim, acreditem, um monte de pingüins “descompreendidos”, se é que pingüim foi compreendido alguma vez (?). Aportam assim como se todo dia na rodoviária de Salvador chegassem e partissem normalmente, sem cerimônia estes seres que vivem nas águas e pedras dos mares, não voam nem fazem belas vocalizes e que se dizem aves!? Seres naturais de temperaturas geladas, chegaram.
- Onde chegaram?
- Ora meu amigo, qual o único espaço tropical possível de vir se ater até mesmo pingüins? Claro, na velha Bahia de Todos os Santos. No Porto da Barra, óbvio.

O espaço mais democrático do planeta, que já viu os banhos do cachorro vermelho de Armandinho, que já assistiu naturalmente os banquetes tropicais de Marcos Desbunde, que já parou e suspirou ao passar por sua areia, sereias como Lau, Nem, Maria Luedy, as irmãs Silveira e tantas outras meninas baianas com seus “encantos que só Deus dá”. Pois nesse “oásis” de civilização veio esbaldar-se uma turba de pingüins.

O que esperar agora...? Ora, ora meu leitor atento, pode aguardar, pois, lógico, em breve chegará o “Homem Morcego”, o Batmam. Afinal, “(...) domingo no Porto da Barra todo mundo agarra, mas não pode amar”.

Pode chegar, tem espaço pra você também. Êta serzinho esquisito!

Roger Ribeiro
15 de agosto de 2008.

Hoje eu tô Virado no Quiabo !


Qualquer dia desses vou sair por aí atentando a paciência do universo. É, é isso mesmo, você não leu errado não, vou acordar pelo avesso, atravessar o corredor no sentido da cozinha sem passar, nem sequer olhar para o banheiro, muito menos para o espelho, o cabelo, manter arapuá, escova nos dentes então... Nem pensar.

Vou sair de casa pela porta de entrada, limpar os pés antes de pô-los na calçada, deixar a calça e o sapato e ir pro trabalho sem nada! Ops!!! bem... tudo bem, de sunguinha e sandália. Vou tratar meu chefe de camarada e na hora do almoço vou tomar um conhaque de entrada e completar com uma cerveja gelada, água nunca nem da torneira nem filtrada, mineral! Eka! Jamais, nunca, nada.

Sim meu amigo, você ainda não viu nada. Você não sabe o que lhe aguarda. No retorno do almoço farei do elevador, mictório, pia, privada, do teclado do computador almofada e do monitor saco de porrada!

Ao fim do dia, ligarei pra mãe de minha namorada, convidá-la-ei para uma noitada. Confessarei a ela como sua cria é mimada, aguada, desajeitada, desleixada, chata, insuportável pra mim e pra toda a turma da pesada e que descobri enfim, que além de tudo isso ela ainda tem outro, ou melhor, outra namorada! Xiiii sogrinha! Pela primeira vez verás tua obra acabada. Tomaremos uns chopes e te darei uma dentada, mandíbulas iradas. Não vais ficar excitada, hem! É só para que vejas que estás bem acordada.

Deixar-te-ei, em sua casa com a mala do padrasto da minha, a essa altura, ex-namorada. Sairei de fininho, com cara de paisagem para não escutar os gritos, ou gargalhadas. Pararei no boteco da esquina para engolir uma salada cheia de maionese, ovo, apresuntado e quitute em lata enferrujada.

Ao ver passar meus companheiros de malhação, darei risada, gargalhada, estrebucharei de felicidade e pedirei uma tubaína de tutti-frutti bem açucarada, pois hoje de álcool, não beberei mais nada. E para mostrar para minha saúde que de hoje em diante ela não me vale mais nada, adicionarei à minha poderosa salada, o hamburguer do boteco, tradicionalmente na chapa suja e com a validade adulterada, com alface mal lavada, patrocínio do Deus te Guie, funerária.

Voltarei para casa de ônibus em plena madrugada, deitado no banco do fundo fumando, cantando e contando piada, ficarei “chapa” do motorista e do cobrador, no ponto final uma rodada de carteado ou dominó, quem perder terá de dar um beijo de língua em Deusdete, conhecida ao amanhecer como Arnaldão, boca depravada!

Ao fim, me arrastarei até minha casa, entrarei pela porta da saída, passarei direto pelo quarto e deitarei de meia e sapato no piso do banheiro, com o bidê de travesseiro, abraçado ao vaso, como namorada. Tudo prá dormir de olhos bem abertos afinal... Hoje eu acordei para escorregar, difamar, blasfemar, pra dizer com todas as letras o que todos estão cansados de escutar. Afinal, amiguinho, você vai dizer que nunca ouviu falar que:

- Quando Deus dá a farinha, o quiabo esconde o saco?
- Mente vazia é casa do quiabo?
- Enquanto Freud explica, o quiabo dá o toque?

Você. É você mesmo, humaninho, todo lindinho de banho tomado, cheiroso parecendo enteado de barbeiro, vai olhar prá minha carinha e dizer que não sabe que “mulher de bigode nem o quiabo pode”?

Sim, você tem razão hoje acordei com o quiabo no corpo, vou por na vitrola, a todo volume, o vinil do Buddy Holly afinal, planeta Terra:

O QUIABO É O PAI DO ROCK.

Roger Ribeiro.
18/09/2008.

Hey baby!

Aonde você vai com tanta pressa?
Você não está se permitindo, a curva está bem a sua frente e você não tira o pé do acelerador!
Você está com interferência em sua sintonia baby, pare agora. Respire fundo, ande mais devagar... Dê o clic no botão do rádio do seu carro, tenho algo muito importante pra te dizer!
Hey baby!
Onde você deixou seus velhos sonhos?
Veja, esse riff de guitarra ele não te lembra nada?
Será que não estas vendo as águas passando por debaixo da ponte rumo ao mar?
Hey baby!
Encoste seu ouvido no auto-falante do radinho, tenho algo prá dizer que ninguém mais pode ouvir, só você.
Você consegue ver a cor do som?
Você consegue sentir as ondas hertzianas atravessando seu corpo como um raio?
Hey baby! Você consegue sonhar?
Hey baby!
Que bom que você entendeu que a velocidade vem de dentro e não de fora.
Que bom que você parou, que bom que você me viu, dentro do rádio do seu carro, que bom que ao me ver você sorriu!
Afinal, baby,

Qual é a sua onda?

Dentes ao Sol !

Como diria o Itamar Assumpção – “não adianta vir arreganhando os dentes para mim, por que sei que isso não é um sorriso”.
Sim, fico olhando as pessoas que passam para lá e para cá o tempo todo com seus os dentes, em alguns casos , alvos, brilhando ao sol ou ao luar. Na maioria das vezes, alguns poucos dentes, nem tão alvos, lutam bravamente por um, merecido, espaço ao sol. Dentes ao vento. Não importa se contra ou a favor, se identificados, amarelados, esburacados, amados, amantes, odiados, não importa! O certo é que lá estão eles, sempre teimando em sair da caixa ao qual foram, teoricamente, confinados.

Afinal, o que querem esses dentes ao sol?
Quando afastados, superiores e inferiores, podem estar a saudar, a sorrir. São poderosos meios de comunicação. Se quero te dizer que sinto prazer ao seu lado, utilizo-os para sorrir meigamente, se é que um dente pode ser meigo, para você. Uso-o como senha de paz para me aproximar, depois, bem depois, é outra questão. Lembra daqueles dentes arredondados, em sorriso? Pois, vão se transfigurando, tornando-se pontiagudos, ressecados, Incisivos, malcriados. Nem parecem os mesmos, “estão ficando pirados”, mas continuam a comunicar carinho.

Mas quando estão cerrados, ah! Aí baby, a história é outra. Esses poderosos meios de comunicação demonstram sua indignação, sua não aceitação, ira, expurgo, maldição, palavras grandes e desbotadas, ou melhor, palavrão. Não se aproxime, mude imediatamente seu posicionamento, sua argumentação. É como se tivessem a te dizer não. Afinal, voltando a Itamar; “você vai notar, olhando ao redor, que sou dos males o menor!”.

Hoje estou levando os meus dentes para passear, coitados, têm presenciado tantas barbaridades que estão estressados, não param de ranger. Comunicam-se comigo através da dor. Quando não estão satisfeitos com algo, começam a doer, como a me dizer – hora de mudar de rota, de passar uma escova para alvejar, mudar de calçada, rever as ações, parar em frente ao espelho e se perguntar – dentes que desta boca brotaram, será hora de preservar a maçã?

Pelo sim, pelo não, não ficarei aqui parado vendo seus lábios intransigentes a me fitar. Tenho os meus dentes em juízo perfeito, portanto, prontos para a arte de amar. Afinal, dentadas de amor, doem.

Roger Ribeiro – 11/08/08.